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# 49: Óculos, relógios, perfumes

1.
Vou passando as páginas da revista. Textos inconsequentes que não consigo ler até ao fim; fotografias agressivas que me assustam um pouco; e publicidade: óculos, relógios, perfumes. Uma psiquiatra (lindíssima, um sorriso tão, tão sereno: terapêutico) que diz: parece que já não importa o que somos, só interessa o que parecemos; e na página seguinte: publicidade a óculos de sol, mulheres sensuais e petulantes; gente que parece feliz.
Pouso a revista e recosto-me no sofá, tentada a fechar os olhos.
Mas ouço a chave na porta. Entras, sorris; sorrio, em resposta. Pousas a pasta, beijas-me a face. Perguntas se estou bem, respondo que sim. E depois: nada. Absolutamente assustador este momento em que temos de nos confrontar, em que não podemos fugir ao outro; temos de nos olhar nos olhos e inventar algo para dizer, confirmar a nossa intimidade; adiar um fim que não desejamos. Ainda nos olhamos; mas por vezes, como hoje, não sai nada. Ficou a intenção, o esforço, a tentativa: e já não é pouco.
Separamo-nos em silêncio. Pouco depois, ouço o silvo do computador; o teclar frenético; um suspiro inconsciente, tão revelador. Sento-me no sofá, pego na revista. Óculos, relógios, perfumes.

2.
Comes devagar, com ponderação. Elegante, um pouco afectado; penso que ainda me comovo com a tua vaidade ingénua, inofensiva. E vais falando, tanto. Escuto-te, por vezes sorrio; abano a cabeça ou encolho os ombros. Não te calas, gostas tanto de falar. Gastar palavras: uma outra forma de não dizer nada; de silêncio. Recordo o quanto gostava de te ouvir, o quanto me seduzia a tua verborreia exibicionista; e sorrio, incrédula: mudei tanto.
Pegamos na louça e arrumamos a cozinha, em conjunto. Tal como um casal recém-casado, que não suporta um momento de separação, ou de individualidade. Vais falando, sem que te escute verdadeiramente. Impressiona-me um pouco a quantidade de coisas inconsequentes e irrelevantes que consegues dizer; pior: não consigo recordar a última vez em que me disseste algo importante. Pergunto-me: o que poderia ter sido?
Depois, de repente: o silêncio. Cansas-te de me entreter. E logo depois (sempre latente): o embaraço, que jamais confessaríamos, de ter de estar juntos, dias após dia; para sempre. Insistimos em partilhar as vidas: porque todas as alternativas possíveis são piores, mais difíceis. Não: menos fáceis.
Pouco depois: o silvo distante do computador, o teclar frenético. E o sofá, a revista; óculos, relógios, perfumes.
Vida familiar.

3.
Sinto a carícia do lençol na coxa e, inesperadamente, apetece-me. Cedo ao desejo, à ânsia; desisto de qualquer tentativa de adormecer e preparo-me para esperar, não demasiado ansiosa. Imóvel, em silêncio, respirando devagar; antecipando a possibilidade. O corpo tenso, expectante.
Espero por ti. Com esperança que venhas em breve, com a cabeça cheia de imagens dos corpos de pobres adolescentes envelhecidas que persegues, por vezes, nos sites pornográficos. Que venhas, excitado: e te alivies em mim.

4.
Acho que estou a gritar, não sei se palavras ou sons e gemidos, grunhidos; não sei o que digo nem o que sinto. Não importa, nada importa neste momento. Apenas interessa o prazer que sinto, este prazer fugaz mas totalitário que é afinal uma forma de alienação total, de esquecimento do mundo, de suspensão da vida, de imortalidade do corpo. Nada importa, agora: apenas este descontrolo momentâneo, total e irreversível, talvez irrepetível. Porque cada vez é como a primeira, cada vez poderá ser a última.

5.
Sais suavemente de dentro de mim, sem pressa. Suspiras longamente e afastas-te com cuidado, quase com delicadeza, de modo que os nossos corpos não se toquem verdadeiramente; no momento imediato, esqueces-me.
E eu: agradecida. Ainda me sinto anestesiada, o corpo lânguido e confortável, regressando preguiçosamente do torpor. Agrada-me que não arrisques uma tentativa de conversa, que não forces uma intimidade inconsequente e desnecessária, que não procures prolongar artificialmente este momento de partilha. Entendemo-nos bem, finalmente; mesmo sem necessidade de o confessar, percebemos que o amor já terminou; e, silenciosamente, concordamos nisto: não precisamos dele. Basta-nos a previsibilidade da presença do outro, o conforto de nos sabermos acompanhados, compreendidos, desculpados. Silenciosamente: porque se concretizássemos estes sentimentos em palavras sentiríamos indignação e repugnância.
Aprendemos a dispensar as rotinas dos amantes exaltados, as inábeis e comoventes tentativas de adivinhar os desejos do outro, de agradar e surpreender, de encantar; concordamos, finalmente, que o que prevalece é o que cada um retira do outro e não tanto o que proporciona; porque o que proporciona é tudo o que o outro quiser retirar. Sem subterfúgios nem encenações, sem sentimentalismos nem vergonhas. Fodemos simplesmente, com maturidade e abnegação, confortavelmente; e nunca foi tão bom, tão recompensador, tão pleno. Para ambos.

6.
Estou quase a adormecer, serenada pelo conforto que ainda sinto disseminado por todo o corpo, quando começas inesperadamente a contorcer-te, primeiro com preguiça e contrariedade e, logo depois, com algum frenesim. Quando te olho, identifico algo inesperado no teu rosto: dor; e logo depois: medo.
Assusto-me. Ou talvez seja apenas contrariedade, o que sinto.
Fecho os olhos, durante uns instantes; aguardo, refugiando-me na escuridão, no silêncio, na inércia: sem esperança. Não precisamos de falar, há anos que lemos artigos de revistas, vemos programas de televisão, ouvimos discursos de técnicos de saúde; há anos que esperamos que aconteça algo assim. Abro os olhos, procuro os teus: e encontro-os fechados. Já.

7.
Levanto-me e cambaleio pelo quarto, sentindo o chão áspero nos pés descalços; procuro o telemóvel e explico a uma senhora muito calma e sorumbática que estás a morrer. Depois, pouso o telemóvel e refugio-me na janela, que abro um pouco. Vento, escuridão. Um gemido quase envergonhado, tímido: e admiro-te, contrariada. Estás a morrer com dignidade.
Que disparate: não estás nada a morrer. A ambulância está a caminho; salvar-te-ão.
Talvez seja melhor começar a pensar em vestir-me.

8.
Apareceram três bombeiros. Dois pegam em ti e carregam-te até ao elevador, em silêncio; depois, mudam de ideias e avançam para a escada, sem excessiva pressa. Não voltaste a abrir os olhos, paraste de te contorcer há muito; não gemes. Não incomodas.
O outro bombeiro olha-me: como se estivesse com vontade de me falar, de me perguntar por que motivo não estou a chorar; ou talvez tenha gostado de um qualquer pormenor de mim, do meu corpo (o cabelo, a elegância dos dedos?). Pergunto-me, um pouco envergonhada, se terá reparado no cheiro a sexo que ainda paira pelo quarto. E quase sinto embaraço.
Descemos os dois no elevador, desconfortáveis. Conto os segundos que passam. No espelho, o reflexo das nossas costas. Um suave zumbido descendente. Talvez alguém ainda acordado no prédio, a ver o AXN. Apetecia-me dizer qualquer coisa, falar um pouco; ser escutada. E chorar? Não, acho que não.
A porta abre, saio. Não era o quarto que cheirava a sexo, afinal: é o meu corpo. E o bombeiro, mais tarde, lá no sítio onde os bombeiros guardam as ambulâncias, dirá aos colegas: estavam a foder.
Pois estávamos.

9.
A ambulância avança com rapidez nas estradas desertas. Cá de dentro, o ruído da sirene parece particularmente lúgubre, um grito estridente que não diminui, não se afasta, empenhado em perseguir-me impiedosamente. Mas se as estradas estão desertas, para que serve a sirene?
Estás praticamente inconsciente, não te moves; os olhos não voltaram a abrir, o que me assusta, o que me alivia (e era tão confortável, se conseguisse ficar desesperada); observo, com inesperada apatia, quase com resignação, como o senhor da ambulância anda de volta de ti, um pouco frenético, um pouco indiferente. Há solavancos repentinos, violentos. Penso: foi uma sorte que tenham mandado a ambulância e não aqueles médicos de emergência; assim, não morrerás na nossa cama; não: morrerás longe. E eu poderei voltar.
Fecho os olhos, tento escapar à perseguição da sirene. Sinto uma desconfortável viscosidade, embrulhada numa ténue cócega: um pouco do teu esperma que ainda andava por dentro de mim, acariciando, e escorrega, agora; uma mancha nas cuecas: o que resta de ti.

10.
Imagino uma sala de espera deserta. Revistas abandonadas em cima de uma mesa; e eu a perguntar-me: qual devo pegar? Um segurança que passa por vezes, imitando o porte marcial que aprendeu em filmes idiotas, e me olha com alguma curiosidade, não muita; e que depois, logo depois, deixa de aparecer: desinteressado. Silêncio, que num hospital é sempre assustador. Luz fortíssima. Cartazes publicitários de farmacêuticas: famílias felizes, idosos sorridentes, bebés fotogénicos; e conselhos, tantos conselhos. Um médico de bata desalinhada que passa a rir para o telemóvel. Um grito abafado, vindo de longe, talvez imaginado. E a indecisão, persistente: em que revista devo pegar?
Muito tempos depois: alguém que entra (talvez uma mulher um pouco mais nova que eu, não muito bonita), passos decididos e seguros, bata imaculadamente branca (talvez uns óculos Gant, um relógio Lacoste; ou óculos Lacoste e relógio Gant?), um sorriso inexistente (mas haverá sempre a possibilidade de um sorriso, desde que haja vontade); parará junto de mim, não demasiado próximo; e não me tocará, em circunstância alguma. Dirá: lamento. Ou então: lamento muito. E ficarei a olhá-la, ali tão próxima, nem intimidada nem seduzida, tentando adivinhar qual o perfume que usa (talvez Light Blue de Dolce & Gabbana) e incapaz de perceber se sinto alívio, se sinto desespero. Depois, logo depois, afastar-se-á (passos decididos e seguros) e eu ficarei a pensar que talvez o desespero seja, afinal, uma forma de alívio. Jamais saberei o seu nome; dela, recordarei apenas: óculos, relógio, perfume.
A sala de espera: ainda deserta. Revistas abandonadas. E silêncio, que num hospital é sempre assustador.

11.
O ruído da sirene já faz parte de mim, serei incapaz de lhe fugir nas próximas horas. Acho que a desligaram: mas continuo a ouvi-la. Para sempre, talvez.
Todos imobilizados: tu, eu, o senhor da ambulância; à espera. Lá fora, a noite cerrada protegendo o sono dos homens, das mulheres. Também para mim é esse, por vezes, tantas vezes, o melhor momento de cada dia: a inconsciência do sono, o adiamento, a possibilidade de suspensão. Protegida pela escuridão, de volta ao silêncio primordial de que devia ser feito a vida. Segura; inofensiva.
Resisto à tentação de te olhar, enquanto me pergunto se irás mesmo morrer. E, logo depois, macabramente, penso no funeral. Visualizo-o: não sei onde. Muita gente que virá, certamente. Abraços, pessoas que não conheço apertar-me-ão contra os seus corpos; e de certa forma, será bom; erótico, até. Quanto custará? Talvez o preço de uma boa viagem. E o choro insuportável da tua mãe, lamuriando-se, culpando-se. Murmúrios de padre, rezas. Ainda há quem saiba rezar? E eu a ver-te desaparecer, envolvido pela terra castanha, imunda. Sentirei dor: amei-te tanto, um destes dias. E desânimo: agora, recomeçar tudo, algures, com alguém tão diferente de ti mas, afinal, tão parecido, quase igual; repetir tudo. Alívio, também: uma pausa para respirar. Espero que não chova. E o coveiro, talvez um ex-toxicodependente, algures num canto, apoiado numa enxada, a espreitar os traseiros das mulheres, ou dos homens: à espera. E a roupa? Negra, claro. Deveria comprar uns óculos escuros; Dior, talvez.
Mais um solavanco, uma travagem repentina. E a sirene: cá dentro.
Sim, é possível que já estejas morto.

12.
O bombeiro despede-se com alguma brusquidão, talvez irritado com a minha indiferença, talvez aborrecido por não estar a dormir ou a foder uma namorada escanzelada, talvez apenas mal-educado por natureza ou feitio. Fico a vê-lo afastar-se, passos pouco elegantes, costas arqueadas; ainda não desapareceu da minha vida e já não consigo lembrar-me do seu rosto.
A senhora do guichet de atendimento não disse boa noite, quando cheguei; agradeci-lhe a atenção, a obrigação de reagir a qualquer espécie de civilidade ou cortesia ser-me-ia dolorosa. Agora espreita-me, analisando-me a postura, avaliando-me o comportamento; retribuo o olhar, apenas por distracção, e logo me aborreço. Pergunto-me: qual a percentagem de vezes em que olhamos alguém sem que esse olhar contenha uma qualquer componente de cariz sexual? Uma inconsciente avaliação de possibilidades, talvez; ou mesmo uma cedência temporária e inconsequente à fantasia. Sim: qual a percentagem?
Sento-me na cadeira mais afastada que encontro e olho o monte de revistas abandonadas numa mesa, mesmo à minha frente. Talvez pegue numa, daqui um pouco; passar o tempo; distrair a mente; invejar os outros; ou, simplesmente, procurar os óculos de sol ideais.

13.
Uma mulher com bata de médica entra de repente na sala de espera e procura-me com o olhar; depois, avança com firmeza na minha direcção. É baixa e um pouco atarracada, mais de quarenta anos; pele morena, cabelos muito curtos; e uma expressão cansada, dolorosamente cansada. Fico a vê-la aproximar-se, espero-a sem medo nem entusiasmo, evitando pensar no que me vai dizer, preparada para ouvir; reparo que não usa óculos; nem relógio. E perfume, usará? Dentro de momentos, saberei.

# 48: (Mais) Cinza no chão

1.
Quando vejo o rosto do rapaz mesmo junto do vidro do carro, sobressalto-me. Por um segundo, não sei quem será ou que desejará; mas logo depois, um fulgor de compreensão invade-me, ao recordar onde estou e o que me preparo para fazer.
Digo que não, não preciso de ajuda com a bagagem. O sorriso do rapaz perde intensidade mas não desaparece por completo; e na sua face, ainda imberbe mas já angustiada, percebo (reconheço) a decepção que já não dói por ser tão repetida, tão familiar, o encolher de ombros psicológico de quem já desistiu de acreditar, a inevitável e silenciosa resignação por, uma vez mais, ser considerado insignificante, negligenciável, incomodativo. Afasta-se, talvez exibindo um farrapo de sorriso de plástico.
Quando desaparece na porta, volto a recolher-me em mim; concentro-me, forço-me a agir. E num ímpeto, permitindo que o corpo sobressalte a minha própria alma, abro a porta e saio.

2.
Lá está o rapaz, em sentido, mãos atrás das costas, sorriso impecável. A pouca distância, o balcão; e por trás dele, a recepcionista; outro sorriso de plástico. E enquanto me aproximo, penso: é lindíssima; como se a sua beleza fosse relevante para a minha felicidade.
Boa tarde, boa tarde. Tem reserva?, não. Pretende ficar quantas noites?, uma.
Estende um impresso e uma caneta, mergulha no computador. O sorriso ainda não desapareceu. Preencho os dados que me são solicitados, letra após letra; depois, obrigo-me a erguer a cabeça e enfrentar a mulher. Que me encara: olhos brilhantes, sorriso perfeito. Pede o bilhete de identidade, compara os dados com os que acabei de escrever. E por um segundo, o sorriso desaparece. Adivinho porquê: pergunta-se por que motivo alguém aluga um quarto de hotel na própria cidade onde vive. Sinto-me incapaz de a encarar e é então que os meus olhos descem pelo seu corpo. Olho, aprecio, memorizo. Depois, regresso ao seu rosto: e lá está o sorriso. Pergunto-me: onde aprenderão a sorrir com tal perfeição?
Longa lengalenga: o pequeno-almoço é servido às e temos health club e a piscina pode ser e o bar abre. Não ouço o que diz: concentro-me apenas no movimento dos seus lábios; abstraio-me do que me rodeia, desligo o som. Apenas me interessam aqueles lábios, movendo-se e movendo-se e movendo-se. Sei que mais tarde, envolto no escuro, evocarei este momento; e então, memória e fantasia mesclar-se-ão numa simbiose perfeita; fecharei os olhos: e os seus lábios continuarão a mover-se, envolvendo não palavras mas partes do meu corpo.

3.
É o ruído seco da chave a embater no balcão que me devolve à realidade. Sobressalto; algum embaraço; quase vergonha; e decepção. Recolho a chave, o bilhete de identidade. O rapaz está a abrir-me a porta do elevador; pergunto-me se me acompanhará; e antevejo o terror de estar trancado num elevador com um desconhecido de sorriso permanente. Digo obrigado e encolho-me num canto do elevador, à espera. Mas ele fecha a porta com suavidade e com suavidade o elevador sobe.
Caminho pelo corredor, explorando as portas. Encontro, abro, entro.
Quarto simpático. Infinitamente desumano, hermeticamente fechado a qualquer resquício de presença humana. Fecho a porta, dou uns passos, sento-me na beira da cama. Pergunto-me: e agora?

4.
Poderia encher a banheira de água quente e deixar-me anestesiar pelo conforto tépido de uma placenta improvisada. Depois, o tempo passaria devagarinho, irrelevante; poderia masturbar-me lentamente, acariciando-me com cuidado, sentindo o prazer de me poder tocar sem enfrentar o receio de uma possível intromissão, sem sentir culpa nem vergonha. Olharia o meu pénis semi-erecto e não me custaria imaginar os lábios da recepcionista sorridente a envolvê-lo, engoli-lo com alguma voracidade, com alguma indiferença; depois, fecharia os olhos e concentrar-me-ia em fantasiar o seu corpo, a suavidade da sua pele, o secretismo do seu cheiro. Ejacularia, por fim. E o pénis murcharia de imediato, pequenos farrapos brancos de esperma flutuariam pela água; sentiria nojo e repulsa, um desagradável embaraço; e culpa. Levantar-me-ia com gestos deselegantes e apressados, sairia da banheira; aguardaria que a água escorresse, pegaria um bocado de esperma teimoso, que a água não teria arrastado consigo, com papel higiénico.
Teriam passado alguns minutos, talvez meia hora; mas continuaria precisamente como antes: e agora?

5.
Fumo lentamente, cigarro após cigarro, permitindo que a cinza caia no chão, formando montículos na alcatifa; sinto um desprezível prazer por ter a certeza que não surgirás, de um momento para o outro, erguendo obsessivamente o teu aspiradorzito portátil, decidida a eliminar as provas da minha presença, da minha existência, numa acusação silenciosa e cobarde. Não: aqui, estou seguro.
Olho pela janela; e lá longe, à distância de um grito, o nosso prédio, a nossa varanda, a nossa janela: e tu na nossa cama, talvez a dormir. Apenas umas ruas, uns prémios a separar-nos; contudo: tudo a separar-nos.
Sim, talvez durmas. Não fazes ideia onde estou; e, afinal, tão próximo: como se te preparasse uma emboscada, ou tentasse proteger-me de ti. Amanhã, talvez confesse que passei a noite aqui, perto, pertinho, quase contigo; e aproveitarei para explicar que vim passar a noite num hotel porque não tive coragem de te encarar e dizer-te que não te amo, já não te amo, nem sei se alguma vez te amei; dizer-te, também, que não tenho, não consigo ter, paciência para te olhar, para te ouvir, que já não consigo suportar o teu cheiro, que me arrepia a perspectiva de ter de te tocar; dizer-te que temos de nos separar imediatamente porque, caso contrário, sou capaz de começar a odiar-te.
A noite arrasta-se, a escuridão do quarto de hotel conforta-me; luzes que apagam aqui e ali, carros que vão passando; tu a tentar adormecer, aí; risos distantes, embriagados; gente feliz, algures; eu a tentar acumular coragem, a fantasiar o que te diria se tivesse coragem. A noite a arrastar-se, interminável. E a cinza: acumulando-se no chão.

6.
Apenas as explosões de cor que chegam da televisão iluminam a minha noite; e sinto um estranho conforto por fazer parte da escuridão, do silêncio; como se fosse parte da inexistência, apenas um pedaço de nada. Por vezes, consigo descobrir uma estrela entre as camadas de nuvens escuras, pequenos pontos brilhantes insurgindo-se contra o poderio do negrume, do vazio, do esquecimento. Brilham por um instante; e desaparecem.
Já não tenho cigarros.
Olho a janela escura do nosso quarto, lá longe. E imagino-me deitado na minha cama, a olhar as janelas do hotel, esta mesma janela; imagino-me a imaginar: homens e mulheres, troca de prazeres, vidas secretas. Imagino-me deitado na minha cama, envolto pela mediocridade da minha vida, pela escuridão da minha existência, a fantasiar o glamour da vida dos outros, das outras vidas, de todas as vidas excepto da minha; e enquanto acaricio o cabelo com as mãos (gestos automáticos, robóticos: sem sentido nem objectivo), recapitulo os devaneios a que me entreguei nalgumas noites de insónia, acompanhado pelo monótono estertor da tua respiração, aprendendo a suportar o teu ressonar discreto, o contacto permanente da tua pele quente, as cócegas dos teus cabelos demasiado longos no meu pescoço.
Agora e aqui, revivo todas as noites em que me imaginei num quarto deste hotel, protegido por este vidro descaracterizador: um outro eu. Recordo como me reconstruía, detalhe após detalhe; e renascia neste quarto, neste exacto quarto que tão bem conhecia apesar de nunca o ter visitado, acompanhado por uma qualquer mulher sem rosto mas de corpo muito concreto (e voz profunda e riso gutural); adormecia enquanto aperfeiçoava os pormenores desse corpo e acordava pouco depois, encharcado de esperma, desconfortável e culpado; acordava: mas não me movia, para não perturbar o discreto ressonar que ainda me ligava à realidade, à sanidade; e esperava que a noite percorresse o seu lento caminho, levando-me consigo.
Hoje, estou finalmente deste lado da janela; e nada melhorou.

7.
Por vezes, sinto que sou transparente. Sinto que não tenho pele a envolver o meu corpo nem carne a proteger a minha alma; talvez seja de vidro, apenas vidro. Transparente: olhem-me e conhecer-me-ão.
E incomoda-me esta consciencialização de fragilidade e transparência. Por exemplo, agora: desço no elevador, caminho pela recepção, encosto-me ao balcão; e temo que todos estes olhares predadores trespassem o vidro que protege a minha essência e partilhem das minhas vergonhas. Não consigo erguer o olhar e enfrentar o mundo, nem o alívio de saber que a recepcionista de serviço não é a mesma das minhas fantasias suaviza o meu martírio. Pago e quase corro, quase tropeço. Fujo.
O mesmo rapaz de ontem abre-me a porta. E sorri.

8.
Dou despropositadas voltas ao bairro, em busca de um lugar para estacionar o carro; depois desisto, deixo-o no parque subterrâneo do centro comercial. Caminho a pé, protegendo-me do olhar de quem por mim passa, escondendo-me. Já decidi que talvez conte tudo: não te amo, quero acabar com isto, não me perguntes porquê, blá blá blá e mais blá. O sol bate-me na cabeça, torna-se incomodativo. Pergunto-me se chorarás. Talvez te diga: mas não vês que sou um homem de vidro, que sou transparente, que basta olhares para dentro de mim e perceberes o quanto não te amo?
Caminho, lento, quase paro. Pergunto-me: mas haverá necessidade de ser cruel? De certo que não, respondo-me. Ensaio: olha, não sei como explicar, não sou capaz, nem sequer vou tentar. Pedirei desculpa. Direi, como diz a gente de plástico dos filmes americanos: fiquemos amigos. E imagino o teu olhar baço, assustado, indignado. Sinto um arrepio. Apresso o passo. Vontade de acabar com isto.
Pergunto-me: se cair, partir-me-ei?

9.
O coração bate depressa, ansioso ou assustado, sei lá. Tento pensar em banalidades: conta do telemóvel para pagar, consulta no cardiologista na sexta-feira, o carro a precisar de pneus novos, há tantos meses que não vou ao cinema. Coisas assim. E depois: lá está o prédio.
E o meu coração: também será de vidro? Entro e pergunto-me: que dirás quando me vires, acusar-me-ás de quê, estarás infinitamente chateada ou apenas indiferente? Já se vê.

10.
Ensaio: olha, queria dizer-te uma coisa, desculpa ser assim tão de repente.
Abro a porta: e logo te vejo; sorris. Poderias invectivar-me, gritar, bater e arrancar-me cabelos (vê-se tanto, nas telenovelas), poderias dizer uma banalidade do género mas quem pensas que és, para me tratares assim? Poderias ter reagido com indignação, humilhar-me, desprezar-me. Mas não, nada disso; simplesmente, sorris: não sei porquê, para quê. E perante esse inesperado sorriso, perante esse inequívoco testemunho de amor e perdão, ou de desespero e solidão, tudo o que sou capaz de balbuciar é: olha, queria dizer-te uma coisa; tive saudades tuas. É tudo o que consigo dizer: uma mentira.
Jamais seria possível dizer qualquer outra coisa. Jamais será.

11.
Troco de roupa enquanto te ouço, sem fazer ideia de que falas.
Saio até à varanda e olho. Lá está a janela do hotel: onde sempre esteve, onde sempre estará. Do interior do quarto, vem o zumbido da voz; zumbindo e zumbindo e zumbindo. Lá de baixo, o zumbido do trânsito. Misturam-se, os zumbidos: já não os consigo distinguir. Penso: quando falas, pareces um automóvel com o cano de escape roto. Rio por um momento, sentindo-me desprezível; depois reduzo para um sorriso. Quando sinto que o rosto voltou ao seu estado natural de rigidez e apatia, volto para dentro. Sento-me no sofá e acendo um cigarro.
A cinza vai caindo no chão.

# 47: Cinza no chão

1.
Ruído do elevador a parar, a porta que se abre. Chegas, vindo não sei de onde e passas por mim (não muito próximo), diriges-me um grunhido que talvez seja de saudação. Não me olhas, não sorris: passas por mim, simplesmente. E muito tempo depois: o autoclismo.

2.
Passas os olhos pela televisão, bebes um pedacinho de cerveja; depois, começas a jantar: gestos rápidos e pragmáticos, automatizados, indiferentes. Olho para a televisão mas concentro-me nos ruídos animalescos que fazes, involuntariamente; ou será que não são inconscientes, ser-te-á indiferente que eu constate e comprove, uma vez mais, a tua embaraçosa falta de educação? Ouço-te mastigar: e angustia-me este excesso de despudor, este abuso da intimidade. Somos, afinal, um casal em que não se esconde nada, uma relação sem segredos nem subterfúgios; e suponho que isso te agrade.
Unidos numa proximidade sustentada por tantos anos de vida partilhada e existência em comum, fomo-nos habituando ao outro: apesar de, na verdade, não nos conhecermos; vamos partilhando o superficial, apesar de na essência sermos um crescente mistério para o outro; partilhamos tudo: excepto o que sentimos.

3.
Vais mastigando, esquecido da minha presença. Gestos alheados, displicentes; um riso gutural, provocado por algo que vês na televisão; um leve arroto. E eu a pensar: há quanto tempo não conversamos? Levanto-me, vou à cozinha buscar mais salada; paro durante uns instantes em frente da janela, engolindo a súbita onda de desalento que me invadiu, e olho lá para fora, para as varandas dos vizinhos, para lá das varandas dos vizinhos; regresso até junto de ti, perguntando-me: mas para que serve conversar, afinal? Pouso o prato à tua frente e vejo-te pegar de imediato numa garfada de alface, que levas até à boca; uma pequena gota de azeite cai na toalha, formando uma mancha. Olho para a televisão e tento recordar a última vez em que me disseste: obrigado.
Noutro mundo, duas personagens de telenovela beijam-se com mais paixão do que nós alguma vez nos beijámos. E nós, neste mundo: olhando, em silêncio.

4.
Vou ter outra vez aquele pesadelo, em que o ruído do teu ressonar se mistura com o ruído da tua mastigação e se transforma numa gargalhada tenebrosa que me persegue como um fantasma ou uma sombra ou um anjo da guarda maldoso; depois acordarei, assustada e desconfortável, exausta, sentindo saudades do tempo, longínquo, em que dormir era um alívio, umas tréguas; e a primeira coisa de que tomarei consciência: o teu ressonar, envolvendo-me.
Levanto-me e começo a transportar louça para a cozinha, devagarinho. Sentaste-te no sofá, acendes um cigarro; gostava que me perguntasses como correu a ida ao médico, se custou fazer o exame; mas com certeza que nem te lembras; ou não te interessas? Fragmentos de cinza vão-se acumulando no chão, sem que tenhas o cuidado de o evitares, sem que repares.
Acabo de arrumar a louça na máquina, refugio-me na penumbra da varanda; acendo um cigarro: e fumo-o. Perscruto as sombras e os movimentos para além das cortinas iluminadas, atribuindo-lhes sentidos, intenções, vidas. Um gato a miar, uma sirene longínqua, um grito de alguém. Céu sem estrelas. Atiro o cigarro e fico a ver onde cai, com a secreta esperança de que provoque um incêndio, uma novidade, uma mudança, um breve intervalo em que haja algo mais premente do que testemunhar a simples passagem do tempo, irrelevante e inconsequente.
Depois, penso: gostava de sentir, ao menos, a melancolia de ter sido feliz. E volto a pensar no pesadelo que vou ter, mais logo.

5.
Sento-me junto de ti e fico a olhar para o montinho de cinza. Na televisão, dois políticos insultam-se; tu sorris. Gostava que te aproximasses, que os nossos corpos se tocassem: e que isso tivesse um significado. Levanto-me, vou buscar o aspirador portátil e recolho a cinza que foste incapaz de abandonar no cinzeiro; olhas-me, penso que pela primeira vez desde que chegaste; estás aborrecido, é óbvio: talvez por te confrontar com a tua incivilidade e falta de educação, talvez apenas por causa do barulho; ou será porque te forcei a recordares-te que existo, que estou a aqui, mesmo aqui, à distância de um toque, de um sorriso? Evito olhar-te, finjo que não percebo a tua animosidade.
Arrumo o aspirador. Passo pela casa de banho, olho-me no espelho, ajeito o cabelo. Depois, regresso à minha varanda; acendo mais um cigarro, e espero; enquanto o tempo vai passando, repetindo-se.

6.
Ainda o gato a miar, ainda uma sirene longínqua, ainda o grito distante.
De repente, percebo o significado do grito: alguém que é agredido, algures. Sim, um grito simultaneamente sufocado e envergonhado, hesitante, mas também desesperado, furioso, indignado. E recordo que também eu já gritei assim, um dia.
Penso na mulher anónima que, algures, está a ser violentada pelo marido, pelo companheiro, por alguém que ama, que julga amar, que um dia amou; sentindo-lhe ódio, perguntando-se como será possível perceber, perdoar, continuar. E sinto o corpo agitar-se, pulsando com as reminiscências da dor, da humilhação, da incredulidade.
Regresso para dentro, tentando fugir do passado, e começo a preparar um chá. Abro o frigorífico, para nada; retiro a louça da máquina, com cuidado; espreito o passar dos minutos no relógio do microondas. Escuto o assobio do teu isqueiro, vozes abafadas da televisão; penso, inesperadamente: se não fosse a televisão, acho que esquecia como se fala; e sorrio. Sento-me, bebendo o chá; sentindo-o queimar-me a boca, a garganta, o estômago. Sentindo.

7.
Invade-me uma ideia medonha, perturbante: se me agredisses, apenas uma vez mais, passados tantos anos, talvez isso demonstrasse alguma espécie de sentimento em relação a mim; melhor: talvez me desse um pretexto para, finalmente, agir, lutar, recomeçar algures. Indigno-me, forço-me a indignar-me: e afasto este pensamento repugnante e ignóbil, desesperado; mas apenas depois de o ter saboreado durante um fragmento de instante.
Pego no saco do lixo e ato-o com violência, furiosa com a incontrolabilidade da minha mente. Abro a porta e digo, para ninguém, por hábito: vou ao lixo; mas por alguma razão misteriosa, sabe-me bem escutar a minha própria voz. Entro no elevador, olho-me no espelho, ajeito o cabelo; e uma vez mais, fantasio que esta pode ser a última vez em que me olho neste espelho, entro neste elevador, vivo esta vida.
Pode ser.

8.
Deixo cair a tampa do contentor do lixo e fico a escutar o eco do seu ruído sepulcral dissipar-se; depois, como quase todas as noites, sinto-me invadir pela ingénua tentação de não regressar, de fugir, de mudar. Olho o cachorro que se aproxima, farejando o ar, e imagino-me a entrar no carro, pô-lo a trabalhar, ligar os faróis e partir por uma destas ruas, sem pressa, sem destino, sem arrependimento; e o cão a ver o carro desaparecer, invejoso.
Espreito as ruas desertas e silenciosas, pergunto-me qual escolheria; e depois, no primeiro cruzamento: direita ou esquerda? Avançar, sempre; mas, até onde? Quando parar? E que fazer, então? Avançar, sempre? Mas para quê? Na verdade, o que poderia mudar? O que seria diferente com a mudança de paisagem? E eu conseguiria mudar? Estará o problema em mim ou no cenário?
Caminho alguns passos, de regresso ao prédio, perguntando-me se seria bom conseguir tomar decisões, e agir. O cão segue-me, discreto e esperançoso, subserviente; tanta vontade que tenho de lhe dar um pontapé, não sei porquê, para quê.
Olho-me no espelho do elevador, tentando perceber se efectivamente existo, ocupo espaço, consumo oxigénio, liberto cheiro; parece que sim. Penso, mais um pouco, nesta obsessão que tenho pela mudança; e pergunto-me: para quê? Que mudança traria a mudança? Sorrio, vejo-me sorrir: tão bonito que ainda é o meu sorriso.

9.
Sento-me no sofá, um pouco afastada de ti. Levantaste-te, para ires ao frigorífico buscar uma cerveja, o que me surpreende um pouco. Na televisão os mesmos políticos, a mesma conversa: como se o tempo não tivesse passado, nunca passasse. De ti: a mesma indiferença, o mesmo silêncio agressivo. No chão: uma nova mancha de cinza, tão grande.
Apetece-me chorar. E desistir, outra vez.

10.
Levantas-te, refugias-te na casa de banho. Fico a olhar para os políticos durante um bocado, repetindo-se incessantemente, e pergunto-me se haverá alternativas para mim, se ainda haverá escolhas e surpresas e novidades algures no meu futuro; ou estarei condenada a isto, condenada a mim? De repente, publicidade barulhenta e colorida, gente agressiva e sorridente, talvez feliz, ou fingindo felicidade: é possível que não haja grande diferença entre ser e parecer, entre ser e acreditar que se é, mesmo não sendo. Fecho os olhos, faço uma careta a mim própria; estou tão cansada dos meus pensamentos lúgubres e auto-piedosos, de sentir pena de mim, de invejar.
Levanto-me, engolindo um suave gemido de cansaço, de desânimo; e vou buscar o aspirador portátil.

11.
E muito tempo depois: o autoclismo. Passas por mim (não muito próximo), diriges-me um grunhido que talvez seja de despedida. Não me olhas, não sorris: passas por mim, simplesmente. Sais, indo não sei para onde. A porta que se fecha, ruído do elevador a arrancar.
E eu: aqui.

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Apresentação de “Os mundos separados que partilhamos”, por Fernando Venâncio.
Clube Literário do Porto, 20 de Abril, 18h00.

# 46: No autocarro do costume

Aqui.

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Páginas Soltas: Bárbara Guimarães entrevista Paulo Kellerman.
Sic Notícias
6 de Abril, 20h40
9 de Abril, 15h00