Statcounter

Esboço # 26

(A praça está deserta, apenas eles ocupam uma das mesas da esplanada. Céu cinzento e claustrofóbico, ameaçador; talvez chova, mais tarde. Ninguém passa, não há crianças a brincar com carros telecomandados, velhos a espreitar os pombos. Apenas os dois, sentados numa mesa repleta de jornais, de destroços do pequeno almoço. Ele tem estado a falar, enquanto ela escuta distraidamente.)
ELE (num tom peremptório, quase pomposo): É o que penso, por mais que encham páginas a dizer o contrário não me fazem mudar de ideias. (Pausa breve. Tom algo condescendeste, sem a olhar.) Não achas que tenho razão?
ELA (após uma breve hesitação, como se tivesse demorado a perceber que ele se lhe dirigira. Tom desprendido, desinteressado. Esforçando-se para não encolher os ombros, não revelar enfado.) Acho que sim. (Continua a passar as páginas de uma revista, desatenta.)
ELE (depois de um longo silêncio, durante o qual prosseguiu a leitura): Gente de merda, sempre a mandar sentenças. A encher os jornais com pretensiosismos e arrogâncias. (Abana a cabeça, irritado. Sobe ligeiramente o tom de voz.) Como se um gajo não tivesse direito à sua própria opinião, a pensar por si.
(Durante algum tempo apenas se ouve o crepitar dos jornais, o som distante e esporádico do tráfego. Os pombos continuam a esvoaçar sem destino nem convicção, talvez intrigados com a ausência dos reformados. E o céu tão cinzento; mas é provável que não chova.)
ELA (olhando-o incisivamente; num tom sério, quase dramático): Há quanto tempo estamos juntos?
(Ele olha-a, surpreendido e perscrutador; um pouco intimidado com o seu tom de voz.)
ELE (hesitante): Quase dois anos. (Sorri, um pouco ansioso.) Vinte meses, acho eu. (Olha-a, simultaneamente inquieto e curioso.) Porque perguntas?
ELA (sonhadora, desviando o olhar; ignorando a pergunta, ignorando-o): Vinte meses. É capaz de ser isso. (Pausa breve. Ele aguarda que ela acrescente uma explicação, incapaz de regressar ao jornal; nervoso. E ela volta a encará-lo, sem complacência ou desafio. Tom neutro, distante; factual.) Acreditas que nestes vinte meses não disseste uma única frase que me interessasse verdadeiramente?
(E é então que lá no fundo da praça aparece a primeira criança da manhã, pedalando furiosamente a sua bicicleta resplandecente.)

Esboço # 25

(Estão num quarto de hotel, estendidos na cama enorme já um pouco desordenada; ele está completamente nu, ela permanece vestida e calçada. Ela beija-lhe o sexo com alguma sofreguidão, enquanto ele se contorce ligeiramente, de olhos fechados e respiração agitada. A chuva bate com violência na janela, provocando um ruído monocórdico, quase hipnótico; há pouca luz no quarto, uma quase ausência de cor.)
ELE (abrindo de súbito os olhos, agitando-se nervosamente, tentando afastá-la; num tom de voz quase sufocado): Calma, espera aí.
(Ela prossegue durante alguns segundos; depois, afasta a boca do sexo dele e fica a olhá-lo, talvez decepcionada.)
ELE (num tom falsamente desprendido, incapaz de disfarçar a ansiedade): Temos tempo. (Sorriso embaraçado.)
(Ela afasta-se um pouco dele, sem o olhar; suspira, quase imperceptivelmente; descalça-se, atirando os sapatos para longe; depois, começa a despir-se, indiferente ao olhar apreciativo dele.)
ELE (sorrindo de novo, tentando aparentar controlo; num tom algo sobranceiro, algo arrogante): Não fazes isto ao teu marido, pois não?
ELA (olhando-o, surpreendida): Broches? Claro que faço. (Ri, enquanto despe o soutien e o deixa cair ao chão.) Sempre que posso. (Aproxima-se um pouco dele, repentinamente séria. Pausa breve.) Não me digas que pensas que o faço apenas para te dar prazer. (Ele agita-se um pouco, nervoso; talvez envergonhado. Ela sorri, tentando parecer carinhosa.) Oh querido, faço-o porque gosto. Porque me dá prazer fazê-lo. (E ri, de novo.)
(Pausa breve. Ela pega-lhe o sexo, acaricia-o com os dedos; depois, recomeça a beijá-lo. Ele fecha os olhos, sentindo o corpo tenso; suspira ruidosamente. Talvez se concentre no som da chuva, tentando ausentar-se um pouco; distrair-se, num esforço ingénuo de retardar ao máximo a ejaculação, como aconselham nas revistas; ou apenas para não se sentir tão idiota.)

Ebook # 02: Céu nublado


Novo ebook.
Colectânea de vinte e quatro micro-narrativas, acompanhadas por vinte e quatro fotografias de Alexandre Louro inspiradas nas estórias. O resultado chama-se, pouco apropriadamente, Céu nublado.
Disponível para download gratuito no RL.

Discografia # 01: Clean

1.
A estrada está deserta e o carro avança demasiado depressa; noite cerrada, brutalmente escura: mas não me lembro de ter visto o sol desaparecer, não me lembro de assistir à lenta transformação do crepúsculo em noite. Dou por mim aqui, conduzindo sem destino, já sem me lembrar de que fujo, que procuro, porque não paro. Sim, poderia parar: e aguardar pacientemente que o tempo passasse por mim, indiferente e desinteressado; assistir passivamente ao lento transformar do negro da noite no cinzento da madrugada e depois no azul da manhã – pausa para perscrutar o branco das nuvens – e no azul da tarde e no cinzento do entardecer e de novo no negro da noite e no cinzento da madrugada. Sim, poderia: como sempre.
Contudo, o carro continua a avançar. Olhos fixos no horizonte e mãos no volante (apertando-o com desnecessária força), ouvidos concentrados no silêncio; e a mente cheia, completamente cheia: pedaços de imagens irreconhecíveis e farrapos de sensações difusas misturando-se com fragmentos de passado e vislumbres de futuros que nunca se concretizarão (sonhos, acho que é como lhes chamam), memórias demasiado ténues (perenes, tão perenes que poderão ser imaginadas) de sorrisos e orgasmos e dores e toques e sabores e cheiros e carícias e choros e beijos e sons e mais sorrisos. Tudo indefinido e confuso, em constante movimento caleidoscópico; arrebatando-me e distraindo-me, devorando-me.
Fecho os olhos durante um momento, pensando que tudo o que desejo, tudo o que necessito, é de um fugaz intervalo de mim próprio, da minha mente claustrofóbica; depois, volto a abri-los: e nada mudou. O negro da escuridão (que será feito das estrelas, afinal?) e o carro a avançar serenamente, o silêncio da noite zumbindo-me nos ouvidos; e a minha mente (cheia, quase a transbordar) a perseguir-me impiedosamente; aconselhando e criticando; condicionando. Cegando-me.

2.
Pergunto, num tom sereno: para onde estamos a ir?
Mas ninguém responde, como é óbvio. Foi, afinal, para isso que perguntei: para ter a certeza, a confirmação, de que ninguém responderia.
E sorrio, sozinho.

3.
De repente, regressa o desejo (confuso e avassalador, irresistível) de fechar os olhos durante mais um instante; não sei porquê, para quê. Mas é isso que faço, indiferente a motivos ou consequências: fecho os olhos. Aperto o volante com mais força, ainda mais força; o pé continua no acelerador: acelerando; e os olhos fechados, ainda.
Suponho que por esta altura já os deveria ter aberto.

4.
Depois, o carro embate inesperadamente em algo; ouço o ruído metálico, sinto um abanão. Tiro o pé do acelerador e espero, curioso; o carro rodopia, rodando sobre si próprio várias vezes; ruídos de vidros quebrados, metal arranhando o alcatrão, pedaços de plástico desintegrando-se; a minha cabeça embate no tejadilho do carro (dói um pouco), o corpo é projectado com violência para aqui e para ali, para aqui outra vez; o estômago revolvendo-se, uma estranha sensação de desequilíbrio; a pressão do cinto de segurança no meu peito. E nada mais; quietude e vazio, silêncio.
Sei que não devo largar o volante, não devo abrir os olhos. Não devo desistir.

5.
Não consigo mover-me; mas, na verdade, não preciso de o fazer. Sinto-me momentaneamente confortável, sereno: e decido permanecer assim durante mais algum tempo, expectante. Estarei morto, talvez; mas se for o caso, não posso deixar de me sentir algo decepcionado, algo ludibriado: parece-me pouco; monótono.
Aguardo; gostaria de ouvir alguém chamar-me (não consigo lembrar o meu próprio nome, o que é um pouco desconcertante). Decido abrir os olhos mas percebo que já os tenho abertos; volto a fechá-los, a abri-los: e nada muda. Assusto-me um pouco, depois muito; mas não me mexo: não consigo.

6.
Terá passado algum tempo desde o acidente; duas horas, talvez; ou vinte segundos, cinco dias, quarenta minutos. Não sei. Não importa: porque fui sendo invadido por uma estranha e tórpida sensação de apaziguamento e descompressão, de confortável esvaziamento. E sabe bem, esta inesperada leveza, esta inebriante tranquilidade. Como se tudo estivesse a começar de novo: algo como um renascimento. Ou como se tivesse, finalmente, conseguido fugir de mim próprio; libertar-me: e ver. Controlar.
Sim, agora sinto a mente vazia. Não: limpa. Tão limpa que nem o meu próprio nome recordo.

Inspiração: Clean - Depeche Mode
Ouvir & Ver
Lyrics

Comme d’habitude V

1.
Via-te todos os domingos, durante alguns minutos. Conduzias o teu filho pela mão, em silêncio, sem pressa; depois, despedia-lo com um beijo na testa e ficavas a vê-lo desaparecer na entrada da sala, subindo as escadas; por fim, afastavas-te, ainda sem pressa, indiferente à presença dos outros pais; nunca dizias bom dia ou até logo; nunca sorrias; nunca permitias que o teu rosto revelasse qualquer indício de emoção, contrariedade, agitação; vinhas e partias, simplesmente: majestosa; irrelevante.
E eu espreitava-te; porque eras uma mulher bonita e misteriosa, porque o teu silêncio e a tua indiferença me cativavam. Olhava: e imaginava o som da tua voz, a possibilidade do teu sorriso; devaneava um pouco, sem maldade nem consequência, sem verdadeiro interesse.

2.
Até que, um dia, reages: correspondendo ao meu olhar; enfrentando-me: sem hostilidade nem incómodo, suponho que sem verdadeiro interesse (também). Sorrio, tentando disfarçar o desconforto, surpreendido e agradado com a tua súbita atenção; mas tu logo desvias o olhar (entediada, já?), ignorando o meu convite com displicência. E afastas-te no teu passo pausado e lânguido.
Contudo, foi quanto bastou. A troca de olhares repetiu-se nos domingos seguintes, discreta e fugaz mas intencional, consequente; revelando curiosidade e interesse, convite e disponibilidade; revelando uma ténue mas efectiva possibilidade de entendimento.

3.
Foi, pois, com naturalidade que numa dessas manhãs de domingo deixámos os respectivos filhos na catequese e nos afastámos em direcções opostas, para nos encontrarmos lá mais à frente, longe.
Despimo-nos sem pressa, excitados mas calmos, atentos à revelação do corpo do outro e agradecidos pela possibilidade de concretização da fantasia; ouvindo os inconfundíveis e monótonos burburinhos de uma missa de domingo, vindos da televisão de um vizinho. Fodemos, com vigor e ruído, com ânsia, com vontade. Depois, lavamo-nos, vestimo-nos, despedimo-nos: como se nunca tivéssemos estado verdadeiramente juntos.
Voltamos a encontrarmo-nos, minutos depois, à entrada da catequese; sem sorrisos nem palavras, sem olhares. O efeito dos orgasmos já há muito dissipado, quase esquecido. E os miúdos: atrasados.

4.
O encontro repetiu-se nos domingos seguintes; e o sexo, sempre reconfortante, foi-se tornando rotineiro e previsível mas ainda satisfatório, anestésico; perdeu-se a surpresa e a voracidade: inevitavelmente. Mas não nos ocorreu parar, desistir: porque ainda sabia bem, ainda apetecia.
Nunca conversávamos, nunca sorriamos, nunca nos acariciávamos; estávamos ali para foder, apenas; comme d’habitude? Sim. Saciar corpos, distrair espíritos, disfarçar vazios; ocupar tempo. Comme d’habitude.
Julgo que nem sentíamos curiosidade em conhecer o outro, descobrir afinidades, partilhar sentimentos; para quê? Não. Fustigávamos os sexos, gemíamos um pouco, por vezes (três ou quatro, não mais) gritavas. Gostávamos do torpor, dos cheiros que ficavam, do silêncio que os orgasmos traziam consigo; apreciávamos, em simultâneo, a presença e o desinteresse do outro (sós: mas acompanhados). Misturávamos os corpos, simplesmente: e o tempo ia passando. Uma rotina, sim; mas uma rotina diferente da habitual; um intervalo (de rotina) na rotina.

5.
Até hoje.
Não quis tomar banho e vesti-me apressadamente, enquanto permanecias na cama; talvez me olhasses, não sei. Talvez te apetecesse perguntar: porquê a pressa? (Não saberia o que responder.)
Saí, sem te olhar. E aqui estou, à espera que o garoto acabe a catequese. Há outros pais a aguardar (conversas inconsequentes, iguais às da semana passada e às da outra semana); uma ameaça de chuva a pairar; vontade de estar noutro lado qualquer; pressa de caminhar, de ir. E os risos das crianças, lá longe; um carro a passar, demasiado depressa; um gato gordo e imóvel à espreita de uma janela; o vento a sacudir quase imperceptivelmente as árvores. Tu a aproximares-te (sinto o teu cheiro, antes de te ver: também não tomaste banho.)
Aproximas-te, sim. Mas não paras onde costumas aguardar, junto ao habitual pedaço de parede; continuas a caminhar, sem aparente hesitação ou dúvida, sem pressa; aproximas-te: de mim. E eu não me mexo, não olho, não respiro; estendes as mãos e os teus dedos percorrem-me a face, o cabelo; puxam-me para ti. Depois, os lábios: tocando os meus.
Fecho os olhos, incapaz de resistir, incapaz de não corresponder ao teu beijo; incapaz de perceber. Sinto a tua língua acariciar-me, o teu corpo junto ao meu; sinto, também, os miúdos a descerem as escadas em audível correria, aproximando-se. As conversas circundantes silenciam-se (por um momento, pergunto-me se não terá sido apenas para isso que decidiste beijar-me publicamente: para suspender a monotonia das conversas desta gente) mas o vento continua a agitar as árvores, a embalar as folhas; e o gato continuará à janela, olhando.
Quase tudo como antes, como sempre: excepto o beijo, que prossegue. Conduzindo a nada, certamente; apenas prosseguindo.

Esboço # 24

Já há muito tempo que não falamos. Ele num sofá, eu na poltrona: em silêncio, vagamente esquecidos da presença do outro. Vimos o filme, ansiosos pelo final; ou talvez com vontade de que nunca acabe: porque, então, teremos de falar, olhar, partilhar qualquer coisa; consciencializar que o outro está ali (para sempre?).
É então que as pessoas do filme começam a despir-se; logo depois, estão a foder, convicta e ruidosamente. Olhamos para aquilo, sem nos mexermos, talvez respirando mais devagar (ou mais depressa?), infelizes por não estarmos sós. Os seios dela são bonitos, ele chupa-os com vigor; gemidos e música; o tempo a arrastar-se penosamente: no filme, na nossa sala.
Mas quando a cena de sexo termina, sinto que sou percorrida pelo seu olhar; ignoro-o mas logo depois chega a voz dele: apetece-te? Não respondo, com esperança que não insista, enquanto os segundos (parecem horas, não é?) vão passando, silenciosos e desconfortáveis, opressivos.
Continuo a olhar para o filme; ele levanta-se, aproxima-se, toca-me; tento não estremecer quando sinto o seu contacto (terei conseguido?), sorrio para disfarçar o incómodo. E ele, como é óbvio, apressa-se a interpretar o meu sorriso como aceitação.
Agora, estamos a despirmo-nos, sem grande entusiasmo, talvez sem verdadeira vontade; gestos mecânicos e automáticos, desfasados, vagamente inconsequentes: coincidindo com os nossos sentimentos. Daqui pouco, estaremos a foder, tal como o casal do filme (e quem representará melhor, nós ou eles?). Pergunto-me distraidamente o que teria acontecido se em vez da cena de sexo, houvesse uma cena de divórcio; ficaria ele igualmente excitado, propondo-me a separação do mesmo modo que propôs a foda?
Sorrio, sem alegria. Sinto a sua mão percorrer-me o interior da coxa e aproximar-se do sexo, o que não é propriamente agradável; depois, respondo ao seu beijo, sem entusiasmo mas com competência. E é então que começo a pensar a ti.

Esboço # 12 (Extended vocal remix)

BARMAN (olhando o CLIENTE, enquanto esfrega um copo com gestos desnecessariamente cuidadosos): E então lá estamos todos caladinhos, a olhar para a frente, com medo não sei de quê, com vergonha não sei de quê. (Pausa breve.) Os autocarros são lugares estranhos, não são? As pessoas estão ali tão próximas umas das outras mas são incapazes de, sei lá, interagirem. Todos a fazerem uma espécie de intervalo nas suas vidas, sempre à espera de qualquer coisa, de chegarem ao seu destino, ou de fugirem lá do sítio de onde querem fugir.
CLIENTE (evitando o olhar do BARMAN): Não entro num autocarro há uns vinte anos, ou mais.
BARMAN: A sério? Tem sorte, que assim não se cruza com todos estes mortos-vivos, com esta gente adiada. (Pausa; arruma o copo com gestos cuidados e pega noutro, que começa a esfregar.) Mas é fodido, não é? Parece mesmo que andamos todos à procura de algo ou a fugir de algo. Não há hipótese, ou é uma coisa ou é a outra. Nunca estamos contentes, não conseguimos sentarmo-nos quietinhos e saborear o momento.
(Longa pausa. O CLIENTE permanece alheado. O BARMAN prossegue a limpeza dos copos, muito devagarinho, como se temesse que se lhe acabassem os copos.)
BARMAN (tentando parecer entusiasmado): Bom, lá íamos no autocarro, a chuva a bater nas janelas, tudo cinzento lá fora. Estava sentado ao lado duma mulher ainda nova, uns trintas ou coisa assim. Um perfume do caraças, enjoativo. Quietinha, com as mãos em cima dos joelhos, sempre a olhar lá para fora. (Pausa breve.) Tento sentar-me sempre ao lado de mulheres porque às vezes, sabe como é, há toques involuntários, nas curvas e assim. E não gosto de ser tocado por homens, por aqueles velhos meio mortos que andam sempre nos autocarros ou pelos garotos dos liceus.
CLIENTE (monocórdico, como se contrariado): Mas se for uma mulher, já não faz mal…
BARMAN (rindo): Não me queixo. Mas esta de hoje estava lá congelada no canto dela, protegida pela nuvem de perfume. E eu a perguntar-me: porque raio andam sempre as pessoas tão tristes? (Pausa breve.) Já reparou?, anda sempre tudo de rosto fechado, como se o mundo estivesse para acabar.
CLIENTE (com ligeira agressividade): E você? Está sempre alegre?
BARMAN (olhando o copo com atenção desnecessária): Estar, não estou. Mas esforço-me um bocadinho, só um bocadinho, percebe?, para não andar sempre com peninha de mim. (Pausa breve.) É que me chateia a maneira como as pessoas andam sempre com este olhar acusador, como se toda a gente, todo o mundo, fosse responsável pelas suas misérias. (Pausa breve.) Chateia-me mesmo.
(Longa pausa. O BARMAN pega um dos copos já limpos e compara-o ao que tem nas mãos; depois de olhar, arruma-os cuidadosamente. Fica um momento indeciso. O CLIENTE bebe um gole breve do copo que tem à sua frente; pousa-o mas não o larga. O BARMAN pega um novo copo e esfrega-o.)
CLIENTE: Então e depois, que fez a mulher?
BARMAN (olhando o CLIENTE, sem rancor): Sabe o que fez? Começou a chorar. (Riso, um pouco forçado.) Em silêncio, não se ouvia nada. Mas eu, bom… De vez enquando espreitava-lhe as pernas, tinha uns joelhos muito bem feitos, moldados pelas calças de ganga justas, e eu olhava, do mesmo modo que olhava para a careca do homem que ia à minha frente ou para o ténis roto de uma rapariga que estava lá na outra fila. (Pausa breve.) Tudo serve para um gajo se distrair, não é?
(BARMAN pára de esfregar o copo, fica pensativo.)
BARMAN: Havia qualquer coisa nas mãos dela, que me chamou a atenção. Tinha-as ali no colo, muito quietinhas, como se não soubesse o que lhes fazer. Bonitas, dedos muito compridos. Unhas bem tratadas. Mas depois começou a apertá-las, a mexer os dedos. Como se lhe estivesse a doer qualquer coisa, sabe como é. (Pausa breve.) E então pus-me a olhar pela janela e depois, como se fosse por acidente, espreitei-lhe o rosto.
CLIENTE (ligeiramente alheado): Já me perguntei muitas vezes isso: porque temos tanto medo de olhar o rosto dos desconhecidos?
(O BARMAN acena com a cabeça. Volta a esfregar o seu copo. Breve silêncio.)
BARMAN: Podia ficar a olhá-la o tempo que quisesse, que a mulher estava muito longe, noutro mundo. Mas chorava a sério, lágrimas a escorrerem devagarinho pela face. E eu ali, atrapalhado. Pus-me a olhar para a rapariga dos ténis rotos, tentando não pensar nela, não me intrometer. Quietinho, a ver se não sobrava para mim.
CLIENTE: Às vezes, sinto isso. Vemos que alguém está atrapalhado e não nos aproximamos, tememos que aquilo seja contagioso, que nos afecte. Mas a verdade é que, lá no fundo, até sentimos uma pontinha de satisfação; ou, pelo menos, de alívio. Porque não é connosco. (Pausa breve.) É um pouco como se achássemos que o número de desgraças que poderão acontecer, no mundo, é limitado; e tudo o que acontecer aos outros, já não nos acontece a nós. Uma desgraça gasta, inofensiva. Uma que não nos fará mal, a nós.
(O CLIENTE bebe mais um gole. O BARMAN parou de esfregar o copo, olha o CLIENTE com alguma surpresa, talvez com apreensão. Pousa o copo e dá uns passos, pega uma garrafa e trá-la consigo; pega um dos copos que acabou de esfregar e enche-o. Bebe um gole. Fecha os olhos. Arrota muito ligeiramente. Abre os olhos, espreita o CLIENTE. Arruma a garrafa, bebe mais um gole. Pega no copo que antes estava a esfregar.)
BARMAN (sem olhar o CLIENTE): Estava eu ali, sem me mexer, como se fosse um garoto envergonhado, à espera que a mulher acabasse lá com a crise dela. Enjoado com o perfume, misturado com o cheiro do autocarro, com o cheiro daquela gente toda, e das pessoas que estiveram ali sentadas desde a última vez que o autocarro foi lavado, há três anos ou assim, e que deixaram um pedacinho de si, do seu cheiro. Tudo misturado. (Pausa breve.) E depois passou-me uma coisa pela cabeça, não sei.
(O BARMAN olha o CLIENTE, que o ignora. Ambos bebem dos seus copos, em simultâneo.)
BARMAN (aproximando-se um passo, diminuindo o volume da voz quase imperceptivelmente): Sabe o que fiz?
CLIENTE (curioso): Não.
BARMAN: Agarrei-lhe a mão.
(O CLIENTE sorri ligeiramente. O BARMAN está a esfregar o copo com uma energia inesperada.)
BARMAN: Agarrei-lhe a mão, como o raio de um adolescente apaixonado.
CLIENTE: E ela?
BARMAN: Apertou-me os dedos com força. E ali ficámos muito tempo, a olhar em frente, rígidos. O autocarro aos solavancos, para aqui e para ali; pessoas a saírem, pessoas a entrarem. E nós de mãos dadas, em silêncio.
(Ouve-se o ruído longínquo de uma sirene, que se vai aproximando. Os dois homens estão em silêncio, distantes. O BARMAN esfrega o copo, de novo com gestos lentos e olha para a rua; o CLIENTE olha para o seu copo, que está vazio. O ruído da sirene foi-se aproximando e agora volta a afastar-se, lentamente.)
BARMAN: Finalmente, o aperto dela começou a suavizar um pouco, tornou-se menos agressivo, menos desesperado. Um pouco depois, deixou de me pegar. E durante uns instantes fiquei ali com a mão dela na minha, completamente inerte, morta. (Pausa breve.) Larguei-a, suavemente. Um bocado depois, o autocarro pára e ela levanta-se. Encolho-me, para a deixar passar mas as nossas pernas esfregam-se, inevitavelmente. (Pausa breve.) Gosto muito destes toques acidentais, entre estranhos. Há algo de sensual, talvez por causa da possibilidade latente, não sei; excita-me imaginar até onde poderia conduzir aquele toque, fantasiar que não foi algo acidental mas uma carícia disfarçada, inconsciente, um convite. (Pausa breve.) Mas neste caso foi um pouco desagradável. Não sei explicar, como um casal de divorciados que se encontram e se beijam da face, porque tem que ser. Desconfortável.
(O BARMAN olha o CLIENTE, como se buscasse a sua cumplicidade, a sua concordância. Dá uns passos, pega uma garrafa e aproxima-se dele. Enche o seu copo, muito devagar. O CLIENTE olha o líquido, que não solicitou. O BARMAN afasta-se, arruma a garrafa.)
BARMAN (num tom triste): Não me olhou, uma única vez. (Sorri.)
CLIENTE (após um momento de silêncio): Se pensarmos nisso, não percebemos bem porquê mas a verdade é que temos medo dos outros, dos desconhecidos. Não arriscamos tomar iniciativas, talvez por receio de não sermos correspondidos, ou simplesmente de sermos mal interpretados. Porque se estamos a iniciar algo o outro pode pensar que estamos a pedir qualquer coisa, não é? E, portanto, estamos a revelar fraqueza de dois modos: denunciamos que há algo que nos faz falta e colocamo-nos na desconfortável posição de podermos ser recusados. (Pausa breve.) Por vezes, penso, acho que todos pensamos, que a felicidade pode depender de uma simples palavra, de um gesto. Um olhar que arriscamos e que pode mudar a nossa vida por completo.
(O CLIENTE bebe um gole prolongado do seu copo, pousa-o com um ruído seco e desagradável. O BARMAN está a olhar para o copo do CLIENTE, distraído, com as mãos vazias.)
CLIENTE (com um sorriso vago, quase imperceptível): Mas recusamo-nos a acreditar que possa ser assim tão simples, tão banal, tão descomplicado.
BARMAN (pegando um dos seus copos): Estamos a proteger-nos.
CLIENTE: É isso, pior não se fica. Para quê arriscar?
(O CLIENTE brinca com o copo, entorna umas gotas no balcão. O BARMAN passa com o seu pano dos copos pelo balcão molhado, com gestos muito lentos.)
BARMAN (olhando o CLIENTE, num tom quase desafiante): Bom, mas hoje tomei a iniciativa. Peguei a mão de uma mulher desconhecida e amparei-a num momento difícil. Ela não correspondeu, nem sequer agradeceu. Nada. (Pausa breve.) Mas, e se tivesse olhado? Se sorrisse? Se me perguntasse o nome? (Pausa breve.) É simples, sim. Mas nunca resulta.
(O CLIENTE sorri.)

Esboço # 23

ELE (num tom nostálgico, quase sonhador): Sim, era muito falador. (Pausa breve.) Chegava a casa e começava logo a tagarelar sobre o que tinha acontecido nesse dia, coisas banais e inconsequentes, em que nem reparara com atenção enquanto aconteciam mas que, em retrospectiva, quando as contava, pareciam-me interessantes. (Pausa breve. Sorriso.) Como se só acontecessem para que eu, mais tarde, as pudesse contar. (Novo sorriso, quase forçado.) O que fazia de mim uma espécie de coleccionar de eventos. Não. De tópicos de conversa. (Pausa longa, algo desconfortável. Aguardo, sem impaciência nem verdadeiro interesse.) Ia falando, um pouco indiferente às reacções que causava, sem reparar que nunca havia perguntas ou manifestações de curiosidade. Nada, na verdade. (Pausa breve. Tom quase envergonhado.) Suponho que partia do princípio de que tudo o que pudesse dizer seria importante para eles e, portanto, escutariam sempre com curiosidade e interesse. (Pausa breve. Tom hesitante.) Todos acreditamos nisso, não é?
(Encolho os ombros e desvio o olhar. O silêncio arrasta-se, vagamente opressivo.)
ELE (talvez envergonhado): Eu acreditava. E ia falando e falando; eles olhavam para mim e sorriam, acenavam com a cabeça, voltavam a sorrir, voltavam a acenar com a cabeça. (Pausa breve.) Sempre assim, dia após dia. Como se me dominasse uma ânsia de lhes falar, de contar, de merecer a sua atenção. (Hesitando.) Como se a minha vida, a minha presença naquela casa, apenas fizesse verdadeiro sentido enquanto falasse e o silêncio pudesse ser sinónimo de uma espécie de não existência. Percebes?
(Aceno com a cabeça, tentando mostrar-me compreensivo e solidário. Tentando: talvez sem grande sucesso.)
ELE (pensativo): Tentar alimentar o seu interesse por mim, através da palavra. (Pausa breve.) Uma forma inconsciente de forçar a aproximação, talvez. (Sorriso triste, desconsolado.) De forçar a intimidade.
(Levanto-me e caminho até à janela, olho o céu sem atenção nem prazer; por nenhum motivo, apenas para não me manter quieto, expectante; para forçar o movimento, contrariar a estagnação. Ouço-o respirar lentamente, talvez olhando-me. Suponho que aguarde uma reacção minha, uma manifestação de interesse.)
EU (forçando-me a fazer a pergunta, cuja resposta intuo): Mas que idade tinhas? (Pausa muito breve, hesitação subtil.) Quando percebeste que os teus pais não estavam realmente interessados no que tivesses para lhes contar. (Pausa breve.) Em ti.
ELE (encolhendo os ombros, desviando o olhar): Nove. Nove anos. (Pausa longa.) Quase nove anos.
(Continuo à janela, olhando o céu; perguntando-me se haverá um dia em que as nuvens deixem de ser brancas. Ele continua sentado na poltrona, respirando lentamente; talvez a perguntar-se se algo mudou na sua vida, em todos estes anos.)