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Esboço # 36

(Os dois homens estão sentados em cadeirões, na varanda; contemplam o horizonte com olhares algo melancólicos, especulativos, enquanto sopram as suas nuvens de fumo com vigor, tentando que não se cruzem. Ouvem-se vozes e risos distantes.)
HOMEM 1 (tentando aparentar indiferença): Há quanto tempo estão juntos?
HOMEM 2 (após uma hesitação, como se precisasse de contar): Uns onze meses, acho.
HOMEM 1 (tom displicente): Gosto dela. (Pausa breve.) Gostei logo, quando ma apresentaste na semana passada.
HOMEM 2 (sem ironia): Ainda bem.
(O Homem 1 pega num copo que está no chão, mesmo junto da sua cadeira; bebe um longo gole, volta a pousar o copo, arrota disfarçadamente.)
HOMEM 1 (tom desprendido, tentando aparentar indiferença): Quando te fartares, avisa.
(O Homem 2 sorri, sem gosto nem prazer; sopra o fumo do cigarro com vagar, olhando o céu.)
HOMEM 2 (num tom seco, agastado): Há onze meses que estou farto.
(Por momentos, os ecos de vozes cessam; depois, há uma inesperada explosão de gargalhadas. Os dois homens tentam manter-se indiferentes, contemplando o horizonte; mas quanto maior é a intensidade dos risos – a exteriorização da felicidade –, maior é o seu desagrado, maior é a tensão com que chupam os respectivos cigarros.)

Esboço # 35

(Caminham os dois pelo passeio, lado a lado, sem pressa; expressões apáticas, abatidas. Ambos olham, com interesse e intensidade diferentes, uma mulher que caminha à sua frente.)
ELA (num tom amargo, talvez magoado): Se conseguisse perder trinta quilos, voltavas a fazer amor comigo?
ELE (após uma breve hesitação, num tom sereno e algo apologético): Acho que não.
(Continuam a caminhar olhando a mulher que se afasta, sem admiração ou inveja; olhando, simplesmente.)

Esboço # 34

ADOLESCENTE 1 (num tom ligeiramente inseguro, hesitante): Costumas masturbar-te muito?
(Estão ambas estendidas num sofá, não muito distantes uma da outra, olhando para a televisão com expressões entediadas.)
ADOLESCENTE 2 (num tom indiferente): Algumas vezes por semana.
ADOLESCENTE 1 (após uma pausa e num tom receoso, quase tímido): Como costumas fazer?
ADOLESCENTE 2 (olhando a interlocutora, com uma expressão subitamente interessada e expectante): Queres que te mostre?
(Pouco tempo depois, uma delas aumenta o volume da televisão. Lá fora começou a chover.)

Esboço # 33

(Os dois idosos estão sentados num banco de jardim, olhando para o vazio; um deles talvez esteja quase a adormecer.)
IDOSO 1 (numa voz arrastada, mecânica): Estás a ver aquela nuvem ali? (Aponta com a cabeça.) A mais comprida.
(O outro idoso olha preguiçosamente, sem qualquer ponta de interesse, e acena com a cabeça.)
IDOSO 1 (sem deixar de olhar a nuvem, que se move quase imperceptivelmente): Acho que já a vi, uma vez.
IDOSO 2 (desinteressado): Quando?
IDOSO 1 (no mesmo tom monocórdico, cansado): Há uns quarenta anos. (Pausa breve. Tom hesitante.) Talvez mais.
(O idoso 2 não responde e pouco depois volta a ceder à sonolência, fechando os olhos; o idoso 1 continua a observar a nuvem, vendo-a afastar-se.)
IDOSO 2 (mais tarde, ainda com os olhos fechados; num tom desprendido): Isso quer dizer que a nuvem demorou quarenta anos a dar a volta ao mundo.
(O idoso 1 acena com a cabeça, concordando; ambos se mantêm em silêncio e imperturbáveis durante alguns segundos. Depois, inesperadamente, riem em simultâneo, partilhando uma gargalhada que demora algum tempo a dissipar-se.)

Esboço # 32

(Estão sentados num banco de jardim, ligeiramente afastados mas com as mãos dadas; dezenas de pássaros esvoaçam entre as árvores, com ruído, quase com alegria, embalados por um vento desagradável que arrepia a pele dos namorados; ouve-se a estridência de uma sirene, não muito distante. Ambos olham em frente, silenciosos, satisfeitos e reconfortados com a simples presença do outro, com o silvo da respiração próxima.)
ELA (num tom de voz murmurado e quase imperceptivelmente receoso): Queres ter filhos?
ELE (após um silêncio longo, como se ponderasse cuidadosamente a resposta adequada; ou como se pensasse no assunto pela primeira vez na sua vida; num tom firme e decidido): Sim. Dois.
ELA (sorrindo mas sem o olhar): Dois? É o que eu quero, também.
(Permanecem em silêncio, sem se olharem, tocando-se apenas com as mãos; estranhamente, não há mais ninguém no parque, o que talvez lhes agrade; ou os iniba – o espectáculo do amor parecer-lhes-á, talvez, menos recompensador se não houver ninguém a assistir.)
ELE (olhando-a, com alguma apreensão): Tenho que ir. (Pausa breve.) Explicação de matemática, daqui cinco minutos.
ELA (apertando-lhe a mão com força e, logo depois, libertando-a; tom ligeiramente decepcionado): Ok.
(Ele levanta-se e pega na mochila; ela olha-o, serena.)
ELE (num tom suave): Encontramo-nos depois das aulas da tarde? (Ela acena com a cabeça, sorrindo.) Aqui? (Novo aceno.)
(Ele inclina-se e beija-a rapidamente nos lábios; ela fecha os olhos, ele não.)
ELE: Até logo.
ELA: Tchau.
(Ele afasta-se, colocando a mochila às costas; caminha com rapidez, sem olhá-la uma única vez. Ela observa-o durante alguns segundos; depois, retira o telemóvel do bolso e começa a teclar, com frenesim; talvez esteja a enviar-lhe um sms, dizendo que o ama; ou não. A sirene da ambulância ainda se ouve, insistente, assustando os pássaros.)

Esboço # 31

(A sala de convívio do lar está quase deserta: apenas dois idosos estão sentados num sofá a olhar para a televisão – que tem o som desligado – com expressões apáticas e desinteressadas; ouve-se momentaneamente o choro de alguém – um adulto –, que logo depois cessa. Uma mosca esvoaça de janela para janela, insistente e desesperada, impotente.)
IDOSO (num tom amargo e hesitante, sem retirar os olhos da televisão): Quantas vezes estiveste apaixonada? (Pausa breve; apenas se escuta o zumbido irritante da mosca, perfurando a tranquilidade da tarde.) Durante toda a vida.
IDOSA (algum tempo depois, como se tivesse pensado profundamente na resposta; mas num tom desinteressado): Nenhuma. (Pausa muito breve.) Acho que nenhuma.
(Continuam a olhar para a televisão, indiferentes à presença do outro; talvez à espera que o choro distante regresse; ou que alguém venha e ligue o som da televisão; ou que a mosca desista de tentar lutar; ou que seja hora de ir para a cama.)

Esboço # 30

(Estão sentados numa esplanada, em silêncio. Olham as pessoas que passam, sem curiosidade excessiva, não se esforçando em dissimular o aborrecimento que sentem; por vezes, mudam de posição na cadeira ou espreitam o telemóvel; ou fecham os olhos, momentaneamente. Mas não se olham.)
ELA (falando inesperadamente, como se tivesse sido súbita e irresistivelmente surpreendida pela dúvida, pela curiosidade; tom informal, curioso): Qual foi o dia mais triste da tua vida?
(Pausa breve. O silêncio arrasta-se, acentuando a monotonia da manhã.)
ELE (continuando a olhar com algum interesse uma mulher que se afasta, lânguida e provocadora; fala num tom indiferente, quase contrariado): Acho que foi o dia em que a minha ex-mulher casou.
(Ela olha-o, surpreendida e chocada, aguardando uma explicação, que ele não dá. Passa algum tempo – silêncio mais tenso que antes; mas não demasiado – e um miúdo aproxima-se, cabisbaixo; eles olham-no, talvez aliviados, e começam de imediato a arrumar os objectos espalhados no cimo da mesa, preparando-se para partir.)

Esboço # 29

ELA (num tom algo hesitante): Suspeito que a felicidade, aquilo a que chamam felicidade, seja apenas isso. (Pausa breve.) A capacidade de sincronizar a nossa velocidade pessoal, o nosso movimento, com a velocidade do mundo. (Pausa breve. Num tom tímido, vacilante): Não achas?
EU (pensativo, algo distante): Pode ser o oposto. Pode ser a capacidade de abdicar do movimento, de reduzir a velocidade a nada. (Pausa breve.) Como durante o sono. (Sorrindo.) Não és feliz quando estás a dormir?