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Esboço # 07

Havia uma actriz que todos elogiavam pela excelência dos seus desempenhos; mas ela estranhava: porque o que louvavam era, afinal, a sua capacidade de fingir, mentir, iludir: de não ser ela própria.
Sim, percebera há muito que a sua vida era um extenso catálogo de fingimentos: para cada circunstância escolhia a personagem adequada e encarnava-a. Actriz a tempo inteiro, na verdade.
Até que, certo dia, apaixonou-se. E disse-lhe: amo-te tanto. Ele encolheu os ombros, indiferente: como poderia adivinhar que ela efectivamente (e talvez pela primeira vez) sentia o que dizia?

Esboço # 06

Estava um pouco assustada, quase apreensiva; havia, também, uma ponta de remorso, a consciência a incomodar. Mas quando, finalmente, entrou no elevador do hotel, sentiu, mais que tudo, excitação.
No quarto, deixou que o seu amante a despisse lentamente, embalado pelo entusiasmo da descoberta de um novo corpo. Depois, fizeram sexo demoradamente, concretizando semanas de fantasias.
Quando terminaram, ele caminha pelo quarto; liga a televisão; pega no telemóvel e fala com alguém do banco. E ela, decepcionada, pensa: se quisesse apenas foder, ficava em casa. Depois, di-lo.

Esboço # 05

Estão num bar, rodeados por fumo e gargalhadas estridentes. Olham-se por acaso e estudam-se mutuamente. Um deles levanta-se, caminha até ao outro. Sorrisos, bebidas partilhadas. O primeiro toque. E o olhar: convidando, aceitando.
Entram no hotel em silêncio, um pouco apressados, tentando dissimular a ânsia. Beijam-se; despem-se; fodem.
Depois: deitados, ainda um pouquinho ofegantes; confortáveis, quase saciados. E alguém pede, num murmúrio: diz que me amas; o outro corresponde, sem embaraço: amo-te. E adormecem, talvez felizes.
Não chegaram a dizer os respectivos nomes.

Esboço # 04

Ouço-os em redor do meu caixão, falando baixinho. Lamentam-se, dizem que é injusto, tão injusto. Ficam calados durante uns instantes, talvez olhando para o chão, talvez perguntando-se que horas serão; e depois repetem: tão injusto.
Alguém diz, pesaroso: teve uma vida simples e monótona, tão altruísta. Ninguém responde: e o silêncio incomodando. Novo lamento: uma vida de sacrifício, para que fossemos felizes. Depois, uma confissão inesperada, quase inaudível: tanto que a amávamos.
E eu no meu caixão, quietinha. Um pouco surpreendida: amavam-me? E só agora é que mo dizem?

Esboço # 03

Dizia ela: apaixonei-me pelo teu sorriso. E eu deslizava a mão pela sua pele, acariciando; em silêncio. Cheiro de sexo, penumbra. E ela a dizer, baixinho: só pensava em ti, no teu sorriso. O seu mamilo, ainda rígido, esmagado contra o meu peito; quase, quase desconfortável. Respirações lentas, preguiçosas. E a sua voz, insistente: o teu sorriso excitava-me tanto. Uma dor nas costas; aborrecimento: já? Ela, repetindo-se: nas imaginas quanto me excitava.
E eu com vontade de perguntar: mas que intimidade se pode ter com um sorriso? E acrescentar: como se faz amor com um sorriso?

Esboço # 02

Caminhava pela rua e, por vezes, espiava os homens que passavam; olhava, dissimuladamente: e imaginava como seria fazer sexo com alguns deles. Uma distracção inócua e inconsequente, talvez apenas uma forma infantil de me conhecer, de me testar. Perguntava-me, quase excitada: como seria? Depois, esquecia.
Fantasiava, portanto. Mas um dia, enquanto desço uma rua movimentada, ocorre-me: afinal, quantos destes homens que observo também me observarão? Quantos espreitarão o meu decote e imaginarão o sabor do meu mamilo? Quantos quase se excitarão comigo?
Nenhum?

Esboço # 01

O elevador pára e entras. Vejo um fulgor de contrariedade no teu rosto, logo depois um sorriso esforçado. Vivemos no mesmo prédio há meses e nunca nos tínhamos cruzado; mas há uma convivência algo mórbida a unir-nos: apenas um andar divide as nossas vidas, insuficiente para impedir vozes, risos, gritos, gemidos de chegarem ao outro lado. Desconhecidos: e íntimos.
Desconforto. Olhares rígidos. Embaraço. Silêncio. E o elevador: tão lento. Claro que não falamos: que poderíamos dizer? Mas há uma dúvida que me angustia: e se te tocasse? Que aconteceria, se cedesse a essa tentação?

# 51: Unidos na separação

1.
Pouso o livro em cima da cama, mesmo junto da tua mão, e fecho os olhos durante um instante. Escuto o silvo da tua respiração, que continua hesitante, contrariada, arrastando-se sem vontade nem objectivo; como a minha. Estou cansada, uma vaga dor de cabeça corrói-me o confortável estado de indiferença e apatia que tem marcado estes dias, forçando-me a um indesejável estado de vigilância, de consciência, de aceitação, recordando-me que tenho de permanecer viva, agir e pensar, sentir.
Abro os olhos, tentando não denunciar a esperança nem a ansiedade que não consigo deixar de acalentar; tentando não sentir, incapaz de não sentir. E procuro-te: mas claro que não te moveste um centímetro, que nada mudou. Continuas a morrer, devagarinho.
Apenas mais uns segundos que passaram: para nada.
Pego no livro e recomeço a leitura, em voz quase murmurada, sem expressão nem vivacidade, apenas pronunciado as palavras, sem as perceber, sem as saborear, sem as sentir. Gastando-as.

2.
Lembras-te?
Sentavas-te junto de mim, recostando-te nas almofadas; aconchegava-me ao teu corpo, segurava o livro contigo; e esperava. Ruído da televisão, distante; um carro que passava mesmo por baixo da janela; um cão a ladrar; a máquina de lavar roupa a estremecer, na cozinha; a mãe na casa de banho, a água a correr. Então, começavas a ler uma das minhas estórias de princesas: e eu escutava, com atenção. Por vezes, ria; interrompia, para perguntar qual o significado de uma palavra – e tu explicavas, quase sempre com paciência; ou pegava a tua mão, quando me assustava. Ias lendo e eu suponho que passava o tempo a perguntar-me quando conseguiria ler as minhas estórias, quanto tempo faltaria para conhecer as letras e perceber os seus segredos, se alguma vez conseguiria ler tão bem como tu.
Escutava-te, sentindo-me tranquila. Muitas das estórias já as conhecia bem, talvez até me aborrecessem um pouco. O que me agradava, afinal, era simplesmente ouvir-te, sentir a tua presença, saborear a tua atenção.
Depois, levantavas-te e arrumavas o livro; puxavas os cobertores, aconchegavas-me; davas-me um beijo na testa, acariciavas-me o cabelo; dizias: vou vestir o pijama, já venho.
E eu ficava à tua espera. Ruído da televisão, distante; um carro que passava mesmo por baixo da janela; um cão a ladrar; a máquina de lavar roupa a estremecer, na cozinha; a mãe na casa de banho, a água a correr. E voltavas sempre; claro que eu já tinha adormecido mas o importante é que voltavas sempre, noite após noite.

3.
A enfermeira entra e olha para os monitores, faz uns ajustes inconsequentes aqui e ali, suponho que apenas para justificar a sua presença. Abre um pouco da janela, numa tentativa impotente de tornar a noite menos sufocante, de dissipar um pouco o calor. Vejo algumas gotas de suor, minúsculas e tão, tão inestéticas, na sua testa, e também no lábio superior; os cabelos estão um pouco desgrenhados, dando-lhe um ar algo selvagem, pouco profissional: e ainda seis horas pela frente, até acabar o seu turno. Não deve vestir nada por baixo da bata, as saliências provocadas pelos mamilos são obscenamente identificáveis sob o tecido. E tem um relógio no pulso direito, lindíssimo; a marca de um anel, identificando-a como casada, talvez feliz. Passa por mim sem me olhar, uma vez mais; a sua indiferença agride-me um pouco, surpreende-me a sua postura ofensiva. Ou será apenas desinteresse?
Uma filha que lê, em voz alta e monótona, ao seu pai moribundo. Patético, certamente. Mas tão difícil, talvez impossível, que é ser não patético.

4.
Lembras-te?
Fizemos um calendário, juntos. Desenhámos os dias, as semanas, os meses. Disseste: quando chegar este dia, já consegues ler. E eu acreditei.
Contava os quadradinhos, que eram muitos. Por vezes, escolhia um livro, pensava: este vai ser o primeiro que vou ler. E depois, mudava de ideias.
Mas duas semanas mais tarde (acho que foram duas semanas), perdi o calendário.

5.
De repente, reparo que o que estou a ler me parece vagamente familiar; e no instante seguinte, percebo que me estou a repetir, que estou há não sei quanto tempo a ler a mesma página. Interrompo a leitura, assustada. E um medo inesperado trespassa-me, vertiginosamente: e se a minha leitura, a minha presença, está, simplesmente, a aborrecer-te, a incomodar-te, a importunar-te?
Começo a chorar, histericamente. Olho em volta, sentindo-me perdida e desamparada, abandonada e esquecida pelo mundo, impotente. As perguntas de sempre, repetindo-se: que fazer?, para onde fugir?, como suportar? Rodeada pelo silêncio lúgubre do hospital, sozinha; e tu, imóvel: para sempre. Sinto-me, não consigo deixar de me sentir, a criança indefesa e assustada que – possivelmente – nunca deixei de ser; e pergunto-me, apenas por hábito, sabendo que não obterei resposta: quem me protegerá, agora?

6.
Lembras-te?
Depois, um dia, aprendi a ler. Continuavas a sentar-te junto de mim, recostando-te nas almofadas; aconchegava-me ao teu corpo, segurava o livro contigo; mas agora eras tu que esperavas. E eu lia, devagar mas com confiança, certa de que tu sabias que o aprendera a fazer apenas para te impressionar, para te agradar. Lia: sabendo que enquanto o fizesse jamais ficaria sozinha.
Por vezes, adormecias. Interrompia a leitura durante um bocadinho, talvez sorrisse; e depois, continuava a ler, feliz e orgulhosa, tranquila. Sentindo-me acompanhada.

7.
A enfermeira pega-me pelos ombros, com uma gentileza firme e profissional que me surpreende, que agradeço. Caminhamos para fora do quarto, lentamente, em silêncio; ainda choro, apoiada no seu corpo, manchando a sua bata com as minhas lágrimas. Conduz-me até uma sala de espera deserta, excessivamente iluminada: e ficamos ali paradas durante uns segundos, sem saber o que fazer, sem objectivo nem destino, talvez à espera que o choro cesse, ou a manhã chegue, ou o mundo acabe. Ainda penso, por um instante, que me vai abraçar, confortar-me com a solidariedade do seu corpo, da sua proximidade, da sua disponibilidade, apertar-me contra o seu peito; mas não o faz, claro que não o faz.
Ouço os seus passos no corredor, afastando-se. Gostava tanto que se sentasse junto de mim; talvez até pudesse pegar-me a mão; e sorrir, só uma vez, seria suficiente. E eu, então, falaria baixinho, só para ela – ou talvez só para mim. Confessaria que me custa perder o meu pai, perder-te, porque ficarei inapelavelmente mais sozinha no mundo, que a tua morte me custa (apenas?) pelo que significa e representa para mim. Confessaria, com alívio, isto: o que me custa verdadeiramente não é a tua morte mas as suas consequências na minha vida. Partilharia com ela, uma desconhecida, este meu profundo e abjecto egoísmo e, por um instante, sentiria a sua compreensão ou, pelo menos, a sua solidariedade. Apertar-me-ia a mão, em silêncio, recordando-me que há sempre, algures no mundo, uma possibilidade de companhia, de não- solidão; talvez falássemos sobre o seu relógio, muito tempo depois; ou de outra banalidade qualquer. A noite a avançar, lenta; o calor sufocando-nos. Momentaneamente unidas.

8.
Lembras-te?
Houve um dia em que não me apeteceu ler alto, não me apeteceu ler para ti. Não sei porquê, ou talvez simplesmente pelo mais cruel dos motivos: por nada. Tu percebeste: e deixaste de vir.
Quase tudo como antes: ruído da televisão, distante; um carro que passava mesmo por baixo da janela; um cão a ladrar; a máquina de lavar roupa a estremecer, na cozinha; a mãe na casa de banho, a água a correr. Eu a ler baixinho, só para mim; e tu, do outro lado do mundo, no teu quarto, a ler baixinho, só para ti. Unidos na separação.