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# 55: Visita

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Esboço # 20

Apaga a luz; depois, aconchega-se nos lençóis: e a cama range ligeiramente, o que me incomoda um pouco. Os nossos corpos tocam-se, acidentalmente. Suspira, depois boceja; volta a mover-se, os corpos deixam de se tocar. Silêncio pesado e escuro, espesso; apenas ouço o murmúrio das nossas respirações lentas e dessincronizadas: infinitamente distantes. Então, ela ergue-se; aproxima-se de mim, procurando o meu rosto na escuridão; dá-me um beijo nos lábios, breve e fugaz; um beijo de rotina. Não me movo, não reajo. Diz boa noite; respondo com uma vaga resmungadela. Ajeita-se, uma vez mais, preparada para adormecer. Suspira, de novo; e diz – como sempre, como todas, todas as noites: amo-te; voz cansada, tom desinteressado e distante.
Fico a pensar no seu amo-te; pergunto-me: mas que quer ela, afinal, dizer com isso, que significa amo-te? Para que serve dizê-lo? Penso um pouco nisso, de forma inconsequente e alheada, enquanto ela adormece. Uma ideia inesperada surge: talvez um dia lhe pergunte; e sorrio, no escuro. Sim, poderia perguntar-lhe: que queres dizer com isso?
Movo-me um pouco (timidamente?), ajeitando-me para adormecer; e a cama range, o que me desagrada.

Esboço # 19

Foi boa, a foda. Mas gostei especialmente da forma como me acariciaste o cabelo e me olhaste, depois dos orgasmos. Foi um gesto algo peculiar, inesperado: como se estivesses agradecido? Talvez.
Pouco depois, adormeceste. Respiração tranquila, lenta. O teu corpo a tocar o meu, impondo-se um bocadinho; mas sem ser desagradável. Vou pensando nisto – sentindo isto – enquanto ouço a chuva que vai caindo monotonamente, lá fora; e tão forte que está o vento, esta noite. Virá tempestade?
Agrada-me a tua presença, a companhia (e pergunto-me, um pouco envergonhada: será que também me agradaria, se não estivesses a dormir?). Vou fechando os olhos, lentamente; tão bom que é não ter pressa.
Se ainda aqui estiveres, quando eu acordar, talvez te pergunte como te chamas.

Esboço # 18

ELE (num tom nostálgico, quase triste): Antes, havia manhãs em que acordava leve, vazio: pronto a deixar-me preencher com o que o mundo tivesse para oferecer. (Pausa breve.) Optimista.
EU (um pouco – só um pouco – incrédulo): Optimista, tu?
ELE (pensativo): Sim, optimista; com fé e vontade, com desejo de vida. (Pausa breve.) E a primeira coisa que gostava de fazer era espreitar o céu; ver aquele azul imaculado e sem fim, iluminado pela luz mágica e misteriosa do sol da manhã; descobrir uma nuvem branca aqui, outra ali. E pensar: que dia tão bonito. (Sorri, para si mesmo. Pausa breve.) Deixava a mente vaguear, entretendo-me com pedaços de sonhos ainda não totalmente desvanecidos, misturados com intenções vagas, fantasias indefinidas; sempre sem desviar os olhos do céu, da imensidão libertadora. Não sei. Acho que o céu, para mim, sempre representou uma espécie de catálogo de oportunidades; como se todas as possibilidades, todas as escolhas, estivessem ali, à distância de um olhar. À minha espera. (Pausa breve.) E o tempo a passar; de longe, acabava sempre por chegar um qualquer ruído do mundo, um vestígio de vida, de outra vida: os inevitáveis indícios de que sob o azul do céu, o mundo continuava a rodar, lento, monótono, triste; recusando-se a parar, a desistir; mas caminhando sempre na mesma direcção, sempre com o mesmo objectivo: atingir o ponto de partida; recomeçar; repetir. (Pausa breve.) E lentamente, sentia-me desanimar; sentia o optimismo dissipar-se; de repente, o céu começava a parecer-me opressivo; as escolhas mesclavam-se e confundiam-se. Perguntava-me, acabava sempre por me perguntar: para que servem os dias bonitos, afinal?
EU (num murmúrio): Para nada?
ELE: Alguma vez sentiste o desgosto de acordar com um belíssimo dia pela tua frente e não saberes que lhe fazer, como o aproveitar? Perceberes que, irremediavelmente, o vais deixar fugir, como sempre fizeste antes? Perceberes que irás perder mais uma oportunidade e que, na verdade, não sabes se terás outra, se haverá outro dia bonito na tua vida?
(Sorrio, com tristeza; e essa é a minha única resposta. Lá fora, vai anoitecendo muito lentamente; pergunto-me se aparecerá a lua. Penso, quase distraidamente: talvez amanhã volte a ser um dia bonito.)
ELE (displicente, quase arrogante): E então, um dia, deixei de olhar para o céu. (Pausa breve.) Que se foda o céu.

Feliz


O meu pintor preferido reparou em mim. E concedeu-me um imerecido destaque no seu site. Estou comovido.
(Obrigado.)

Galeria


















Algumas das pinturas que pairam pelas estórias de
Silêncios entre nós:

Andare dove? L’uomo nel paesaggio – Alberto Sughi
April in Paris – Eric Fischl
Artistin (Marcella) – Ernst Ludwig Kirchner
Automat – Edward Hopper
Compartment C, Car 293 – Edward Hopper
Due donne, Notturno – Alberto Sughi
Femme qui tire son bas – Henri de Toulouse-Lautrec
Holiday Inn afternoon – Andrew Valko
Il banco del bar – Alberto Sughi
Krefeld Project, bedroom scene 5 – Eric Fischl
Krefeld Project, living room scene 5 – Eric Fischl
La famiglia, l’amore – Alberto Sughi
Naufragio – Alberto Sughi
Sunlight in a cafeteria – Edward Hopper
Tell a marketer – Kenney Mencher
The raft – Eric Fischl
Underground fantasy – Mark Rothko