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Esboço # 17

Após tantos anos de casamento, partilhavam a sensação de que não havia nada mais a dizer, a escutar; conheciam-se intuitivamente, sem surpresas nem decepções: em silêncio. E a comunicação que pudesse existir restringia-se a questões práticas, relativas à manutenção da rotina, à subsistência do casamento. Consideravam, com alguma razão, que a surpresa se esgotara (demasiado depressa?) e que tudo o que agora fosse dito dificilmente surpreenderia o outro, dificilmente justificaria a sua atenção, dificilmente acrescentaria algo; aliás: cada frase inconsequente que fosse proferida poderia até acentuar e reforçar o desinteresse do outro, proporcionar-lhe um pretexto para desistir (desistir de quê?), recordar-lhe que – afinal – estava ali a perder tempo (a gastar tempo), recordar-lhe que o casamento esgotara-se há muito. (É verdade que nunca tinham propriamente conversado sobre tudo isto, sobre esta sensação: mas para quê? Como poderia não ser assim?)
Só pode, então, ter sido por absoluta distracção que naquela monótona tarde de domingo começaram a falar (a chuva batia nos vidros com um ruído agressivo enquanto a televisão disfarçava a cinzentude da sala – das vidas – com explosões de cor regulares; e havia um cheiro peculiar e insidioso, estranho, que ambos – em separado – tentavam identificar). Sim, começaram a falar, palavra após palavra, dizendo e escutando, olhando; e depois: o diálogo foi crescendo lentamente, sereno e agradável.
Foi a primeira vez que falaram em divórcio.

# 53: Seis horas, quase sete


Fotografia de José Luís P. Jorge


1.
Sim, suponho que continuo (ainda) à espera que chegues. Que venhas: e sorrias. Dirás (talvez) que tiveste saudades e olharás para mim em silêncio, durante um instante; e depois? Um beijo, breve, na face ou na testa ou no cabelo; e pegarás no meu copo de água, beberás um pouco. Depois, ficaremos em silêncio, olhando-nos sem pressa nem embaraço, confortáveis. Sem nada para dizer, para acrescentar.

2.
Enquanto fixo o olhar no vazio, por momentos incapaz de controlar (de perceber) os pensamentos que me distraem e alienam, lembro abruptamente o que me explicaram: o carro permaneceu durante horas debaixo das árvores (pinheiros, eucaliptos, ciprestes?), imóvel e silencioso, invisível, enquanto outros carros passavam pela auto-estrada, fulgurantes ou lentos, ruidosos (a noite avançava, escura e sombria, húmida); e tu: morto; eu: desmaiada; é o que contam (vozes sussurradas e pesarosas, comovidas), por isso talvez seja mesmo verdade. Estivemos ali todo aquele tempo (seis horas, quase sete), juntos; ambos mortos. Mas eu (dizem) decidi acordar (não sei bem porquê, para quê); e tu: não quiseste.
Olho em frente, refugiada nos óculos escuros (ofereceste-mos no meu último aniversário, lembras-te?) e envolvida pelo ruído matinal do café, enquanto vou pensando – uma vez mais – no que me contaram e explicaram, no que sou incapaz de recordar (pergunto-me como teria reagido se realmente tivesse acordado e te visse a meu lado, morto; talvez gritasse; talvez me deixasse morrer; talvez fugisse). E o cigarro vai-se esfumando, lentamente; talvez beba um pouco de água, daqui pouco. Passam pessoas perto de mim mas ninguém me olha. O chá deve ter arrefecido: esqueci-me de bebê-lo.
Continuo a olhar em frente, é tudo o que consigo fazer.

3.
Houve uma ambulância, disso lembro-me; depois, os corredores iluminados do hospital – paredes brancas manchadas pela humidade, cartazes de farmacêuticas; o rosto sorridente de uma enfermeira. E eu de olhos abertos mas sem ver nada, incapaz de perceber; gritos distantes, um riso dissimulado; o toque de um telefone, insistente. A enfermeira: sorrindo (dentes pouco cuidados, desagradáveis; e eu a perguntar-me: haverá algures um homem capaz de beijar esta boca, dia após dia?); e o sorriso a tornar-se vagamente desagradável, asfixiante.
Reparo, depois, que tenho a roupa rasgada; mas não me assusto (o que é estranho), tento simplesmente pensar no que poderá ter acontecido, recordar; apetece-me perguntar mas um pressentimento malévolo impede-me de fazê-lo, retrai-me; e, na verdade, não saberia o que perguntar. A enfermeira afastou-se e está, agora, a conversar com outra enfermeira; ainda sorri. Passa um médico, sem pressa, que não me olha. Ouço o ruído de uma sirene, muito distante, aproximando-se. Um ressonar longínquo, o apito regular de um qualquer aparelho hospitalar. Não sei quanto tempo terá de passar até alguém, finalmente, me explicar o que estou a fazer num hospital, estendida numa maca.

4.
A uma mesa do canto do café está sentado um rapaz de cabelos longos e brilhantes – reparo numa borbulha, desagradável, na testa; e há uma cicatriz quase imperceptível no lado esquerdo do nariz; tem um portátil à frente e bebe chá, em goles muito espaçados. Olho as suas mãos, os dedos finos e compridos, muito brancos: suponho que gostava de senti-los a percorrer a minha pele (acariciando), a minha carne (excitando); mas depois, logo depois, o pensamento desfaz-se, o desejo dissipa-se (na verdade, não chegou a existir). Poderia continuar a olhá-lo indefinidamente, com curiosidade, quase com interesse – aprendendo, até, a apreciar as suas imperfeições (a borbulha, a cicatriz, todas as outras); perguntando-me o que pensaria de mim, se por acaso me olhasse; talvez lhe sorrisse, se os nossos olhares se cruzassem; mas: e depois?
(Ou talvez pudesse pegar no telemóvel e ir percorrendo os nomes que guardo na agenda de contactos, tentando lembrar-me de todas as pessoas que fazem parte da minha vida: e perguntando-me se alguma delas estará a pensar em mim, interessada em ouvir-me.)
Há menos gente no café, agora. Lá fora, o sol brilha com excessivo fulgor. Acho que vou acender outro cigarro; e talvez o fume.

5.
Há, então, uma médica que se aproxima; sorri, penso que contrariada, triste. É muito nova, com um aspecto quase adolescente; mas, apesar disso, o seu olhar parece-me estranhamente tranquilo e maturo; permanecemos em silêncio durante um instante, à espera de algo indefinido (sinto o seu perfume discreto e enigmático; tão agradável); percebo que ela aguarda uma pergunta minha, a que certamente responderá com serenidade e afecto; mas (ainda) não sei que pergunta deva fazer. E os segundos vão passando, inconsequentes (perdidos); a fragrância do seu perfume a aproximar-nos. Então, sinto uma ponta de incómodo e apetece-me desviar o olhar, afastar-me e afastá-la; mas não chego a fazê-lo. Porque antes ela estendeu a mão e pousou-a no meu rosto, acariciando-me a face.
É ela que me fala do acidente, pela primeira vez; que me explica como fiquei uma eternidade (seis horas, quase sete) nos destroços do automóvel, talvez desmaiada, talvez em choque; que me conta (voz terna e pausada, embaladora; e a mão, pressionando) que morreste. Depois: um silêncio longo e desconfortável, tenso. Apenas então retira a mão da minha face, interrompendo a carícia; olha-me durante um momento e depois afasta-se, com passos lentos mas firmes, deslizando pelo corredor iluminado; fico a olhar para as suas costas, para o ritmo e simetria do movimento dos seus braços (ainda sentindo o seu toque suave), até que desaparece numa porta que, após a sua passagem, se fecha sozinha, ficando a balançar durante alguns segundos; e a presença do seu perfume dissipando-se no corredor, na minha memória.

6.
Vou esperando, sem impaciência. Alguma gente espalhada pelo café, indiferente e desinteressada; o tempo a passar, lento e regular, compassado, sem destino nem objectivo. O riso abafado (envergonhado?) de alguém; murmúrios de pessoas que falam baixinho, como se o que têm a dizer fosse um precioso e frágil segredo.
Reparo que, agora, há um homem de aspecto sorumbático e nervoso sentado junto ao rapaz do portátil; reparo, também, que os dedos finos e compridos, muito brancos, estão pousados na mão do homem. Tão patético que é o amor, a agressividade da sua ostentação; mas sinto inveja. Depois, logo depois, ignoro quem me envolve (as personagens que compõem este meu cenário) e volto a retirar-me do mundo; refugio-me em mim, nos pensamentos e nas memórias, nas dúvidas.
Olho a entrada, para além da entrada; sim: ainda espero que chegues. E então, quando chegares, depois de me sorrires e de me beijares e de me sorrires de novo, após o silêncio se instalar confortavelmente – há muito que, entre nós, se acabaram os murmúrios e os segredos –, talvez consiga olhar-te, sem desafio nem acusação, e perguntar-te (finalmente) há quanto tempo deixámos de nos amar.

7.
A enfermeira regressa. Pergunta (voz terna e atenciosa: profissional) se preciso de alguma coisa, sabendo que nada responderei. Sorri. Temo que me vá acariciar o rosto ou a mão, imitando a médica, mas não o faz, o que me alivia profundamente. Olha-me, apenas: sem desconforto nem pressa, paciente. Continua a sorrir. Talvez se pergunte de que estou à espera para começar a chorar.
Olho-a, sem animosidade. Talvez devesse explicar-lhe por que não estou a chorar. E penso nisso: há quanto tempo não choro? Olho o seu rosto simpático e curioso, interessado (sim, suponho que interessado), e tento recordar a última vez em que chorei; os segundos vão passando, monótonos: e não consigo.
Suponho que poderia explicar-lhe que, afinal, um marido é apenas uma pessoa com quem se vive, que nos sorri e nos ouve e nos fode e nos aborrece e nos ignora e nos diz – por vezes, é verdade – que nos ama; talvez ela entendesse.

8.
Continuo, então, à espera (não chegámos a despedirmo-nos: e gostava de o fazer). À espera que venhas: e sorrias. Dirás (certamente) que tiveste saudades e olharás para mim em silêncio, durante um instante; e depois? Um beijo, breve, na face ou na testa ou no cabelo; e pegarás no meu copo de água, beberás um pouco – é uma forma dos nossos lábios se tocarem. Depois, ficaremos em silêncio, olhando-nos sem pressa nem embaraço, confortáveis. Sem nada para dizer, para acrescentar.

# 52: Um vestido vermelho


Edward Hopper - Room in New York
1.
Continua sentada ao piano, passando os dedos pelas teclas, sem me olhar. Talvez se pergunte por que razão não reagi à sua entrada na sala, à sua escolha de roupa; optou por um vestido vermelho, longo e sem mangas, que há muito tempo não lhe via; talvez já esteja arrependida da escolha, talvez até se sinta ligeiramente desconfortável – é verdade que o seu corpo já não possui a elegância (a elasticidade) de outros tempos; e ela sabe-o, claro que sabe. Seria possível (aceitável) regressar ao quarto e mudar para algo completamente diferente, algo mais convencional – talvez aquele fato preto que comprámos na última viagem, por sugestão minha – mas é provável que não sinta qualquer motivação para o fazer; ou, pelo menos, que não sinta motivação suficiente; que diferença faria, afinal? Quem se importaria?
Toca uma qualquer melodia monótona e indefinida, que aprendeu algures durante a infância e que certamente não conseguirá identificar, reproduzindo-a mecanicamente, sem paixão nem virtuosismo, talvez sem gosto; depois pára, abruptamente; e o silêncio súbito é agradável, tranquilizador. Pensa (imagino eu que pense) na última vez em que usou o vestido vermelho – aquele baile de gala, quando o pai dela se reformou; lembro-me de repente, não sei como nem porquê; mas lembro-me: tão bem; e consigo, durante um fugaz momento, evocar a serenidade do seu rosto feliz, o cheiro do seu cabelo; a sua mão, pousada na minha. Recordará: tentando contabilizar quantos anos passaram. Quatro, suponho; ou cinco? Não: quatro. E (perguntará a si própria, distraidamente) o que mudou em todo este tempo, para que serviu – para que serve – a lenta passagem dos dias, dos meses, dos anos?
Respira fundo – o ar fresco entra no seu corpo com suavidade, o peito sobe com elegância – e volta a dedilhar as teclas do piano, sem intenção nem vontade. Pouco mudou, quase nada; ou tudo mudou. Haverá (pergunta-se ela; pergunto-me eu) realmente mudança ou apenas uma sugestão – um desejo (persistente e ingénuo, utópico) – de mudança?

2.
Viro a página do jornal, atento aos ruídos da rua, à aproximação de passos – a que horas chegará ele, afinal? Durante um breve instante apetece-me quebrar o silêncio e falar, talvez dizer algo que nos aproxime um pouco, momentaneamente; mais: provocar-lhe um sorriso – tão ambicioso que me sinto hoje –, mesmo que breve e quase (quase) imperceptível, mesmo que secreto (ou até inexistente: desde que o consiga imaginar); contudo, não me movo, suspeito que durante uns instantes nem me atrevi a respirar (temendo o quê?). Mas para que serviria, afinal, o sorriso? Que faria ela com ele? E depois, que viria depois do sorriso? Aperto o jornal nos dedos, com desnecessária violência, enquanto uma inesperada interrogação me percorre a mente, provocatória e insidiosa: para que servem os sorrisos? Viro mais uma página do jornal, devagarinho. A gravata aperta-me. Sinto fome. E pressa: de que este momento passe e venha outro.
Ela volta a insistir com o piano, repetindo a melodia de há pouco (e de repente, sem motivo nenhum – absolutamente nenhum –, a escolha do vestido vermelho parece-me acertada; excitante). Na verdade, não faço ideia do que estará a pensar (alguma vez fiz?), do que estará a sentir. Distraio-me com o cheiro do seu perfume, que me parece um pouco agressivo, pergunto-me se lho terei oferecido; talvez. Volto a concentrar-me no jornal, diligentemente: um político que se suicidou, não se sabe porquê; leio umas linhas, olho a fotografia de um homem sorridente (sim: para que servem os sorrisos?). Continuo a ler; volto a olhar a fotografia do político – penteado impecável, invejo-o. O que me apetecia realmente era ir dormir; aconchegar-me a mim próprio, fechar os olhos; e adormecer, sem me preocupar se ressonarei demasiado ou não. Sozinho? Sim, penso que sim: adormecer sozinho.
Mas arrependo-me do pensamento (arrependo-me? Não; envergonho-me, apenas.); e quase ergo a cabeça, para a olhar. Poderia – fantasio, sem convicção; sabendo que não o farei – esticar a mão e tocar-lhe o braço nu, sentir a sua pele na ponta dos dedos (outra vez, mais uma vez), talvez sentir o arrepio do seu corpo (mas: e depois?). Mais uma pergunta repentina e inesperada, desconfortável, flutuando-me pela mente: para que servem, afinal, as carícias? Fecho os olhos durante um instante, aborrecido com a monotonia dos meus pensamentos; depois, abro-os: e nada mudou.

3.
Inesperadamente, ela fala (e o som repentino da sua voz parece-me belo); pergunta, sem me olhar: lembras-te que, uma vez, fizemos amor contra este piano, de pé? Ergo a cabeça, muito devagarinho, sem a olhar, um pouco curioso, um pouco assustado. E ela prossegue, melancólica (sim, tão bela que me soa a sua voz): numa noite de Verão, quando regressámos de uma festa qualquer, lembras-te? Foi assim um bocado à bruta e acabaste muito depressa, mas foi tão bom. Mesmo bom. E depois rimos muito alto, juntos. E fomos para a cama, continuámos a fazer amor, mais devagar, menos sôfregos. Lembras-te?
Não, não me lembro.

Galeria # 02



Alberto Sughi - Due donne, Notturno

As duas mulheres têm um olhar estranhamente fixo e vazio, distante; não se movem, como se temessem captar a atenção de alguém, ou como se receassem revelar que, afinal, estão vivas. Mantêm-se alheadas, indiferentes ao ruído do bar, às gargalhadas, à nuvem de fumo que talvez as sufoque ligeiramente.
E a noite avança, vagarosa. Uma delas puxa o vestido, ajeitando o decote; a outra olha a sua companheira sem curiosidade nem interesse, cruza os braços em cima da mesa. Passam dois homens, ambos carecas, rindo alto; eles não as olham, elas também não. Há outras mulheres, noutras mesas: também à espera, ajustando os seus vestidos; e homens: quase sempre rindo alto, talvez rindo com tristeza; quem sabe o verdadeiramente significado de um riso, afinal? Um ruído confuso e caótico, difuso, quase ensurdecedor: a envolver tudo, todos. Unindo.
Inesperadamente, uma das mulheres suspira baixinho, quase com vergonha. A outra diz, num tom cansado e absorto: é esse o barulho que a alma faz, quando se lamenta; e durante um breve instante, parece que vai sorrir; mas não o faz.
Muito tempo depois, uma das mulheres puxa o vestido e ajeita o decote.

Galeria # 01



Alberto Sughi - La famiglia, l'amore


Retiras a mão do meu sexo e ergues-te um pouco, para me olhares bem enquanto dispo a camisola do pijama; estamos, agora, completamente nus, as nossas pernas a tocarem-se; mas não te apressas, afinal nem espreitaste os meus seios nus. Olhas-me nos olhos, como eu te olho nos olhos: e assim permaneceremos por muito tempo. Depois, deixar-te-ás cair sobre mim, com suavidade; o teu sexo encontrará o seu caminho, a tua língua também. Fecharei os olhos, então: finalmente; perguntar-me-ei, talvez, se também fechaste os teus.
Mas, no quarto do lado, o menino começa a ressonar suavemente; esqueceste-te de fechar a porta outra vez.

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LANÇAMENTO DO CONTOS DE ALGIBEIRA no dia 6 DE DEZEMBRO, 21h30min, NO FRÁGIL, em LISBOA.

Esboço # 15 (Extended vocal remix)

MULHER: Tenho uma amiga que diz que se sente como uma empregada de pensão. O marido chega a casa, dá-lhe um beijo na face e depois fica por ali, sem saber bem o que fazer. É capaz de espreitar o frigorífico ou pegar numa banana e ficar a comê-la enquanto olha pela janela. Mas nada mais. Estão ali, juntos, só há uns vinte segundos e o silêncio já se tornou agressivo; e ela, para aliviar o ambiente, para espevitar o silêncio, pergunta-lhe que tal foi o dia, como correu isto ou aquilo. Na verdade, confessou-me ela, não está especialmente interessada em saber; e claro que ele não está muito motivado para contar. Mas lá vai dizendo qualquer coisa, sem nem sequer disfarçar o enfado com que o faz. Frases curtas, monossílabos, nada de muito elaborado. E ela de volta dos tomates ou do peixe, sem grande vontade de estar ali na cozinha, que é onde está quase sempre, mas também sem nenhuma vontade especial de estar noutro sítio qualquer. (Pausa breve. Leva a chávena de chá à boca.) E depois, regressa o silêncio. Diz que ele não faz esforço nenhum e ela também se cansa depressa. Os dois parados, distraídos com o objecto que calhem ter na mão. Então, finalmente, ele lá desaparece. Enfia-se no escritório e liga o computador. Da cozinha, ela ouve o zunido enquanto vai descascando batatas. Diz que já não tem nenhuma curiosidade de saber que faz ele ao computador, como se distrai, como gasta o seu tempo. (Pausa breve.) Ela lá continua a cozinhar, sem vontade mas também sem desagrado, a sentir-se como uma empregada do marido. Põe a mesa, espreita a televisão. Depois chama-o. Comem em silêncio, a ouvir o noticiário. Diz que nunca comentam as notícias, ouvem e pronto. Ele come depressa, com sofreguidão. A minha amiga achava que era com gosto mas depois percebeu que era só avidez; e diz que o marido nunca lhe elogiou os cozinhados. Come, se gosta; deixa, se não lhe apetece. Comentários, nada. (Pausa breve.) Ficam para ali, calados. Depois, dá o intervalo do noticiário e ele levanta-se. E ela, a empregada da pensão, lá fica a arrumar; ouve a segunda parte do noticiário, que é quando dão as notícias menos idiotas, desliga a televisão. Limpa o fogão, liga a máquina da louça. Às vezes liga a máquina da roupa, em simultâneo. E fica a fumar na varanda, a olhar para os carros que passam. Diz que se pergunta algumas vezes se algum daqueles carros pararia para lhe dar boleia. (Pausa breve.) Pensa em mudar de vida, às vezes. Fugir. Mas fugir para onde? (Pausa breve.) E que fazer, quando chegar lá?
(Todos se empenham em não olhar para ninguém, em evitar o olhar de alguém.)
MULHER: Um dia, perguntou-me se comigo era parecido. (Pausa breve.) Desatei a rir. (Sorri. Bebe mais um gole de chá.)
(O MARIDO agita-se quase imperceptivelmente mas com visível desconforto.)
MULHER (após um momento de silêncio): Diz ela que o que lhe custa mais é que o marido já nem se esforce em fingir interesse. As pessoas pensam que surpreenderem alguém a fingir é uma desgraça, uma falta de respeito, um motivo para choros e separações; mas ela não concorda. Acha que a partir de certa altura a existência de fingimento é uma espécie de revelação de empenho, de preocupação pelos sentimentos do outro. (Pausa breve.) Claro que surge sempre aquele momento em que já não há surpresa, em que as pequenas rotinas se vão repetindo rotineiramente, em que a previsibilidade se torna algo quase confortável. Mas se alguém se der ao trabalhar de fingir que poderá não ser sempre assim, ou até de fingir que mesmo que seja assim para sempre não faz mal, bom, diz ela, é porque merecemos o esforço; e que bem que isso saberia, que novidade seria. (Pausa breve.) Até porque a alternativa é continuar como empregada de pensão para sempre.
MARIDO (dirigindo-se à MULHER, num tom quase rude): E porque achas que a tua amiga merece mais que isso?
(A MULHER olha o MARIDO, pela primeira vez. Sorri, muito levemente. Depois afasta o olhar, ignorando-o.)
MULHER (dirigindo-se ao AMIGO): Sabes onde estávamos, quando ela me contou estas coisas?
(O AMIGO abana a cabeça, sem olhar a MULHER.)
MULHER: Na cozinha. (Ri.)
(O AMIGO sorri, desconfortável.)
MULHER: Ela ia falando e eu acenava com a cabeça. Descascava umas cebolas e assim, para uma sopa. E ela falava e falava e falava.
AMIGO: Precisava de atenção, de uma audiência.
MULHER: E não precisamos todos? (Pausa breve.) Deixei-a falar, até se cansar. Tentando perceber, tentando identificar-me com o que ouvia; ou evitando identificar-me, não sei. Como alguém que vai ao teatro e está ali na sombra, a escutar, assimilando. (Pausa breve.) E depois, sabes o que fizemos?
(Toca um telemóvel; o AMIGO retira-o do bolso e fica a olhar para ele, sem contrariedade nem excitação; esperando, simplesmente. A MULHER olha-o com curiosidade, o MARIDO também; depois acende um novo cigarro e olha a nuvem de fumo a subir. O telemóvel cessa de tocar mas o AMIGO continua a olhá-lo durante uns segundos; depois arruma-o no bolso.)
MULHER (dirigindo-se ao AMIGO): Vimos televisão. (Breve pausa.) Em silêncio.
AMIGO (com alguma timidez): Não tinham nada para dizer.
MULHER: Não tínhamos nada novo para dizer.
AMIGO: Por vezes, sentimos uma vontade de falar violenta; não é? Precisamos de nos ouvir falar, para confirmar que estamos vivos, que existimos, que ocupamos um espaço e um tempo, que fazemos alguma espécie de diferença. (Pausa breve.) Mas noutras alturas optamos pelo silêncio, porque preferimos esquecer que existimos. Preferimos esquecer o que somos.
MULHER: Estás a querer dizer que o problema é não conseguirmos gostar de nós próprios? Apreciar o que somos?
AMIGO (enfrentando o olhar da MULHER): Se calhar o que quero dizer é que todos temos uma necessidade um pouco mórbida de nos sentirmos especiais e únicos. (Pausa breve.) E depois há alturas da nossa vida, muitas alturas, em que ninguém está particularmente interessado em nos mostrar essa especialidade, ou pior: em que ninguém a vê, a sente. E, um pouco para nos defendermos, deixamos de procurar pessoas que nos mostrem o quanto somos especiais, preocupando-nos apenas em evitar pessoas que nos lembrem o quanto não somos especiais.
(O MARIDO ri com algum desdém, sem erguer o olhar. A MULHER bebe um gole do seu chá.)
AMIGO (com falso entusiasmo): Transformamos os outros em espelhos, é o que é. Olhamos alguém com esperança que esse alguém reflicta aquilo que acreditamos ter de melhor; mas se o que o outro reflecte é menos agradável, a culpa só pode ser do espelho. (Sorri, com algum desconforto.) Acreditamos, ou queremos acreditar, ou fingimos acreditar, que a nossa imagem nunca é má, não pode ser má; quem a reflecte é que a distorce.
(Ninguém se olha. Silêncio longo e opressivo.)
MULHER (em tom meditativo): E por isso receamos, tantas vezes, olhar os outros: com medo de nos encontrarmos a nós próprios. (Pausa breve.) E de não gostarmos do que encontramos.
AMIGO (quase triste, cabisbaixo): Não olhamos para não nos encontrarmos. E não gostamos de ser olhados, para que ninguém nos culpe pelo que possa encontrar.
MARIDO (com alguma indiferença): Então, quem tem sorte são os cegos. Não é?
(A MULHER e o AMIGO olham o MARIDO, com algum desagrado, um pouco surpreendidos. Pouco depois, e quase em simultâneo, começam a rir.)