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Parêntesis

É altura de agradecer a todos os amigos, potenciais amigos, misteriosos desconhecidos e anónimos em geral que tiveram a generosa amabilidade de por aqui passar e deixar uma opinião.
Muito obrigado:
Ana; Ana Lacerda; Azimute; Bruno Diónis; Carolina; Catatau; Cláudio; Darlan Cunha; Dng; Dorab; Fábio; Fernando José Rodrigues; Fernando Venâncio; Gato Escaldado; George Cassiel; Guidite; Hmbf; Inês Leitão; Isabelnurse; Jlm; José Lopes; Kraak / Peixinho; Margarida Celeiro; Mc; Melena; Mitro; Parole; Pastor Peregrino; Paula; Paulo; Pé; Pedro Chagas Freitas; Pegada; Pilantra; Pipoka; Renato C; Ricardo & Carla; Sabine; Salsolakali; Semcantigas; Sherazade; Sissi; Vando; Violeta13; What am I.
Vamos a ver se há ânimo para manter a gaveta aberta por mais uns tempos.

# 32: Um deus

1.
Ligo o rádio e faço uma passagem rápida pelas estações habituais, em busca de uma distracção convincente. Ela olha pela janela, ignora-me; há luzes ocasionais que chegam da rua e iluminam o interior do carro: espreito o seu rosto e confirmo que o desdém, o desconforto, o incómodo, o desagrado ainda persistem. Sinto-me culpado, sinto-me também arrependido; sinto-me impotente: como sempre. Sinto-me a mais, como se a minha simples presença fosse uma agressão desmesurada e intolerável. Encolho-me, dividido entre o desejo corrosivo de acariciar o seu joelho e o medo paralisante de ter destruído a minha última oportunidade. Desejo falar, sei que tenho de falar; mas não encontro palavras, sei que não conheço palavras suficientes. Entretanto: os meus pés pisam pedais, as minhas mãos rodam o volante; o carro avança, o mundo gira.
Um semáforo laranja, lá à frente. A estrada está deserta, escura: poderia acelerar, ignorar a ordem de paragem, continuar. Mas um impulso súbito ordena-me que pare; invade-me uma vontade violenta e tumultuosa de agir, de contrariar o destino, de lutar por mim e por ela e por nós. Aproveitar esta pausa e falar, dizer uma palavra, salvar-me.
Paro e olho-a. Estendo a mão, que talvez esteja a tremer um pouco, e pouso-a sobre o seu joelho; sinto a pele, fria e eriçada, arrepiar-se, insurgir-se contra o meu toque, a minha agressão, a minha tentativa. Agita-se muito ligeiramente mas não me olha. Mantenho a mão, tentando convencer-me que disso depende a minha sobrevivência; pensando: este toque é o único contacto que ainda nos une. E aguardo, à espera que me ocorram as palavras oportunas, ou simplesmente quaisquer palavras.
Mas já não há palavras.

2.
É então que o rapaz vindo do escuro abre a porta e aponta-me uma arma à cabeça. Diz: salta cá para fora. Ouço mas não compreendo, sinto-me incapaz de me mover, de pensar, de compreender. Em silêncio e com aparente indiferença, ele agarra-me pela camisola, junto ao pescoço, e puxa-me, com violência mas sem fúria; quase contrariado. Caio na estrada, sentindo uma dor tão insuportável que talvez seja apenas desamparo ou abandono ou incompreensão. Ele já está sentado no meu lugar; aponta-lhe a arma e diz: daqui para fora. Ela move-se devagarinho, com gestos contrariados, cansados, indiferentes. Talvez ainda não tenha compreendido o que está a acontecer: o medo ainda não chegou.
E é a vulnerabilidade do seu rosto que me desperta e impele a agir; sinto-me sufocado por uma amálgama de medo e ódio e desespero e indiferença e raiva e indignação. Levanto-me, tento levantar-me: disposto a lutar, certo de que a força da minha indignação me tornará invencível. O rapaz olha-me, lê o meu rosto. Aponta a arma e dispara. Depois, fecha a porta e arranca, devagar, com calma, com tanta, tanta calma.
Estou de novo caído na estrada. A surpresa esvai-se rapidamente e a dor surge, intolerável. Dor verdadeira, dor física, dor da carne: dor. O sangue, quente e pegajoso, envolve-me a coxa, transborda de mim e cai no alcatrão; sinto-me deslizar para um estado apático de indiferença e cansaço, à medida que o corpo enfraquece, tentado a desistir. Mas esforço-me por reagir, por lutar. Grito silenciosos foda-se, convoco ódios apocalípticos; esforço-me por não sentir pena de mim. E, de repente, lembro-me dela; procuro-a com o olhar, sôfrego. Vejo-a: no meio da estrada, a olhar-me. Como uma criança que não compreende, que pressente um perigo mas ainda não conseguiu assimilá-lo, senti-lo, demonstrá-lo.
Deito-me no alcatrão, à espera. As dores são insuportáveis e a tentação de desistir ronda-me, sedutora. Mas, uma certeza inexplicável, transcendental, assegura-me que não morrerei; sei que o tiro não foi disparado com intenção de matar.
E recordo o rosto do rapaz. Recordo a indiferença, o desprezo, a supremacia. Intuo que não lhe teria sido particularmente penoso apontar à cabeça ou ao coração; intuo que a escolha da perna foi, afinal, uma generosidade. Compreendo que devo estar agradecido: poderia assassinar-me e não o fez. Devo agradecer a sua bondade. E penso: não voltarei a estar tão próximo de um deus.
Fecho os olhos. Distante e vago, ouço um grito; o grito dela. Finalmente.

# 29: Auscultadores

1.
Lá estavas a examinar os livros, um pouco curiosa, um pouco enfadada; olhavas demoradamente, por vezes pegavas um, abrias ao acaso, lias umas frases, espreitavas a etiqueta do preço, pousavas. Não parecias procurar algo em particular; talvez estivesses apenas a matar tempo, ou a aguardar a chegada de alguém; ou talvez esperasses ser surpreendida por algum dos livros, talvez esperasses ser subitamente arrebatada por umas linhas lidas ao acaso, sussurradas pelo destino.
Fui olhando, com curiosidade; espiando. Começando a gostar de ti.

2.
Muitas pessoas entre nós, conversas e risos: e tu completamente indiferente, alheada; mesmo quando alguém passava junto de ti e te tocava, não olhavas. Pegavas nos livros, simplesmente; sem reverência, sem aquela devoção algo aflitiva que alguns desesperados dedicam aos livros. Por vezes, esticavas um braço para pegar um livro mais distante e a manga da T-Shirt subia, revelando uma pequena tatuagem. Vi-a diversas vezes, sentindo-me desagradado: surpreende-me que mulheres bonitas deteriorem o seu corpo com manchas de tinta, com pedaços de latão, que escondam metade do rosto com óculos de sol ridículos, que segurem um cigarro entre os dedos convencidas de que isso é um gesto de sedução. Estive quase a afastar-me, decepcionado, quase vencido pelos meus preconceitos. Mas entretanto percebi que te afastavas da zona da literatura, levando um livro na mão. E segui-te, impelido pela curiosidade de descobrir qual fora, afinal, a tua escolha.

3.
Dirigiste-te para a zona da música, onde caminhaste entre os expositores, pegaste alguns CD’s, espreitaste as promoções. Consegui então espreitar a capa do livro que pegavas; e não me decepcionaste. De novo curioso, de novo seduzido, estudei-te com mais atenção; a saia solta, revelando joelhos magros; a T-Shirt justa, delineando os seios; um cinto coberto de brilhantes; pulseiras, anéis; elegância cuidada, sedução discreta. Fui imaginando um quarto vasto e elegante, coberto de sol: e tu nua, escolhendo cada peça de roupa, cada acessório; preparando-te para enfrentares o mundo, discreta e bela. Inacessível.
Seleccionaste um CD e procuraste um posto de escuta, onde permaneceste alguns minutos a ouvir o teu CD, dançando quase imperceptivelmente. Depois, juntaste-o ao livro e afastaste-te em direcção à área de pagamento. Saia a balouçar, tilintar de pulseiras, cabeça erguida, passos firmes. Fiquei a olhar-te, enquanto te afastavas: memorizando o teu corpo. Despedindo-me.

4.
Regressei ao posto de escuta que ocuparas, onde a tua selecção ainda estava activa; fiquei a ouvir, sentindo a volúpia de estar a ser tocado por um objecto que acabara de ser tocado por ti. E aí permaneci muito tempo, sentindo-te através dos auscultadores, tocando-te (recebendo o teu toque) através dos auscultadores. Pensando que há sempre intermediários, há sempre mediadores que nos unem mas, simultaneamente, impedem a entrega total; porque tudo o que nos aproxima de alguém pode representar, também, uma última defesa, uma derradeira possibilidade de fuga, de adiamento, de suspensão. Como os corpos: permitem que os usemos para concretizar o amor que sentimos pelo outro, para satisfazer o desejo que sentimos pelo outro; mas são precisamente os corpos que nos impendem de alcançar o amor pleno, o amor além-corpo que secretamente ambicionamos, o amor utópico que deveria existir para além do corpo, da morte, do tempo. O amor infinito.
Apertei os auscultadores contra as orelhas e fechei os olhos. Pensando: tranquiliza-nos saber que nunca seremos totalmente de alguém; mas entristece-nos saber que aqueles que amamos nunca serão totalmente nossos.

5.
Antes tinha fantasias normais. Olhar-te-ia e imaginaria como seria afastar-te o vestido e lamber-te o mamilo, imaginaria a sua textura, o seu sabor, a sua consistência, a sua elasticidade; imaginaria os teus suspiros, os teus gemidos, os teus silêncios; imaginaria que me apertarias contra ti, talvez com violência, talvez com impaciência, talvez com ternura. Imaginaria a suavidade das tuas coxas, a firmeza das tuas nádegas. Imaginaria a cor das tuas cuecas, imaginaria que seriam fáceis de despir. Imaginaria como seriam os teus pêlos púbicos, se seriam incomodativos quando beijasse o teu sexo. Imaginaria como seria foder-te no banco traseiro do meu carro, nas casas de banho deste centro comercial. Imaginaria o teu riso, no fim.
Antes. Agora, cansei-me de fantasias que jamais se concretizarão. Olho alguma mulher bonita, como tu, e imagino como se chamará. Nada mais.

6.
Acabei por comprar o mesmo CD, o mesmo livro.
Não voltei a ouvir o CD e o livro desinteressou-me completamente a partir da vigésima linha. Mas ambos me lembram que tu existes, algures. Uma pessoa concreta. Uma possibilidade: tocámo-nos, por momentos, unidos por uns auscultadores; e poderia ter acontecido, pode sempre acontecer mais qualquer coisa.