Statcounter

Esboço # 16

– E depois?
– Uma noite estávamos no carro, de regresso de um sítio qualquer, de um restaurante ou assim, nada de especial: os dois calados, com pressa de chegar a casa, com vontade de dormir, de encerrar o dia e esperar pelo próximo. Íamos em silêncio, talvez um pouco distantes, cada um a pensar nas suas banalidades secretas e mesquinhas e irrelevantes; eu a conduzir, ela a olhar pela janela; carros a ultrapassarem-nos, camiões muito iluminados por todo o lado, semáforos intermitentes; o cheiro do perfume dela ainda muito intenso, quase desagradável. Não estávamos chateados ou amuados ou indispostos: apenas sem vontade de partilhar fosse o que fosse, de falar ou ser ouvidos, de pensar alto, de verbalizar sentimentos, estados de espírito, sensações insignificantes.
– Mas confortáveis.
– Sim, bastante. E como o rádio estava ligado, baixinho mas perceptível, havia música a preencher o espaço entre nós. Percebes? A acompanhar-nos. De certo modo, a unir-nos e a alienar-nos, em simultâneo.
– Isso acontece com toda a gente. Há sempre alguém que liga o rádio; que tenta desligar o silêncio.
– Então, íamos ali atrás de um camião vagaroso, no rádio uma música um bocado irritante mas que ela ia a assobiar, baixinho. Pressa de chegar, de estar noutro lado. E dei por mim a pensar num pormenor em que já reparara antes, noutras noites silenciosas, mas a que nunca dera grande importância.
– Qual?
– Sempre que entrávamos no carro, a primeira coisa que ela fazia, depois de apertar o cinto, era ligar o rádio. Sempre. Mesmo que estivéssemos a conversar ou a rir ou chateados ou com dor de cabeça. E de repente, percebi porquê. Percebi, simplesmente: sem que estivesse à procura de um explicação, sem sequer suspeitar que havia uma explicação, uma necessidade de explicação. Percebi.
– Porque se sentia desconfortável. E precisava de preencher o silêncio.
– Sim. Enchê-lo. Disfarçá-lo.
– Desligá-lo.
– Isso: desligar a intimidade. A proximidade.
– E como te sentiste, perante essa descoberta? Perceberes que a tua mulher não tinha nada para te dizer, não se sentia confortável na tua presença: ao ponto de precisar de preencher o silêncio com música, com vozes estranhas, com o barulho da publicidade. O que sentiste?
– Fiquei magoado, claro; senti-me enganado e despeitado, atraiçoado. Mas havia outro sentimento que se sobrepunha ao ressentimento, suplantando a dor. Que prevalecia.
– Alívio. Porque sentias o mesmo: também não tinhas nada para lhe dizer, e incomodava-te a obrigação de partilhar com ela o vazio, de assumir o silêncio; de enfrentar o fracasso evidente da vossa relação. Alívio por perceberes que a culpa não era apenas tua.
– Sim: divisão da culpa. Percebi, naquela noite escura, enquanto olhava para a traseira do camião vagaroso e aquele assobio alienado, indisposto com o perfume dela, que o problema não era apenas meu; que, afinal, sentíamos o mesmo, apesar de não sermos capazes de falar sobre isso. De não querermos falar sobre isso.
– E o rádio proporcionava-vos um adiamento. Podiam fingir que estavam concentrados na música, a partilhar um gosto comum, uma cumplicidade; confortáveis. Até podiam fingir acreditar que, de certa forma, havia ali uma intimidade agradável, um salutar à-vontade com a presença do outro, com o silêncio do outro.
– Quando o que acontecia, na realidade, é que tentávamos esquecer a presença do outro.
– Tentavam. E conseguiam?
(Mas ela entrou na sala, nesse momento. E eles ficaram a olhá-la, em silêncio.)

Esboço # 15

Chegas com o rosto cansado e abatido; beijas-me a face, mesmo junto aos lábios, por vezes sorris. Ficas uns segundos a olhar para mim, como se não soubesses que fazer; depois lamentas-te de qualquer coisa, sem grande convicção; não perguntas como foi o meu dia mas escutas-me, sem me olhares, enquanto vou falando. Inevitavelmente, canso-me do monólogo: de me ouvir, também de te importunar; e calo-me; o silêncio envolve-nos, agressivo.
Então, afastas-te com passos lentos e arrastados; espreitas o quarto do miúdo, vais à casa de banho. Por fim, sentas-te em frente do computador: e desapareces.
Continuo a preparar o jantar, temperando alface ou desfiando bacalhau, provando o arroz. Há alturas em que me pergunto quando terei deixado de ser tua mulher, aceitando resignadamente este papel de empregada de pensão que me atribuíste; mas, confesso, é raro: prefiro espreitar a televisão, distrair-me. E adiar só mais um dia a pergunta, a decisão: até quando?

Esboço # 14

Sim, suponho que terá havido outros sinais, antes; ténues revelações, ou mesmo inconscientes declarações de intenções futuras; talvez. Contudo, é apenas agora, neste preciso momento em que, rotineiramente, te aproximas para me beijar, que percebo. Há algo no teu olhar, um brilho diferente, fulgurante e desafiador, um brilho autêntico e ostensivo que te denuncia: estás apaixonada.
E, no mesmo instante, enquanto te vejo fechar os olhos suavemente, enquanto sinto o breve toque dos teus lábios, aceito a irremediável verdade: sim, estás apaixonada. Um segundo depois, quando já afastas o teu rosto, olhos ainda fechados, já tão distante, não resisto a perguntar-me: por quem?
Mas, na verdade, acho que nem quero saber.

Esboço # 13

Sento-me no sofá e fecho os olhos; respiro devagar, esperando que o corpo se recomponha, acalme; aguardando esse momento mágico em que deixarei de o sentir. Na mente, a repetição lentíssima do funeral, momento após momento; e a recordação do sofrimento que senti, apenas há alguns minutos: intensificando-se.
Abro os olhos. À minha frente, as tuas estantes de livros; centenas e centenas de volumes: o teu orgulho. Sorrio, melancólico: recordando-te na tua poltrona, com um qualquer destes livros nas mãos; e o teu olhar: tão feliz.
Volto a fechar os olhos, de súbito invadido pela tristeza, pela dor; pela revolta, também. E pergunto-me: para quê tanta leitura? Que diferença fez? Pergunto-te, apenas agora, demasiado tarde: Oh pai, não teria sido tão bom se o tempo que gastaste a ler todos estes livros tivesse sido passado comigo?

Esboço # 12

Quando te sentaste ao meu lado, senti o toque acidental do teu braço. Fiquei rígido, talvez um pouquinho ansioso: claro que não há nada mais excitante que um corpo desconhecido; o toque, a possibilidade, a descoberta. E permaneci imóvel, saboreando a tua presença.
O autocarro a avançar, lento; pessoas alheadas e indiferentes. Lá fora: a cidade a deslizar, longínqua. E de repente: começas a chorar; em silêncio, secretamente. Devagar, tão devagar.
Não sei porque o faço: mas estendo a mão e procuro-te.
Mais tarde: largas-me os dedos; depois, levantas-te. Sais: e a cidade continua a deslizar, desinteressada. Levando-te.
Não chegaste a olhar-me.

Esboço # 11

Penumbra e silêncio, o mundo tão distante, indiferente: e uma nova mulher no seu quarto. Estendia a mão, devagar, e tocava: sentindo na ponta dos seus dedos a pele dela.
Depois, despia-a. Devagar, peça a peça; estudava cada pormenor do corpo, com ansiedade e deleite: como se fosse o primeira mulher que via nua perante si. Por vezes acariciava-a, com timidez, quase com reverência; ou aproximava o rosto e observava, atento. Beijava, também: a coxa, o mamilo, o umbigo; mas sem sofreguidão nem impaciência.
Mas quando conhecia detalhadamente o corpo nu e a volúpia da revelação se dissipava, afastava-se delicadamente. Para ele, bastava. O prazer estava, todo, na descoberta de um novo corpo; fodê-lo aborrecê-lo-ia imenso.

Esboço # 10

Foi logo no primeiro dia de férias que, passando os olhos pelas velhas estantes, decidi reler alguns dos livros da minha juventude. Livros de outras férias: amarelecidos e com manchas, cobertos de pó; intocados há tanto tanto tempo.
Fui lendo, dia após dia, livro após livro. Evocando memórias e sensações, revivendo os longínquos dias em que aquelas mesmas linhas me insuflavam de ânimo e sonho, de esperança; de ilusão. Mas agora: apenas nostalgia; e a certeza, chocante, de que o tempo não volta atrás, não pára, não chega.
Os livros de volta às estantes, desordenados. E o Verão: perdido. Gasto.

Esboço # 09

Entro no escritório e digo bom dia; alguém responde, num murmúrio contrariado. Rostos fechados, cabeças cabisbaixas; o silvo dos computadores misturado com os gemidos das cadeiras, com o sussurro das respirações. Ligo o computador e aguardo, sem pressa: mais uma vez, a sensação de que precisa de mais tempo para arrancar, que demora.
No outro dia, senti algo semelhante em relação ao elevador: mais vagaroso, como se estivesse cansado; e também o autoclismo: tanto tempo para encher. Tudo mais demorado; ou serei eu: mais lento em relação à vida? Ou mais impaciente em relação ao mundo?
Com pressa: de quê?