Statcounter

Esboço # 56

(A Mãe corta tomate em pedaços, pensativa e distante; a Criança, debruçada na mesa, olha para a televisão, concentrada; de repente, ri: uma gargalhada genuína e explosiva, brutal, totalmente feliz.)
MÃE (tom bruto): Cala-te.
CRIANÇA (surpreendida e magoada, num tom ligeiramente desafiador): Não posso rir?
MÃE (enfática): Não.
CRIANÇA (subitamente receosa): Porquê?
MÃE (incapaz de se conter, de moderar o tom): Porque me incomoda.
(A Criança baixa os olhos e a Mãe continua a cortar tomate.)

Esboço # 55

Prazo de validade expirado.

Esboço # 54

Prazo de validade expirado.

Galeria # 04

Prazo de validade expirou.

Galeria # 03


Alberto Sughi - Caffe' di notte, Notturno


(O bar está quase deserto; apenas alguns pares de namorados tagarelam, com as cabeças muito próximas, sorrindo quase sempre. Três pessoas solitárias estão sentadas em mesas mais resguardadas, olhando e esperando; o barman inventa tarefas, alheado e indiferente aos clientes. Então, um dos homens solitários levanta-se e caminha sem pressa, talvez um pouco tenso, um pouco ansioso, um pouco desesperado; senta-se junto de uma mulher que se encontra ao balcão, sozinha.)
HOMEM (num tom que pretende informal e bem-disposto, assertivo): Esta música faz-me lembrar noites de Verão; calor, festa, risos; coisas assim. (Olha rapidamente pela janela, verificando que recomeçou a chover.) Gosta?
(A Mulher olha-o durante um instante e volta a concentrar-se no copo que tem à sua frente.)
MULHER (tom indiferente): Nem por isso.
(O Homem acena com a cabeça; espreita a mulher, que continua absorta e distante, melancólica; talvez deprimida?)
HOMEM (tom apelativo, tentando parecer despreocupado): Quer sair daqui e ir dar uma volta por aí? (Olha em frente, rígido.) Foder um bocado.
(A Mulher não reage, como se não tivesse ouvido. O Homem espreita-a, um pouco ansioso. A música que lembra Verão termina abruptamente, substituída por outra muito semelhante.)
MULHER (no mesmo tom de indiferença): Talvez, quando parar de chover.
(Mantém-se em silêncio, de olhares rígidos e desamparados; ele força-se a acenar a cabeça ao ritmo da música, tentando não olhar para a janela demasiadas vezes; ela continua indiferente a quem a rodeia, apesar de por vezes olhar o barman enquanto passa mão pelo cabelo.)

Esboço # 53

(Os dois adolescentes estão no quarto, apenas iluminados pela luz do monitor de um computador; um escreve freneticamente no teclado, o outro no telemóvel; como se competissem numa prova de velocidade ou de agilidade. Ouve-se o ruído longínquo de uma televisão, vindo de outra sala.)
ADOLESCENTE 1 (sem interromper a escrita; num tom indiferente, como se estivesse a verbalizar um pensamento fugaz e pouco relevante): Porque fica a mãe a ver televisão até tão tarde, todos os dias?
ADOLESCENTE 2 (sorrindo, sem maldade ou ironia): Está à espera que o pai adormeça. Para não ter que fazer sexo.
(O teclar prossegue, monótono e entediante, envolvido pelo rugido da publicidade televisiva.)

Esboço # 52

(A porta da entrada do prédio fecha-se com estrondo e a Mulher caminha sem pressa, carregando a pequena mala; o Menino segue-a, indiferente. Entram no carro, em silêncio.)
MULHER (num tom jovial): O pai costuma falar de mim?
MENINO (olhando pela janela): Às vezes.
MULHER (tentando dissimular a surpresa): A sério? E que lhe contas tu sobre mim?
MENINO (admirado): Eu? Ele nunca me pergunta nada. Fala muito da ti mas é com a namorada dele.
(Silêncio. A Mulher agarra o volante com força. Tenta sorrir. Depois, lembra-se de ligar o rádio; sons de vozes bem-dispostas invadem o carro.)
MENINO (sem olhar a mãe): E riem bastante, quando falam de ti.

Esboço # 51

(Ela fuma, soprando o fumo com preguiça; Ele dormita, ou finge que dormita. Estão deitados sobre a cama desfeita, nus; em silêncio; os corpos não se tocam. Cheira a sexo. Ouvem-se os risos das empregadas de limpeza, no corredor.)
ELA (num tom sedutor, bem-disposto): Porque não perguntaste ainda como me chamo?
ELE (sem abrir os olhos, sem se mover; num tom distante e apático, frio): Porque não me interessa saber.
(Ela ri, nervosa; depois puxa a ponta de um lençol, tentando cobrir um pouco do seu corpo nu.)