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# 62: Todo o tempo disponível

1.
Entro em casa, empurro a porta, avanço uns passos. Tento lembrar-me se há algo que deva fazer, algo que tenha adiado, alguma tarefa pendente; penso, devagar, percorrendo todo o espectro possível, disponível. Depois, desisto de pensar e avanço até ao quarto; fico durante um bocado a olhar para a cama, a pensar que daqui uns minutos, ou horas, estarei lá; penso, uma vez mais, em como a cama é o objecto da minha casa, da minha vida, com que mais me relaciono, com que tenho maior intimidade; e sorrio, com tristeza. Começo a despir-me, peça após peça, até ficar completamente nua; depois, caminho preguiçosamente pelo quarto, sentido o corpo descontraído, a pele livre; pergunto-me se alguém, algum dia, voltará a contemplar o meu corpo, assim, despido e vulnerável, disponível; talvez não. E apesar da dor, sinto também um princípio de liberdade.
Saio do quarto e dou algumas voltas desnecessárias pela casa. O cão persegue-me, irritante. Tento não pensar no funeral. Tento não pensar no morto; depois, tento recordar o seu sorriso: e não consigo.
Regresso ao quarto, deito-me. Durante um instante, é agradável sentir o corpo assim, simultaneamente livre e acarinhado; mas a sensação logo se dissipa. Lá fora escurece lentamente, enquanto o mundo se esforça para se manter em silencioso. Fecho os olhos, volto a abri-los. Espero que os minutos passem, lentos e vazios. Depois, levanto-me e cubro o corpo, gélido, com algumas roupas, as primeiras que encontro; volto a deitar-me, a fechar os olhos, a esperar.

2.
Acordo de súbito, agitada por um pesadelo. Aconchego-me na cama, confusa e assustada, momentaneamente distraída com o longínquo e difuso uivo dos lobos ecoando lá longe, na pradaria; depois, lembro-me que – agora – estou sozinha, que talvez assim esteja por muito tempo: e sinto a solidão entranhar-se no meu corpo, apropriar-se dele, controlá-lo. Permaneço rígida, com os olhos a perscrutar a escuridão, a mente a perscrutar o futuro; sem esperança. Então, começo a chorar, pela primeira vez em muito, muito tempo; não porque tenha cedido, por fim, ao desamparo; apenas porque não tenho mais nada, mesmo mais nada, para fazer, para me distrair. Porque até os longínquos lobos se calaram, talvez apaziguados: deixando-me ainda mais só.
Suponho que acabarei por voltar a adormecer.

3.
O sol da manhã entra pela janela da cozinha; e é agradável. Pequenas nuvens de pó bailam no ar, descubro uma frágil teia de aranha na cortina; sons imprecisos – talvez imaginados? – de vidas desconhecidas e apressadas, lá fora. O cheiro insidioso de sopa estragada agonia-me; e fico a olhar a panela, a perguntar-me que representa, afinal, esta sopa, por que motivo ainda não consegui despedir-me dela. O cão aproxima-se, vagaroso: tão insuportavelmente presente, disponível; possessivo.
Como um pedaço de pão seco, devagar; e de repente exaspera-me esta vida sem pressa, sempre lenta e lenta e lenta, esta vida em que há tempo para tudo e em que tudo se deve fazer devagar: porque há tão pouco para fazer que tem que se prolongar cada tarefa, cada pensamento, cada gesto, para que todo o tempo disponível seja preenchido e ocupado e considerado bem gasto, utilmente gasto. Começo, então, a mastigar com mais rapidez. Depois, dominada por um impulso súbito, pego na panela de sopa e deito-a à pia; lavo a panela, abro a janela. Sinto o cheiro partir, derrotado.
E depois imobilizo-me a meio de um gesto, de um pensamento; respiro fundo, olho em redor: a tentar perceber se algo mudou.

4.
Saio à rua, por fim. Ainda sem objectivo nem destino, apenas decidida a sair de casa e caminhar livremente, respirar ar puro; fugir de mim própria, talvez. Ser olhada e testemunhar perante o mundo que ainda estou viva, que ocupo espaço e consumo ar, que conto; perceber nos olhares, nas expressões, das pessoas com quem me cruzar a minha existência efectiva, concreta, palpável. Desligar o silêncio: e preenchê-lo com qualquer coisa.
Caminho, então. Sinto no corpo a suave agitação do vento vindo da pradaria, trazendo consigo o cheiro da vastidão e do vazio, da intemporalidade, transportando ténues e difusos – enganadores – indícios de liberdade. Reparo, uma vez mais, como as florzinhas do meu jardim morreram há muito, transformando-se em macabros cadáveres ressequidos; tento recordar a longínqua manhã que passei de joelhos na terra, plantando e regando e cuidando, uma suave manhã de primavera, distante e quase – quase – esquecida; uma recordação tão longínqua que parece emprestada, uma recordação de outra pessoa qualquer; talvez de uma outra vida minha; e pergunto-me, sorrindo secretamente, quantas vidas compõem uma vida. Paro para abrir a cancela, sentindo a rugosidade da madeira, deixando a mão um momento mais que o necessário; depois, dou uns passos e volto a parar, fecho a cancela. E é então que reparo no cão, deitado na sombra, ao lado da árvore. Estranho a sua imobilidade e, por um momento, suspeito que esteja morto. Mas não está, certamente que não. Volto a abrir a cancela e caminho até à rua; respiro fundo, o sol quente a incomodar-me um pouco, só um pouco. Lá por cima, farrapos de nuvens, vagando preguiçosamente, arrastando-se em direcção à pradaria.

5.
Avanço, sem firmeza nem convicção. Há homens de rostos compungidos que me acenam solenemente, enquanto erguem o chapéu; crianças que param de gritar ou rir quando me vêem; mulheres que ostentam expressões angustiadas enquanto me olham e que, logo depois, regressam às suas conversas inconsequentes e irrelevantes; passo e causo uma suave, ligeiríssima, impressão: mas logo sou esquecida. Pergunto-me vagamente se esta irredutível solidão que sinto será, secretamente, partilhada por todas estas mulheres com quem me cruzo, que me olham; se terá sido assim com as mulheres que viveram há cem anos, se será – ainda – assim com as mulheres que viverão daqui cem anos.
Entro no mercado, onde sou recebida com um silêncio respeitoso. Apalpo as cenouras, escolho três; couve e batata e nabo e feijão; arrumo tudo no cesto, entrego moedas à senhora que há anos me vende cenouras e couves e batatas e nabos e feijões – lembro-me, de repente, que também ela é viúva. Depois, quando estou a receber o troco, decido que não preciso dos legumes que acabo de comprar: não voltarei a fazer sopa.
Chego à rua e a luz da manhã cega-me um pouco, forçando-me a caminhar com passos um pouco trôpegos. Há alguns trabalhadores das minas a percorrer a praça, tumultuosos e exaltados, apregoando ruidosamente a descoberta de vestígios – concretos? Imaginados? Mas que importa, afinal? – de ouro; uma possibilidade de mudança, apenas: o suficiente para os fazer temporariamente felizes. Quatro ou cinco rapazes, trabalhadores de um qualquer rancho insignificante em visita à cidade, com as botas cobertas de bosta de vaca e os chapéus descoloridos pelo sol, olham em frente, ignorando os mineiros, talvez arrependidos das suas opções, talvez apenas a aguardar que o tempo passe e se descubram noutro sítio qualquer, diferentes. E depois, envolvendo a cidade: o apito inesperado do comboio, aproximando-se.
À entrada da igreja hesito durante um momento; mas entro, empurrando a grande porta de madeira, coberta pelo suor gordurento e solidificado de centenas de mãos; sento-me e olho para a enorme e solene cruz. Penso no meu marido; depois deixo de pensar nele: e pergunto-me se é isto que é suposto sentir uma viúva. Recordo o estranho pistoleiro que trouxe o seu cadáver, amarrado a um cavalo: a expressão misteriosa e o olhar opressivo, os seus gestos dissimulados; tão insuportavelmente silencioso; pergunto-me que segredos esconderá, no âmago da sua alma. E depois imagino como seria bom ter segredos, algo a esconder, a proteger; como é monótona esta existência linear e virtuosa, pública.
Fico a pensar nisto durante muito tempo. Como seriam os meus segredos, se os tivesse?

6.
Saio da igreja, esquecendo propositadamente o cesto de legumes que deixara à entrada. É possível que alguém repare e, daqui umas horas, me apareça à porta, fazendo a entrega com um sorriso embaraçado, aguardando um sorriso embaraçado em troca; e terei que fingir surpresa, agradecer. Vou caminhando, com o olhar no chão. Talvez isto possa contar como segredo: esqueci os legumes de propósito porque já não os quero, é este o meu grande segredo. E sorrio, preparada para o guardar com tenacidade.
Passo após passo. O saloon ruidoso. O gabinete do Xerife, fechado; pergunto-me quantas vezes lá terei entrado; três? Cavalos que cheiram mal. Nuvens – ainda as mesmas nuvens – arrastando-se vagarosamente pelo céu descolorido. Olhares dissimulados e perscrutadores, invasivos. O murmúrio arrastado da pradaria, ecoando no silêncio. Cacarejos de galinhas. Risos de crianças. O apito do comboio, que parte. E eu a deslizar pela rua, sem deixar pegadas.
Como antes. Como sempre.

7.
Depois, enquanto caminho, passos lentos e olhos fixos no chão – onde estarão, afinal, as minhas pegadas de há pouco? –, penso no meu marido. No morto.
Recordo, sem dor nem exaltação, como estive profundamente apaixonada por ele, sem limites nem concessões, sem receios ou hesitações; recordo como vivia para ele, com ele, nele. Obsessivamente, dia após dia: durante um mês. Ou mesmo que fossem dois, três, quatro. Uma vida.
Recordo, também, como inevitavelmente a paixão começou a desvanecer, implodindo lentamente, tão lentamente. Num dia amava-o profundamente; e no seguinte continuava a amá-lo: mas menos profundamente. Só um pedacinho menos, um pedacinho quase imperceptível, tão insignificante que quase – quase – poderia ter sido confundido com uma inexistência; mas eu sabia. Sabia que a paixão, feita de fascínio e amor e novidade e deslumbramento e conforto e compreensão e prazer e riso e sintonia e sexo e voracidade, se estava a transformar em repetição, em rotina, em monotonia, em frustração, em decepção, em silêncio. Lentamente, sempre lentamente.
Caminho pela rua poeirenta, sentindo-me quente e desconfortável, amorfa, minúsculas gotas de suor formando-se na minha testa, a roupa pesada, colando-se à pele; recordando o longínquo dia em que dei por mim a tentar perceber para onde fora essa paixão que, durante algum tempo, avassalara a minha vida e justificara a minha existência; onde estava? Em que se transformara? Quando regressaria? A tentar perceber se a minha vida já passara.
Caminho, sem pressa; ainda sem perceber se a minha vida já passou.
Pergunto-me se o cão ainda estará estendido à beira do jardim; penso se, afinal, não estará mesmo morto; e tento não ter demasiada esperança.

8.
Entro em casa, empurro a porta, avanço uns passos. Tento lembrar-me se há algo que deva fazer, algo que tenha adiado, alguma tarefa pendente; penso, devagar, percorrendo todo o espectro possível, disponível. Depois, desisto de pensar e avanço até ao quarto; fico durante um bocado a olhar para a cama, a pensar que daqui uns minutos, ou horas, estarei lá; penso, uma vez mais, em como a cama é o objecto da minha casa, da minha vida, com que mais me relaciono, com que tenho maior intimidade; e sorrio, com tristeza. Começo a despir-me, peça após peça, até ficar completamente nua; depois, caminho preguiçosamente pelo quarto, sentido o corpo descontraído, a pele livre; pergunto-me se alguém, algum dia, contemplará o meu corpo, assim, despido e vulnerável, disponível; talvez não. E apesar da dor, sinto também um princípio de liberdade.
Mas, logo de seguida, invade-me a desconfortável sensação de já ter vivido este momento, de que me estou a repetir. E apetece-me parar: e mudar; viver outra coisa, experimentar outra sensação. Sim, apetece.

Esboço # 22

Certamente que já reparaste: há muito que não conversamos. Sim, vivemos juntos e aparentemente somos felizes (pelo menos, é o que diríamos se alguém nos perguntasse), partilhamos com agrado e determinação uma relação pragmática e mecanizada, feita de rotinas e preguiças e subsistências; uma relação madura e ponderada (segura), alicerçada no respeito pelo outro (ou será na indiferença pelo outro?), onde não há lugar à surpresa ou ao arrebatamento. Não conversamos porque sentimos que não há nada de novo a dizer (e para quê repetir as mesmas coisas?), talvez também porque não nos apeteça ouvir, não nos interesse assim tanto o que o outro ainda tenha para dizer (ocorre-me, agora, que poderia ser interessante – engraçado – conversar um pouco sobre este assunto).
Tudo isto é – acredito – normal. Mas o que me parece algo peculiar é o nosso comportamento na cama (e não me refiro a sexo, sobre isso já nada temos a dizer, a partilhar): a forma algo prosaica mas cálida (ternurenta?) como todas as noites, quando nos deitamos, aconchegamos os corpos um no outro e assim permanecemos, juntos; sempre: como na primeira noite. Um vestígio de amor? Ou apenas distracção? Hábito? (Por vezes, penso: talvez seja apenas por isto que ainda permanecemos juntos.)

Esboço # 21

Estou, uma vez mais, a pensar em ti; esparramada no cadeirão, cigarro na mão (a cinza a cair para o chão; tenho que ir buscar o aspirador, daqui pouco) e olhar perdido na janela, vendo as nuvens passarem (mas são todas tão iguais, tão repetitivas), o tempo passar. Tudo muito lento, muito inconsequente, muito sorumbático; igual ao que já foi, ao que será.
Sim, penso em ti: com saudades. Apetecia-me que estivesses aqui, junto de mim, cigarro na mão (poderia pedir-te para ires buscar o aspirador; e talvez fosses), olhar perdido; poderíamos falar da monotonia das nuvens ou permanecer em silêncio, falar de nada; claro que o tempo continuaria a passar por nós, lento e inconsequente e sorumbático: mas estaríamos a vê-lo passar juntos.
Deixo cair a beata do cigarro no chão e levanto-me para ir buscar o aspirador; caminho lentamente até à despensa mas paro pelo caminho, mesmo junto ao telefone; e seguindo um impulso intenso e veemente, marco o número que ainda recordo (claro que recordo). Quando atendes, digo-te (vozinha ansiosa e vulnerável) que é o dia do nosso aniversário; três anos de divórcio, explico; e depois, pergunto: não te apetece comemorar? Estar juntos e assim.

# 61: Cicatrizes

1.
EU: E depois?
ELE (desviando o olhar): Congelei; fiquei a olhar para aquilo, sem saber bem o que estava a ver. Sem me conseguir mexer. (Pausa breve.) Consegues imaginar? (Abanando a cabeça.) Estás ali a despi-la, tentando parecer calmo, tentando não apressar demasiado, a saborear, convencido que ela também está a saborear; e estendes a mão para lhe agarrares as mamas, enquanto te aproximas já com a boca aberta, preparado para chupar, a antecipar o sabor, a sensação e. (Pausa breve.) E não está lá nada. Apenas duas cicatrizes arrepiantes, mais nada.
(Pausa breve.)
EU (curioso): Mas que fizeste?
ELE (distante): Não sei quanto tempo terei ficado para ali a olhar, incapaz de não olhar. E ela à espera não sei de quê, como se fosse possível eu não notar e continuarmos para ali a foder alegremente.
EU: Talvez fosse isso que ela queria. Que fingisses que estava tudo bem e que continuasses, simplesmente.
ELE (irritado): Claro que era isso que ela queria, que ela esperava. Mas não consegui; acho que nem cheguei a tentar, limitei-me a bloquear. E fiquei para ali à espera, a ver o que acontecia. (Pausa breve.) Até que ela lá acordou do estado meio hipnótico em que estava. Não nos olhámos, limitámos a afastarmo-nos um pouco um do outro; em simultâneo, como se fosse a coisa mais natural, como se tivéssemos combinado. Ela apertou a blusa, cobrindo o peito, escondendo-o; e eu levantei-me, sem saber o que fazer com as mãos e com os olhos, sem saber o que dizer. (Pausa breve.) Fiquei a olhá-la enquanto ajeitava a saia, incapaz de dizer fosse o que fosse.
(Pausa breve.)
ELE (num tom de voz mais baixo, hesitante): E então, ela pede desculpa.
EU (surpreendido): Ela é que pede desculpa? A ti.
ELE (envergonhado): Ela a dizer-me aquilo, sem me olhar, numa voz baixinha, e eu a sentir-me um filho da puta. (Pausa breve.) Foi apertando os botões da blusa, voltou a ajeitar a saia e, naturalmente, aproximou-se da porta.
EU (tentando disfarçar o desagrado): Não a impediste de sair?
ELE: Ainda dei uns passos, atrás dela. Mas não sabia o que lhe dizer, que raio poderia eu dizer? (Num tom irónico, profundamente desagradável.) Olha, deixa lá, não faz mal, vamos mas é continuar. (Pausa breve.) Dizia isso? Era o que tu dirias? Foda-se. Não consegui dizer nada.
EU: Poderias aproximar-te dela e tocar-lhe. No ombro ou assim.
ELE (admirado): Tocar-lhe?
EU (quase sobranceiro): Sim. Tocar-lhe.
(Pausa breve.)
ELE (embaraçado): Não sei. Penso que não seria capaz. Acho que teria medo de lhe tocar, sabes.
EU (um pouco agressivo): Medo? (Arrependendo-me da agressividade.) Medo de quê?
(Encolhe os ombros, abana a cabeça. Pausa longa.)
ELE: Saiu, simplesmente. E eu fiquei para ali, sentado na cama. Com a imagem das cicatrizes na cabeça, incapaz de esquecer. (Pausa breve.) Depois, de repente, vejo as cuecas dela no chão; eu próprio lhas tirara, alguns minutos antes; e agora estavam para ali abandonadas, fúteis e ridículas; acusadoras, sei lá. Não se lembrara delas, ou não quisera saber.
EU (num tom triste, talvez vagamente hipócrita): Com pressa de fugir. De se salvar.
ELE (num tom embaraçado, triste): É, salvar-se de mim. (Pausa breve.) Imaginei-a no elevador, incapaz de se olhar no espelho; a abraçar-se a si própria, tentando proteger o peito, esconder as cicatrizes. Percebes? A proteger o que já lá não estava, o vazio. (Pausa breve.) Ali fechada, talvez a chorar. E sem cuecas, sentindo-se completamente despida, vulnerável.
(Pausa breve.)
EU (forçando um tom quase agradável): E foi então que correste atrás dela?
ELE (sorrindo): Foi.

2.
Sentamo-nos à mesa, em silêncio; ela olha-o e sorri, ele corresponde de imediato ao sorriso; estendem as mãos em simultâneo, tocam-se. Finjo que não vejo a carícia, sentindo-me desconfortável (sentindo, também, inveja, ciúme? Talvez, um pedacinho), como se estivesse a invadir demasiado a sua privacidade, a testemunhar um excesso de intimidade.
Então, ela vira-se para mim e sorri: dá-me toda a sua atenção; quer que eu fale, deseja conhecer este amigo misterioso do marido que apareceu de repente, vindo de longe, do desconhecido, do passado. O seu sorriso é agradável, sedutor; confiante? Sim: contrariando a imagem que eu concebera, enquanto ouvia o relato do primeiro encontro, do primeiro desencontro. E falo de mim, um pouco ao acaso; ela escuta, atenta e curiosa, interessada. (Isto espanta-me um pouco: é tão raro encontrar alguém efectivamente interessado em ouvir e não apenas em falar, em se ouvir; raro, mesmo: quase nem estou habituado.) Conto banalidades, ela sorri; e vamos comendo, indiferentes ao tempo que vai passando, aos risos que chegam das outras mesas, às interrupções da funcionária que vai colocando pratos, retirando pratos.
Por vezes, espreito-o; estranho o seu silêncio, a sua ausência, o seu enfado: limita-se a escutar, vagamente desinteressado; suponho que esteja arrependido da sua confidência, que lamente ter traído a confiança da mulher que ama (ama? Suponho que sim, que realmente a ame); ou que receei que eu o denuncie. Porque tenho a certeza que ela não suspeita que eu sei das cicatrizes, julga-se segura; normal.
Vou falando, agradecido pelo seu interesse; e incapaz de desviar o olhar do seu rosto, do seu sorriso. Com vontade de lhe perguntar como foi capaz de lhe ter perdoado, como foi capaz de regressar ao apartamento dele, como foi capaz de se deixar foder; perguntar-lhe como foi capaz de amá-lo.

3.
EU (sentindo-me profundamente desleal, quase pérfido, mas incapaz de me contrariar, incapaz de não perguntar): Afinal, como é que se conheceram?
(O sorriso dela desaparece, lentamente; olha-o, expectante: um pouco decepcionada, um pouco triste. Ele corresponde ao olhar, encara-a durante um instante, desconfortável e consternado; depois, olha-me com firmeza, com desprezo. Desvio o olhar, arrependido.)
ELA (após um longo silêncio, num tom vacilante e ambíguo): Tivemos um começo um bocado hesitante. (Sorriso triste. Pausa breve.) Mas passou, tudo acabou por correr bem. (Sorriso menos triste.) Tudo corre bem. (Estende uma vez mais a mão na direcção dele, que corresponde ao seu gesto; tocam-se mas não se olham.)
(Pausa breve.)

EU (num tom falso e displicente, quase irónico): Desde que não tenham ficado cicatrizes…
(Levanto-me devagar, sem os olhar, e arrumo a cadeira com cuidado desnecessário, quase obsessivo; desvio-me um pouco para que a funcionária do restaurante retire não sei bem o quê de cima da mesa; sorrio-lhe e ela corresponde, sorrindo-me. Depois, afasto-me na direcção da casa de banho.)

Ebook # 01: Sincronismos

Está disponível, para quem estiver interessado, um ebook gratuito. É só pedir por mail.
Chama-se “Sincronismos” e resulta da sincronização entre catorze imagens abstractas e catorze pequenos textos, algures entre a micro narrativa e o devaneio.
Por causa das dúvidas, dois exemplos.




Aquilo de que ele mais gostava nela, para ser honesto, era do peito, em especial dos mamilos rígidos e castanhos, que saboreava devagar nas tardes cinzentas de Outono. Mas quando ela pergunta, sempre depois de ele dizer que a amava, de que mais gostava nela, ele respondia invariavelmente: da tua personalidade. E ela sorria, agradecida.





Eram uns comprimidos tão bonitos que as pessoas não gostavam de os tomar: preferiam contemplá-los demoradamente, desfrutando da sua textura e cor.E a verdade é que ninguém sabia para que serviam; desconfiava-se até que os médicos apenas os receitavam porque eram, efectivamente, os mais bonitos.