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Esboço # 40

ELA (sem o olhar): Trouxeste preservativos?
ELE (irritado): Esqueci-me.
(Entram no elevador do hotel, aguardam que a porta feche; um deles carrega no número seis.)
ELA (num tom seco, definitivo): Não vou fazer sexo contigo sem preservativo.
ELE (defensivo): Mas o quarto já está pago.
(O elevador imobiliza-se, a porta abre. Ambos olham o corredor deserto, indecisos; depois, Ele sai; Ela segue-o, hesitante, talvez contrariada.)
ELE (num tom conciliador): Podemos ficar um bocado a conversar.
ELA (olhando-o, um pouco surpreendida): E falamos sobre o quê?
(Caminham pelo corredor, em silêncio.)

Esboço # 39

HOMEM 1 (num tom afável, curioso): De todas as mulheres com que te cruzas na rua, com quantas tens fantasias momentâneas? Mais ou menos.
HOMEM 2 (num tom pensativo e ponderado): Para aí com quarenta por cento.
(Ambos olham em frente, para além do passeio; todas as outras mesas da esplanada estão desertas. Não passam carros na rua há mais de cinco minutos.)
HOMEM 1 (num tom surpreendido, sem qualquer indício de ironia): Só?

Esboço # 38

FILHA (num tom curioso, quase delicado): Quando estás sozinha, em casa ou assim, costumas falar contigo própria?
MÃE (sorrindo, talvez surpreendida com a questão; ou apenas com a seriedade com que a questão foi colocada): Às vezes.
(A Filha fecha a porta do frigorífico e afasta-se até junto da janela; apetece-lhe um cigarro mas não se atreve. A mãe continua junto do fogão, comandando o avanço da refeição.)
FILHA (num tom sério, preocupado): E falas de quê?

Esboço # 37

MÉDICO (num tom displicente): Quando começares a salvar vidas, vais perceber. (Pausa breve.) O olhar de reconhecimento das pessoas é avassalador, transforma-te. (Pausa breve. Tom algo pomposo, exibicionista.) É preciso algum cuidado para não te deslumbrares, pelo menos no início. Depois, habituas-te. Deixas de contar quantos salvas, quantos morrem.
(Caminham pelo corredor deserto e fracamente iluminados, olhando em frente; as suas batas irradiam brancura.)
ESTAGIÁRIO (interrompendo o silêncio com algum receio, num tom respeitoso mas não subserviente): Com que idade comprou o primeiro descapotável?
(O Médico olha-o, surpreendido; depois, sorri.)
MÉDICO (num tom condescendente, bem disposto): Aos vinte e seis.

Esboço # 36

(Os dois homens estão sentados em cadeirões, na varanda; contemplam o horizonte com olhares algo melancólicos, especulativos, enquanto sopram as suas nuvens de fumo com vigor, tentando que não se cruzem. Ouvem-se vozes e risos distantes.)
HOMEM 1 (tentando aparentar indiferença): Há quanto tempo estão juntos?
HOMEM 2 (após uma hesitação, como se precisasse de contar): Uns onze meses, acho.
HOMEM 1 (tom displicente): Gosto dela. (Pausa breve.) Gostei logo, quando ma apresentaste na semana passada.
HOMEM 2 (sem ironia): Ainda bem.
(O Homem 1 pega num copo que está no chão, mesmo junto da sua cadeira; bebe um longo gole, volta a pousar o copo, arrota disfarçadamente.)
HOMEM 1 (tom desprendido, tentando aparentar indiferença): Quando te fartares, avisa.
(O Homem 2 sorri, sem gosto nem prazer; sopra o fumo do cigarro com vagar, olhando o céu.)
HOMEM 2 (num tom seco, agastado): Há onze meses que estou farto.
(Por momentos, os ecos de vozes cessam; depois, há uma inesperada explosão de gargalhadas. Os dois homens tentam manter-se indiferentes, contemplando o horizonte; mas quanto maior é a intensidade dos risos – a exteriorização da felicidade –, maior é o seu desagrado, maior é a tensão com que chupam os respectivos cigarros.)

Esboço # 35

(Caminham os dois pelo passeio, lado a lado, sem pressa; expressões apáticas, abatidas. Ambos olham, com interesse e intensidade diferentes, uma mulher que caminha à sua frente.)
ELA (num tom amargo, talvez magoado): Se conseguisse perder trinta quilos, voltavas a fazer amor comigo?
ELE (após uma breve hesitação, num tom sereno e algo apologético): Acho que não.
(Continuam a caminhar olhando a mulher que se afasta, sem admiração ou inveja; olhando, simplesmente.)

Esboço # 34

ADOLESCENTE 1 (num tom ligeiramente inseguro, hesitante): Costumas masturbar-te muito?
(Estão ambas estendidas num sofá, não muito distantes uma da outra, olhando para a televisão com expressões entediadas.)
ADOLESCENTE 2 (num tom indiferente): Algumas vezes por semana.
ADOLESCENTE 1 (após uma pausa e num tom receoso, quase tímido): Como costumas fazer?
ADOLESCENTE 2 (olhando a interlocutora, com uma expressão subitamente interessada e expectante): Queres que te mostre?
(Pouco tempo depois, uma delas aumenta o volume da televisão. Lá fora começou a chover.)

Esboço # 33

(Os dois idosos estão sentados num banco de jardim, olhando para o vazio; um deles talvez esteja quase a adormecer.)
IDOSO 1 (numa voz arrastada, mecânica): Estás a ver aquela nuvem ali? (Aponta com a cabeça.) A mais comprida.
(O outro idoso olha preguiçosamente, sem qualquer ponta de interesse, e acena com a cabeça.)
IDOSO 1 (sem deixar de olhar a nuvem, que se move quase imperceptivelmente): Acho que já a vi, uma vez.
IDOSO 2 (desinteressado): Quando?
IDOSO 1 (no mesmo tom monocórdico, cansado): Há uns quarenta anos. (Pausa breve. Tom hesitante.) Talvez mais.
(O idoso 2 não responde e pouco depois volta a ceder à sonolência, fechando os olhos; o idoso 1 continua a observar a nuvem, vendo-a afastar-se.)
IDOSO 2 (mais tarde, ainda com os olhos fechados; num tom desprendido): Isso quer dizer que a nuvem demorou quarenta anos a dar a volta ao mundo.
(O idoso 1 acena com a cabeça, concordando; ambos se mantêm em silêncio e imperturbáveis durante alguns segundos. Depois, inesperadamente, riem em simultâneo, partilhando uma gargalhada que demora algum tempo a dissipar-se.)