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Comme d’habitude I

1.
Quando entro, olhas-me e sorris; aproximo-me devagar, antecipando o conforto do teu beijo, a familiaridade do teu cheiro, a carícia do teu toque. Cumprimos este ritual (desde quando? Como começou, afinal? Não me lembro) conscientes de que o abraço representa, talvez, o momento de maior intimidade, de maior partilha, de maior comunicação entre nós: o momento diário que simultaneamente redefine e rejuvenesce a nossa relação. Mas esta carga simbólica (poética?) não nos inibe, não nos constrange: precisamos do abraço, do que significa; e a cada dia, saboreamo-lo como se fosse a primeira vez, a última vez; a única vez.
Estamos juntos, finalmente: e os nossos corpos aconchegam-se, unem-se. Respiro o teu cheiro enquanto sinto a força dos teus braços, a tensão dos teus músculos; o teu rosto acomoda-se ao meu pescoço e encaixa com perfeição enquanto a minha mão acaricia o teu cabelo com delicadeza. E as nossas respirações serenam em sincronia enquanto o conforto que sentimos e partilhamos atrasa momentaneamente a voraz passagem do tempo. Ou, pelo menos, parece que assim é.
Pergunto-me, como sempre, se ainda sorrirás; que expressão terá o teu rosto? E os olhos: estarão abertos ou fechados? Não sei, talvez não queira verdadeiramente saber; afinal, é irrelevante.

2.
Cumpro, então, o meu hábito secreto. Os teus cabelos estão, como sempre, junto ao meu rosto, magicamente próximos; e concentro-me neles: olho-os, exploro-os, estudo-os; até encontrar o que procuro.
Nunca te contei, nunca falámos disto; mas a verdade é que durante o nosso abraço diário vou estudando e realizando uma espécie de inventário mental do teu cabelo. A verdade (suspeito que não gostarias de a conhecer ou, pelo menos, de a consciencializar, de a verbalizar; mas é, efectivamente, a realidade concreta e palpável, definitiva) é que todos os dias descubro um novo cabelo branco na tua cabeça.
Sim, todos os dias: um novo abraço, um novo cabelo branco; todos os dias: menos um dia.

3.
Por vezes (como agora), sinto a tentação de te perguntar se não terás já reparado nesta evidência da passagem do tempo, da diminuição dos dias disponíveis; terás notado que envelheces? E por que motivo nunca falámos sobre isso? Gostava de te confessar, também, o meu receio mais aflitivo; confidenciar-te que temo um pouco o dia em que todos os teus cabelos estejam brancos; porque, quando isso acontecer, como poderei continuar a ter a percepção da passagem do tempo? (Suponho que sorrirás, se te falar disto.) Quando for impossível descobrir um novo cabelo branco, como poderei ter a certeza de que o tempo ainda está efectivamente a passar, dia após dia, comme d’habitude? O que poderá testemunhar a mudança, provar-me que o tempo não parou, pelo menos para nós?
Sim, gostaria de te falar sobre tudo isto; e escutar o teu riso irónico e displicente, enquanto me escutarias, atenta, surpreendida; mas ainda não será hoje, agora. Porque sinto o teu corpo desprender-se do meu, afastando-me com suavidade. E logo desaparecem as reflexões, substituídas pela dúvida habitual, irrelevante e inócua, insistente: quanto tempo estivemos abraçados? (Por vezes, faço breves e ingénuos cálculos, estimativas, projecções: tentando adivinhar.) Quase em simultâneo, outra questão (menos irrelevante, menos inócua; mais insistente): por que motivo és sempre tu a decretar o fim do abraço?

4.
Olhas-me durante um instante, sorris (ou será ainda o mesmo sorriso?); depois, afastas-te, lânguida e preguiçosa (rejuvenescida?). Perguntas, lá de longe: o que te apetece para o jantar?

# 60: Enfado

1.
Aproxima-se, silenciosa; toca-me no braço e sorri; pouso o livro e tento disfarçar a contrariedade que sinto por estar a ser interrompido correspondendo ao seu sorriso. Diz que tem fome; respondo que já vou preparar o almoço; ela volta a sorrir e afasta-se, silenciosa. Eu pego no livro: e leio.

2.
Pouso o livro e espreguiço-me ligeiramente, tentando não reflectir demasiado no que acabei de ler; tiro os óculos e fecho os olhos, com força, proporcionando-lhes um breve intervalo. Sinto um prenúncio de dor de cabeça, aproximando-se; e fome, também.
Levanto-me e caminho em passos lentos até à cozinha; abro o frigorífico e tiro de lá uns bagos de uvas, que vou comendo enquanto espreito distraidamente pela janela; carros a passarem, indo e vindo: como sempre; mas continuo a olhar, na esperança que um destes dias aconteça algo diferente.
Apanho os caroços de uva que distraidamente cuspira para o chão e atiro-os para o balde do lixo; lavo as mãos cuidadosamente, enquanto me repreendo por não ter lavado as uvas. Procuro no congelador a caixa das mini-pizzas e ponho três no microondas. Um minuto e quarenta e cinco segundos, passando lentamente; a campainha que toca e um cheiro desagradável, artificial, a inundar a cozinha. Arrumo as pizzas no prato, lavo uma folha de alface, descasco uma pêra.
E chamo-a. Ela chega a correr e olha para o prato, sorri. Pergunta: outra vez pizza? E acrescenta, baixinho, só para si: estou mesmo com sorte. Abraça-me, apressadamente; depois, procura o comando e liga a televisão. Feliz.

3.
Caminho pela casa, entediado. Paro em frente de todas as janelas: e olho, à espera de qualquer coisa. Acabo por me sentar em frente do computador, ligá-lo: leio jornais durante três ou quatro minutos, visito um blogue onde leio umas cinco palavras antes de me aborrecer, actualizo o acrobat reader, visito o email; apetece-me música (ou melhor: apetece-me um silêncio menos intenso, menos ostensivo, menos incomodativo) mas não me consigo decidir por nada e acabo por desistir. Desligo o computador. Dou mais uns passos, sem sentido nem objectivo; pergunto-me se a dor de cabeça se concretizará ou não (sempre será uma distracção). Regresso à poltrona, sento-me, pego no livro. E é então, quando estou a ler a primeira palavra, que ela me chama.

4.
ELA (um pouco receosa): Prometeste que hoje íamos ao parque.
EU (contrariado): Está bem. (Suspiro, sem o disfarçar. Pausa muito breve.) Vamos daqui um bocado, antes do lanche.
ELA (feliz): Ok.
(Vira-se para a televisão, esquecendo de imediato a minha presença. E eu afasto-me, tentando decidir se me sinto contrariado ou não.)

5.
Sento-me num dos bancos e abro o livro preguiçosamente, começo a ler. Ela já trepou para um dos balancés e ri alto, muito alto. Esquecida de mim: outra vez.
Vou lendo, sentindo-me desconfortável: sol demasiado quente; banco muito rijo (mas não são todos?); uma vaga sensação de sede, ainda incipiente; uma mosca que por vezes aparece, zumbindo; e pressa, a constante pressa de partir, de estar noutro lado. Terão passado quatro minutos, seis no máximo: e trinta minutos de permanência é o mínimo aceitável pela minha filha. Por vezes, procuro-a com o olhar e fico a vê-la correr daqui para ali, dali para aqui; risos e gritinhos, felicidade. Mas regresso sempre ao livro; refugiando-me nele; leio alguns parágrafos, paro, mudo de posição; aborreço-me. Recomeço.
De repetente, destaca-se no murmúrio geral a voz de uma mãe a incentivar o filho, num tom presunçoso e condescendente; o miúdo olha-a, embaraçado, sem vontade de fazer o que a mãe deseja; mas ela não se cala, insistente e maçadora. Ele hesita e acaba por começar a trepar, impulsionado pela vergonha de sentir em si os olhares de todo o parque. Olho-a, curioso, distraído, e à distância parece-me uma mulher desagradável, com uma postura excessivamente (infundadamente) vaidosa; vou assinalando os pormenores que me desagradam (como se isso fosse relevante para ela, para alguém): óculos de sol enfiados no cabelo, horríveis e desmesurados, brilhantes; vestido demasiado curto revelando umas pernas muito longas, muito bronzeadas, muito desinteressantes; braços fortes e musculados, pouco femininos, denunciando presença frequente no ginásio; telemóvel na mão; anéis em muitos dedos, pulseiras; unhas pintadas, ostensivamente provocantes. Tento adivinhar onde estará a inevitável tatuagem enquanto vou observando os esforços do garoto, que de repente se desequilibra e grita, assustado; a mãe levanta-se e corre, decepcionada e furiosa (sim, parece-me que está mesmo furiosa); temo que bata no garoto mas não o faz, limita-se a pegar nele e pousá-lo no chão (os pés embatem com violência na terra, provocando uma pequena nuvem de pó); depois, agarra-o pelo braço e arrasta-o para a saída do parque, em silêncio. Fico a vê-la afastar-se: as nádegas bamboleando sob o tecido leve do vestido, uma pulseira balanceando no tornozelo; e o miúdo: cabisbaixo, talvez aliviado.
Regresso ao livro mas sou incapaz de me concentrar. Olho em redor mas nada me capta a atenção, nada me entusiasma a curiosidade; a miúda continua a correr de um lado para o outro, juntamente com outros miúdos. Há mais mães espalhadas pelos bancos (óculos escuros no cimo da cabeça e telemóveis nas mãos, olhares absortos), alguns casais de avós com máquinas fotográficas nas mãos e tristeza (ou será apenas indiferença?) nos olhares; gritos distantes da gente que joga futebol na outra ponta do parque misturados com os ruídos do tráfego da cidade, dissolvendo-se no sussurro dos pássaros escondidos pelas árvores.
E inevitavelmente: alguém conhecido que se aproxima com um sorriso.

6.
ELE (curioso): Qual é a tua?
EU (apontando): A que tem o boné cor de laranja.
ELE (surpreendido): Está tão grande. (Pausa breve.) Já tem o quê, seis?
EU (indiferente): Oito.
ELE (espantado): Oito? Fogo. Já anda para aí no segundo ano, não?
EU (indiferente): No terceiro.
(Ficamos os dois a olhar a miúda, em silêncio. O cão dele está sentado junto aos seus pés, imóvel e indiferente.)
ELE (quebrando o silêncio, que se torna algo desconfortável): Pois é, costumo passar por aqui com alguma frequência. (Apontando o cão.) Ele gosta de olhar para os miúdos. Correr atrás deles.
EU (olhando para o cão): E filhos? Continuas a pensar não ter?
ELE (após um longo silêncio, num tom pesaroso, quase envergonhado): Sabes, não sou eu que não quero. (Estende a mão e acaricia a cabeça do cão, com ternura; desvio o olhar, um pouco embaraçado.)

7.
Fico a vê-lo afastar-se, caminhando lentamente; o cão vai farejando o chão, um pouco mais atrás, indiferente ao dono. Há crianças que param durante uns instantes a olhar o cão mas nenhuma se aproxima, talvez receosas, talvez envergonhadas.
Um homem que passeia o cão. Como eu: que passeio a minha filha.

8.
Gelados na esplanada. Ela demora muito a escolher, indecisa; eu impaciento-me um pouco mas tento não o revelar; ela, como sempre, impacienta-se com a minha impaciência. Acaba por escolher, apressada; e mal a funcionária da esplanada lhe coloca o gelado na mão, por certo que se arrepende da sua escolha.
Sentamo-nos, evitando que os olhares se cruzem. Ela vai mordendo o gelado cuidadosamente, com aquela expressão estranha que as crianças – apenas as crianças – possuem: uma mescla perfeita de excitação e enfado; por vezes, tagarela um pouco; eu aceno com a cabeça, fingindo que escuto.
Ao nosso lado, a mãe estridente e o filho envergonhado partilham uma torrada, em silêncio, (também) sem se olharem. O miúdo parece indiferente e alheado, tal como a mãe. Recosto-me na cadeira e olho-a, sem pudor nem embaraço, percorrendo de novo os pormenores – superficiais mas marcantes – que me captaram a atenção, no parque; óculos de sol ainda enfiados no cabelo, horríveis e desmesurados, brilhantes (para que servirão, afinal?); vestido demasiado curto revelando as pernas muito longas, muito bronzeadas, muito desinteressantes (contudo: custa-me um pouco não as olhar); braços fortes e musculados, pouco femininos, denunciando presença frequente no ginásio (de certa forma, excitantes); telemóvel na mão (mas não há forma de tocar, pensará ela); anéis em muitos dedos, pulseiras (que entrechocam e tilintam, de forma desagradável); unhas pintadas, ostensivamente provocantes (mas e a tatuagem, onde estará? Ao fundo das costas, talvez).
Mas além do aspecto físico (que me exaspera um pouco mas, em simultâneo, me cativa de forma inesperada, intensa), sinto um breve fulgor de empatia com esta mulher. Porque, afinal, há algo profundo e inconfessável que nos une, silenciosa e secretamente: a obrigação de entreter os filhos; e o enfado que essa obrigação nos causa.
Claro que me sinto terrível, ao pensar isto; de mesma forma que me senti terrível no parque, quando pensei em homens que passeiam cães como se fossem seus filhos e homens que passeiam os seus filhos como se fossem cães (sinto de novo um incómodo no estômago, ao consciencializar este pensamento repugnante; e contraio-me ligeiramente, talvez até tenha feito uma careta de repulsa; a miúda, atenta e preocupada, pergunta: estás doente, papá?). Mas é precisamente por isso que não consigo deixar de a olhar, tentando talvez captar a sua atenção, o seu interesse; porque, na verdade, suponho que gostaria de discutir este assunto com alguém, conversar sem correr o risco de ser recriminado, confessar-me a alguém com pecados semelhantes; perceber que não sou o único.
Mas o gelado está quase no fim; na outra mesa, o miúdo brinca com um pedaço de torrada, aborrecido e desinteressado. E os adultos: olham-se, finalmente. Apenas um breve olhar, fugaz e perscrutador; uma avaliação de possibilidades, calculista e despudorada. Sim, suponho que poderia sentar-me na sua mesa; e enquanto os miúdos correriam juntos para o parque, conversaríamos preguiçosamente sobre responsabilidades parentais; partilharíamos experiências e histórias, embaraços e culpas. Principalmente isso: atenuaríamos e relativizaríamos e desculparíamos as culpas do outro.
Mas o telemóvel dela toca, inesperadamente; e ela atende, sorrindo.

9.
Estamos no carro, parados no trânsito. De repente, apetece-me conversar: e pergunto-lhe sobre a escola; ela encolhe os ombros, desinteressada; recosta-se na cadeirinha, para que eu perceba que está cansada. Não insisto.
Penso momentaneamente na mulher do parque, da esplanada; recordo o seu riso excessivo, enquanto conversava ao telemóvel; e o olhar do filho, (ainda; sempre) embaraçado e aborrecido. Depois, lembro-me do amigo do cão (o incómodo no estômago, de novo). Espreito a miúda pelo espelho, apreciando a serenidade do seu rosto. Alguém que buzina, acordando-me do devaneio, distraindo-me da culpa.
Avanço lentamente, recordando-me de súbito que esqueci o livro no banco do parque. Um breve fulgor de contrariedade, uma imperceptível hesitação; logo depois, um pensamento súbito e imprevisto, libertador: que se foda o livro.
Conduzo alheadamente, confundindo-me no trânsito, na multidão, no anonimato. Sim: que se foda. Tudo.

# 59: Altura

EU (quase distraído): E então refugio-me na varanda. Fumo e olho para o horizonte; sento-me no meu cadeirão e fico por aqui, à espera não sei de quê. (Pausa breve. Encolhendo os ombros, num tom displicente.) Sabes como é.
ELE (um pouco vacilante, como se falando apenas para si): A passar o tempo. (Pausa breve.) A adiar.
EU (num tom melancólico, ignorando o comentário): Geralmente, pego num livro e leio meia dúzia de linhas, sem fazer ideia do que estou realmente a ler. Mas insisto, vou fingindo que estou mesmo a ler, linha após linha; por vezes esqueço-me de mudar a página. (Pausa breve.) Uma desculpa, percebes? Uma forma de ter as mãos ocupadas. (Sorrio, muito brevemente.) Para o caso de alguém se preocupar com o que poderei estar a fazer, ter curiosidade. Lembrar-se de mim.
ELE (pensativo): É curioso, isso. Também já reparei. O modo como as pessoas receiam alguém que não esteja permanentemente ocupado, alguém que se atreva a estar simplesmente em stand by, à espera, em contemplação ou distraído ou assim. (Pausa breve.) Como se a imobilidade representasse um perigo, algo contagioso. Não é?
(Encolho os ombros.)
EU (após uma pausa, ignorando o comentário, a pergunta): Por vezes mudo de livro, agarro no primeiro que me atrai a atenção; ou passo por uma livraria e compro qualquer coisa, quase ao acaso. Mas já nem me lembro do último que li até ao fim. (Pausa breve.) Acessórios, nada mais.
(Ele sorri mas não correspondo; o seu sorriso vai-se apagando, lentamente; evitamos que os nossos olhares se cruzem, como se houvesse algum motivo de embaraço entre nós, algum constrangimento silencioso mas palpável.)
EU (tom distante e rígido, vacilante): E é nessas ocasiões que, por vezes, penso nisso. Sinto que não quero estar aqui, que não consigo estar aqui nem mais um instante; mas não há nenhum outro sítio onde queira estar, para onde me apeteça fugir. Sinto-me preso e condenado, completamente impotente, vulnerável. E então penso nisso.
ELE (após um longo silêncio): Saltar.
EU (um pouco chocado pela violência da palavra): Não é que pense obsessivamente ou metodicamente em saltar. Não, é uma ideia que vem e fica por aí um bocadinho, a pairar. Só isso. Uma espécie de possibilidade académica. Acho que nunca chegou a ser uma verdadeira tentação.
(Pausa breve. Acendo mais um cigarro, com gestos arrastados e mecânicos.)
ELE (olhando-me a acender o cigarro): Apenas uma vontade insistente de fazer algo, de agir. Não é? (Pausa breve.) Provocar o destino, precipitar a mudança. Saborear a ilusão de que, afinal, talvez se controle algo, talvez se tenha algum poder.
(Olho-o, um pouco impressionado com a sua análise; aceno com a cabeça e fumo, tranquilamente. Mantemo-nos em silêncio durante muito tempo, pensativos e distantes, esquecidos da presença do outro.)
EU (quebrando o silêncio e contrariando o leve desconforto que se foi instalando entre nós com um tom falsamente bem-disposto e prosaico): Mas sabes no que penso, por vezes? (Rio, forço-me a rir.) Que nunca saltarei porque serei sempre incapaz de me decidir se a altura é a adequada.
ELE (confuso, curioso; agradecido pela quebra do silêncio, pela regressão da tensão que momentaneamente surgiu entre nós e que, agora, se começa a dissipar): Não percebo.
EU (num tom novo e inesperado, genuinamente bem-disposto): O problema é decidir qual a altura certa. Se saltas de um sítio demasiado baixo corres o risco de não conseguir. Só te aleijas ou assim, e ficas pior do que estavas. (Pausa breve.) Mas se a altura é excessiva, demoras demasiado tempo até chegar lá ao fundo; e esse tempo pode ser suficiente para te arrependeres de ter saltado, percebes? E isso seria terrível, insuportável.
(Pausa longa. Ele levanta-se e dá uns alguns passos, hesitantes, pela varanda; olha lá para baixo, demoradamente. Volta a sentar-se e acende um cigarro, com gestos lentos e preguiçosos.)
ELE (num tom desprendido, sem me olhar): Vives num quinto andar. Parece-me perfeito.
(Rimos em simultâneo, com gosto e sinceridade mas também com desespero, com medo; depois o riso desvanece, muito lentamente. Continuamos a fumar, calados, ouvindo os risos estridentes de crianças que brincam algures.)

# 58: Mecanismos

PACIENTE (um pouco contrariada): Foi um pouco estranho, sabe? Mas pareceu-me, pareceu-nos, tudo muito natural, muito intuitivo e prosaico. Não é que estivéssemos a pensar naquilo, percebe? A analisar o nosso comportamento, a tentar justificá-lo. Não, nada disso. (Pausa breve.) Demos por nós a fazer aquilo, simplesmente; e pareceu-nos natural.
PSIQUIATRA (num tom inquiridor mas um pouco ambivalente): Confortáveis, um com o outro. Juntos, partilhando algo privado, algo íntimo.
(A Paciente acena com a cabeça mas permanece em silêncio. Pausa longa.)
PSIQUIATRA (forçando-se a interromper o silêncio): Mas o que aconteceu? Conte-me.
PACIENTE (após uma hesitação): No início, não soube bem o que pensar daquilo. (Sorri.) Cheguei mais cedo a casa, nem sei porquê, e ouço barulhos na sala; estranhei que ele já tivesse chegado e acho que me assustei um pouco. (O sorriso desaparece.) Sabe como é, pensei logo no pior. Pensei. (Pausa breve. Num tom envergonhado.) A doutora sabe o que eu pensei.
PSIQUIATRA (num tom suave, falsamente vacilante): Uma amante?
(A Paciente acena com a cabeça, sem olhar a Psiquiatra.)
PSIQUIATRA: Mas há algum fundamento para pensar nisso? Algum indício?
PACIENTE (encolhendo os ombros): Não, acho que não.
PSIQUIATRA: Apenas insegurança da sua parte.
PACIENTE (após um silêncio): Talvez. (Sorriso triste.) Porque não?
(Pausa breve.)
PSIQUIATRA (decidida, quase enérgica): Mas continue.
PACIENTE: Entro na sala, silenciosamente. Com medo de o surpreender em algo desagradável mas forçando-me a fazê-lo, incapaz de não o fazer. E no princípio nem percebo bem o que se está a passar. (Sorri.) Está no meio da sala, estendido no chão, a brincar com os carrinhos que o miúdo por ali deixou abandonados. Ali prostrado, a amarrotar a camisa e a gravata, a pasta pousada no sofá; completamente absorvido, distante. A imitar os barulhos, sabe? (Volta a sorrir.) Parece-me um pouco assustador mas, ao mesmo tempo, também enternecedor, percebe? (Pausa breve.) E fico ali a olhar, sem saber o que fazer. Embaraçada, suponho. Por mim, por o estar a interromper, a invadir a sua privacidade; mas também por ele, pelo seu comportamento, pela sua vulnerabilidade.
PSIQUIATRA (após uma pausa, incentivado a Paciente a prosseguir): E quando ele percebe que está lá, a observá-lo, que acontece?
PACIENTE: Há um momento terrível, em que ele me olha com medo e com fúria e sei lá que mais; um olhar muito breve mas tão incisivo, tão doloroso. (Pausa breve.) Assusto-me, devo ter recuado um passo ou dois, com vontade de fugir. Não sei bem. (Pausa breve.) Mas logo depois, aquele olhar dissipa-se; a acusação, o desagrado, o embaraço: desaparece tudo. E sorri.
(Pausa breve.)
PSIQUIATRA (um pouco surpreendida): Sorri?
PACIENTE: Sim, sorri. Um sorriso um pouco envergonhado, um pouco tímido, hesitante, receoso; perscrutador. Mas convidativo, sabe? Um sorriso de quem quer partilhar. De quem quer incluir o outro no sorriso, percebe?
PSIQUIATRA: E como reagiu? Que fez?
PACIENTE: Aproximei-me, simplesmente. E fiz aquilo que talvez fosse menos óbvio, menos natural. (Pausa breve.) Não fiz perguntas; não perguntei o que era aquilo, que significava, que raio se estava a passar. Não perguntei porquê.
PSIQUIATRA: Decidiu aceitar o comportamento dele como algo normal.
PACIENTE: Precisamente. Mas não sei explicar por que o fiz; não foi nada consciente. (Pausa breve.) Não foi nada do género (num tom de voz diferente, dramático): olha para este, ficou maluquinho mas vamos é fingir que está tudo bem. (Pausa breve. Sorriso. Tom normal.) Não, foi algo intuitivo, perfeitamente sincero, autêntico.
PSIQUIATRA (num tom pedagógico, como se recitasse algum de um manual): De certo modo, num plano inconsciente, aceitou o comportamento dele como explicável, como justificável. (Pausa muito breve.) Talvez porque tenha sentido algum grau de empatia com ele, naquele momento.
PACIENTE (receosa): Talvez. (Pausa breve.) Mas suponho que a verdadeira empatia apenas chegou mais tarde. Quando ele, sem que eu fizesse qualquer pergunta, me explicou porque estava a fazer aquilo.
PSIQUIATRA (num tom atento e preocupado, quase subserviente): Descreva-me como foi.
PACIENTE (suspirando de um modo dissimulado, como se estivesse cansada): Sentei-me ali no sofá e fiquei a olhar para ele. Não sei que viu ele no meu rosto mas penso que não encontrou lá nada de mau; embaraço ou sobranceria ou desprezo ou receio, nada disso. Pelo menos, tenho a certeza que não senti nada disso. Nada negativo. E se não o senti, não o poderia mostrar, não é?
PSIQUIATRA (forçando-se a ser paciente): Mas que sentiu, então?
PACIENTE (pensativa e distante): Suponho que apenas curiosidade. Não só de perceber, de compreender. Mas, principalmente, curiosidade de saber o que se iria passar de seguida, de saber o que estava para acontecer.
(Pausa breve.)
PACIENTE (num tom cuidado, quase reverente): Explicou que gostava de regressar à sua infância. Reviver a infância.
(Pausa longa.)
PSIQUIATRA: Por nostalgia? Porque se sentia seguro? (Após uma hesitação.) Para fugir?
PACIENTE: Por tudo isso, suponho. Para fugir, sim. Estava ali a brincar, como uma criancinha, e sentia-se livre, num mundo só seu, que ele próprio controlava. Onde não apareciam surpresas desagradáveis; ou, pelo menos, surpresas desagradáveis que ele não pudesse contornar. (Pausa breve.) Esquecia o mundo real e durante um bocado vivia num mundo imaginário, só seu.
PSIQUIATRA (inconsequente): Como uma criança.
PACIENTE (ignorando a Psiquiatra): O que ele explicou é que não tinha só a ver com controlo. Aliás, a motivação principal nem era a de fugir para um mundo que ele controlava, que dominava. (Pausa breve.) Era, mais, a de fugir para um mundo em que se sentisse relevante. Percebe? (Pausa breve.) Apreciado. Único. De certa forma, indispensável.
PSIQUIATRA (após um momento de silêncio): E quando ouviu isso, sentiu-se identificada.
PACIENTE (um pouco surpreendida): Muito.
PSIQUIATRA (recuperando o controlo da conversa): Fale-me disso. Dessa empatia que sentiu.
PACIENTE (hesitante): Sabe como é. Já falámos disso. (Sorri.) Falamos disso todas as vezes que aqui venho. (Pausa breve.) A monotonia da vida, dos dias. Das relações. A repetição, a banalidade, o aborrecimento, a arbitrariedade. Tudo isso. A sensação de que nada importa muito, que a nossa existência é acidental e inconsequente e irrelevante. Que a nossa presença não é verdadeiramente determinante para nada, para ninguém. (Pausa breve.) Sabe, tantas vezes que me sinto assim. Dispensável. Descartável. Acessória. Sei lá.
(Pausa breve.)
PSIQUIATRA: Mas nunca tinham falado disso? Desse sentimento comum.
PACIENTE (um pouco surpreendida): Nunca. Por isso é que tudo aquilo foi uma espécie de revelação, um inesperado e intuitivo acto de convergência. Surpreendi-o naquele momento vulnerável e ele, simplesmente, falou, confidenciou-se; e eu compreendi-o. Apenas isso. Comunicação básica. Sincronismo. (Pausa breve.) E ele percebeu que o entendia; porque eu sentia algo muito semelhante.
(Pausa longa.)
PSIQUIATRA: Mas, em simultâneo, não se sentiu excluída?
PACIENTE (um pouco surpreendida): Excluída?
PSIQUIATRA (no tom pedagógico de antes): A atitude dele representava, na prática, uma fuga ao mundo real. Ao mundo real que, como é óbvio, a inclui a si. Era uma fuga também em relação a si, à vossa relação.
PACIENTE (pensativa): Mas havia reciprocidade. Porque também eu fugia; também eu queria fugir à nossa relação.
PSIQUIATRA (incisiva): Queria?
PACIENTE (hesitante): Quero.
PSIQUIATRA (após um silêncio): Continuamos, então, a pensar em separação? (Pausa breve.) Em divórcio?
PACIENTE (após um longo silêncio; rindo, nervosamente): É curioso que finalmente tenhamos encontrado um ponto comum, algo que nos une, algo em que estejamos de acordo; e que esse elo comum seja, afinal, a vontade que cada um de nós sente de fugir ao outro. É irónico, não é?
PSIQUIATRA (incisiva): Não respondeu à minha pergunta.
PACIENTE (de novo séria, melancólica; num tom tímido, embaraçado): Não sei.
PSIQUIATRA (surpreendida, um pouco agressiva): Não sabe?
(A Paciente, magoada, abana a cabeça. A Psiquiatra olha-a em silêncio.)
PSIQUIATRA (pesarosa, talvez envergonhada): Desculpe. (Pausa breve.) Mas regressemos àquilo que me estava a contar. Que aconteceu de seguida?
PACIENTE (após uma hesitação): Conversámos. Ele falou-me de como era em criança, das suas longas tardes de brincadeira com os carrinhos; contou-me dos mundos fantasiosos que construía, dos sonhos que tentava concretizar através das brincadeiras que encenava. E eu ouvia, deliciada; compreendia aquilo tudo, porque fora exactamente o mesmo comigo; identificava-me.
PSIQUIATRA: Falou de si? Das suas próprias fantasias, quando era criança?
PACIENTE (sorrindo): Sim. Das barbies.
PSIQUIATRA (correspondendo ao sorriso): Barbies?
PACIENTE (nostálgica): Com ele, foram os carrinhos; comigo, eram as barbies. Contei-lhe como passava horas a fantasiar mundos felizes e ingénuos, perfeitos, seguros, com barbies e kens. E ele ouvia-me, com gosto; surpreendido por se rever em mim, de um modo tão inesperado.
(Pausa breve.)
PSIQUIATRA (num tom profissional e conclusivo): Quando o surpreendeu, ele decidiu não continuar a fugir; deixou-a entrar no seu mundo secreto, partilhou-o consigo. Foi algo instintivo, algo muito revelador. Uma prova de confiança. (Pausa breve.) E você correspondeu, acedendo ao convite. Entrando no mundo secreto; e respeitando-o.
PACIENTE (sorrindo): É mesmo isso. Entrei no mundo dele. Literalmente.
PSIQUIATRA (curiosa): Literalmente? (Sorriso.) Conte-me.
PACIENTE (num tom quase sonhador): Estávamos ali em silêncio, confortáveis; em perfeita sintonia, como já não acontecia há tanto tempo. E não queríamos que o momento terminasse, que tudo regressasse ao que era antes; à normalidade. Queríamos continuar a sentir aquele conforto, aquela empatia. (Pausa breve. Num tom diferente, mais hesitante.) E deve ter sido por isso que ele falou das barbies. Perguntou se eu não me lembrava que tinha uma caixa delas no sótão.
PSIQUIATRA (após uma pausa breve, num tom cuidado e hesitante): E foi buscá-las?
PACIENTE: Fui. (Pausa breve.) E foi então que tudo se tornou um pouco irreal, um pouco pateta. Mas pareceu tão natural, sabe? Pareceu a atitude correcta. (Pausa breve.) Ele a brincar com os carros dele, eu com as minhas bonecas. Consegue imaginar? Os dois esparramados no chão da sala, entretidos como duas crianças. Exactamente como nos teríamos comportado se nos tivéssemos conhecido quando éramos crianças. Felizes e confiantes, arrebatados; indiferentes ao mundo, às conveniências, à normalidade, a tudo. Juntos. (Pausa breve.) Consegue imaginar? Juntos.
PSIQUIATRA (num tom inesperadamente rude e veemente): Sabe, acho que todos os mecanismos que possam salvar a intimidade do casal e reforçar a relação, por mais peculiares que sejam, são válidos. Legítimos. Vale tudo, sabe? Desde que resulte, vale tudo. (Pausa breve.) Mas falamos melhor disto para a semana, está bem?