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# 61: Cicatrizes

1.
EU: E depois?
ELE (desviando o olhar): Congelei; fiquei a olhar para aquilo, sem saber bem o que estava a ver. Sem me conseguir mexer. (Pausa breve.) Consegues imaginar? (Abanando a cabeça.) Estás ali a despi-la, tentando parecer calmo, tentando não apressar demasiado, a saborear, convencido que ela também está a saborear; e estendes a mão para lhe agarrares as mamas, enquanto te aproximas já com a boca aberta, preparado para chupar, a antecipar o sabor, a sensação e. (Pausa breve.) E não está lá nada. Apenas duas cicatrizes arrepiantes, mais nada.
(Pausa breve.)
EU (curioso): Mas que fizeste?
ELE (distante): Não sei quanto tempo terei ficado para ali a olhar, incapaz de não olhar. E ela à espera não sei de quê, como se fosse possível eu não notar e continuarmos para ali a foder alegremente.
EU: Talvez fosse isso que ela queria. Que fingisses que estava tudo bem e que continuasses, simplesmente.
ELE (irritado): Claro que era isso que ela queria, que ela esperava. Mas não consegui; acho que nem cheguei a tentar, limitei-me a bloquear. E fiquei para ali à espera, a ver o que acontecia. (Pausa breve.) Até que ela lá acordou do estado meio hipnótico em que estava. Não nos olhámos, limitámos a afastarmo-nos um pouco um do outro; em simultâneo, como se fosse a coisa mais natural, como se tivéssemos combinado. Ela apertou a blusa, cobrindo o peito, escondendo-o; e eu levantei-me, sem saber o que fazer com as mãos e com os olhos, sem saber o que dizer. (Pausa breve.) Fiquei a olhá-la enquanto ajeitava a saia, incapaz de dizer fosse o que fosse.
(Pausa breve.)
ELE (num tom de voz mais baixo, hesitante): E então, ela pede desculpa.
EU (surpreendido): Ela é que pede desculpa? A ti.
ELE (envergonhado): Ela a dizer-me aquilo, sem me olhar, numa voz baixinha, e eu a sentir-me um filho da puta. (Pausa breve.) Foi apertando os botões da blusa, voltou a ajeitar a saia e, naturalmente, aproximou-se da porta.
EU (tentando disfarçar o desagrado): Não a impediste de sair?
ELE: Ainda dei uns passos, atrás dela. Mas não sabia o que lhe dizer, que raio poderia eu dizer? (Num tom irónico, profundamente desagradável.) Olha, deixa lá, não faz mal, vamos mas é continuar. (Pausa breve.) Dizia isso? Era o que tu dirias? Foda-se. Não consegui dizer nada.
EU: Poderias aproximar-te dela e tocar-lhe. No ombro ou assim.
ELE (admirado): Tocar-lhe?
EU (quase sobranceiro): Sim. Tocar-lhe.
(Pausa breve.)
ELE (embaraçado): Não sei. Penso que não seria capaz. Acho que teria medo de lhe tocar, sabes.
EU (um pouco agressivo): Medo? (Arrependendo-me da agressividade.) Medo de quê?
(Encolhe os ombros, abana a cabeça. Pausa longa.)
ELE: Saiu, simplesmente. E eu fiquei para ali, sentado na cama. Com a imagem das cicatrizes na cabeça, incapaz de esquecer. (Pausa breve.) Depois, de repente, vejo as cuecas dela no chão; eu próprio lhas tirara, alguns minutos antes; e agora estavam para ali abandonadas, fúteis e ridículas; acusadoras, sei lá. Não se lembrara delas, ou não quisera saber.
EU (num tom triste, talvez vagamente hipócrita): Com pressa de fugir. De se salvar.
ELE (num tom embaraçado, triste): É, salvar-se de mim. (Pausa breve.) Imaginei-a no elevador, incapaz de se olhar no espelho; a abraçar-se a si própria, tentando proteger o peito, esconder as cicatrizes. Percebes? A proteger o que já lá não estava, o vazio. (Pausa breve.) Ali fechada, talvez a chorar. E sem cuecas, sentindo-se completamente despida, vulnerável.
(Pausa breve.)
EU (forçando um tom quase agradável): E foi então que correste atrás dela?
ELE (sorrindo): Foi.

2.
Sentamo-nos à mesa, em silêncio; ela olha-o e sorri, ele corresponde de imediato ao sorriso; estendem as mãos em simultâneo, tocam-se. Finjo que não vejo a carícia, sentindo-me desconfortável (sentindo, também, inveja, ciúme? Talvez, um pedacinho), como se estivesse a invadir demasiado a sua privacidade, a testemunhar um excesso de intimidade.
Então, ela vira-se para mim e sorri: dá-me toda a sua atenção; quer que eu fale, deseja conhecer este amigo misterioso do marido que apareceu de repente, vindo de longe, do desconhecido, do passado. O seu sorriso é agradável, sedutor; confiante? Sim: contrariando a imagem que eu concebera, enquanto ouvia o relato do primeiro encontro, do primeiro desencontro. E falo de mim, um pouco ao acaso; ela escuta, atenta e curiosa, interessada. (Isto espanta-me um pouco: é tão raro encontrar alguém efectivamente interessado em ouvir e não apenas em falar, em se ouvir; raro, mesmo: quase nem estou habituado.) Conto banalidades, ela sorri; e vamos comendo, indiferentes ao tempo que vai passando, aos risos que chegam das outras mesas, às interrupções da funcionária que vai colocando pratos, retirando pratos.
Por vezes, espreito-o; estranho o seu silêncio, a sua ausência, o seu enfado: limita-se a escutar, vagamente desinteressado; suponho que esteja arrependido da sua confidência, que lamente ter traído a confiança da mulher que ama (ama? Suponho que sim, que realmente a ame); ou que receei que eu o denuncie. Porque tenho a certeza que ela não suspeita que eu sei das cicatrizes, julga-se segura; normal.
Vou falando, agradecido pelo seu interesse; e incapaz de desviar o olhar do seu rosto, do seu sorriso. Com vontade de lhe perguntar como foi capaz de lhe ter perdoado, como foi capaz de regressar ao apartamento dele, como foi capaz de se deixar foder; perguntar-lhe como foi capaz de amá-lo.

3.
EU (sentindo-me profundamente desleal, quase pérfido, mas incapaz de me contrariar, incapaz de não perguntar): Afinal, como é que se conheceram?
(O sorriso dela desaparece, lentamente; olha-o, expectante: um pouco decepcionada, um pouco triste. Ele corresponde ao olhar, encara-a durante um instante, desconfortável e consternado; depois, olha-me com firmeza, com desprezo. Desvio o olhar, arrependido.)
ELA (após um longo silêncio, num tom vacilante e ambíguo): Tivemos um começo um bocado hesitante. (Sorriso triste. Pausa breve.) Mas passou, tudo acabou por correr bem. (Sorriso menos triste.) Tudo corre bem. (Estende uma vez mais a mão na direcção dele, que corresponde ao seu gesto; tocam-se mas não se olham.)
(Pausa breve.)

EU (num tom falso e displicente, quase irónico): Desde que não tenham ficado cicatrizes…
(Levanto-me devagar, sem os olhar, e arrumo a cadeira com cuidado desnecessário, quase obsessivo; desvio-me um pouco para que a funcionária do restaurante retire não sei bem o quê de cima da mesa; sorrio-lhe e ela corresponde, sorrindo-me. Depois, afasto-me na direcção da casa de banho.)

Ebook # 01: Sincronismos

Está disponível, para quem estiver interessado, um ebook gratuito. É só pedir por mail.
Chama-se “Sincronismos” e resulta da sincronização entre catorze imagens abstractas e catorze pequenos textos, algures entre a micro narrativa e o devaneio.
Por causa das dúvidas, dois exemplos.




Aquilo de que ele mais gostava nela, para ser honesto, era do peito, em especial dos mamilos rígidos e castanhos, que saboreava devagar nas tardes cinzentas de Outono. Mas quando ela pergunta, sempre depois de ele dizer que a amava, de que mais gostava nela, ele respondia invariavelmente: da tua personalidade. E ela sorria, agradecida.





Eram uns comprimidos tão bonitos que as pessoas não gostavam de os tomar: preferiam contemplá-los demoradamente, desfrutando da sua textura e cor.E a verdade é que ninguém sabia para que serviam; desconfiava-se até que os médicos apenas os receitavam porque eram, efectivamente, os mais bonitos.

Comme d’habitude IV

1.
Por vezes, acordávamos a meio da noite sobressaltados pelo choro estridente e desesperado do bebé que vivia algures no andar de baixo. Resmungávamos sem convicção e enfiávamos a cabeça nas almofadas, à espera que o silêncio regressasse; dizíamos: malditas cólicas. Esperávamos mais um pouco, resmungávamos de novo. E, geralmente, voltávamos a adormecer antes do bebé acalmar, imunes à sua aflição e, também, indiferentes aos murmúrios dos pais, à subtil – por vezes inexistente, apenas intuída – agitação que perturbava o prédio, a noite, o sono.
Até que, um dia, disseste: reparaste que o bebé lá de baixo já não chora há umas semanas? Não reparara. As cólicas finalmente passaram, pensámos; ou mudaram de casa. Na verdade, não os conhecemos (porque haveríamos de conhecer?), nunca os vimos, nem sequer nos cruzámos no elevador ou à porta da garagem ou nas reuniões de condomínio; das suas vidas fomos conhecendo apenas alguns sons, nada mais. Por isso, limitámo-nos a apreciar o regresso do silêncio; achámo-lo natural (um direito nosso, de certa forma): e deixámos de reparar nele.

2.
Depois, passaram mais umas semanas; e tu disseste, um pouco agitada (só um pouco): sabes que, afinal, o bebé morreu? Senti um súbito baque, que logo se foi dissolvendo e dissipando, deixando atrás de si apenas um amargo desconforto; não respondi, tu também não acrescentaste mais nada; olhámo-nos e logo desviámos o olhar (envergonhados? Suponho que sim). Fomos aguardando (em silêncio) que o tempo passasse, lento e inexorável, levando consigo a sensação desagradável, o pensamento incómodo, a memória dolorosa (um bebé que chora na escuridão da noite, aflito: lutando pela vida). Esperamos; talvez amanhã já não nos lembremos dele; ou para a semana que vem, o mais tardar.
(A vida prosseguirá: comme d’habitude. E, claro, não deixaremos de apreciar o silêncio vindo lá de baixo.)

Comme d’habitude III

Prazo de validade expirou...

Comme d’habitude II

1.
Estamos estendidos no sofá a olhar para o vazio da televisão; não falamos, não pensamos, não sentimos: esperamos, simplesmente. E o som da publicidade acompanha-nos, os olhos reagem lentamente aos caleidoscópios de cor que invadem a sala fria, estática. Os dois no sofá, sem nos tocarmos, distantes e isolados. Comme d'habitude.

2.
Mas, então, estendes a mão, sinto os teus dedos pousarem no meu braço; o corpo não reage mas o espírito sobressalta-se um pouco: porque sei o que vais dizer dentro de três, quatro minutos.
E passam, os três, quatro minutos; explosões de cor (e os nossos olhos: abrem e fecham, abrem e fecham), música e vozes disfarçando (preenchendo) o nosso silêncio; e os corpos ainda distantes, excepto a tua mão no meu braço: incomodando. Dizes, como previsto (tom hesitante, indeciso): apetece-me fazer amor.

3.
Não reajo. Pergunto-me se a reacção que aí vem poderia ser diferente caso tivesses perguntado: apetece-te fazer amor? Suponho que não; poderá, afinal, a vontade estar dependente de simples e vulgares nuances gramaticais? Quase sorrio, sozinha.
Tudo como antes, portanto. Distância, silêncio, toque; e o convite, pairando desagradavelmente entre nós como uma subtil intromissão (ou agressão?). Talvez permaneçamos assim durante mais alguns minutos (a duração de uns quinze, dezoito anúncios publicitários, não mais que isso); ou poderá acontecer que te impacientes: e desistas.
Afinal, decides retirar a mão e, sem delicadeza, pousá-la no meu peito; apertas um pouco, os dedos envolvendo o seio, a palma pressionando o mamilo; logo depois, ouço a tua respiração alterar subtilmente, revelando o princípio da excitação (traduzindo: já estás com o caralho teso; pronto), e apetece-me fechar os olhos; fugir. Mas, inesperadamente, ouço-me falar: já reparaste como a expressão “fazer amor” é profundamente ridícula? Parece-me detectar uma breve hesitação no teu ritmo respiratório mas a firmeza dos dedos não diminui; e persistimos em não nos olharmos, aguardando, adiando (para quê olhar, afinal? Há tanto tempo que não vimos no outro nada de relevante, de surpreendente, de recompensador. Há quanto tempo? Dez mil anúncios atrás, talvez; ou mais). Digo (surpreendendo-me a mim própria): não achas? Fazer? Porquê fazer? (Hesito; e logo depois, só um pouquinho desafiadora): Nunca se fala em sentir nem proporcionar nem trocar nem saborear. Não. Fazer.
A tua mão solta-se, sem pressa. Ainda penso que talvez te levantes do sofá e caminhes pesadamente pela sala, fugindo; mas não: permaneces. E os anúncios vão-se sucedendo, desfilando perante nós; unindo-nos no afastamento.

Comme d’habitude I

1.
Quando entro, olhas-me e sorris; aproximo-me devagar, antecipando o conforto do teu beijo, a familiaridade do teu cheiro, a carícia do teu toque. Cumprimos este ritual (desde quando? Como começou, afinal? Não me lembro) conscientes de que o abraço representa, talvez, o momento de maior intimidade, de maior partilha, de maior comunicação entre nós: o momento diário que simultaneamente redefine e rejuvenesce a nossa relação. Mas esta carga simbólica (poética?) não nos inibe, não nos constrange: precisamos do abraço, do que significa; e a cada dia, saboreamo-lo como se fosse a primeira vez, a última vez; a única vez.
Estamos juntos, finalmente: e os nossos corpos aconchegam-se, unem-se. Respiro o teu cheiro enquanto sinto a força dos teus braços, a tensão dos teus músculos; o teu rosto acomoda-se ao meu pescoço e encaixa com perfeição enquanto a minha mão acaricia o teu cabelo com delicadeza. E as nossas respirações serenam em sincronia enquanto o conforto que sentimos e partilhamos atrasa momentaneamente a voraz passagem do tempo. Ou, pelo menos, parece que assim é.
Pergunto-me, como sempre, se ainda sorrirás; que expressão terá o teu rosto? E os olhos: estarão abertos ou fechados? Não sei, talvez não queira verdadeiramente saber; afinal, é irrelevante.

2.
Cumpro, então, o meu hábito secreto. Os teus cabelos estão, como sempre, junto ao meu rosto, magicamente próximos; e concentro-me neles: olho-os, exploro-os, estudo-os; até encontrar o que procuro.
Nunca te contei, nunca falámos disto; mas a verdade é que durante o nosso abraço diário vou estudando e realizando uma espécie de inventário mental do teu cabelo. A verdade (suspeito que não gostarias de a conhecer ou, pelo menos, de a consciencializar, de a verbalizar; mas é, efectivamente, a realidade concreta e palpável, definitiva) é que todos os dias descubro um novo cabelo branco na tua cabeça.
Sim, todos os dias: um novo abraço, um novo cabelo branco; todos os dias: menos um dia.

3.
Por vezes (como agora), sinto a tentação de te perguntar se não terás já reparado nesta evidência da passagem do tempo, da diminuição dos dias disponíveis; terás notado que envelheces? E por que motivo nunca falámos sobre isso? Gostava de te confessar, também, o meu receio mais aflitivo; confidenciar-te que temo um pouco o dia em que todos os teus cabelos estejam brancos; porque, quando isso acontecer, como poderei continuar a ter a percepção da passagem do tempo? (Suponho que sorrirás, se te falar disto.) Quando for impossível descobrir um novo cabelo branco, como poderei ter a certeza de que o tempo ainda está efectivamente a passar, dia após dia, comme d’habitude? O que poderá testemunhar a mudança, provar-me que o tempo não parou, pelo menos para nós?
Sim, gostaria de te falar sobre tudo isto; e escutar o teu riso irónico e displicente, enquanto me escutarias, atenta, surpreendida; mas ainda não será hoje, agora. Porque sinto o teu corpo desprender-se do meu, afastando-me com suavidade. E logo desaparecem as reflexões, substituídas pela dúvida habitual, irrelevante e inócua, insistente: quanto tempo estivemos abraçados? (Por vezes, faço breves e ingénuos cálculos, estimativas, projecções: tentando adivinhar.) Quase em simultâneo, outra questão (menos irrelevante, menos inócua; mais insistente): por que motivo és sempre tu a decretar o fim do abraço?

4.
Olhas-me durante um instante, sorris (ou será ainda o mesmo sorriso?); depois, afastas-te, lânguida e preguiçosa (rejuvenescida?). Perguntas, lá de longe: o que te apetece para o jantar?

# 60: Enfado

1.
Aproxima-se, silenciosa; toca-me no braço e sorri; pouso o livro e tento disfarçar a contrariedade que sinto por estar a ser interrompido correspondendo ao seu sorriso. Diz que tem fome; respondo que já vou preparar o almoço; ela volta a sorrir e afasta-se, silenciosa. Eu pego no livro: e leio.

2.
Pouso o livro e espreguiço-me ligeiramente, tentando não reflectir demasiado no que acabei de ler; tiro os óculos e fecho os olhos, com força, proporcionando-lhes um breve intervalo. Sinto um prenúncio de dor de cabeça, aproximando-se; e fome, também.
Levanto-me e caminho em passos lentos até à cozinha; abro o frigorífico e tiro de lá uns bagos de uvas, que vou comendo enquanto espreito distraidamente pela janela; carros a passarem, indo e vindo: como sempre; mas continuo a olhar, na esperança que um destes dias aconteça algo diferente.
Apanho os caroços de uva que distraidamente cuspira para o chão e atiro-os para o balde do lixo; lavo as mãos cuidadosamente, enquanto me repreendo por não ter lavado as uvas. Procuro no congelador a caixa das mini-pizzas e ponho três no microondas. Um minuto e quarenta e cinco segundos, passando lentamente; a campainha que toca e um cheiro desagradável, artificial, a inundar a cozinha. Arrumo as pizzas no prato, lavo uma folha de alface, descasco uma pêra.
E chamo-a. Ela chega a correr e olha para o prato, sorri. Pergunta: outra vez pizza? E acrescenta, baixinho, só para si: estou mesmo com sorte. Abraça-me, apressadamente; depois, procura o comando e liga a televisão. Feliz.

3.
Caminho pela casa, entediado. Paro em frente de todas as janelas: e olho, à espera de qualquer coisa. Acabo por me sentar em frente do computador, ligá-lo: leio jornais durante três ou quatro minutos, visito um blogue onde leio umas cinco palavras antes de me aborrecer, actualizo o acrobat reader, visito o email; apetece-me música (ou melhor: apetece-me um silêncio menos intenso, menos ostensivo, menos incomodativo) mas não me consigo decidir por nada e acabo por desistir. Desligo o computador. Dou mais uns passos, sem sentido nem objectivo; pergunto-me se a dor de cabeça se concretizará ou não (sempre será uma distracção). Regresso à poltrona, sento-me, pego no livro. E é então, quando estou a ler a primeira palavra, que ela me chama.

4.
ELA (um pouco receosa): Prometeste que hoje íamos ao parque.
EU (contrariado): Está bem. (Suspiro, sem o disfarçar. Pausa muito breve.) Vamos daqui um bocado, antes do lanche.
ELA (feliz): Ok.
(Vira-se para a televisão, esquecendo de imediato a minha presença. E eu afasto-me, tentando decidir se me sinto contrariado ou não.)

5.
Sento-me num dos bancos e abro o livro preguiçosamente, começo a ler. Ela já trepou para um dos balancés e ri alto, muito alto. Esquecida de mim: outra vez.
Vou lendo, sentindo-me desconfortável: sol demasiado quente; banco muito rijo (mas não são todos?); uma vaga sensação de sede, ainda incipiente; uma mosca que por vezes aparece, zumbindo; e pressa, a constante pressa de partir, de estar noutro lado. Terão passado quatro minutos, seis no máximo: e trinta minutos de permanência é o mínimo aceitável pela minha filha. Por vezes, procuro-a com o olhar e fico a vê-la correr daqui para ali, dali para aqui; risos e gritinhos, felicidade. Mas regresso sempre ao livro; refugiando-me nele; leio alguns parágrafos, paro, mudo de posição; aborreço-me. Recomeço.
De repetente, destaca-se no murmúrio geral a voz de uma mãe a incentivar o filho, num tom presunçoso e condescendente; o miúdo olha-a, embaraçado, sem vontade de fazer o que a mãe deseja; mas ela não se cala, insistente e maçadora. Ele hesita e acaba por começar a trepar, impulsionado pela vergonha de sentir em si os olhares de todo o parque. Olho-a, curioso, distraído, e à distância parece-me uma mulher desagradável, com uma postura excessivamente (infundadamente) vaidosa; vou assinalando os pormenores que me desagradam (como se isso fosse relevante para ela, para alguém): óculos de sol enfiados no cabelo, horríveis e desmesurados, brilhantes; vestido demasiado curto revelando umas pernas muito longas, muito bronzeadas, muito desinteressantes; braços fortes e musculados, pouco femininos, denunciando presença frequente no ginásio; telemóvel na mão; anéis em muitos dedos, pulseiras; unhas pintadas, ostensivamente provocantes. Tento adivinhar onde estará a inevitável tatuagem enquanto vou observando os esforços do garoto, que de repente se desequilibra e grita, assustado; a mãe levanta-se e corre, decepcionada e furiosa (sim, parece-me que está mesmo furiosa); temo que bata no garoto mas não o faz, limita-se a pegar nele e pousá-lo no chão (os pés embatem com violência na terra, provocando uma pequena nuvem de pó); depois, agarra-o pelo braço e arrasta-o para a saída do parque, em silêncio. Fico a vê-la afastar-se: as nádegas bamboleando sob o tecido leve do vestido, uma pulseira balanceando no tornozelo; e o miúdo: cabisbaixo, talvez aliviado.
Regresso ao livro mas sou incapaz de me concentrar. Olho em redor mas nada me capta a atenção, nada me entusiasma a curiosidade; a miúda continua a correr de um lado para o outro, juntamente com outros miúdos. Há mais mães espalhadas pelos bancos (óculos escuros no cimo da cabeça e telemóveis nas mãos, olhares absortos), alguns casais de avós com máquinas fotográficas nas mãos e tristeza (ou será apenas indiferença?) nos olhares; gritos distantes da gente que joga futebol na outra ponta do parque misturados com os ruídos do tráfego da cidade, dissolvendo-se no sussurro dos pássaros escondidos pelas árvores.
E inevitavelmente: alguém conhecido que se aproxima com um sorriso.

6.
ELE (curioso): Qual é a tua?
EU (apontando): A que tem o boné cor de laranja.
ELE (surpreendido): Está tão grande. (Pausa breve.) Já tem o quê, seis?
EU (indiferente): Oito.
ELE (espantado): Oito? Fogo. Já anda para aí no segundo ano, não?
EU (indiferente): No terceiro.
(Ficamos os dois a olhar a miúda, em silêncio. O cão dele está sentado junto aos seus pés, imóvel e indiferente.)
ELE (quebrando o silêncio, que se torna algo desconfortável): Pois é, costumo passar por aqui com alguma frequência. (Apontando o cão.) Ele gosta de olhar para os miúdos. Correr atrás deles.
EU (olhando para o cão): E filhos? Continuas a pensar não ter?
ELE (após um longo silêncio, num tom pesaroso, quase envergonhado): Sabes, não sou eu que não quero. (Estende a mão e acaricia a cabeça do cão, com ternura; desvio o olhar, um pouco embaraçado.)

7.
Fico a vê-lo afastar-se, caminhando lentamente; o cão vai farejando o chão, um pouco mais atrás, indiferente ao dono. Há crianças que param durante uns instantes a olhar o cão mas nenhuma se aproxima, talvez receosas, talvez envergonhadas.
Um homem que passeia o cão. Como eu: que passeio a minha filha.

8.
Gelados na esplanada. Ela demora muito a escolher, indecisa; eu impaciento-me um pouco mas tento não o revelar; ela, como sempre, impacienta-se com a minha impaciência. Acaba por escolher, apressada; e mal a funcionária da esplanada lhe coloca o gelado na mão, por certo que se arrepende da sua escolha.
Sentamo-nos, evitando que os olhares se cruzem. Ela vai mordendo o gelado cuidadosamente, com aquela expressão estranha que as crianças – apenas as crianças – possuem: uma mescla perfeita de excitação e enfado; por vezes, tagarela um pouco; eu aceno com a cabeça, fingindo que escuto.
Ao nosso lado, a mãe estridente e o filho envergonhado partilham uma torrada, em silêncio, (também) sem se olharem. O miúdo parece indiferente e alheado, tal como a mãe. Recosto-me na cadeira e olho-a, sem pudor nem embaraço, percorrendo de novo os pormenores – superficiais mas marcantes – que me captaram a atenção, no parque; óculos de sol ainda enfiados no cabelo, horríveis e desmesurados, brilhantes (para que servirão, afinal?); vestido demasiado curto revelando as pernas muito longas, muito bronzeadas, muito desinteressantes (contudo: custa-me um pouco não as olhar); braços fortes e musculados, pouco femininos, denunciando presença frequente no ginásio (de certa forma, excitantes); telemóvel na mão (mas não há forma de tocar, pensará ela); anéis em muitos dedos, pulseiras (que entrechocam e tilintam, de forma desagradável); unhas pintadas, ostensivamente provocantes (mas e a tatuagem, onde estará? Ao fundo das costas, talvez).
Mas além do aspecto físico (que me exaspera um pouco mas, em simultâneo, me cativa de forma inesperada, intensa), sinto um breve fulgor de empatia com esta mulher. Porque, afinal, há algo profundo e inconfessável que nos une, silenciosa e secretamente: a obrigação de entreter os filhos; e o enfado que essa obrigação nos causa.
Claro que me sinto terrível, ao pensar isto; de mesma forma que me senti terrível no parque, quando pensei em homens que passeiam cães como se fossem seus filhos e homens que passeiam os seus filhos como se fossem cães (sinto de novo um incómodo no estômago, ao consciencializar este pensamento repugnante; e contraio-me ligeiramente, talvez até tenha feito uma careta de repulsa; a miúda, atenta e preocupada, pergunta: estás doente, papá?). Mas é precisamente por isso que não consigo deixar de a olhar, tentando talvez captar a sua atenção, o seu interesse; porque, na verdade, suponho que gostaria de discutir este assunto com alguém, conversar sem correr o risco de ser recriminado, confessar-me a alguém com pecados semelhantes; perceber que não sou o único.
Mas o gelado está quase no fim; na outra mesa, o miúdo brinca com um pedaço de torrada, aborrecido e desinteressado. E os adultos: olham-se, finalmente. Apenas um breve olhar, fugaz e perscrutador; uma avaliação de possibilidades, calculista e despudorada. Sim, suponho que poderia sentar-me na sua mesa; e enquanto os miúdos correriam juntos para o parque, conversaríamos preguiçosamente sobre responsabilidades parentais; partilharíamos experiências e histórias, embaraços e culpas. Principalmente isso: atenuaríamos e relativizaríamos e desculparíamos as culpas do outro.
Mas o telemóvel dela toca, inesperadamente; e ela atende, sorrindo.

9.
Estamos no carro, parados no trânsito. De repente, apetece-me conversar: e pergunto-lhe sobre a escola; ela encolhe os ombros, desinteressada; recosta-se na cadeirinha, para que eu perceba que está cansada. Não insisto.
Penso momentaneamente na mulher do parque, da esplanada; recordo o seu riso excessivo, enquanto conversava ao telemóvel; e o olhar do filho, (ainda; sempre) embaraçado e aborrecido. Depois, lembro-me do amigo do cão (o incómodo no estômago, de novo). Espreito a miúda pelo espelho, apreciando a serenidade do seu rosto. Alguém que buzina, acordando-me do devaneio, distraindo-me da culpa.
Avanço lentamente, recordando-me de súbito que esqueci o livro no banco do parque. Um breve fulgor de contrariedade, uma imperceptível hesitação; logo depois, um pensamento súbito e imprevisto, libertador: que se foda o livro.
Conduzo alheadamente, confundindo-me no trânsito, na multidão, no anonimato. Sim: que se foda. Tudo.

# 59: Altura

EU (quase distraído): E então refugio-me na varanda. Fumo e olho para o horizonte; sento-me no meu cadeirão e fico por aqui, à espera não sei de quê. (Pausa breve. Encolhendo os ombros, num tom displicente.) Sabes como é.
ELE (um pouco vacilante, como se falando apenas para si): A passar o tempo. (Pausa breve.) A adiar.
EU (num tom melancólico, ignorando o comentário): Geralmente, pego num livro e leio meia dúzia de linhas, sem fazer ideia do que estou realmente a ler. Mas insisto, vou fingindo que estou mesmo a ler, linha após linha; por vezes esqueço-me de mudar a página. (Pausa breve.) Uma desculpa, percebes? Uma forma de ter as mãos ocupadas. (Sorrio, muito brevemente.) Para o caso de alguém se preocupar com o que poderei estar a fazer, ter curiosidade. Lembrar-se de mim.
ELE (pensativo): É curioso, isso. Também já reparei. O modo como as pessoas receiam alguém que não esteja permanentemente ocupado, alguém que se atreva a estar simplesmente em stand by, à espera, em contemplação ou distraído ou assim. (Pausa breve.) Como se a imobilidade representasse um perigo, algo contagioso. Não é?
(Encolho os ombros.)
EU (após uma pausa, ignorando o comentário, a pergunta): Por vezes mudo de livro, agarro no primeiro que me atrai a atenção; ou passo por uma livraria e compro qualquer coisa, quase ao acaso. Mas já nem me lembro do último que li até ao fim. (Pausa breve.) Acessórios, nada mais.
(Ele sorri mas não correspondo; o seu sorriso vai-se apagando, lentamente; evitamos que os nossos olhares se cruzem, como se houvesse algum motivo de embaraço entre nós, algum constrangimento silencioso mas palpável.)
EU (tom distante e rígido, vacilante): E é nessas ocasiões que, por vezes, penso nisso. Sinto que não quero estar aqui, que não consigo estar aqui nem mais um instante; mas não há nenhum outro sítio onde queira estar, para onde me apeteça fugir. Sinto-me preso e condenado, completamente impotente, vulnerável. E então penso nisso.
ELE (após um longo silêncio): Saltar.
EU (um pouco chocado pela violência da palavra): Não é que pense obsessivamente ou metodicamente em saltar. Não, é uma ideia que vem e fica por aí um bocadinho, a pairar. Só isso. Uma espécie de possibilidade académica. Acho que nunca chegou a ser uma verdadeira tentação.
(Pausa breve. Acendo mais um cigarro, com gestos arrastados e mecânicos.)
ELE (olhando-me a acender o cigarro): Apenas uma vontade insistente de fazer algo, de agir. Não é? (Pausa breve.) Provocar o destino, precipitar a mudança. Saborear a ilusão de que, afinal, talvez se controle algo, talvez se tenha algum poder.
(Olho-o, um pouco impressionado com a sua análise; aceno com a cabeça e fumo, tranquilamente. Mantemo-nos em silêncio durante muito tempo, pensativos e distantes, esquecidos da presença do outro.)
EU (quebrando o silêncio e contrariando o leve desconforto que se foi instalando entre nós com um tom falsamente bem-disposto e prosaico): Mas sabes no que penso, por vezes? (Rio, forço-me a rir.) Que nunca saltarei porque serei sempre incapaz de me decidir se a altura é a adequada.
ELE (confuso, curioso; agradecido pela quebra do silêncio, pela regressão da tensão que momentaneamente surgiu entre nós e que, agora, se começa a dissipar): Não percebo.
EU (num tom novo e inesperado, genuinamente bem-disposto): O problema é decidir qual a altura certa. Se saltas de um sítio demasiado baixo corres o risco de não conseguir. Só te aleijas ou assim, e ficas pior do que estavas. (Pausa breve.) Mas se a altura é excessiva, demoras demasiado tempo até chegar lá ao fundo; e esse tempo pode ser suficiente para te arrependeres de ter saltado, percebes? E isso seria terrível, insuportável.
(Pausa longa. Ele levanta-se e dá uns alguns passos, hesitantes, pela varanda; olha lá para baixo, demoradamente. Volta a sentar-se e acende um cigarro, com gestos lentos e preguiçosos.)
ELE (num tom desprendido, sem me olhar): Vives num quinto andar. Parece-me perfeito.
(Rimos em simultâneo, com gosto e sinceridade mas também com desespero, com medo; depois o riso desvanece, muito lentamente. Continuamos a fumar, calados, ouvindo os risos estridentes de crianças que brincam algures.)