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# 36: Numa rua anónima de uma cidade qualquer

1.
Só hoje reparei verdadeiramente em ti. Eras, apenas, uma mulher banal que por vezes via, lá do outro lado da rua. Sentava-me na minha varanda a aproveitar os últimos raios de sol e entregue ao alheamento temporário de um livro; lia, sem excessiva concentração, talvez apenas pelo prazer de murmurar palavras que, na verdade, não tinham importância; à espera que o tempo fosse passando, que o silêncio me fosse contagiando, que a solidão me fosse confortando. Havia alturas em que desviava os olhos do livro e os deslizava sem objectivo, com preguiça, talvez apenas para recordar onde estava, quem era; para confirmar a continuação da minha própria vida, a presença de mim próprio. O olhar divagava pelas varandas que sempre se exibiram perante mim, do outro lado da rua: misteriosas, convidativas, excitantes. À distância de um olhar, desfilavam pedaços de vidas estranhas e incompreensíveis; vislumbres de existências tão banais e vulgares como a minha mas, de certo modo, fascinantes.
Do outro lado da rua: janelas que abriam e meninos que apareciam, despidos, agarrados a bolas; janelas que abriam e donas de casa que vinham e estendiam roupa, regavam plantas, varriam, puxavam as orelhas aos filhos; janelas que abriam e homens que surgiam com cigarros na mão, debruçados, a olhar lá para baixo, pensativos. E, por vezes, aparecias tu: sentavas-te no teu banquinho e fumavas, olhando em frente. Gestos lentos, tranquilos; expressão cansada ou contrariada ou desgastada. Apesar da distância, parecias-me bonita; e por isso, lançava-te fugazes olhares de curiosidade, talvez de voluptuosidade. A tua presença durava apenas o tempo de um cigarro, depois desaparecias por trás do vidro, da cortina branca; e por uns instantes ficava a contemplar a memória da tua presença, por uns instantes pensava em ti; imaginava-te. Depois, regressava ao livro. Esquecia-te. Ou melhor: adiava-te.

2.
Até hoje. Não trazias um cigarro mas um maço deles; e na outra mão, um livro. Sentaste-te, como sempre fazias, e começaste a fumar; depois, pegaste no livro e leste. Apesar da distância, percebi que lias o mesmo livro que eu; e não consegui tirar os olhos de ti.
Até agora, que te levantas e abandonas a varanda.

3.
Estou ansioso, à espera que venhas.
Não consegui ler uma única linha; apenas fingi que o fazia, enquanto lançava espreitadelas embaraçadas à tua cortina. E ia apressando a passagem do tempo, tentando distrair-me, fazendo perguntas, especulando; por que motivo começaras subitamente a ler, quando em todos estes meses nunca te surpreendi qualquer inclinação literária? Por que motivo escolheras precisamente o livro que eu também lia? Teria sido uma fantástica (e literária) coincidência? Ou repararas em mim e a tua escolha poderia ser considerada uma tentativa de estabelecer comunicação comigo? Uma brincadeira? Uma provocação? Um jogo? Uma sedução?
Esperava: e nem por um momento duvidei que virias.
Chegas, por fim. Caminhas entre as cortinas, entras na varanda: e o teu primeiro gesto é procurar-me. Surpreendes-me, desvio o olhar; e preciso de muito tempo para vencer o embaraço e reunir a coragem necessária para voltar a espreitar-te; estás sentada, cigarro na mão, concentrada no livro. Refugio-me na leitura, leio repetidamente a mesma frase; sinto o tempo imóvel. Há nervosismo, há curiosidade, há surpresa, há excitação. Isto é absurdamente patético; mas é, também, excitante. E gosto.

4.
Os dias passam, iguais; e a nossa partilha silenciosa torna-se uma rotina.
Lemos, separados por uma rua. Por vezes, pousas o livro e acendes um novo cigarro; olhas de modo distraído, quase enfadado, o que te rodeia, este nosso mundo comum. De repente, há um grito que vem de uma janela qualquer, uma voz que se ergue, um apito estridente; e olhamos, os dois: juntos.
Mas talvez nem tenhas realmente reparado em mim; uma coincidência, apenas: duas pessoas que lêem o mesmo livro, numa rua anónima de uma cidade qualquer. Afinal, é esse o destino dos humanos: estarem irremediavelmente separados uns dos outros, apesar de tão próximos entre si. Fingimos que compreendemos os outros, por vezes até acreditamos, com convicção, que conhecemos efectivamente aqueles que amamos. Suponho, contudo, que a realidade seja diferente: temos apenas umas pistas, umas intuições, uns instintos; procuramos adivinhar, por vezes acertamos. Apenas acreditamos na riqueza e complexidade do outro para que o outro (lá longe, na sua varanda) corresponda com a cortesia de acreditar na complexidade e riqueza de nós próprios, poupando-nos a indignidade se nos confrontarmos com a nossa rudimentar e hermética simplicidade; tentamos dissimular a inconsequência da maioria dos nossos actos, a banalidade da maioria dos nossos pensamentos, a irrelevância da maioria dos nossos objectivos, a mesquinhez da maioria dos nossos sonhos, a hipocrisia da maioria dos nossos sorrisos; tentamos superar-nos, transformando-nos em pomposos seres que estudam diligentemente os mistérios do universo e inventam deuses obscuros e complexos para explicar o que são incapazes de compreender, seres utópicos e ingénuos com desígnios e objectivos e enigmas e dilemas e éticas, seres que secretamente acreditam na felicidade plena e até na imortalidade; seres iludidos, crédulos, distraídos.
Mas, na verdade, não enganamos ninguém. E os dias vão passando, devagarinho.

5.
Espio-te, querendo acreditar numa momentânea possibilidade de quebra das regras da monotonia, da previsibilidade, da civilidade. E consigo imaginar-nos na mesma varanda: juntos; imagino que não há todo este espaço a separar-nos e que, afinal, dividimos o mesmo banco, usamos o mesmo cinzeiro, respiramos o mesmo ar. Lemos em silêncio, partilhamos um cigarro. Podemos, até, tocar-nos. Há alturas em que um de nós diz: escuta isto. E lê um parágrafo, com afectação e pompa. Lemos, escutamos. Partilhamos o silêncio, a compreensão; segredos. E regressamos aos respectivos livros, em busca de mais: procurando tesouros para dar ao outro. Juntos.
Sim, imagino isto: e pergunto-me se tu imaginarás o mesmo.

6.
Temos este elo que nos une: lemos o mesmo livro. Um elo frágil, volátil; na verdade: inexistente. Falta-nos tudo: não sei quem és, não conheço o teu nome, nunca ouvi a tua voz; desconheço o teu riso, o teu cheiro. Não sei o que pensas, como pensas, se pensas. Não sei qual é a tua cor favorita, não sei se gostas de cerveja, se lês jornais, se comes pipocas no cinema. Não sei se vives só, se tens filhos, se és casada, se tens namorado, se és lésbica, se és virgem. Não faço ideia. Tudo o que sei de ti é este pedaço de realidade: lês o mesmo livro que eu. Nem sei se gostas do que lês, se irás até ao fim. Eu confesso-te: detesto o livro, apenas continuo com ele porque é tudo o que nos une. Receio que quando um de nós o terminar, quando nem isso nos unir, estes singulares fins de tarde, inesperados e um pouco inquietantes, terminem tal como começaram: sem aviso. Mais uma fantasia cruelmente dissipada pela realidade concreta, outro caminho que conduzirá a um beco sem saída.
Prossigo a leitura, perguntando-me se haverá algures um caminho que conduza efectivamente a algum lado.

7.
Sentas-te e cruzas as pernas; o pano leve e solto da saia sobe e revela-te. Olho, um pouco surpreendido: não por as tuas pernas serem belas e voluptuosas e apetecíveis mas por existirem, simplesmente. Como um adolescente que descobre por acidente que a mãe também tem seios.
Acendes o cigarro, concentras-te no livro.
Espio as tuas coxas, incapaz de desviar os olhos. Imperceptivelmente, tudo muda, tudo se altera: as tuas pernas comprovam que és (também) um ser sexual, um corpo que se expõe, que convida, que excita; uma possibilidade. O que até aqui fora um jogo silencioso e inócuo revela uma potencial componente sexual: o teu cruzar de pernas parece-me um prelúdio de sedução, de tentação; e o livro, que ergues em frente dos olhos com aparente concentração, talvez não seja mais que um adereço; refugias-te nele, para que eu possa contemplar-te.
E eu contemplo-te.

8.
Agora, vens todos os dias com saia.
E tornou-se desconfortável. Anseio olhar as tuas pernas, por vezes sinto um princípio de erecção que apenas não se torna completa porque, na verdade, sinto-me ridículo. Pergunto-me: será tudo um acaso? Ou de algum modo misterioso terás descoberto que são as pernas o que mais me excita no corpo de uma mulher? Penso: brincas comigo. Penso: provocas-me. Penso: humilhas-me. Por vezes, cedo: e imagino a minha língua a subir pela tua pele arrepiada, ouso até imaginar os teus suspiros de prazer. Depois, a realidade cai sobre mim, violenta: estou numa varanda, a fingir que leio, a espreitar as pernas de uma desconhecida, excitado como um adolescente. Iludido, crédulo, distraído.
Mais que desconfortável: esta situação torna-se embaraçosa.

9.
Continuamos a encontrar-nos aqui, com os nossos livros, em silêncio, à distância. Depois daquela primeira vez, não voltámos a olhar-nos; nunca sorrimos. Tu provocas-me e eu cedo. Por vezes, pergunto-me por que motivo te desejo e concluo, quase sempre, que será apenas por saber que nunca estaremos juntos; por mais que a sensualidade do teu corpo me tente, por mais que a minha imaginação me inquiete: serás sempre uma fantasia.
Fumamos, sopramos o fumo com enfado. O sol vai desaparecendo, devagarinho. Crianças correm na rua, aos gritos; rindo. Outras pessoas, noutras varandas. Tudo tão cansativo, tão fútil.
Hoje, sou eu o primeiro a levantar-me e a abandonar a varanda.

10.
Mas foi precisamente hoje que sonhei contigo.
Acordei com uma erecção desconfortável e forcei-me a enfrentar a escuridão que vinha da janela. Para além do vidro, havia a varanda, um pedaço de vazio, outra varanda, outro vidro; e tu, a dormir, talvez só, talvez não.
Agora, rebolo na cama, incomodado, desconfortável. Tentando não acordar aquela que me ama, aquela que estou condenado a amar. E pensando em ti. Pergunto-me se, na verdade, a traí, a estou a trair. Não por causa do sonho mas pelo que ele revela, pelo que me força a consciencializar: que desejo efectivamente dormir contigo.
Confesso-te: o meu casamento começa a desagradar-me. Amamo-nos e, em simultâneo, cansamo-nos. A paixão desapareceu, resta o conforto da companhia, a certeza da presença; a volúpia da rotina. Por vezes, custa-me fazer amor com ela, aborrece-me a previsibilidade, exaspera-me a obrigação. Descubro-lhe pequenas fraquezas que me incomodam: a estridência de uma gargalhada, a rispidez de um gesto, a incapacidade de apreender e corresponder uma cumplicidade. Refugiamo-nos, eu na leitura, ela na pintura. Buscamos as nossas solidões, apreciamo-las. Fortalecemo-nos. Depois: partilhamos segredos, prazeres, monotonias, gestos, medos, risos. Somos felizes. Jovens e bonitos, vida estável. Um filho lindo. Viajamos, compramos, conhecemos, experimentamos. Quando nos abraçamos, sentimos o quanto nos amamos. Repetimos: juntos para sempre; e acreditamos. Mas há momentos em que sinto um vazio, um incómodo, uma ausência. Algo que falta. Ou cansaço, apenas. E então, fujo para a varanda e leio; ela pinta. É lá, nos livros, nos quadros que (ainda) encontramos o que buscamos, o que precisamos: novas forças, novos caminhos, novas vontades.
Novos pretextos para continuar.

11.
Lá fora, a noite sussurra imperceptivelmente, misteriosa e convidativa.
Ajeito-me ao conforto da cama, da solidão. Mas não consigo esquecer que há uma mulher comigo, junto de mim; escuto o ténue assobio da sua respiração, sinto o calor do seu corpo, respiro o seu cheiro delicado: e penso em trai-la.
Até te conhecer (que disparate: conhecer-te!), até hoje, até agora, nunca pensei em infidelidade. Nunca pensei em procurar noutra pessoa o que a minha mulher não me pode oferecer; sou suficientemente justo para admitir que o problema não está nela, no que poderá ou não oferecer. O problema sou eu, está em mim, está em cada um de nós. Está na presunção de que poderemos ser totalmente felizes, na crença ingénua, ou patética, que poderemos retirar do outro, de um único outro, tudo o que precisamos. Como se a nossa felicidade plena fosse propriedade de alguém, a quem bastaria localizar e pedir: dá-me o que é meu; como se a felicidade não fosse, afinal, uma soma caótica e contraditória de sensações, sabores, impressões, conquistas, afinidades, momentos, toques, sentimentos, prazeres, simplicidades que vamos acumulando, pedaço a pedaço, minuto a minuto, pessoa a pessoa.
Pergunto-me, agora, neste mesmo instante: que poderias tu proporcionar-me? Apenas posso especular, fantasiar: faríamos amor e seria bom, é sempre bom quando os corpos ainda se desconhecem, muito do prazer está na descoberta, na aprendizagem de um corpo novo. Mas, e depois: falaríamos de livros, falaríamos do nosso livro? E o segundo encontro, como seria? Talvez ainda mais excitado, na ânsia de repetir a magia e a intensidade do primeiro. Sim, faríamos amor, partilharíamos sexo, até nos cansarmos. Serias um refúgio, como são os livros que leio na varanda, as fantasias que alimento durante a insónia. Um intervalo.
E seria isso uma traição? Estaria a atraiçoar esta mulher que, agora mesmo, enrosca o seu corpo no meu e ressona suavemente, misteriosamente? Ou será que as distracções não contam como traições?

12.
Apetece-me fumar. Levanto-me devagarinho, com cuidado. Caminho em silêncio, agradecido pelo luar que entra pela janela e guia os meus passos. Entro na casa de banho, olho-me no espelho. Urino. Visto o robe, procuro um cigarro. Acendo-o na varanda, sinto uma nuvem de prazer invadir-me. Sento-me e fecho os olhos, sentindo o vento fresco eriçar-me a pele dos braços, do pescoço. Penso em praias e gelados, em laranjas, tardes de sábado em livrarias, em saltos de pára-quedas, em abraços de amigos, em gritos de crianças a brincar, penso em quadros de Hopper e agulhas de pinheiro, em brincadeiras da infância, em cheiros de chocolate e caramelo, em viagens de comboio, em sacos de compras, em pombas a voar, em espirais de fumo a sair de chaminés antigas, em beijos da adolescência. Depois, abro os olhos: e lá estás tu, com o teu robe, o teu cigarro, na tua varanda. A olhar-me.

13.
Hoje, ao pequeno-almoço, falei-lhe de ti. Falei da vizinha com pernas sensuais que passa os fins de tarde a ler e a fumar, na varanda. Sim: de certo modo, traí-te.
Mais: exorcizei a tentação.

14.
Agora, estou na varanda. Trouxe um novo livro, que leio com prazer, seduzido pela novidade.
Por vezes, espreito a tua varanda, procuro-te. E com a passagem do tempo, vou percebendo, aceitando, que não virás. Que talvez nunca mais venhas. Penso: de algum modo, assustei-a; ou aborreci-a. E tento decidir se o que sinto é arrependimento misturado com decepção ou, simplesmente, alívio.

15.
Se um destes dias nos cruzássemos na rua, talvez à saída da padaria ou depois de arrumar o carro lado a lado ou na fila do supermercado, gostaria de te ler uma frase do livro que fomos silenciosamente partilhando ao longos destes dias. Aquela em que o autor afirma que não é nada difícil ser feliz, o problema está em querer sempre ser mais e mais feliz.
E perguntar-te-ia: porque nunca nos basta a felicidade que temos?

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Textos e fotografias de Paulo Kellerman
Exposição no Bar Alinhavar (Leiria), durante Setembro.

# 35: Funcionária da Zara (2006 Remix)

1.
Sim, ouves bem: por vezes, odeio o meu filho. Sei que não te surpreendo, sei que apenas te revelo uma verdade que já conhecias, que pelo menos já suspeitavas. Conheces-me bem, lês-me tão facilmente; por isso, sei que percebes: como poderia não o odiar? Sabes como me privou da minha vida, da minha verdadeira vida. Assististe à minha transformação, à minha metamorfose, à minha degradação; agora, já não sou mulher; sou, apenas, mãe. E isso significa ser escrava dele, e do seu bem-estar, ser escrava do choro, da vontade, da fragilidade, da necessidade, da dependência de um ser que não desejei, de um ser que é um acidente. Significa viver em função dele, viver para ele. Sou escrava do meu filho, e por isso odeio-o. Mas também o amo, amo-o muito. Se apenas o odiasse, seria simples, seria fácil. Mas sou incapaz de não o amar. E há tanto para amar: amo a serenidade do seu olhar, por exemplo; e gosto de sentir o seu amor incondicional quando me toca, quando me acaricia; gosto da segurança que me transmite, amo-o quando me faz sentir útil, quando me faz sentir desejada, quando me faz sentir poderosa; gosto do seu cheiro; gosto de o ver dormir, gosto do seu sorriso quando acorda e reconhece o meu rosto. Amo-o mesmo muito: porque, agora, sou mãe; amo-o enquanto mãe, amo-o quando consigo esquecer que já não sou mulher.
Percebeste isto, não percebes?

2.
Mas depois, sabes como é: há sempre algo que te faz regressar inapelavelmente ao passado. Coisas triviais, como o tom da voz de um desconhecido, a sombra de uma árvore ou a forma como uma folha se pega ao sapato, a configuração das nuvens em determinado momento, o movimento de pessoas anónimas numa rua onde passas todos os dias, uma frase num livro, um rosto triste na televisão, o sabor de um bolo, de um rissol, de um cigarro, o convite contido num sorriso inesperado. Algo indefinido e volátil, algo que não consegues caracterizar nem descrever, e que te remete para um qualquer momento do passado; uma espécie de máquina do tempo que te envia para outro instante da tua vida, talvez um instante em que gostasses de ter permanecido, talvez um instante em que foste feliz.
Por vezes imagino que o mundo está repleto de anjos maus, anjos que carregam consigo enormes álbuns de fotografias invisíveis. Estás tu muito bem, muito feliz, a cantarolar no banho, a fazer amor, a comer bolo de chocolate, a tentar adormecer, a cheirar uma flor, a pensar no pai natal, a experimentar roupa nova, a desenhar bonecos num guardanapo e eis-te surpreendida por um destes anjos, que te exibe mesmo à frente dos olhos uma fotografia do seu álbum. E a fotografia representa um qualquer instante banal do teu passado, um momento esquecido da tua vida; vês-te, reconheces-te. E percebes, és obrigada a perceber, como a tua vida é uma simples acumulação de momentos banais, momentos que logo esqueceste, momentos que não conseguiste saborear adequadamente; uma acumulação de fotografias. Agora, está-me sempre a acontecer: vejo as fotografias imaginárias e percebo que passei a vida ansiosa ou preocupada ou aborrecida ou nervosa, de tal modo distraída que não fui capaz de reparar no que é essencial, não compreendi o âmago de cada momento; e só agora, com a passagem do tempo, consigo surpreender em determinado momento do passado a importância e o potencial que fui incapaz de lhe reconhecer em tempo real. Vejo-me perante estas fotografias, estes farrapos fragmentados de felicidade, e percebo a imensidão do que não aproveitei. E a impossibilidade de voltar atrás, de repetir, de recomeçar, exaspera-me. Penso em tudo o que podia fazer e não fiz: e sofro. Amaldiçoo este anjo e as suas fotografias, amaldiçoo a memória. Desejo esquecer, ignorar os erros do passado e enfrentar o presente com serenidade e sabedoria, transformar o presente num passado inofensivo. Mas sinto-me incapaz. E em grande parte, por causa dele. Acho que o bebé é, na verdade, o meu anjo mau. Percebes isto? Sei que estou a ser injusta, que estou a ser estúpida, mas não consigo impedir-me de projectar nele as causas do meu insucesso, da minha infelicidade; e como se não bastasse, ainda o responsabilizo pela impossibilidade em refazer o passado, de regressar atrás e fazer novas escolhas, seguir novos caminhos, experimentar novas possibilidades. Porque foi ele que me condenou a ser mãe; é a ele que atribuo o meu fim enquanto mulher; foi ele que me forçou a mudar de etapa precocemente. E então, odeio-o.
Mas não só por isso. O bebé lembra-me o Marido. Sabes como foi, nunca falámos disto mas tu sabes tão bem como eu. O Marido amava Outra; e quando ela o afastou, ficou inconsolável. Fui eu que o amparei, que o confortei, que o acariciei. Sabes como estava confusa, como ansiava por encontrar o meu caminho; sabes como precisava de uma distracção, de uma motivação. E talvez estupidamente, decidi concentrar-me nele, decidi fazer dele o meu caminho. Focalizei nele a minha necessidade de independência, de rebeldia, de controlo sobre o futuro. Precisava de definir-me, perante mim própria mas também (ou principalmente) perante os meus pais, até perante ti. Precisava de definir o meu futuro académico e profissional, precisava de definir a minha sexualidade, precisava de definir a minha ambição. E nele, no Marido, encontrei uma possibilidade de futuro; também um pretexto para não ser forçada a fazer demasiadas escolhas, demasiadas roturas. De certo modo, assumi-o como um adiamento, transformei-o em pretexto para ir adiando. Uma desculpa. Foi preciso nascer o bebé para perceber; meteram-no nas minhas mãos, a berrar, vermelho e sujo, feio feio, e pensei: não é um bebé, é um despertador. Pensei: e resultou, estou a acordar. Enfermeiras a sorrir à minha volta, e eu a pensar, a antecipar: passaram poucos anos, posso até tentar recuperar este tempo que passou; mas a partir de hoje, sentir-me-ei presa; prisioneira de mim e do meu passado, prisioneira de todas as vidas que poderia ter tido; prisioneira das escolhas que fiz e das opções que desprezei; mas não só: também prisioneira das aparências, das convenções, das obrigações; prisioneira deles. Mãe e esposa: apenas.

3.
E aqui estou, agora. A conversar contigo, a confessar-me: a lastimar-me. Tenho vinte e oito anos e sinto-me uma mulher de quarenta e cinco; pior: receio que a minha vida de agora seja a minha vida quando tiver quarenta e cinco. Não consigo contrariar esta doentia fatalidade que se apoderou de mim e me corrói suavemente, este zumbido constante que me acompanha junto ao ouvido: a tua vida já te proporcionou tudo o que tinha reservado para ti. Ouço este mantra constantemente: e começo a acreditar. A suspeitar que agora terei perante mim apenas repetições, novas combinações, novas versões. A suspeitar que a minha vida futura poderá ser feita de nuances, de subtis variações; talvez surjam algumas novidades mas a estrutura está definida e permanecerá inalterada. É isto que penso. Olhar em frente: e ver monotonia, ver o conhecido. Penso muito nisto, vejo-me como uma simples repetição, ou como se cumprisse algo pré-definido; como se não vivesse: mas reciclasse. Penso: deram-me uma daquelas vidas mais comuns, mais banais, mais lineares; uma das mais baratas; sem extras. Percebes? Ou será que apenas eu sinto isto?
Olho para trás e tenho tão pouco para mostrar. Abandonei o curso, abandonei o atletismo, abandonei quase todos os amigos; já não saio à noite, já não vou a concertos, já não fumo daquelas coisas boas, já não acredito na bondade dos outros, já não sonho ser cantora, já não fodo platonicamente com estranhos, já não tenho vontade de viagens e aventuras, já não rio sem motivo. Agora, os meus dias são feitos de reciclagens, de adiamentos; adiamentos, por enquanto. Em breve, talvez sejam compostos de desistências, de rendições. Intuo que envelhecer é precisamente isso: ir desistindo do que julgávamos possível, do que julgávamos merecer; deixar de acreditar, deixar de sonhar, deixar de desejar. E como vês, estou a envelhecer: já não sou capaz de me julgar especial; antes pensava que era potencialmente melhor que os outros, agora sei que sou apenas banal, indistinguível, dispensável. Não consigo sentir-me bonita, raramente me sinto desejada ou invejada. Por vezes, sinto falta de ser tocada, abraçada, acariciada; outras vezes, cada vez mais, sinto repulsa dos outros, assusta-me a possibilidade de toque, de tocar. Até o sexo se tornou desconfortável, uma espécie de agressão consentida. E sem prazer, sem sonho, sem fé, sem utopia, sem desejo, sem partilha, que resta?

4.
Não, não exagero. Repara como são os meus dias: passo-os com mulheres bonitas que se julgam deslumbrantes ou mulheres feias que se julgam bonitas ou mulheres deslumbrantes que se julgam deusas ou mulheres nojentas que sabem que o são; mulheres que experimentam dezenas de coisas e depois não arrumam nada, mulheres que cheiram mal e nem suspeitam, mulheres que deixam a cortina do gabinete de provas entreaberta para que eu as espreite, as aprecie, as inveje, as deseje; mulheres que me tratam mal, mulheres que me perguntam a opinião e depois não a escutam; mulheres que me tratam com arrogância, mulheres que me apalpam, mulheres que me tentam enganar; mulheres que, temporariamente, deixaram de o ser: para se transformarem, apenas, em clientes da Zara. E eu, que devo fazer? Sorrir sempre. Ouvir, dizer que sim. Impingir conforto, sensualidade, vaidade, ilusão em forma de roupa. Ser a melhor assistente do mês, ser a melhor colaboradora da loja. Deixar de ser mulher, transformar-me em funcionária da Zara. Alguém em quem o Outro não repara realmente, alguém que não interessa nem é considerado enquanto pessoa, alguém de quem o Outro não conhece o nome e não têm desejo de perguntar, alguém em quem não se pensa porque afinal o Outro sente-se tão, tão superior, alguém a cujo sorriso se é indiferente ou se corresponde com displicência, alguém que pode ser substituível sem que o Outro repare na mudança, alguém que existe para ser útil e que se esgota enquanto instrumento dessa utilidade, alguém que pode ser dispensado, despedido, trocado. Uma funcionária da Zara: é o que sou, é aquilo em que me deixei transformar.
E depois: casa. Um marido que não me ama, um filho que nem sempre amo. Jantares acompanhados de noticiários ruidosos e extractos de prestações para analisar com preocupação. Silêncios partilhados. Dissimulação e rancor. Rotina. Auto-comiseração. Discussões de vizinhos, risos de vizinhos. Risos artificiais. Fodas consentidas. Olhares fugidios. Cigarros solitários. Ausência de objectivos comuns. Ausência de objectivos pessoais. Incapacidade de distinguir os dias, as semanas. Aos vinte e oito anos, é esta a minha vida.
Ainda há momentos em que luto, em que acredito; quando espero que o sono venha, por exemplo. Imagino que tinha concluído o curso: poderia ser uma daquelas jornalistas estagiárias que apresentam reportagens insignificantes no final dos noticiários; poderia ter investido no atletismo: provas internacionais, medalhas e hinos, superação de objectivos dia após dia; poderia até cantar numa banda: gravar discos medíocres, pular em palcos, ser assediada. Também poderia ter ignorado o Marido, poderia ter abortado: libertar-me deles. Poderia ter fugido, ter gritado, ter lutado. Foda-se. Ainda posso, ainda estou a tempo. Não achas? Mas tenho medo. E há a preguiça, a inércia, a passividade. Aconchego-me ao corpo indiferente do Marido: afinal, ainda o amo; habituei-me. Depois, quando estou quase a esquecer, a adormecer, o bebé chora; e todo o fingimento de serenidade se esvai, desaparece. Fico quase só: acompanha-me, apenas, o ódio visceral que nasce da certeza da minha incapacidade de ser feliz, de construir a minha felicidade. Busco fugas desesperadas, ilusórias, tento não enfrentar a realidade e aceitar que me transformei numa pessoa ridícula e incapaz, amarga e angustiada, cobarde e rancorosa, inarticulada e ilógica, cruel e injusta, uma pessoa que reconhece o fracasso da sua vida mas é incapaz de assumir a sua culpa, a sua responsabilidade. Busco; e é então que, por vezes, penso em ti. Penso muito em ti, na verdade: penso principalmente no que poderíamos ter tido.
E tu: ainda pensas em mim?