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Esboço # 05

Estão num bar, rodeados por fumo e gargalhadas estridentes. Olham-se por acaso e estudam-se mutuamente. Um deles levanta-se, caminha até ao outro. Sorrisos, bebidas partilhadas. O primeiro toque. E o olhar: convidando, aceitando.
Entram no hotel em silêncio, um pouco apressados, tentando dissimular a ânsia. Beijam-se; despem-se; fodem.
Depois: deitados, ainda um pouquinho ofegantes; confortáveis, quase saciados. E alguém pede, num murmúrio: diz que me amas; o outro corresponde, sem embaraço: amo-te. E adormecem, talvez felizes.
Não chegaram a dizer os respectivos nomes.

Esboço # 04

Ouço-os em redor do meu caixão, falando baixinho. Lamentam-se, dizem que é injusto, tão injusto. Ficam calados durante uns instantes, talvez olhando para o chão, talvez perguntando-se que horas serão; e depois repetem: tão injusto.
Alguém diz, pesaroso: teve uma vida simples e monótona, tão altruísta. Ninguém responde: e o silêncio incomodando. Novo lamento: uma vida de sacrifício, para que fossemos felizes. Depois, uma confissão inesperada, quase inaudível: tanto que a amávamos.
E eu no meu caixão, quietinha. Um pouco surpreendida: amavam-me? E só agora é que mo dizem?

Esboço # 03

Dizia ela: apaixonei-me pelo teu sorriso. E eu deslizava a mão pela sua pele, acariciando; em silêncio. Cheiro de sexo, penumbra. E ela a dizer, baixinho: só pensava em ti, no teu sorriso. O seu mamilo, ainda rígido, esmagado contra o meu peito; quase, quase desconfortável. Respirações lentas, preguiçosas. E a sua voz, insistente: o teu sorriso excitava-me tanto. Uma dor nas costas; aborrecimento: já? Ela, repetindo-se: nas imaginas quanto me excitava.
E eu com vontade de perguntar: mas que intimidade se pode ter com um sorriso? E acrescentar: como se faz amor com um sorriso?

Esboço # 02

Caminhava pela rua e, por vezes, espiava os homens que passavam; olhava, dissimuladamente: e imaginava como seria fazer sexo com alguns deles. Uma distracção inócua e inconsequente, talvez apenas uma forma infantil de me conhecer, de me testar. Perguntava-me, quase excitada: como seria? Depois, esquecia.
Fantasiava, portanto. Mas um dia, enquanto desço uma rua movimentada, ocorre-me: afinal, quantos destes homens que observo também me observarão? Quantos espreitarão o meu decote e imaginarão o sabor do meu mamilo? Quantos quase se excitarão comigo?
Nenhum?

Esboço # 01

O elevador pára e entras. Vejo um fulgor de contrariedade no teu rosto, logo depois um sorriso esforçado. Vivemos no mesmo prédio há meses e nunca nos tínhamos cruzado; mas há uma convivência algo mórbida a unir-nos: apenas um andar divide as nossas vidas, insuficiente para impedir vozes, risos, gritos, gemidos de chegarem ao outro lado. Desconhecidos: e íntimos.
Desconforto. Olhares rígidos. Embaraço. Silêncio. E o elevador: tão lento. Claro que não falamos: que poderíamos dizer? Mas há uma dúvida que me angustia: e se te tocasse? Que aconteceria, se cedesse a essa tentação?