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Ebook # 02: Céu nublado


Novo ebook.
Colectânea de vinte e quatro micro-narrativas, acompanhadas por vinte e quatro fotografias de Alexandre Louro inspiradas nas estórias. O resultado chama-se, pouco apropriadamente, Céu nublado.
Disponível para download gratuito no RL.

Discografia # 01: Clean

1.
A estrada está deserta e o carro avança demasiado depressa; noite cerrada, brutalmente escura: mas não me lembro de ter visto o sol desaparecer, não me lembro de assistir à lenta transformação do crepúsculo em noite. Dou por mim aqui, conduzindo sem destino, já sem me lembrar de que fujo, que procuro, porque não paro. Sim, poderia parar: e aguardar pacientemente que o tempo passasse por mim, indiferente e desinteressado; assistir passivamente ao lento transformar do negro da noite no cinzento da madrugada e depois no azul da manhã – pausa para perscrutar o branco das nuvens – e no azul da tarde e no cinzento do entardecer e de novo no negro da noite e no cinzento da madrugada. Sim, poderia: como sempre.
Contudo, o carro continua a avançar. Olhos fixos no horizonte e mãos no volante (apertando-o com desnecessária força), ouvidos concentrados no silêncio; e a mente cheia, completamente cheia: pedaços de imagens irreconhecíveis e farrapos de sensações difusas misturando-se com fragmentos de passado e vislumbres de futuros que nunca se concretizarão (sonhos, acho que é como lhes chamam), memórias demasiado ténues (perenes, tão perenes que poderão ser imaginadas) de sorrisos e orgasmos e dores e toques e sabores e cheiros e carícias e choros e beijos e sons e mais sorrisos. Tudo indefinido e confuso, em constante movimento caleidoscópico; arrebatando-me e distraindo-me, devorando-me.
Fecho os olhos durante um momento, pensando que tudo o que desejo, tudo o que necessito, é de um fugaz intervalo de mim próprio, da minha mente claustrofóbica; depois, volto a abri-los: e nada mudou. O negro da escuridão (que será feito das estrelas, afinal?) e o carro a avançar serenamente, o silêncio da noite zumbindo-me nos ouvidos; e a minha mente (cheia, quase a transbordar) a perseguir-me impiedosamente; aconselhando e criticando; condicionando. Cegando-me.

2.
Pergunto, num tom sereno: para onde estamos a ir?
Mas ninguém responde, como é óbvio. Foi, afinal, para isso que perguntei: para ter a certeza, a confirmação, de que ninguém responderia.
E sorrio, sozinho.

3.
De repente, regressa o desejo (confuso e avassalador, irresistível) de fechar os olhos durante mais um instante; não sei porquê, para quê. Mas é isso que faço, indiferente a motivos ou consequências: fecho os olhos. Aperto o volante com mais força, ainda mais força; o pé continua no acelerador: acelerando; e os olhos fechados, ainda.
Suponho que por esta altura já os deveria ter aberto.

4.
Depois, o carro embate inesperadamente em algo; ouço o ruído metálico, sinto um abanão. Tiro o pé do acelerador e espero, curioso; o carro rodopia, rodando sobre si próprio várias vezes; ruídos de vidros quebrados, metal arranhando o alcatrão, pedaços de plástico desintegrando-se; a minha cabeça embate no tejadilho do carro (dói um pouco), o corpo é projectado com violência para aqui e para ali, para aqui outra vez; o estômago revolvendo-se, uma estranha sensação de desequilíbrio; a pressão do cinto de segurança no meu peito. E nada mais; quietude e vazio, silêncio.
Sei que não devo largar o volante, não devo abrir os olhos. Não devo desistir.

5.
Não consigo mover-me; mas, na verdade, não preciso de o fazer. Sinto-me momentaneamente confortável, sereno: e decido permanecer assim durante mais algum tempo, expectante. Estarei morto, talvez; mas se for o caso, não posso deixar de me sentir algo decepcionado, algo ludibriado: parece-me pouco; monótono.
Aguardo; gostaria de ouvir alguém chamar-me (não consigo lembrar o meu próprio nome, o que é um pouco desconcertante). Decido abrir os olhos mas percebo que já os tenho abertos; volto a fechá-los, a abri-los: e nada muda. Assusto-me um pouco, depois muito; mas não me mexo: não consigo.

6.
Terá passado algum tempo desde o acidente; duas horas, talvez; ou vinte segundos, cinco dias, quarenta minutos. Não sei. Não importa: porque fui sendo invadido por uma estranha e tórpida sensação de apaziguamento e descompressão, de confortável esvaziamento. E sabe bem, esta inesperada leveza, esta inebriante tranquilidade. Como se tudo estivesse a começar de novo: algo como um renascimento. Ou como se tivesse, finalmente, conseguido fugir de mim próprio; libertar-me: e ver. Controlar.
Sim, agora sinto a mente vazia. Não: limpa. Tão limpa que nem o meu próprio nome recordo.

Inspiração: Clean - Depeche Mode
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Lyrics

Comme d’habitude V

1.
Via-te todos os domingos, durante alguns minutos. Conduzias o teu filho pela mão, em silêncio, sem pressa; depois, despedia-lo com um beijo na testa e ficavas a vê-lo desaparecer na entrada da sala, subindo as escadas; por fim, afastavas-te, ainda sem pressa, indiferente à presença dos outros pais; nunca dizias bom dia ou até logo; nunca sorrias; nunca permitias que o teu rosto revelasse qualquer indício de emoção, contrariedade, agitação; vinhas e partias, simplesmente: majestosa; irrelevante.
E eu espreitava-te; porque eras uma mulher bonita e misteriosa, porque o teu silêncio e a tua indiferença me cativavam. Olhava: e imaginava o som da tua voz, a possibilidade do teu sorriso; devaneava um pouco, sem maldade nem consequência, sem verdadeiro interesse.

2.
Até que, um dia, reages: correspondendo ao meu olhar; enfrentando-me: sem hostilidade nem incómodo, suponho que sem verdadeiro interesse (também). Sorrio, tentando disfarçar o desconforto, surpreendido e agradado com a tua súbita atenção; mas tu logo desvias o olhar (entediada, já?), ignorando o meu convite com displicência. E afastas-te no teu passo pausado e lânguido.
Contudo, foi quanto bastou. A troca de olhares repetiu-se nos domingos seguintes, discreta e fugaz mas intencional, consequente; revelando curiosidade e interesse, convite e disponibilidade; revelando uma ténue mas efectiva possibilidade de entendimento.

3.
Foi, pois, com naturalidade que numa dessas manhãs de domingo deixámos os respectivos filhos na catequese e nos afastámos em direcções opostas, para nos encontrarmos lá mais à frente, longe.
Despimo-nos sem pressa, excitados mas calmos, atentos à revelação do corpo do outro e agradecidos pela possibilidade de concretização da fantasia; ouvindo os inconfundíveis e monótonos burburinhos de uma missa de domingo, vindos da televisão de um vizinho. Fodemos, com vigor e ruído, com ânsia, com vontade. Depois, lavamo-nos, vestimo-nos, despedimo-nos: como se nunca tivéssemos estado verdadeiramente juntos.
Voltamos a encontrarmo-nos, minutos depois, à entrada da catequese; sem sorrisos nem palavras, sem olhares. O efeito dos orgasmos já há muito dissipado, quase esquecido. E os miúdos: atrasados.

4.
O encontro repetiu-se nos domingos seguintes; e o sexo, sempre reconfortante, foi-se tornando rotineiro e previsível mas ainda satisfatório, anestésico; perdeu-se a surpresa e a voracidade: inevitavelmente. Mas não nos ocorreu parar, desistir: porque ainda sabia bem, ainda apetecia.
Nunca conversávamos, nunca sorriamos, nunca nos acariciávamos; estávamos ali para foder, apenas; comme d’habitude? Sim. Saciar corpos, distrair espíritos, disfarçar vazios; ocupar tempo. Comme d’habitude.
Julgo que nem sentíamos curiosidade em conhecer o outro, descobrir afinidades, partilhar sentimentos; para quê? Não. Fustigávamos os sexos, gemíamos um pouco, por vezes (três ou quatro, não mais) gritavas. Gostávamos do torpor, dos cheiros que ficavam, do silêncio que os orgasmos traziam consigo; apreciávamos, em simultâneo, a presença e o desinteresse do outro (sós: mas acompanhados). Misturávamos os corpos, simplesmente: e o tempo ia passando. Uma rotina, sim; mas uma rotina diferente da habitual; um intervalo (de rotina) na rotina.

5.
Até hoje.
Não quis tomar banho e vesti-me apressadamente, enquanto permanecias na cama; talvez me olhasses, não sei. Talvez te apetecesse perguntar: porquê a pressa? (Não saberia o que responder.)
Saí, sem te olhar. E aqui estou, à espera que o garoto acabe a catequese. Há outros pais a aguardar (conversas inconsequentes, iguais às da semana passada e às da outra semana); uma ameaça de chuva a pairar; vontade de estar noutro lado qualquer; pressa de caminhar, de ir. E os risos das crianças, lá longe; um carro a passar, demasiado depressa; um gato gordo e imóvel à espreita de uma janela; o vento a sacudir quase imperceptivelmente as árvores. Tu a aproximares-te (sinto o teu cheiro, antes de te ver: também não tomaste banho.)
Aproximas-te, sim. Mas não paras onde costumas aguardar, junto ao habitual pedaço de parede; continuas a caminhar, sem aparente hesitação ou dúvida, sem pressa; aproximas-te: de mim. E eu não me mexo, não olho, não respiro; estendes as mãos e os teus dedos percorrem-me a face, o cabelo; puxam-me para ti. Depois, os lábios: tocando os meus.
Fecho os olhos, incapaz de resistir, incapaz de não corresponder ao teu beijo; incapaz de perceber. Sinto a tua língua acariciar-me, o teu corpo junto ao meu; sinto, também, os miúdos a descerem as escadas em audível correria, aproximando-se. As conversas circundantes silenciam-se (por um momento, pergunto-me se não terá sido apenas para isso que decidiste beijar-me publicamente: para suspender a monotonia das conversas desta gente) mas o vento continua a agitar as árvores, a embalar as folhas; e o gato continuará à janela, olhando.
Quase tudo como antes, como sempre: excepto o beijo, que prossegue. Conduzindo a nada, certamente; apenas prosseguindo.

Esboço # 24

Já há muito tempo que não falamos. Ele num sofá, eu na poltrona: em silêncio, vagamente esquecidos da presença do outro. Vimos o filme, ansiosos pelo final; ou talvez com vontade de que nunca acabe: porque, então, teremos de falar, olhar, partilhar qualquer coisa; consciencializar que o outro está ali (para sempre?).
É então que as pessoas do filme começam a despir-se; logo depois, estão a foder, convicta e ruidosamente. Olhamos para aquilo, sem nos mexermos, talvez respirando mais devagar (ou mais depressa?), infelizes por não estarmos sós. Os seios dela são bonitos, ele chupa-os com vigor; gemidos e música; o tempo a arrastar-se penosamente: no filme, na nossa sala.
Mas quando a cena de sexo termina, sinto que sou percorrida pelo seu olhar; ignoro-o mas logo depois chega a voz dele: apetece-te? Não respondo, com esperança que não insista, enquanto os segundos (parecem horas, não é?) vão passando, silenciosos e desconfortáveis, opressivos.
Continuo a olhar para o filme; ele levanta-se, aproxima-se, toca-me; tento não estremecer quando sinto o seu contacto (terei conseguido?), sorrio para disfarçar o incómodo. E ele, como é óbvio, apressa-se a interpretar o meu sorriso como aceitação.
Agora, estamos a despirmo-nos, sem grande entusiasmo, talvez sem verdadeira vontade; gestos mecânicos e automáticos, desfasados, vagamente inconsequentes: coincidindo com os nossos sentimentos. Daqui pouco, estaremos a foder, tal como o casal do filme (e quem representará melhor, nós ou eles?). Pergunto-me distraidamente o que teria acontecido se em vez da cena de sexo, houvesse uma cena de divórcio; ficaria ele igualmente excitado, propondo-me a separação do mesmo modo que propôs a foda?
Sorrio, sem alegria. Sinto a sua mão percorrer-me o interior da coxa e aproximar-se do sexo, o que não é propriamente agradável; depois, respondo ao seu beijo, sem entusiasmo mas com competência. E é então que começo a pensar a ti.

Esboço # 12 (Extended vocal remix)

BARMAN (olhando o CLIENTE, enquanto esfrega um copo com gestos desnecessariamente cuidadosos): E então lá estamos todos caladinhos, a olhar para a frente, com medo não sei de quê, com vergonha não sei de quê. (Pausa breve.) Os autocarros são lugares estranhos, não são? As pessoas estão ali tão próximas umas das outras mas são incapazes de, sei lá, interagirem. Todos a fazerem uma espécie de intervalo nas suas vidas, sempre à espera de qualquer coisa, de chegarem ao seu destino, ou de fugirem lá do sítio de onde querem fugir.
CLIENTE (evitando o olhar do BARMAN): Não entro num autocarro há uns vinte anos, ou mais.
BARMAN: A sério? Tem sorte, que assim não se cruza com todos estes mortos-vivos, com esta gente adiada. (Pausa; arruma o copo com gestos cuidados e pega noutro, que começa a esfregar.) Mas é fodido, não é? Parece mesmo que andamos todos à procura de algo ou a fugir de algo. Não há hipótese, ou é uma coisa ou é a outra. Nunca estamos contentes, não conseguimos sentarmo-nos quietinhos e saborear o momento.
(Longa pausa. O CLIENTE permanece alheado. O BARMAN prossegue a limpeza dos copos, muito devagarinho, como se temesse que se lhe acabassem os copos.)
BARMAN (tentando parecer entusiasmado): Bom, lá íamos no autocarro, a chuva a bater nas janelas, tudo cinzento lá fora. Estava sentado ao lado duma mulher ainda nova, uns trintas ou coisa assim. Um perfume do caraças, enjoativo. Quietinha, com as mãos em cima dos joelhos, sempre a olhar lá para fora. (Pausa breve.) Tento sentar-me sempre ao lado de mulheres porque às vezes, sabe como é, há toques involuntários, nas curvas e assim. E não gosto de ser tocado por homens, por aqueles velhos meio mortos que andam sempre nos autocarros ou pelos garotos dos liceus.
CLIENTE (monocórdico, como se contrariado): Mas se for uma mulher, já não faz mal…
BARMAN (rindo): Não me queixo. Mas esta de hoje estava lá congelada no canto dela, protegida pela nuvem de perfume. E eu a perguntar-me: porque raio andam sempre as pessoas tão tristes? (Pausa breve.) Já reparou?, anda sempre tudo de rosto fechado, como se o mundo estivesse para acabar.
CLIENTE (com ligeira agressividade): E você? Está sempre alegre?
BARMAN (olhando o copo com atenção desnecessária): Estar, não estou. Mas esforço-me um bocadinho, só um bocadinho, percebe?, para não andar sempre com peninha de mim. (Pausa breve.) É que me chateia a maneira como as pessoas andam sempre com este olhar acusador, como se toda a gente, todo o mundo, fosse responsável pelas suas misérias. (Pausa breve.) Chateia-me mesmo.
(Longa pausa. O BARMAN pega um dos copos já limpos e compara-o ao que tem nas mãos; depois de olhar, arruma-os cuidadosamente. Fica um momento indeciso. O CLIENTE bebe um gole breve do copo que tem à sua frente; pousa-o mas não o larga. O BARMAN pega um novo copo e esfrega-o.)
CLIENTE: Então e depois, que fez a mulher?
BARMAN (olhando o CLIENTE, sem rancor): Sabe o que fez? Começou a chorar. (Riso, um pouco forçado.) Em silêncio, não se ouvia nada. Mas eu, bom… De vez enquando espreitava-lhe as pernas, tinha uns joelhos muito bem feitos, moldados pelas calças de ganga justas, e eu olhava, do mesmo modo que olhava para a careca do homem que ia à minha frente ou para o ténis roto de uma rapariga que estava lá na outra fila. (Pausa breve.) Tudo serve para um gajo se distrair, não é?
(BARMAN pára de esfregar o copo, fica pensativo.)
BARMAN: Havia qualquer coisa nas mãos dela, que me chamou a atenção. Tinha-as ali no colo, muito quietinhas, como se não soubesse o que lhes fazer. Bonitas, dedos muito compridos. Unhas bem tratadas. Mas depois começou a apertá-las, a mexer os dedos. Como se lhe estivesse a doer qualquer coisa, sabe como é. (Pausa breve.) E então pus-me a olhar pela janela e depois, como se fosse por acidente, espreitei-lhe o rosto.
CLIENTE (ligeiramente alheado): Já me perguntei muitas vezes isso: porque temos tanto medo de olhar o rosto dos desconhecidos?
(O BARMAN acena com a cabeça. Volta a esfregar o seu copo. Breve silêncio.)
BARMAN: Podia ficar a olhá-la o tempo que quisesse, que a mulher estava muito longe, noutro mundo. Mas chorava a sério, lágrimas a escorrerem devagarinho pela face. E eu ali, atrapalhado. Pus-me a olhar para a rapariga dos ténis rotos, tentando não pensar nela, não me intrometer. Quietinho, a ver se não sobrava para mim.
CLIENTE: Às vezes, sinto isso. Vemos que alguém está atrapalhado e não nos aproximamos, tememos que aquilo seja contagioso, que nos afecte. Mas a verdade é que, lá no fundo, até sentimos uma pontinha de satisfação; ou, pelo menos, de alívio. Porque não é connosco. (Pausa breve.) É um pouco como se achássemos que o número de desgraças que poderão acontecer, no mundo, é limitado; e tudo o que acontecer aos outros, já não nos acontece a nós. Uma desgraça gasta, inofensiva. Uma que não nos fará mal, a nós.
(O CLIENTE bebe mais um gole. O BARMAN parou de esfregar o copo, olha o CLIENTE com alguma surpresa, talvez com apreensão. Pousa o copo e dá uns passos, pega uma garrafa e trá-la consigo; pega um dos copos que acabou de esfregar e enche-o. Bebe um gole. Fecha os olhos. Arrota muito ligeiramente. Abre os olhos, espreita o CLIENTE. Arruma a garrafa, bebe mais um gole. Pega no copo que antes estava a esfregar.)
BARMAN (sem olhar o CLIENTE): Estava eu ali, sem me mexer, como se fosse um garoto envergonhado, à espera que a mulher acabasse lá com a crise dela. Enjoado com o perfume, misturado com o cheiro do autocarro, com o cheiro daquela gente toda, e das pessoas que estiveram ali sentadas desde a última vez que o autocarro foi lavado, há três anos ou assim, e que deixaram um pedacinho de si, do seu cheiro. Tudo misturado. (Pausa breve.) E depois passou-me uma coisa pela cabeça, não sei.
(O BARMAN olha o CLIENTE, que o ignora. Ambos bebem dos seus copos, em simultâneo.)
BARMAN (aproximando-se um passo, diminuindo o volume da voz quase imperceptivelmente): Sabe o que fiz?
CLIENTE (curioso): Não.
BARMAN: Agarrei-lhe a mão.
(O CLIENTE sorri ligeiramente. O BARMAN está a esfregar o copo com uma energia inesperada.)
BARMAN: Agarrei-lhe a mão, como o raio de um adolescente apaixonado.
CLIENTE: E ela?
BARMAN: Apertou-me os dedos com força. E ali ficámos muito tempo, a olhar em frente, rígidos. O autocarro aos solavancos, para aqui e para ali; pessoas a saírem, pessoas a entrarem. E nós de mãos dadas, em silêncio.
(Ouve-se o ruído longínquo de uma sirene, que se vai aproximando. Os dois homens estão em silêncio, distantes. O BARMAN esfrega o copo, de novo com gestos lentos e olha para a rua; o CLIENTE olha para o seu copo, que está vazio. O ruído da sirene foi-se aproximando e agora volta a afastar-se, lentamente.)
BARMAN: Finalmente, o aperto dela começou a suavizar um pouco, tornou-se menos agressivo, menos desesperado. Um pouco depois, deixou de me pegar. E durante uns instantes fiquei ali com a mão dela na minha, completamente inerte, morta. (Pausa breve.) Larguei-a, suavemente. Um bocado depois, o autocarro pára e ela levanta-se. Encolho-me, para a deixar passar mas as nossas pernas esfregam-se, inevitavelmente. (Pausa breve.) Gosto muito destes toques acidentais, entre estranhos. Há algo de sensual, talvez por causa da possibilidade latente, não sei; excita-me imaginar até onde poderia conduzir aquele toque, fantasiar que não foi algo acidental mas uma carícia disfarçada, inconsciente, um convite. (Pausa breve.) Mas neste caso foi um pouco desagradável. Não sei explicar, como um casal de divorciados que se encontram e se beijam da face, porque tem que ser. Desconfortável.
(O BARMAN olha o CLIENTE, como se buscasse a sua cumplicidade, a sua concordância. Dá uns passos, pega uma garrafa e aproxima-se dele. Enche o seu copo, muito devagar. O CLIENTE olha o líquido, que não solicitou. O BARMAN afasta-se, arruma a garrafa.)
BARMAN (num tom triste): Não me olhou, uma única vez. (Sorri.)
CLIENTE (após um momento de silêncio): Se pensarmos nisso, não percebemos bem porquê mas a verdade é que temos medo dos outros, dos desconhecidos. Não arriscamos tomar iniciativas, talvez por receio de não sermos correspondidos, ou simplesmente de sermos mal interpretados. Porque se estamos a iniciar algo o outro pode pensar que estamos a pedir qualquer coisa, não é? E, portanto, estamos a revelar fraqueza de dois modos: denunciamos que há algo que nos faz falta e colocamo-nos na desconfortável posição de podermos ser recusados. (Pausa breve.) Por vezes, penso, acho que todos pensamos, que a felicidade pode depender de uma simples palavra, de um gesto. Um olhar que arriscamos e que pode mudar a nossa vida por completo.
(O CLIENTE bebe um gole prolongado do seu copo, pousa-o com um ruído seco e desagradável. O BARMAN está a olhar para o copo do CLIENTE, distraído, com as mãos vazias.)
CLIENTE (com um sorriso vago, quase imperceptível): Mas recusamo-nos a acreditar que possa ser assim tão simples, tão banal, tão descomplicado.
BARMAN (pegando um dos seus copos): Estamos a proteger-nos.
CLIENTE: É isso, pior não se fica. Para quê arriscar?
(O CLIENTE brinca com o copo, entorna umas gotas no balcão. O BARMAN passa com o seu pano dos copos pelo balcão molhado, com gestos muito lentos.)
BARMAN (olhando o CLIENTE, num tom quase desafiante): Bom, mas hoje tomei a iniciativa. Peguei a mão de uma mulher desconhecida e amparei-a num momento difícil. Ela não correspondeu, nem sequer agradeceu. Nada. (Pausa breve.) Mas, e se tivesse olhado? Se sorrisse? Se me perguntasse o nome? (Pausa breve.) É simples, sim. Mas nunca resulta.
(O CLIENTE sorri.)

Esboço # 23

ELE (num tom nostálgico, quase sonhador): Sim, era muito falador. (Pausa breve.) Chegava a casa e começava logo a tagarelar sobre o que tinha acontecido nesse dia, coisas banais e inconsequentes, em que nem reparara com atenção enquanto aconteciam mas que, em retrospectiva, quando as contava, pareciam-me interessantes. (Pausa breve. Sorriso.) Como se só acontecessem para que eu, mais tarde, as pudesse contar. (Novo sorriso, quase forçado.) O que fazia de mim uma espécie de coleccionar de eventos. Não. De tópicos de conversa. (Pausa longa, algo desconfortável. Aguardo, sem impaciência nem verdadeiro interesse.) Ia falando, um pouco indiferente às reacções que causava, sem reparar que nunca havia perguntas ou manifestações de curiosidade. Nada, na verdade. (Pausa breve. Tom quase envergonhado.) Suponho que partia do princípio de que tudo o que pudesse dizer seria importante para eles e, portanto, escutariam sempre com curiosidade e interesse. (Pausa breve. Tom hesitante.) Todos acreditamos nisso, não é?
(Encolho os ombros e desvio o olhar. O silêncio arrasta-se, vagamente opressivo.)
ELE (talvez envergonhado): Eu acreditava. E ia falando e falando; eles olhavam para mim e sorriam, acenavam com a cabeça, voltavam a sorrir, voltavam a acenar com a cabeça. (Pausa breve.) Sempre assim, dia após dia. Como se me dominasse uma ânsia de lhes falar, de contar, de merecer a sua atenção. (Hesitando.) Como se a minha vida, a minha presença naquela casa, apenas fizesse verdadeiro sentido enquanto falasse e o silêncio pudesse ser sinónimo de uma espécie de não existência. Percebes?
(Aceno com a cabeça, tentando mostrar-me compreensivo e solidário. Tentando: talvez sem grande sucesso.)
ELE (pensativo): Tentar alimentar o seu interesse por mim, através da palavra. (Pausa breve.) Uma forma inconsciente de forçar a aproximação, talvez. (Sorriso triste, desconsolado.) De forçar a intimidade.
(Levanto-me e caminho até à janela, olho o céu sem atenção nem prazer; por nenhum motivo, apenas para não me manter quieto, expectante; para forçar o movimento, contrariar a estagnação. Ouço-o respirar lentamente, talvez olhando-me. Suponho que aguarde uma reacção minha, uma manifestação de interesse.)
EU (forçando-me a fazer a pergunta, cuja resposta intuo): Mas que idade tinhas? (Pausa muito breve, hesitação subtil.) Quando percebeste que os teus pais não estavam realmente interessados no que tivesses para lhes contar. (Pausa breve.) Em ti.
ELE (encolhendo os ombros, desviando o olhar): Nove. Nove anos. (Pausa longa.) Quase nove anos.
(Continuo à janela, olhando o céu; perguntando-me se haverá um dia em que as nuvens deixem de ser brancas. Ele continua sentado na poltrona, respirando lentamente; talvez a perguntar-se se algo mudou na sua vida, em todos estes anos.)

# 62: Todo o tempo disponível

1.
Entro em casa, empurro a porta, avanço uns passos. Tento lembrar-me se há algo que deva fazer, algo que tenha adiado, alguma tarefa pendente; penso, devagar, percorrendo todo o espectro possível, disponível. Depois, desisto de pensar e avanço até ao quarto; fico durante um bocado a olhar para a cama, a pensar que daqui uns minutos, ou horas, estarei lá; penso, uma vez mais, em como a cama é o objecto da minha casa, da minha vida, com que mais me relaciono, com que tenho maior intimidade; e sorrio, com tristeza. Começo a despir-me, peça após peça, até ficar completamente nua; depois, caminho preguiçosamente pelo quarto, sentido o corpo descontraído, a pele livre; pergunto-me se alguém, algum dia, voltará a contemplar o meu corpo, assim, despido e vulnerável, disponível; talvez não. E apesar da dor, sinto também um princípio de liberdade.
Saio do quarto e dou algumas voltas desnecessárias pela casa. O cão persegue-me, irritante. Tento não pensar no funeral. Tento não pensar no morto; depois, tento recordar o seu sorriso: e não consigo.
Regresso ao quarto, deito-me. Durante um instante, é agradável sentir o corpo assim, simultaneamente livre e acarinhado; mas a sensação logo se dissipa. Lá fora escurece lentamente, enquanto o mundo se esforça para se manter em silencioso. Fecho os olhos, volto a abri-los. Espero que os minutos passem, lentos e vazios. Depois, levanto-me e cubro o corpo, gélido, com algumas roupas, as primeiras que encontro; volto a deitar-me, a fechar os olhos, a esperar.

2.
Acordo de súbito, agitada por um pesadelo. Aconchego-me na cama, confusa e assustada, momentaneamente distraída com o longínquo e difuso uivo dos lobos ecoando lá longe, na pradaria; depois, lembro-me que – agora – estou sozinha, que talvez assim esteja por muito tempo: e sinto a solidão entranhar-se no meu corpo, apropriar-se dele, controlá-lo. Permaneço rígida, com os olhos a perscrutar a escuridão, a mente a perscrutar o futuro; sem esperança. Então, começo a chorar, pela primeira vez em muito, muito tempo; não porque tenha cedido, por fim, ao desamparo; apenas porque não tenho mais nada, mesmo mais nada, para fazer, para me distrair. Porque até os longínquos lobos se calaram, talvez apaziguados: deixando-me ainda mais só.
Suponho que acabarei por voltar a adormecer.

3.
O sol da manhã entra pela janela da cozinha; e é agradável. Pequenas nuvens de pó bailam no ar, descubro uma frágil teia de aranha na cortina; sons imprecisos – talvez imaginados? – de vidas desconhecidas e apressadas, lá fora. O cheiro insidioso de sopa estragada agonia-me; e fico a olhar a panela, a perguntar-me que representa, afinal, esta sopa, por que motivo ainda não consegui despedir-me dela. O cão aproxima-se, vagaroso: tão insuportavelmente presente, disponível; possessivo.
Como um pedaço de pão seco, devagar; e de repente exaspera-me esta vida sem pressa, sempre lenta e lenta e lenta, esta vida em que há tempo para tudo e em que tudo se deve fazer devagar: porque há tão pouco para fazer que tem que se prolongar cada tarefa, cada pensamento, cada gesto, para que todo o tempo disponível seja preenchido e ocupado e considerado bem gasto, utilmente gasto. Começo, então, a mastigar com mais rapidez. Depois, dominada por um impulso súbito, pego na panela de sopa e deito-a à pia; lavo a panela, abro a janela. Sinto o cheiro partir, derrotado.
E depois imobilizo-me a meio de um gesto, de um pensamento; respiro fundo, olho em redor: a tentar perceber se algo mudou.

4.
Saio à rua, por fim. Ainda sem objectivo nem destino, apenas decidida a sair de casa e caminhar livremente, respirar ar puro; fugir de mim própria, talvez. Ser olhada e testemunhar perante o mundo que ainda estou viva, que ocupo espaço e consumo ar, que conto; perceber nos olhares, nas expressões, das pessoas com quem me cruzar a minha existência efectiva, concreta, palpável. Desligar o silêncio: e preenchê-lo com qualquer coisa.
Caminho, então. Sinto no corpo a suave agitação do vento vindo da pradaria, trazendo consigo o cheiro da vastidão e do vazio, da intemporalidade, transportando ténues e difusos – enganadores – indícios de liberdade. Reparo, uma vez mais, como as florzinhas do meu jardim morreram há muito, transformando-se em macabros cadáveres ressequidos; tento recordar a longínqua manhã que passei de joelhos na terra, plantando e regando e cuidando, uma suave manhã de primavera, distante e quase – quase – esquecida; uma recordação tão longínqua que parece emprestada, uma recordação de outra pessoa qualquer; talvez de uma outra vida minha; e pergunto-me, sorrindo secretamente, quantas vidas compõem uma vida. Paro para abrir a cancela, sentindo a rugosidade da madeira, deixando a mão um momento mais que o necessário; depois, dou uns passos e volto a parar, fecho a cancela. E é então que reparo no cão, deitado na sombra, ao lado da árvore. Estranho a sua imobilidade e, por um momento, suspeito que esteja morto. Mas não está, certamente que não. Volto a abrir a cancela e caminho até à rua; respiro fundo, o sol quente a incomodar-me um pouco, só um pouco. Lá por cima, farrapos de nuvens, vagando preguiçosamente, arrastando-se em direcção à pradaria.

5.
Avanço, sem firmeza nem convicção. Há homens de rostos compungidos que me acenam solenemente, enquanto erguem o chapéu; crianças que param de gritar ou rir quando me vêem; mulheres que ostentam expressões angustiadas enquanto me olham e que, logo depois, regressam às suas conversas inconsequentes e irrelevantes; passo e causo uma suave, ligeiríssima, impressão: mas logo sou esquecida. Pergunto-me vagamente se esta irredutível solidão que sinto será, secretamente, partilhada por todas estas mulheres com quem me cruzo, que me olham; se terá sido assim com as mulheres que viveram há cem anos, se será – ainda – assim com as mulheres que viverão daqui cem anos.
Entro no mercado, onde sou recebida com um silêncio respeitoso. Apalpo as cenouras, escolho três; couve e batata e nabo e feijão; arrumo tudo no cesto, entrego moedas à senhora que há anos me vende cenouras e couves e batatas e nabos e feijões – lembro-me, de repente, que também ela é viúva. Depois, quando estou a receber o troco, decido que não preciso dos legumes que acabo de comprar: não voltarei a fazer sopa.
Chego à rua e a luz da manhã cega-me um pouco, forçando-me a caminhar com passos um pouco trôpegos. Há alguns trabalhadores das minas a percorrer a praça, tumultuosos e exaltados, apregoando ruidosamente a descoberta de vestígios – concretos? Imaginados? Mas que importa, afinal? – de ouro; uma possibilidade de mudança, apenas: o suficiente para os fazer temporariamente felizes. Quatro ou cinco rapazes, trabalhadores de um qualquer rancho insignificante em visita à cidade, com as botas cobertas de bosta de vaca e os chapéus descoloridos pelo sol, olham em frente, ignorando os mineiros, talvez arrependidos das suas opções, talvez apenas a aguardar que o tempo passe e se descubram noutro sítio qualquer, diferentes. E depois, envolvendo a cidade: o apito inesperado do comboio, aproximando-se.
À entrada da igreja hesito durante um momento; mas entro, empurrando a grande porta de madeira, coberta pelo suor gordurento e solidificado de centenas de mãos; sento-me e olho para a enorme e solene cruz. Penso no meu marido; depois deixo de pensar nele: e pergunto-me se é isto que é suposto sentir uma viúva. Recordo o estranho pistoleiro que trouxe o seu cadáver, amarrado a um cavalo: a expressão misteriosa e o olhar opressivo, os seus gestos dissimulados; tão insuportavelmente silencioso; pergunto-me que segredos esconderá, no âmago da sua alma. E depois imagino como seria bom ter segredos, algo a esconder, a proteger; como é monótona esta existência linear e virtuosa, pública.
Fico a pensar nisto durante muito tempo. Como seriam os meus segredos, se os tivesse?

6.
Saio da igreja, esquecendo propositadamente o cesto de legumes que deixara à entrada. É possível que alguém repare e, daqui umas horas, me apareça à porta, fazendo a entrega com um sorriso embaraçado, aguardando um sorriso embaraçado em troca; e terei que fingir surpresa, agradecer. Vou caminhando, com o olhar no chão. Talvez isto possa contar como segredo: esqueci os legumes de propósito porque já não os quero, é este o meu grande segredo. E sorrio, preparada para o guardar com tenacidade.
Passo após passo. O saloon ruidoso. O gabinete do Xerife, fechado; pergunto-me quantas vezes lá terei entrado; três? Cavalos que cheiram mal. Nuvens – ainda as mesmas nuvens – arrastando-se vagarosamente pelo céu descolorido. Olhares dissimulados e perscrutadores, invasivos. O murmúrio arrastado da pradaria, ecoando no silêncio. Cacarejos de galinhas. Risos de crianças. O apito do comboio, que parte. E eu a deslizar pela rua, sem deixar pegadas.
Como antes. Como sempre.

7.
Depois, enquanto caminho, passos lentos e olhos fixos no chão – onde estarão, afinal, as minhas pegadas de há pouco? –, penso no meu marido. No morto.
Recordo, sem dor nem exaltação, como estive profundamente apaixonada por ele, sem limites nem concessões, sem receios ou hesitações; recordo como vivia para ele, com ele, nele. Obsessivamente, dia após dia: durante um mês. Ou mesmo que fossem dois, três, quatro. Uma vida.
Recordo, também, como inevitavelmente a paixão começou a desvanecer, implodindo lentamente, tão lentamente. Num dia amava-o profundamente; e no seguinte continuava a amá-lo: mas menos profundamente. Só um pedacinho menos, um pedacinho quase imperceptível, tão insignificante que quase – quase – poderia ter sido confundido com uma inexistência; mas eu sabia. Sabia que a paixão, feita de fascínio e amor e novidade e deslumbramento e conforto e compreensão e prazer e riso e sintonia e sexo e voracidade, se estava a transformar em repetição, em rotina, em monotonia, em frustração, em decepção, em silêncio. Lentamente, sempre lentamente.
Caminho pela rua poeirenta, sentindo-me quente e desconfortável, amorfa, minúsculas gotas de suor formando-se na minha testa, a roupa pesada, colando-se à pele; recordando o longínquo dia em que dei por mim a tentar perceber para onde fora essa paixão que, durante algum tempo, avassalara a minha vida e justificara a minha existência; onde estava? Em que se transformara? Quando regressaria? A tentar perceber se a minha vida já passara.
Caminho, sem pressa; ainda sem perceber se a minha vida já passou.
Pergunto-me se o cão ainda estará estendido à beira do jardim; penso se, afinal, não estará mesmo morto; e tento não ter demasiada esperança.

8.
Entro em casa, empurro a porta, avanço uns passos. Tento lembrar-me se há algo que deva fazer, algo que tenha adiado, alguma tarefa pendente; penso, devagar, percorrendo todo o espectro possível, disponível. Depois, desisto de pensar e avanço até ao quarto; fico durante um bocado a olhar para a cama, a pensar que daqui uns minutos, ou horas, estarei lá; penso, uma vez mais, em como a cama é o objecto da minha casa, da minha vida, com que mais me relaciono, com que tenho maior intimidade; e sorrio, com tristeza. Começo a despir-me, peça após peça, até ficar completamente nua; depois, caminho preguiçosamente pelo quarto, sentido o corpo descontraído, a pele livre; pergunto-me se alguém, algum dia, contemplará o meu corpo, assim, despido e vulnerável, disponível; talvez não. E apesar da dor, sinto também um princípio de liberdade.
Mas, logo de seguida, invade-me a desconfortável sensação de já ter vivido este momento, de que me estou a repetir. E apetece-me parar: e mudar; viver outra coisa, experimentar outra sensação. Sim, apetece.

Esboço # 22

Certamente que já reparaste: há muito que não conversamos. Sim, vivemos juntos e aparentemente somos felizes (pelo menos, é o que diríamos se alguém nos perguntasse), partilhamos com agrado e determinação uma relação pragmática e mecanizada, feita de rotinas e preguiças e subsistências; uma relação madura e ponderada (segura), alicerçada no respeito pelo outro (ou será na indiferença pelo outro?), onde não há lugar à surpresa ou ao arrebatamento. Não conversamos porque sentimos que não há nada de novo a dizer (e para quê repetir as mesmas coisas?), talvez também porque não nos apeteça ouvir, não nos interesse assim tanto o que o outro ainda tenha para dizer (ocorre-me, agora, que poderia ser interessante – engraçado – conversar um pouco sobre este assunto).
Tudo isto é – acredito – normal. Mas o que me parece algo peculiar é o nosso comportamento na cama (e não me refiro a sexo, sobre isso já nada temos a dizer, a partilhar): a forma algo prosaica mas cálida (ternurenta?) como todas as noites, quando nos deitamos, aconchegamos os corpos um no outro e assim permanecemos, juntos; sempre: como na primeira noite. Um vestígio de amor? Ou apenas distracção? Hábito? (Por vezes, penso: talvez seja apenas por isto que ainda permanecemos juntos.)