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Esboço # 46

(Sorriem à cliente, que não corresponde; ainda assim, mantém os sorrisos até que ela saia. Quando ficam sós, os sorrisos desaparecem de imediato. Permanecem por trás do balcão, imóveis e apáticas, olhando em frente, talvez a escutar a música dançável que sussurra por toda a loja, minimal e repetitiva.)
EMPREGADA MAIS NOVA (num tom quase bem-disposto): Nunca te cansas de sorrir?
EMPREGADA MAIS VELHA (num tom agastado, encolhendo os ombros; sem olhar a colega): O meu marido queixa-se que em casa nunca sorrio.
EMPREGADA MAIS NOVA (tom compreensivo): Gastas os sorrisos todos no trabalho, não é? (E sorri; logo depois, suprime o sorriso.)
(Mantém-se em silêncio, olhando para a porta; talvez não entre mais ninguém, talvez apenas volte a haver necessidade de sorrisos amanhã.)

Esboço # 45

(Os dois homens caminham pelo corredor do hotel, em silêncio. Um deles abre a porta e entra, o outro segue-o; permanecem durante alguns segundos no pequeno átrio, olhando o quarto. O que abriu a porta arrisca uns passos exploratórios, o outro despe o casaco.)
HOMEM 1 (num tom ligeiramente ansioso): Costuma-se pagar antes ou no fim?
HOMEM 2 (tom sério mas algo distante, quase desinteressado; procurando um local para pousar o casaco): Antes.
HOMEM 1 (após uma ligeira hesitação): Ok. (Mas não se move.)
(O silêncio do quarto é um pouco opressivo, desconfortável. Talvez fosse um alívio para ambos se, por exemplo, um telemóvel tocasse.)

Esboço # 44

(A Mulher está no sofá, apoiada sobre os joelhos, enquanto o Homem a penetra por trás, com gestos firmes e vigorosos, mecânicos. Os rostos de ambos revelam cansaço e aborrecimento, desinteresse pelo que fazem; pressa. Estão mais cinco pessoas na sala, duas delas apontando-lhes câmaras de filmar.)
HOMEM (aproximando-se do rosto dela, enquanto prossegue a actividade sexual; tom ligeiramente ofegante, muito baixo): Depois de despacharmos isto queres ir almoçar?
MULHER (num tom monocórdico, quase segredado): Não posso. Tenho que me despachar. (Ajeita ligeiramente o corpo, procurando uma posição menos desconfortável.) Tenho que ir falar com a professora da minha filha.
HOMEM (adaptando-se à nova posição da Mulher; ligeiramente surpreendido): Não sabia que tinhas uma filha.
MULHER (olhando fixamente a câmara que está mais próxima): Tenho duas.
HOMEM (parando por um momento e recomeçando logo depois; num tom melancólico, quase triste): Não sabia.
(Prosseguem sem grande entusiasmo, à espera que alguém ordene uma mudança de posição; ou um intervalo. Os homens das câmaras continuam a mover-se em redor do sofá, aborrecidos. De repente, ouve-se uma voz irritada a exigir mais realismo, mais empenho, mais banda sonora. O Homem suspira e aumenta o ritmo; a Mulher geme, de modo obsceno e teatral.)

Esboço # 43

(A Empregada aproxima-se erguendo a bandeja apenas com uma mão; coloca o sumo e a torrada em cima da mesa, com gestos hábeis e despachados.)
EMPREGADA (olhando a Cliente e sorrindo): Deseja mais alguma coisa?
(A Cliente parece despertar de um devaneio; olha a Empregada, com atenção e curiosidade: o rosto, as mãos, o peito, de novo o rosto.)
CLIENTE (num tom algo abstraído, quase sonhador): Sim. (A Empregada ainda sorri, sem esforço.) Podia sentar-se aí e conversar um bocado comigo. (Olham-se e o sorriso da Empregada desaparece, devagarinho.) Sei lá. Dizer-me quantas torradas já transportou para estas mesas, por exemplo. Coisas assim, só para passar o tempo.
(Por um breve instante, parece que a Empregada vai aceitar o convite e sentar-se junto da Cliente; mas, logo depois, afasta-se sem pressa. A Cliente pega num pedaço de torrada e mastiga, sem prazer.)

Esboço # 42

(O sol pousa lentamente sobre o mar; o calor ainda é intenso, apenas suavizado por uma ténue brisa que sopra a intervalos regulares, quase previsíveis. Há pouca gente na praia; Ele está deitado sobre a areia, indolente e imóvel, pensativo; Ela, um pouco afastada, parece dormir.)
ELE (voz arrastada, amorfa): Há quanto tempo passamos férias juntos?
ELA (sem se mover mas abrindo os olhos; num tom quase indiferente): Uns cinco, acho. (Volta a fechar os olhos; compõe o corpo na toalha.) Porque perguntas?
ELE (olhando-a com súbita intensidade, espiando-lhe o corpo com timidez): Porque desde essa altura que me apetece dormir contigo.
(Ela sorri, depois olha-o com curiosidade, talvez com carinho; Ele desvia o olhar, embaraçado e receoso.)
ELA (num tom plácido, ligeiramente condescendente): Eu sei.
(Ele mantém-se tenso, sentindo o olhar dela; ouve-se uma gargalhada distante, logo engolida pelo monótono rugido das ondas. Ela passa a mão pela coxa e, depois, acondiciona o fato de banho ao corpo num gesto que poderia ser considerado provocador. O sol move-se muito lentamente: mas ninguém o olha.)
ELA (muito tempo depois): Eles já devem estar à nossa espera. (Não se move, Ele não reage.) É melhor irmos andando.
(Mantém-se imóveis, indiferentes à passagem do tempo; confortáveis. Alguém que os olhe talvez pense que formam um casal feliz.)

Esboço # 41

(Os dois idosos sentaram-se há muito no habitual banco do jardim, à sombra, mesmo junto do rio; Ele vai dormitando, Ela olha disfarçadamente para um casal de adolescentes que está sentado num banco mais afastado e que se beija.)
ELA (num tom de voz triste e resignado): Há quantos anos não fazemos aquilo?
(Ele abre os olhos e, contrariado, espreita o parque; o seu olhar detém-se durante alguns segundos nos adolescentes.)
ELE (num tom desinteressado): Não me lembro.
(Ele volta a fechar os olhos; ela observa o modo desajeitado mas decidido como o rapaz tenta acariciar os seios da rapariga; e sorri.)

Esboço # 40

ELA (sem o olhar): Trouxeste preservativos?
ELE (irritado): Esqueci-me.
(Entram no elevador do hotel, aguardam que a porta feche; um deles carrega no número seis.)
ELA (num tom seco, definitivo): Não vou fazer sexo contigo sem preservativo.
ELE (defensivo): Mas o quarto já está pago.
(O elevador imobiliza-se, a porta abre. Ambos olham o corredor deserto, indecisos; depois, Ele sai; Ela segue-o, hesitante, talvez contrariada.)
ELE (num tom conciliador): Podemos ficar um bocado a conversar.
ELA (olhando-o, um pouco surpreendida): E falamos sobre o quê?
(Caminham pelo corredor, em silêncio.)

Esboço # 39

HOMEM 1 (num tom afável, curioso): De todas as mulheres com que te cruzas na rua, com quantas tens fantasias momentâneas? Mais ou menos.
HOMEM 2 (num tom pensativo e ponderado): Para aí com quarenta por cento.
(Ambos olham em frente, para além do passeio; todas as outras mesas da esplanada estão desertas. Não passam carros na rua há mais de cinco minutos.)
HOMEM 1 (num tom surpreendido, sem qualquer indício de ironia): Só?