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Esboço # 28

ADOLESCENTE (num tom quase choroso): Depois, mesmo antes de tocar, levou-me ali para a zona dos cacifos, onde não estava ninguém (Pausa breve, hesitação.) E disse que não queria mais andar comigo.
MÃE (algo condescende, ligeiramente alheada): Oh filha, mas era o teu primeiro namoro. Pensavas que ia durar para sempre?
ADOLESCENTE (sem ouvir a mãe): Nem imaginas como me senti. (Pausa breve.) Raiva. Dor. Decepção. Desalento. Fúria. Desamparo. (Pausa breve. Num tom exasperado.) Sei lá. Ódio. (Pausa breve. De novo no tom choroso.) Oh mãe, foi tão mau. Achas que vou voltar a sentir-me assim tão mal? Não sei se aguento.
MÃE (num tom inesperadamente seco, rude): Habitua-te, que a partir de certa altura vais sentir-te assim permanentemente. (Pausa breve.) Permanentemente.
(A adolescente olha a mãe, incrédula e magoada; tenta sorrir, tenta não chorar. A mãe afasta-se, em silêncio.)

Esboço # 27

Todos os dias se queixa, insistentemente. Lamenta-se da rotina, da banalidade, da previsibilidade; diz-lhe: a vida contigo é rotineira, banal, previsível. Ela suspira, fica a vê-lo sair, bater com a porta, ouve-o esmurrar o botão de chamada do elevador.
Aproxima-se da janela, fica a vê-lo percorrer a rua com passos furiosos; e suspira, de novo. Depois, passadas algumas horas: eis que regressa. E diz, quando a vê: foda-se, que viver contigo é uma rotineira; ou: uma banalidade; ou: uma previsibilidade. (Por vezes, quando está mais irritado: uma rotineira e uma banalidade e uma previsibilidade.
Até que, certa manhã, ela morre, em silêncio (resignada, talvez); diz-se na vizinhança que o coração falhou. Mas ele sabe que não, ele conhece a verdadeira causa: morreu por causa dele; da sua presença rotineira; banal; previsível.

Esboço # 26

(A praça está deserta, apenas eles ocupam uma das mesas da esplanada. Céu cinzento e claustrofóbico, ameaçador; talvez chova, mais tarde. Ninguém passa, não há crianças a brincar com carros telecomandados, velhos a espreitar os pombos. Apenas os dois, sentados numa mesa repleta de jornais, de destroços do pequeno almoço. Ele tem estado a falar, enquanto ela escuta distraidamente.)
ELE (num tom peremptório, quase pomposo): É o que penso, por mais que encham páginas a dizer o contrário não me fazem mudar de ideias. (Pausa breve. Tom algo condescendeste, sem a olhar.) Não achas que tenho razão?
ELA (após uma breve hesitação, como se tivesse demorado a perceber que ele se lhe dirigira. Tom desprendido, desinteressado. Esforçando-se para não encolher os ombros, não revelar enfado.) Acho que sim. (Continua a passar as páginas de uma revista, desatenta.)
ELE (depois de um longo silêncio, durante o qual prosseguiu a leitura): Gente de merda, sempre a mandar sentenças. A encher os jornais com pretensiosismos e arrogâncias. (Abana a cabeça, irritado. Sobe ligeiramente o tom de voz.) Como se um gajo não tivesse direito à sua própria opinião, a pensar por si.
(Durante algum tempo apenas se ouve o crepitar dos jornais, o som distante e esporádico do tráfego. Os pombos continuam a esvoaçar sem destino nem convicção, talvez intrigados com a ausência dos reformados. E o céu tão cinzento; mas é provável que não chova.)
ELA (olhando-o incisivamente; num tom sério, quase dramático): Há quanto tempo estamos juntos?
(Ele olha-a, surpreendido e perscrutador; um pouco intimidado com o seu tom de voz.)
ELE (hesitante): Quase dois anos. (Sorri, um pouco ansioso.) Vinte meses, acho eu. (Olha-a, simultaneamente inquieto e curioso.) Porque perguntas?
ELA (sonhadora, desviando o olhar; ignorando a pergunta, ignorando-o): Vinte meses. É capaz de ser isso. (Pausa breve. Ele aguarda que ela acrescente uma explicação, incapaz de regressar ao jornal; nervoso. E ela volta a encará-lo, sem complacência ou desafio. Tom neutro, distante; factual.) Acreditas que nestes vinte meses não disseste uma única frase que me interessasse verdadeiramente?
(E é então que lá no fundo da praça aparece a primeira criança da manhã, pedalando furiosamente a sua bicicleta resplandecente.)

Esboço # 25

(Estão num quarto de hotel, estendidos na cama enorme já um pouco desordenada; ele está completamente nu, ela permanece vestida e calçada. Ela beija-lhe o sexo com alguma sofreguidão, enquanto ele se contorce ligeiramente, de olhos fechados e respiração agitada. A chuva bate com violência na janela, provocando um ruído monocórdico, quase hipnótico; há pouca luz no quarto, uma quase ausência de cor.)
ELE (abrindo de súbito os olhos, agitando-se nervosamente, tentando afastá-la; num tom de voz quase sufocado): Calma, espera aí.
(Ela prossegue durante alguns segundos; depois, afasta a boca do sexo dele e fica a olhá-lo, talvez decepcionada.)
ELE (num tom falsamente desprendido, incapaz de disfarçar a ansiedade): Temos tempo. (Sorriso embaraçado.)
(Ela afasta-se um pouco dele, sem o olhar; suspira, quase imperceptivelmente; descalça-se, atirando os sapatos para longe; depois, começa a despir-se, indiferente ao olhar apreciativo dele.)
ELE (sorrindo de novo, tentando aparentar controlo; num tom algo sobranceiro, algo arrogante): Não fazes isto ao teu marido, pois não?
ELA (olhando-o, surpreendida): Broches? Claro que faço. (Ri, enquanto despe o soutien e o deixa cair ao chão.) Sempre que posso. (Aproxima-se um pouco dele, repentinamente séria. Pausa breve.) Não me digas que pensas que o faço apenas para te dar prazer. (Ele agita-se um pouco, nervoso; talvez envergonhado. Ela sorri, tentando parecer carinhosa.) Oh querido, faço-o porque gosto. Porque me dá prazer fazê-lo. (E ri, de novo.)
(Pausa breve. Ela pega-lhe o sexo, acaricia-o com os dedos; depois, recomeça a beijá-lo. Ele fecha os olhos, sentindo o corpo tenso; suspira ruidosamente. Talvez se concentre no som da chuva, tentando ausentar-se um pouco; distrair-se, num esforço ingénuo de retardar ao máximo a ejaculação, como aconselham nas revistas; ou apenas para não se sentir tão idiota.)

Ebook # 02: Céu nublado


Novo ebook.
Colectânea de vinte e quatro micro-narrativas, acompanhadas por vinte e quatro fotografias de Alexandre Louro inspiradas nas estórias. O resultado chama-se, pouco apropriadamente, Céu nublado.
Disponível para download gratuito no RL.