Galeria # 03

Alberto Sughi - Caffe' di notte, Notturno
(O bar está quase deserto; apenas alguns pares de namorados tagarelam, com as cabeças muito próximas, sorrindo quase sempre. Três pessoas solitárias estão sentadas em mesas mais resguardadas, olhando e esperando; o barman inventa tarefas, alheado e indiferente aos clientes. Então, um dos homens solitários levanta-se e caminha sem pressa, talvez um pouco tenso, um pouco ansioso, um pouco desesperado; senta-se junto de uma mulher que se encontra ao balcão, sozinha.)
HOMEM (num tom que pretende informal e bem-disposto, assertivo): Esta música faz-me lembrar noites de Verão; calor, festa, risos; coisas assim. (Olha rapidamente pela janela, verificando que recomeçou a chover.) Gosta?
(A Mulher olha-o durante um instante e volta a concentrar-se no copo que tem à sua frente.)
MULHER (tom indiferente): Nem por isso.
(O Homem acena com a cabeça; espreita a mulher, que continua absorta e distante, melancólica; talvez deprimida?)
HOMEM (tom apelativo, tentando parecer despreocupado): Quer sair daqui e ir dar uma volta por aí? (Olha em frente, rígido.) Foder um bocado.
(A Mulher não reage, como se não tivesse ouvido. O Homem espreita-a, um pouco ansioso. A música que lembra Verão termina abruptamente, substituída por outra muito semelhante.)
MULHER (no mesmo tom de indiferença): Talvez, quando parar de chover.
(Mantém-se em silêncio, de olhares rígidos e desamparados; ele força-se a acenar a cabeça ao ritmo da música, tentando não olhar para a janela demasiadas vezes; ela continua indiferente a quem a rodeia, apesar de por vezes olhar o barman enquanto passa mão pelo cabelo.)
HOMEM (num tom que pretende informal e bem-disposto, assertivo): Esta música faz-me lembrar noites de Verão; calor, festa, risos; coisas assim. (Olha rapidamente pela janela, verificando que recomeçou a chover.) Gosta?
(A Mulher olha-o durante um instante e volta a concentrar-se no copo que tem à sua frente.)
MULHER (tom indiferente): Nem por isso.
(O Homem acena com a cabeça; espreita a mulher, que continua absorta e distante, melancólica; talvez deprimida?)
HOMEM (tom apelativo, tentando parecer despreocupado): Quer sair daqui e ir dar uma volta por aí? (Olha em frente, rígido.) Foder um bocado.
(A Mulher não reage, como se não tivesse ouvido. O Homem espreita-a, um pouco ansioso. A música que lembra Verão termina abruptamente, substituída por outra muito semelhante.)
MULHER (no mesmo tom de indiferença): Talvez, quando parar de chover.
(Mantém-se em silêncio, de olhares rígidos e desamparados; ele força-se a acenar a cabeça ao ritmo da música, tentando não olhar para a janela demasiadas vezes; ela continua indiferente a quem a rodeia, apesar de por vezes olhar o barman enquanto passa mão pelo cabelo.)
Esboço # 53
(Os dois adolescentes estão no quarto, apenas iluminados pela luz do monitor de um computador; um escreve freneticamente no teclado, o outro no telemóvel; como se competissem numa prova de velocidade ou de agilidade. Ouve-se o ruído longínquo de uma televisão, vindo de outra sala.)
ADOLESCENTE 1 (sem interromper a escrita; num tom indiferente, como se estivesse a verbalizar um pensamento fugaz e pouco relevante): Porque fica a mãe a ver televisão até tão tarde, todos os dias?
ADOLESCENTE 2 (sorrindo, sem maldade ou ironia): Está à espera que o pai adormeça. Para não ter que fazer sexo.
(O teclar prossegue, monótono e entediante, envolvido pelo rugido da publicidade televisiva.)
ADOLESCENTE 1 (sem interromper a escrita; num tom indiferente, como se estivesse a verbalizar um pensamento fugaz e pouco relevante): Porque fica a mãe a ver televisão até tão tarde, todos os dias?
ADOLESCENTE 2 (sorrindo, sem maldade ou ironia): Está à espera que o pai adormeça. Para não ter que fazer sexo.
(O teclar prossegue, monótono e entediante, envolvido pelo rugido da publicidade televisiva.)
Esboço # 52
(A porta da entrada do prédio fecha-se com estrondo e a Mulher caminha sem pressa, carregando a pequena mala; o Menino segue-a, indiferente. Entram no carro, em silêncio.)
MULHER (num tom jovial): O pai costuma falar de mim?
MENINO (olhando pela janela): Às vezes.
MULHER (tentando dissimular a surpresa): A sério? E que lhe contas tu sobre mim?
MENINO (admirado): Eu? Ele nunca me pergunta nada. Fala muito da ti mas é com a namorada dele.
(Silêncio. A Mulher agarra o volante com força. Tenta sorrir. Depois, lembra-se de ligar o rádio; sons de vozes bem-dispostas invadem o carro.)
MENINO (sem olhar a mãe): E riem bastante, quando falam de ti.
MULHER (num tom jovial): O pai costuma falar de mim?
MENINO (olhando pela janela): Às vezes.
MULHER (tentando dissimular a surpresa): A sério? E que lhe contas tu sobre mim?
MENINO (admirado): Eu? Ele nunca me pergunta nada. Fala muito da ti mas é com a namorada dele.
(Silêncio. A Mulher agarra o volante com força. Tenta sorrir. Depois, lembra-se de ligar o rádio; sons de vozes bem-dispostas invadem o carro.)
MENINO (sem olhar a mãe): E riem bastante, quando falam de ti.
Esboço # 51
(Ela fuma, soprando o fumo com preguiça; Ele dormita, ou finge que dormita. Estão deitados sobre a cama desfeita, nus; em silêncio; os corpos não se tocam. Cheira a sexo. Ouvem-se os risos das empregadas de limpeza, no corredor.)
ELA (num tom sedutor, bem-disposto): Porque não perguntaste ainda como me chamo?
ELE (sem abrir os olhos, sem se mover; num tom distante e apático, frio): Porque não me interessa saber.
(Ela ri, nervosa; depois puxa a ponta de um lençol, tentando cobrir um pouco do seu corpo nu.)
ELA (num tom sedutor, bem-disposto): Porque não perguntaste ainda como me chamo?
ELE (sem abrir os olhos, sem se mover; num tom distante e apático, frio): Porque não me interessa saber.
(Ela ri, nervosa; depois puxa a ponta de um lençol, tentando cobrir um pouco do seu corpo nu.)
Esboço # 50
(Os dois rapazes estão sentados na sala, a jogar playstation.)
RAPAZ 1 (num tom casual, quase desinteressado): Se os pais se divorciarem, com quem preferias ficar?
RAPAZ 2 (concentrado no jogo): Porque haveriam de se divorciar? Nunca os vi discutir.
RAPAZ 1 (tom agastado): És tão parvo. Como poderiam discutir se nem sequer conversam?
(Os sons explosivos do jogo disfarçam o silêncio que preenche a sala semi-escura. Deverá ser quase hora de jantar mas continuam sozinhos em casa, à espera.)
RAPAZ 1 (num tom casual, quase desinteressado): Se os pais se divorciarem, com quem preferias ficar?
RAPAZ 2 (concentrado no jogo): Porque haveriam de se divorciar? Nunca os vi discutir.
RAPAZ 1 (tom agastado): És tão parvo. Como poderiam discutir se nem sequer conversam?
(Os sons explosivos do jogo disfarçam o silêncio que preenche a sala semi-escura. Deverá ser quase hora de jantar mas continuam sozinhos em casa, à espera.)
Esboço # 49
(Estão os dois a ver televisão na sala escura; sentados no mesmo sofá mas ligeiramente afastados.)
ELA (sem o olhar): Tens saudades minhas durante o dia?
ELE (concentrado na televisão): Tenho.
ELA (alguns segundos mais tarde, num tom forçadamente indiferente): Então porque nunca telefonas?
ELE (um pouco irritado): Para quê?
ELA (magoada com a resposta dele): Para conversarmos.
ELE (olhando-a, sem hostilidade): Sobre o quê?
(Ela sente o olhar dele mas concentra-se na televisão, incomodada. Ele percebe que não haverá resposta e parece aliviado.)
ELA (sem o olhar): Tens saudades minhas durante o dia?
ELE (concentrado na televisão): Tenho.
ELA (alguns segundos mais tarde, num tom forçadamente indiferente): Então porque nunca telefonas?
ELE (um pouco irritado): Para quê?
ELA (magoada com a resposta dele): Para conversarmos.
ELE (olhando-a, sem hostilidade): Sobre o quê?
(Ela sente o olhar dele mas concentra-se na televisão, incomodada. Ele percebe que não haverá resposta e parece aliviado.)
Esboço # 48
(A Idosa está deitada na cama do hospital, respirando com alguma dificuldade; olha a Filha que está sentada junto da janela, lendo uma revista. Ouvem-se gritos de dor e queixumes ocasionais, vindos do corredor. De repente a Filha atira a revista ao chão e levanta-se.)
FILHA (caminhando em direcção à porta, sem olhar a Idosa): Vou apanhar ar.
IDOSA (num tom choroso e assustado): Tens que ir? Não quero ficar sozinha. (Hesita, baixa a voz.) Não quero morrer sozinha.
FILHA (sem parar, num tom indiferente): E de que serve morrer acompanhada?
(A Idosa fica a olhar para a porta vazia enquanto ouve os ruídos dos outros idosos, despedindo-se ruidosamente do mundo.)
FILHA (caminhando em direcção à porta, sem olhar a Idosa): Vou apanhar ar.
IDOSA (num tom choroso e assustado): Tens que ir? Não quero ficar sozinha. (Hesita, baixa a voz.) Não quero morrer sozinha.
FILHA (sem parar, num tom indiferente): E de que serve morrer acompanhada?
(A Idosa fica a olhar para a porta vazia enquanto ouve os ruídos dos outros idosos, despedindo-se ruidosamente do mundo.)
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