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Esboço # 30

(Estão sentados numa esplanada, em silêncio. Olham as pessoas que passam, sem curiosidade excessiva, não se esforçando em dissimular o aborrecimento que sentem; por vezes, mudam de posição na cadeira ou espreitam o telemóvel; ou fecham os olhos, momentaneamente. Mas não se olham.)
ELA (falando inesperadamente, como se tivesse sido súbita e irresistivelmente surpreendida pela dúvida, pela curiosidade; tom informal, curioso): Qual foi o dia mais triste da tua vida?
(Pausa breve. O silêncio arrasta-se, acentuando a monotonia da manhã.)
ELE (continuando a olhar com algum interesse uma mulher que se afasta, lânguida e provocadora; fala num tom indiferente, quase contrariado): Acho que foi o dia em que a minha ex-mulher casou.
(Ela olha-o, surpreendida e chocada, aguardando uma explicação, que ele não dá. Passa algum tempo – silêncio mais tenso que antes; mas não demasiado – e um miúdo aproxima-se, cabisbaixo; eles olham-no, talvez aliviados, e começam de imediato a arrumar os objectos espalhados no cimo da mesa, preparando-se para partir.)

Esboço # 29

ELA (num tom algo hesitante): Suspeito que a felicidade, aquilo a que chamam felicidade, seja apenas isso. (Pausa breve.) A capacidade de sincronizar a nossa velocidade pessoal, o nosso movimento, com a velocidade do mundo. (Pausa breve. Num tom tímido, vacilante): Não achas?
EU (pensativo, algo distante): Pode ser o oposto. Pode ser a capacidade de abdicar do movimento, de reduzir a velocidade a nada. (Pausa breve.) Como durante o sono. (Sorrindo.) Não és feliz quando estás a dormir?

Esboço # 28

ADOLESCENTE (num tom quase choroso): Depois, mesmo antes de tocar, levou-me ali para a zona dos cacifos, onde não estava ninguém (Pausa breve, hesitação.) E disse que não queria mais andar comigo.
MÃE (algo condescende, ligeiramente alheada): Oh filha, mas era o teu primeiro namoro. Pensavas que ia durar para sempre?
ADOLESCENTE (sem ouvir a mãe): Nem imaginas como me senti. (Pausa breve.) Raiva. Dor. Decepção. Desalento. Fúria. Desamparo. (Pausa breve. Num tom exasperado.) Sei lá. Ódio. (Pausa breve. De novo no tom choroso.) Oh mãe, foi tão mau. Achas que vou voltar a sentir-me assim tão mal? Não sei se aguento.
MÃE (num tom inesperadamente seco, rude): Habitua-te, que a partir de certa altura vais sentir-te assim permanentemente. (Pausa breve.) Permanentemente.
(A adolescente olha a mãe, incrédula e magoada; tenta sorrir, tenta não chorar. A mãe afasta-se, em silêncio.)

Esboço # 27

Todos os dias se queixa, insistentemente. Lamenta-se da rotina, da banalidade, da previsibilidade; diz-lhe: a vida contigo é rotineira, banal, previsível. Ela suspira, fica a vê-lo sair, bater com a porta, ouve-o esmurrar o botão de chamada do elevador.
Aproxima-se da janela, fica a vê-lo percorrer a rua com passos furiosos; e suspira, de novo. Depois, passadas algumas horas: eis que regressa. E diz, quando a vê: foda-se, que viver contigo é uma rotineira; ou: uma banalidade; ou: uma previsibilidade. (Por vezes, quando está mais irritado: uma rotineira e uma banalidade e uma previsibilidade.
Até que, certa manhã, ela morre, em silêncio (resignada, talvez); diz-se na vizinhança que o coração falhou. Mas ele sabe que não, ele conhece a verdadeira causa: morreu por causa dele; da sua presença rotineira; banal; previsível.

Esboço # 26

(A praça está deserta, apenas eles ocupam uma das mesas da esplanada. Céu cinzento e claustrofóbico, ameaçador; talvez chova, mais tarde. Ninguém passa, não há crianças a brincar com carros telecomandados, velhos a espreitar os pombos. Apenas os dois, sentados numa mesa repleta de jornais, de destroços do pequeno almoço. Ele tem estado a falar, enquanto ela escuta distraidamente.)
ELE (num tom peremptório, quase pomposo): É o que penso, por mais que encham páginas a dizer o contrário não me fazem mudar de ideias. (Pausa breve. Tom algo condescendeste, sem a olhar.) Não achas que tenho razão?
ELA (após uma breve hesitação, como se tivesse demorado a perceber que ele se lhe dirigira. Tom desprendido, desinteressado. Esforçando-se para não encolher os ombros, não revelar enfado.) Acho que sim. (Continua a passar as páginas de uma revista, desatenta.)
ELE (depois de um longo silêncio, durante o qual prosseguiu a leitura): Gente de merda, sempre a mandar sentenças. A encher os jornais com pretensiosismos e arrogâncias. (Abana a cabeça, irritado. Sobe ligeiramente o tom de voz.) Como se um gajo não tivesse direito à sua própria opinião, a pensar por si.
(Durante algum tempo apenas se ouve o crepitar dos jornais, o som distante e esporádico do tráfego. Os pombos continuam a esvoaçar sem destino nem convicção, talvez intrigados com a ausência dos reformados. E o céu tão cinzento; mas é provável que não chova.)
ELA (olhando-o incisivamente; num tom sério, quase dramático): Há quanto tempo estamos juntos?
(Ele olha-a, surpreendido e perscrutador; um pouco intimidado com o seu tom de voz.)
ELE (hesitante): Quase dois anos. (Sorri, um pouco ansioso.) Vinte meses, acho eu. (Olha-a, simultaneamente inquieto e curioso.) Porque perguntas?
ELA (sonhadora, desviando o olhar; ignorando a pergunta, ignorando-o): Vinte meses. É capaz de ser isso. (Pausa breve. Ele aguarda que ela acrescente uma explicação, incapaz de regressar ao jornal; nervoso. E ela volta a encará-lo, sem complacência ou desafio. Tom neutro, distante; factual.) Acreditas que nestes vinte meses não disseste uma única frase que me interessasse verdadeiramente?
(E é então que lá no fundo da praça aparece a primeira criança da manhã, pedalando furiosamente a sua bicicleta resplandecente.)

Esboço # 25

(Estão num quarto de hotel, estendidos na cama enorme já um pouco desordenada; ele está completamente nu, ela permanece vestida e calçada. Ela beija-lhe o sexo com alguma sofreguidão, enquanto ele se contorce ligeiramente, de olhos fechados e respiração agitada. A chuva bate com violência na janela, provocando um ruído monocórdico, quase hipnótico; há pouca luz no quarto, uma quase ausência de cor.)
ELE (abrindo de súbito os olhos, agitando-se nervosamente, tentando afastá-la; num tom de voz quase sufocado): Calma, espera aí.
(Ela prossegue durante alguns segundos; depois, afasta a boca do sexo dele e fica a olhá-lo, talvez decepcionada.)
ELE (num tom falsamente desprendido, incapaz de disfarçar a ansiedade): Temos tempo. (Sorriso embaraçado.)
(Ela afasta-se um pouco dele, sem o olhar; suspira, quase imperceptivelmente; descalça-se, atirando os sapatos para longe; depois, começa a despir-se, indiferente ao olhar apreciativo dele.)
ELE (sorrindo de novo, tentando aparentar controlo; num tom algo sobranceiro, algo arrogante): Não fazes isto ao teu marido, pois não?
ELA (olhando-o, surpreendida): Broches? Claro que faço. (Ri, enquanto despe o soutien e o deixa cair ao chão.) Sempre que posso. (Aproxima-se um pouco dele, repentinamente séria. Pausa breve.) Não me digas que pensas que o faço apenas para te dar prazer. (Ele agita-se um pouco, nervoso; talvez envergonhado. Ela sorri, tentando parecer carinhosa.) Oh querido, faço-o porque gosto. Porque me dá prazer fazê-lo. (E ri, de novo.)
(Pausa breve. Ela pega-lhe o sexo, acaricia-o com os dedos; depois, recomeça a beijá-lo. Ele fecha os olhos, sentindo o corpo tenso; suspira ruidosamente. Talvez se concentre no som da chuva, tentando ausentar-se um pouco; distrair-se, num esforço ingénuo de retardar ao máximo a ejaculação, como aconselham nas revistas; ou apenas para não se sentir tão idiota.)

Ebook # 02: Céu nublado


Novo ebook.
Colectânea de vinte e quatro micro-narrativas, acompanhadas por vinte e quatro fotografias de Alexandre Louro inspiradas nas estórias. O resultado chama-se, pouco apropriadamente, Céu nublado.
Disponível para download gratuito no RL.

Discografia # 01: Clean

1.
A estrada está deserta e o carro avança demasiado depressa; noite cerrada, brutalmente escura: mas não me lembro de ter visto o sol desaparecer, não me lembro de assistir à lenta transformação do crepúsculo em noite. Dou por mim aqui, conduzindo sem destino, já sem me lembrar de que fujo, que procuro, porque não paro. Sim, poderia parar: e aguardar pacientemente que o tempo passasse por mim, indiferente e desinteressado; assistir passivamente ao lento transformar do negro da noite no cinzento da madrugada e depois no azul da manhã – pausa para perscrutar o branco das nuvens – e no azul da tarde e no cinzento do entardecer e de novo no negro da noite e no cinzento da madrugada. Sim, poderia: como sempre.
Contudo, o carro continua a avançar. Olhos fixos no horizonte e mãos no volante (apertando-o com desnecessária força), ouvidos concentrados no silêncio; e a mente cheia, completamente cheia: pedaços de imagens irreconhecíveis e farrapos de sensações difusas misturando-se com fragmentos de passado e vislumbres de futuros que nunca se concretizarão (sonhos, acho que é como lhes chamam), memórias demasiado ténues (perenes, tão perenes que poderão ser imaginadas) de sorrisos e orgasmos e dores e toques e sabores e cheiros e carícias e choros e beijos e sons e mais sorrisos. Tudo indefinido e confuso, em constante movimento caleidoscópico; arrebatando-me e distraindo-me, devorando-me.
Fecho os olhos durante um momento, pensando que tudo o que desejo, tudo o que necessito, é de um fugaz intervalo de mim próprio, da minha mente claustrofóbica; depois, volto a abri-los: e nada mudou. O negro da escuridão (que será feito das estrelas, afinal?) e o carro a avançar serenamente, o silêncio da noite zumbindo-me nos ouvidos; e a minha mente (cheia, quase a transbordar) a perseguir-me impiedosamente; aconselhando e criticando; condicionando. Cegando-me.

2.
Pergunto, num tom sereno: para onde estamos a ir?
Mas ninguém responde, como é óbvio. Foi, afinal, para isso que perguntei: para ter a certeza, a confirmação, de que ninguém responderia.
E sorrio, sozinho.

3.
De repente, regressa o desejo (confuso e avassalador, irresistível) de fechar os olhos durante mais um instante; não sei porquê, para quê. Mas é isso que faço, indiferente a motivos ou consequências: fecho os olhos. Aperto o volante com mais força, ainda mais força; o pé continua no acelerador: acelerando; e os olhos fechados, ainda.
Suponho que por esta altura já os deveria ter aberto.

4.
Depois, o carro embate inesperadamente em algo; ouço o ruído metálico, sinto um abanão. Tiro o pé do acelerador e espero, curioso; o carro rodopia, rodando sobre si próprio várias vezes; ruídos de vidros quebrados, metal arranhando o alcatrão, pedaços de plástico desintegrando-se; a minha cabeça embate no tejadilho do carro (dói um pouco), o corpo é projectado com violência para aqui e para ali, para aqui outra vez; o estômago revolvendo-se, uma estranha sensação de desequilíbrio; a pressão do cinto de segurança no meu peito. E nada mais; quietude e vazio, silêncio.
Sei que não devo largar o volante, não devo abrir os olhos. Não devo desistir.

5.
Não consigo mover-me; mas, na verdade, não preciso de o fazer. Sinto-me momentaneamente confortável, sereno: e decido permanecer assim durante mais algum tempo, expectante. Estarei morto, talvez; mas se for o caso, não posso deixar de me sentir algo decepcionado, algo ludibriado: parece-me pouco; monótono.
Aguardo; gostaria de ouvir alguém chamar-me (não consigo lembrar o meu próprio nome, o que é um pouco desconcertante). Decido abrir os olhos mas percebo que já os tenho abertos; volto a fechá-los, a abri-los: e nada muda. Assusto-me um pouco, depois muito; mas não me mexo: não consigo.

6.
Terá passado algum tempo desde o acidente; duas horas, talvez; ou vinte segundos, cinco dias, quarenta minutos. Não sei. Não importa: porque fui sendo invadido por uma estranha e tórpida sensação de apaziguamento e descompressão, de confortável esvaziamento. E sabe bem, esta inesperada leveza, esta inebriante tranquilidade. Como se tudo estivesse a começar de novo: algo como um renascimento. Ou como se tivesse, finalmente, conseguido fugir de mim próprio; libertar-me: e ver. Controlar.
Sim, agora sinto a mente vazia. Não: limpa. Tão limpa que nem o meu próprio nome recordo.

Inspiração: Clean - Depeche Mode
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