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Esboço # 62

Prazo de validade expirado.

Dão-se livros # 02

Prossegue a série de mini passatempos de que resultará a oferta de exemplares dos livros que aparecem aqui ao lado.
Segundo desafio: enviar um email sugerindo um quadro que possa servir de pretexto à escrita de uma estória; vale tudo menos repetir os pintores que já integram a galeria da gaveta.
Entre as respostas enviadas até 21 de Setembro será sorteado alguém que receberá um exemplar de um dos livros (à sua escolha).

Galeria # 08



Eric Fischl - Untitled


(Permaneço deitada na cama, ainda nua; o prazer proporcionado pelo sexo já se dissipou há muito, deixando-me estranhamente apática e indiferente, quase desconsolada. Não me apetece mover, fechar os olhos ou mantê-los abertos, pensar; não me apetece aceitar que o mundo continue a avançar, levando-me consigo. Ouço-a sair da casa de banho, aproximando-se; não quero – não consigo – olhá-la mas sei que vem enrolada numa toalha. Talvez pudesse perguntar-lhe por que nunca se seca na casa de banho, por que motivo prefere fazê-lo junto de mim.)
ELA (num tom indiferente, como se falasse para si própria): Foda-se, que está outra vez a chover.
(Fecho os olhos e concentro-me momentaneamente no silêncio que preenche o quarto, enquanto respiro o cheiro a sexo que ainda perdura; depois, Ela liga a televisão e o silêncio é estilhaçado – mas o cheiro permanece, insidioso. Pergunto-me por que motivo não se aproxima mais, não me toca; pergunto-me, também, há quanto tempo terá deixado de me amar. Não me movo, insisto em não me mover, paralisada por um receio indefinido e persistente, supersticioso; Ela continua a secar-se, acariciando-se com indiferença. Será que me olha, apreciando o meu corpo? Duvido. Estou quase, quase a perguntar-lhe se faz ideia por que motivo nunca nos tocamos depois de fazer sexo, o que poderá significar isso; mas não o faço: temo a resposta.)
ELA (tom abrupto, um pouco acusador): Vais dormir?
(Não respondo; na verdade, apetecia-me dizer-lhe que me sinto como se andasse a dormir há anos, incessantemente. Ela acaba de se secar e aproxima-se da televisão, mudando o canal. De repente, sinto-me incapaz de me submeter uma vez mais à tristeza e desistir; apetece-me reagir, lutar, agredir.)
EU (sem me mover, sem a olhar): Porque vais sempre tomar banho, depois de fazermos sexo? (Hesito e sinto o seu olhar fixar-se em mim.) Seja ao acordar ou a meio da noite, seja à hora de almoço. Vais sempre. (Respiro fundo, tentando controlar-me. Apetece-me acrescentar: como se o banho fosse o teu verdadeiro orgasmo.) Porquê?
(Finalmente, sinto que estou a libertar-me da paralisia; movo-me ligeiramente e olho-a, sem agressividade mas também sem afecto.)
EU (tom cândido, quase nostálgico): Sentes-te suja, quando beijas o meu corpo? (Ela olha-me durante mais um instante, perplexa e insegura, incapaz de reagir; depois, desvia o olhar, devagarinho. Afasta-se, recuando um passo: pergunto-me se conseguirá voltar a olhar-me.)

Galeria # 07



Alberto Sughi - La Stanza del Tempo


ELA (num tom apático): Não podias sorrir um pouco?
(Ele interrompe a leitura, contrariado, mas não desvia o olhar do livro.)
ELE (cauteloso): Desculpa?
ELA (impertinente, sem o olhar): Sorrir, simplesmente. Uma vez por semana ou assim. (Tom quase impertinente.) Custava-te muito?
ELE (levantando os olhos do livro; tom cauteloso): Desculpa, não percebo.
(Ela suspira e recosta-se no sofá, talvez com vontade de chorar.)
ELE (pesaroso): Queres que eu sorria, mesmo que não tenha vontade de o fazer? Que finja? (Num tom inesperadamente mais afável, quase carinhoso.) Preferirias assim? (Hesita.) Que eu fosse falso e dissimulado e fingido?
(Ela não responde – talvez com vontade de gritar que sim, que preferia a falsidade e a dissimulação e o fingimento à indiferença, à apatia; fecha os olhos durante um momento, respira fundo; Ele observa-a, atento e curioso. Depois, muito mais tarde, quando percebe que o diálogo terminou, regressa à leitura.)

Galeria # 06


Edward Hopper - Cape Cod evening

(Ele está sentado no degrau das traseiras, contemplando pensativamente o horizonte e espreitando o cão que corre por ali; por vezes, homem e animal trocam olhares cúmplices, solidários: como se partilhassem algo. Ela aproxima-se em silêncio e permanece junto dele, olhando-o soturnamente; talvez à espera que ele repare em si.)
ELA (tom constrangido): Esse cão é mais importante para ti do que eu, não é?
ELE (muito tempo depois; tom relutante): Talvez.
(O cão aproxima-se dele e deixa cair aos seus pés algo que prende na boca; depois, afasta-se. Ela cruza os braços e olha para o chão, pensando em como toda a gente a ignora, incluindo o cão; perguntando-se como deverá reagir a uma resposta daquelas; se valerá a pena reagir. Então, uma brisa agreste sopra subitamente do lado da floresta, indiciando que – apesar de tudo – o mundo talvez continue a girar, a vida a avançar; indicando, também, que se aproxima a hora de começar a pensar no jantar. O vento passa, insidioso e desconfortável; ninguém fala: nem o cão rosna, sequer.)

Esboço # 61

Prazo de validade expirado.

Esboço # 60

Prazo de validade expirado.

Esboço # 59

Prazo de validade expirado.