
Esboço # 17
Só pode, então, ter sido por absoluta distracção que naquela monótona tarde de domingo começaram a falar (a chuva batia nos vidros com um ruído agressivo enquanto a televisão disfarçava a cinzentude da sala – das vidas – com explosões de cor regulares; e havia um cheiro peculiar e insidioso, estranho, que ambos – em separado – tentavam identificar). Sim, começaram a falar, palavra após palavra, dizendo e escutando, olhando; e depois: o diálogo foi crescendo lentamente, sereno e agradável.
Foi a primeira vez que falaram em divórcio.
# 53: Seis horas, quase sete
1.
Sim, suponho que continuo (ainda) à espera que chegues. Que venhas: e sorrias. Dirás (talvez) que tiveste saudades e olharás para mim em silêncio, durante um instante; e depois? Um beijo, breve, na face ou na testa ou no cabelo; e pegarás no meu copo de água, beberás um pouco. Depois, ficaremos em silêncio, olhando-nos sem pressa nem embaraço, confortáveis. Sem nada para dizer, para acrescentar.
2.
Enquanto fixo o olhar no vazio, por momentos incapaz de controlar (de perceber) os pensamentos que me distraem e alienam, lembro abruptamente o que me explicaram: o carro permaneceu durante horas debaixo das árvores (pinheiros, eucaliptos, ciprestes?), imóvel e silencioso, invisível, enquanto outros carros passavam pela auto-estrada, fulgurantes ou lentos, ruidosos (a noite avançava, escura e sombria, húmida); e tu: morto; eu: desmaiada; é o que contam (vozes sussurradas e pesarosas, comovidas), por isso talvez seja mesmo verdade. Estivemos ali todo aquele tempo (seis horas, quase sete), juntos; ambos mortos. Mas eu (dizem) decidi acordar (não sei bem porquê, para quê); e tu: não quiseste.
Olho em frente, refugiada nos óculos escuros (ofereceste-mos no meu último aniversário, lembras-te?) e envolvida pelo ruído matinal do café, enquanto vou pensando – uma vez mais – no que me contaram e explicaram, no que sou incapaz de recordar (pergunto-me como teria reagido se realmente tivesse acordado e te visse a meu lado, morto; talvez gritasse; talvez me deixasse morrer; talvez fugisse). E o cigarro vai-se esfumando, lentamente; talvez beba um pouco de água, daqui pouco. Passam pessoas perto de mim mas ninguém me olha. O chá deve ter arrefecido: esqueci-me de bebê-lo.
Continuo a olhar em frente, é tudo o que consigo fazer.
3.
Houve uma ambulância, disso lembro-me; depois, os corredores iluminados do hospital – paredes brancas manchadas pela humidade, cartazes de farmacêuticas; o rosto sorridente de uma enfermeira. E eu de olhos abertos mas sem ver nada, incapaz de perceber; gritos distantes, um riso dissimulado; o toque de um telefone, insistente. A enfermeira: sorrindo (dentes pouco cuidados, desagradáveis; e eu a perguntar-me: haverá algures um homem capaz de beijar esta boca, dia após dia?); e o sorriso a tornar-se vagamente desagradável, asfixiante.
Reparo, depois, que tenho a roupa rasgada; mas não me assusto (o que é estranho), tento simplesmente pensar no que poderá ter acontecido, recordar; apetece-me perguntar mas um pressentimento malévolo impede-me de fazê-lo, retrai-me; e, na verdade, não saberia o que perguntar. A enfermeira afastou-se e está, agora, a conversar com outra enfermeira; ainda sorri. Passa um médico, sem pressa, que não me olha. Ouço o ruído de uma sirene, muito distante, aproximando-se. Um ressonar longínquo, o apito regular de um qualquer aparelho hospitalar. Não sei quanto tempo terá de passar até alguém, finalmente, me explicar o que estou a fazer num hospital, estendida numa maca.
4.
A uma mesa do canto do café está sentado um rapaz de cabelos longos e brilhantes – reparo numa borbulha, desagradável, na testa; e há uma cicatriz quase imperceptível no lado esquerdo do nariz; tem um portátil à frente e bebe chá, em goles muito espaçados. Olho as suas mãos, os dedos finos e compridos, muito brancos: suponho que gostava de senti-los a percorrer a minha pele (acariciando), a minha carne (excitando); mas depois, logo depois, o pensamento desfaz-se, o desejo dissipa-se (na verdade, não chegou a existir). Poderia continuar a olhá-lo indefinidamente, com curiosidade, quase com interesse – aprendendo, até, a apreciar as suas imperfeições (a borbulha, a cicatriz, todas as outras); perguntando-me o que pensaria de mim, se por acaso me olhasse; talvez lhe sorrisse, se os nossos olhares se cruzassem; mas: e depois?
(Ou talvez pudesse pegar no telemóvel e ir percorrendo os nomes que guardo na agenda de contactos, tentando lembrar-me de todas as pessoas que fazem parte da minha vida: e perguntando-me se alguma delas estará a pensar em mim, interessada em ouvir-me.)
Há menos gente no café, agora. Lá fora, o sol brilha com excessivo fulgor. Acho que vou acender outro cigarro; e talvez o fume.
5.
Há, então, uma médica que se aproxima; sorri, penso que contrariada, triste. É muito nova, com um aspecto quase adolescente; mas, apesar disso, o seu olhar parece-me estranhamente tranquilo e maturo; permanecemos em silêncio durante um instante, à espera de algo indefinido (sinto o seu perfume discreto e enigmático; tão agradável); percebo que ela aguarda uma pergunta minha, a que certamente responderá com serenidade e afecto; mas (ainda) não sei que pergunta deva fazer. E os segundos vão passando, inconsequentes (perdidos); a fragrância do seu perfume a aproximar-nos. Então, sinto uma ponta de incómodo e apetece-me desviar o olhar, afastar-me e afastá-la; mas não chego a fazê-lo. Porque antes ela estendeu a mão e pousou-a no meu rosto, acariciando-me a face.
É ela que me fala do acidente, pela primeira vez; que me explica como fiquei uma eternidade (seis horas, quase sete) nos destroços do automóvel, talvez desmaiada, talvez em choque; que me conta (voz terna e pausada, embaladora; e a mão, pressionando) que morreste. Depois: um silêncio longo e desconfortável, tenso. Apenas então retira a mão da minha face, interrompendo a carícia; olha-me durante um momento e depois afasta-se, com passos lentos mas firmes, deslizando pelo corredor iluminado; fico a olhar para as suas costas, para o ritmo e simetria do movimento dos seus braços (ainda sentindo o seu toque suave), até que desaparece numa porta que, após a sua passagem, se fecha sozinha, ficando a balançar durante alguns segundos; e a presença do seu perfume dissipando-se no corredor, na minha memória.
6.
Vou esperando, sem impaciência. Alguma gente espalhada pelo café, indiferente e desinteressada; o tempo a passar, lento e regular, compassado, sem destino nem objectivo. O riso abafado (envergonhado?) de alguém; murmúrios de pessoas que falam baixinho, como se o que têm a dizer fosse um precioso e frágil segredo.
Reparo que, agora, há um homem de aspecto sorumbático e nervoso sentado junto ao rapaz do portátil; reparo, também, que os dedos finos e compridos, muito brancos, estão pousados na mão do homem. Tão patético que é o amor, a agressividade da sua ostentação; mas sinto inveja. Depois, logo depois, ignoro quem me envolve (as personagens que compõem este meu cenário) e volto a retirar-me do mundo; refugio-me em mim, nos pensamentos e nas memórias, nas dúvidas.
Olho a entrada, para além da entrada; sim: ainda espero que chegues. E então, quando chegares, depois de me sorrires e de me beijares e de me sorrires de novo, após o silêncio se instalar confortavelmente – há muito que, entre nós, se acabaram os murmúrios e os segredos –, talvez consiga olhar-te, sem desafio nem acusação, e perguntar-te (finalmente) há quanto tempo deixámos de nos amar.
7.
A enfermeira regressa. Pergunta (voz terna e atenciosa: profissional) se preciso de alguma coisa, sabendo que nada responderei. Sorri. Temo que me vá acariciar o rosto ou a mão, imitando a médica, mas não o faz, o que me alivia profundamente. Olha-me, apenas: sem desconforto nem pressa, paciente. Continua a sorrir. Talvez se pergunte de que estou à espera para começar a chorar.
Olho-a, sem animosidade. Talvez devesse explicar-lhe por que não estou a chorar. E penso nisso: há quanto tempo não choro? Olho o seu rosto simpático e curioso, interessado (sim, suponho que interessado), e tento recordar a última vez em que chorei; os segundos vão passando, monótonos: e não consigo.
Suponho que poderia explicar-lhe que, afinal, um marido é apenas uma pessoa com quem se vive, que nos sorri e nos ouve e nos fode e nos aborrece e nos ignora e nos diz – por vezes, é verdade – que nos ama; talvez ela entendesse.
8.
Continuo, então, à espera (não chegámos a despedirmo-nos: e gostava de o fazer). À espera que venhas: e sorrias. Dirás (certamente) que tiveste saudades e olharás para mim em silêncio, durante um instante; e depois? Um beijo, breve, na face ou na testa ou no cabelo; e pegarás no meu copo de água, beberás um pouco – é uma forma dos nossos lábios se tocarem. Depois, ficaremos em silêncio, olhando-nos sem pressa nem embaraço, confortáveis. Sem nada para dizer, para acrescentar.
# 52: Um vestido vermelho

Continua sentada ao piano, passando os dedos pelas teclas, sem me olhar. Talvez se pergunte por que razão não reagi à sua entrada na sala, à sua escolha de roupa; optou por um vestido vermelho, longo e sem mangas, que há muito tempo não lhe via; talvez já esteja arrependida da escolha, talvez até se sinta ligeiramente desconfortável – é verdade que o seu corpo já não possui a elegância (a elasticidade) de outros tempos; e ela sabe-o, claro que sabe. Seria possível (aceitável) regressar ao quarto e mudar para algo completamente diferente, algo mais convencional – talvez aquele fato preto que comprámos na última viagem, por sugestão minha – mas é provável que não sinta qualquer motivação para o fazer; ou, pelo menos, que não sinta motivação suficiente; que diferença faria, afinal? Quem se importaria?
Toca uma qualquer melodia monótona e indefinida, que aprendeu algures durante a infância e que certamente não conseguirá identificar, reproduzindo-a mecanicamente, sem paixão nem virtuosismo, talvez sem gosto; depois pára, abruptamente; e o silêncio súbito é agradável, tranquilizador. Pensa (imagino eu que pense) na última vez em que usou o vestido vermelho – aquele baile de gala, quando o pai dela se reformou; lembro-me de repente, não sei como nem porquê; mas lembro-me: tão bem; e consigo, durante um fugaz momento, evocar a serenidade do seu rosto feliz, o cheiro do seu cabelo; a sua mão, pousada na minha. Recordará: tentando contabilizar quantos anos passaram. Quatro, suponho; ou cinco? Não: quatro. E (perguntará a si própria, distraidamente) o que mudou em todo este tempo, para que serviu – para que serve – a lenta passagem dos dias, dos meses, dos anos?
Respira fundo – o ar fresco entra no seu corpo com suavidade, o peito sobe com elegância – e volta a dedilhar as teclas do piano, sem intenção nem vontade. Pouco mudou, quase nada; ou tudo mudou. Haverá (pergunta-se ela; pergunto-me eu) realmente mudança ou apenas uma sugestão – um desejo (persistente e ingénuo, utópico) – de mudança?
2.
Viro a página do jornal, atento aos ruídos da rua, à aproximação de passos – a que horas chegará ele, afinal? Durante um breve instante apetece-me quebrar o silêncio e falar, talvez dizer algo que nos aproxime um pouco, momentaneamente; mais: provocar-lhe um sorriso – tão ambicioso que me sinto hoje –, mesmo que breve e quase (quase) imperceptível, mesmo que secreto (ou até inexistente: desde que o consiga imaginar); contudo, não me movo, suspeito que durante uns instantes nem me atrevi a respirar (temendo o quê?). Mas para que serviria, afinal, o sorriso? Que faria ela com ele? E depois, que viria depois do sorriso? Aperto o jornal nos dedos, com desnecessária violência, enquanto uma inesperada interrogação me percorre a mente, provocatória e insidiosa: para que servem os sorrisos? Viro mais uma página do jornal, devagarinho. A gravata aperta-me. Sinto fome. E pressa: de que este momento passe e venha outro.
Ela volta a insistir com o piano, repetindo a melodia de há pouco (e de repente, sem motivo nenhum – absolutamente nenhum –, a escolha do vestido vermelho parece-me acertada; excitante). Na verdade, não faço ideia do que estará a pensar (alguma vez fiz?), do que estará a sentir. Distraio-me com o cheiro do seu perfume, que me parece um pouco agressivo, pergunto-me se lho terei oferecido; talvez. Volto a concentrar-me no jornal, diligentemente: um político que se suicidou, não se sabe porquê; leio umas linhas, olho a fotografia de um homem sorridente (sim: para que servem os sorrisos?). Continuo a ler; volto a olhar a fotografia do político – penteado impecável, invejo-o. O que me apetecia realmente era ir dormir; aconchegar-me a mim próprio, fechar os olhos; e adormecer, sem me preocupar se ressonarei demasiado ou não. Sozinho? Sim, penso que sim: adormecer sozinho.
Mas arrependo-me do pensamento (arrependo-me? Não; envergonho-me, apenas.); e quase ergo a cabeça, para a olhar. Poderia – fantasio, sem convicção; sabendo que não o farei – esticar a mão e tocar-lhe o braço nu, sentir a sua pele na ponta dos dedos (outra vez, mais uma vez), talvez sentir o arrepio do seu corpo (mas: e depois?). Mais uma pergunta repentina e inesperada, desconfortável, flutuando-me pela mente: para que servem, afinal, as carícias? Fecho os olhos durante um instante, aborrecido com a monotonia dos meus pensamentos; depois, abro-os: e nada mudou.
3.
Inesperadamente, ela fala (e o som repentino da sua voz parece-me belo); pergunta, sem me olhar: lembras-te que, uma vez, fizemos amor contra este piano, de pé? Ergo a cabeça, muito devagarinho, sem a olhar, um pouco curioso, um pouco assustado. E ela prossegue, melancólica (sim, tão bela que me soa a sua voz): numa noite de Verão, quando regressámos de uma festa qualquer, lembras-te? Foi assim um bocado à bruta e acabaste muito depressa, mas foi tão bom. Mesmo bom. E depois rimos muito alto, juntos. E fomos para a cama, continuámos a fazer amor, mais devagar, menos sôfregos. Lembras-te?
Não, não me lembro.
Galeria # 02
E a noite avança, vagarosa. Uma delas puxa o vestido, ajeitando o decote; a outra olha a sua companheira sem curiosidade nem interesse, cruza os braços em cima da mesa. Passam dois homens, ambos carecas, rindo alto; eles não as olham, elas também não. Há outras mulheres, noutras mesas: também à espera, ajustando os seus vestidos; e homens: quase sempre rindo alto, talvez rindo com tristeza; quem sabe o verdadeiramente significado de um riso, afinal? Um ruído confuso e caótico, difuso, quase ensurdecedor: a envolver tudo, todos. Unindo.
Inesperadamente, uma das mulheres suspira baixinho, quase com vergonha. A outra diz, num tom cansado e absorto: é esse o barulho que a alma faz, quando se lamenta; e durante um breve instante, parece que vai sorrir; mas não o faz.
Muito tempo depois, uma das mulheres puxa o vestido e ajeita o decote.
Galeria # 01

Alberto Sughi - La famiglia, l'amore
Mas, no quarto do lado, o menino começa a ressonar suavemente; esqueceste-te de fechar a porta outra vez.


