Prazo de validade expirado.
Dão-se livros # 03
Desta vez não há desafio, apenas uma pergunta relativa ao que tem sido disponibilizado no blogue. Quais são as estórias mais interessantes: as normais ou os esboços?
Entre os emails recebidos até 21 de Outubro será sorteado o vencedor do livro.
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Autópsia # 02: Convidar
1.
Tenho perfeita consciência de que me descontrolei completamente, ao escolher a roupa que trago vestida (e há quanto tempo a comprara, há quanto tempo fantasiava usá-la? Nem me lembro.). Exagerei ao escolher esta t-shirt elástica que delineia de forma obscena o contorno dos meus seios, centímetro a centímetro, terminando na saliência dos mamilos (suspeito que haja gente a olhar com ânsia de tocar, ânsia de perceber por que motivo estarão tão rígidos, tão protuberantes); e exagerei ao escolher uma saia mais ousada do que o habitual, uma saia cujo principal propósito é revelar o princípio das coxas; apenas o princípio, para que o resto seja intuído, adivinhado, fantasiado. Exagerei ao desistir voluntariamente de ser uma mulher completa, um rosto e uma expressão, um conjunto quase harmonioso de sensações e dores e fantasias, para me transformar num simples corpo, num pedaço de carne.
Sem disfarces ou subterfúgios, sem maquilhagem ou protecção; apenas um corpo, exposto e convidativo; disponível.
2.
O dia passou lento e claustrofóbico, repleto de olhares e insinuações, indícios de convite, desajeitadas manifestações de interesse; sinto que a minha simples mudança de vestuário (ou melhor: o significado que essa mudança representa) libertou em todos uma espécie de vontade de foder (de admissão de vontade de foder), uma avidez de sexo que sempre andou à solta pelo escritório, latente e disfarçada, mas que agora, de súbito, se revela de forma quase palpável, quase sufocante.
Contudo, apenas um colega (um rapaz mais novo da contabilidade que por vezes me pede cigarros e passa à minha frente ao entrar no elevador, sem me segurar a porta) fez uma tentativa concreta, uma verdadeira proposta; e quando o rejeitei, irritou-se.
Não me digas que o modo como estás vestida não é um convite descarado, diz ele misturando ódio nas palavras. (Ódio? Talvez não; decepção, apenas.) Tento reagir com calma, não o afrontar demasiado; não o afastar definitivamente. Claro que é um convite, digo eu. Desvio o olhar e acrescento, num tom mais baixo, menos confiante: mas não é um convite para ti.
Ele parece sentir uma súbita vontade de me bater mas controla-se, claro que se controla; e encolhe os ombros, conformado. Sinto-me agradecida por não me perguntar a quem se dirige o convite, afinal; não saberia que responder.
Tenho perfeita consciência de que me descontrolei completamente, ao escolher a roupa que trago vestida (e há quanto tempo a comprara, há quanto tempo fantasiava usá-la? Nem me lembro.). Exagerei ao escolher esta t-shirt elástica que delineia de forma obscena o contorno dos meus seios, centímetro a centímetro, terminando na saliência dos mamilos (suspeito que haja gente a olhar com ânsia de tocar, ânsia de perceber por que motivo estarão tão rígidos, tão protuberantes); e exagerei ao escolher uma saia mais ousada do que o habitual, uma saia cujo principal propósito é revelar o princípio das coxas; apenas o princípio, para que o resto seja intuído, adivinhado, fantasiado. Exagerei ao desistir voluntariamente de ser uma mulher completa, um rosto e uma expressão, um conjunto quase harmonioso de sensações e dores e fantasias, para me transformar num simples corpo, num pedaço de carne.
Sem disfarces ou subterfúgios, sem maquilhagem ou protecção; apenas um corpo, exposto e convidativo; disponível.
2.
O dia passou lento e claustrofóbico, repleto de olhares e insinuações, indícios de convite, desajeitadas manifestações de interesse; sinto que a minha simples mudança de vestuário (ou melhor: o significado que essa mudança representa) libertou em todos uma espécie de vontade de foder (de admissão de vontade de foder), uma avidez de sexo que sempre andou à solta pelo escritório, latente e disfarçada, mas que agora, de súbito, se revela de forma quase palpável, quase sufocante.
Contudo, apenas um colega (um rapaz mais novo da contabilidade que por vezes me pede cigarros e passa à minha frente ao entrar no elevador, sem me segurar a porta) fez uma tentativa concreta, uma verdadeira proposta; e quando o rejeitei, irritou-se.
Não me digas que o modo como estás vestida não é um convite descarado, diz ele misturando ódio nas palavras. (Ódio? Talvez não; decepção, apenas.) Tento reagir com calma, não o afrontar demasiado; não o afastar definitivamente. Claro que é um convite, digo eu. Desvio o olhar e acrescento, num tom mais baixo, menos confiante: mas não é um convite para ti.
Ele parece sentir uma súbita vontade de me bater mas controla-se, claro que se controla; e encolhe os ombros, conformado. Sinto-me agradecida por não me perguntar a quem se dirige o convite, afinal; não saberia que responder.
Autópsia # 01: Silenciar
1.
Estás na sala a ver televisão e eu na cama, à tua espera; excitada, o espírito alvoraçado e o corpo ansioso, a antecipar o orgasmo (mais importante: a antecipar todo o percurso que teremos de percorrer até alcançar o orgasmo, carícia após carícia). E tu sem vir, adiando.
Admito: cedo nos habituámos a criar estratégias para adiar a inevitabilidade do sexo; ambos aprendemos a detectar no outro os indícios da excitação e, como raramente as vontades coincidem, fomos aperfeiçoando alguns métodos que nos permitissem contornar a obrigatoriedade de satisfazer o desejo do outro. Estabelecemos uma estratégia silenciosa e envergonhada, que nos embaraça e constrange, mas que funciona, que nos satisfaz; mas a verdade é que se um de nós quer foder, prefere não o fazer (cerrar os olhos e tentar dissolver a excitação em fantasias, por exemplo) a ter de admitir que o outro o fará contrariado; a ter de admitir que o outro irá foder por favor.
Mas claro que, por vezes, toda esta racionalização se revela absurda e inconsequente: e engolir a excitação, fantasiar orgasmos, não chega; por vezes, é necessário ceder; engolir o orgulho e acreditar que o outro também cederá; que o outro também quer.
Vou esperando, então.
2.
Impaciente, salto da cama e passeio-me, langorosa e convidativa, pela sala; com esperança que percebas e venhas (importa-me lá que o faças por favor; amanhã pensarei nisso, lidarei com o arrependimento; mas, agora, preciso mesmo que venhas), com esperança que não me forces a pedir; tentando desculpar – desculpar, apenas; e não justificar – o teu desinteresse. Mas limitas-te a sorrir, sem alegria nem ânimo; sem me olhar.
Regresso à cama, onde espero, nua e gélida, desesperançada; transformando a frustração em paciência. Quando finalmente chegas, entras na cama cuidadosamente, com movimentos lentos e silenciosos, talvez até sustendo a respiração; tentas que os nossos corpos não se toquem; ou melhor: fazes um esforço consciente para não me tocares. E eu mantenho-me imóvel e rígida, certa de que sabes que estou acordada. Vou esperando, sabendo que nada acontecerá; mas sou incapaz de interromper o silêncio e pedir-te: fode-me, que preciso de acalmar o corpo, adormecer o espírito. Quero fazê-lo mas sei que não conseguirei; e a contradição (há poucos minutos parecia quase disposta à degradação de pedir) destroça-me: porque não a compreendo; não me compreendo.
Por isso, deixo-me estar quieta e infeliz, a tristeza a corroer-me devagarinho; sinto a decepção invadir-me, logo acompanhada pela indignação, pela revolta; pondero se devo confrontar-te, iniciar uma discussão, disfarçar o choro com gritos. Claro que não me movo, que não reajo: limito-me a aguardar que o silêncio da noite me embale, me adormeça.
3.
Depois, subitamente, tomo consciência do teu ressonar; e sinto-me ainda mais só e desamparada, mais triste; como se percebesse finalmente que nunca estive verdadeiramente acompanhada. E o sentimento de solidão e desamparo é tão incisivo, tão dilacerante, que sinto uma desesperada necessidade de conforto, de toque; suponho que poderia suspender o meu ódio por ti e aproximar-me cuidadosamente, aconchegar o meu corpo no teu (como estás a dormir, talvez não te afastasses); sentir a tua pele, a tua pulsação, o teu calor: e enganar a solidão, iludi-la momentaneamente (até que o sono chegue); usar-te. Mas no último instante consigo resistir à tentação e prefiro ceder a uma outra forma de desespero, mais privada, mais segura; prefiro desdobrar-me em companhia (inventar companhia): e toco-me.
Toco-me, numa ingénua tentativa de me sentir menos só; os segundos passam, pérfidos e inconsequentes, acusadores, enquanto os meus toques evoluem inconscientemente (ou muito conscientemente?) para algo novo e diferente, para algo surpreendente e inesperado. Dou por mim a masturbar-me a poucos centímetros de ti, enquanto escuto o teu ressonar monótono e pacificador. E por mais que tente, não consigo sentir-me envergonhada ou culpada ou miserável. Pelo contrário: sinto-me confortável; avançando tranquilamente em direcção ao orgasmo, à auto-suficiência. À libertação, talvez.
(E repara: falo sempre em foder; nunca em fazer amor.)
Estás na sala a ver televisão e eu na cama, à tua espera; excitada, o espírito alvoraçado e o corpo ansioso, a antecipar o orgasmo (mais importante: a antecipar todo o percurso que teremos de percorrer até alcançar o orgasmo, carícia após carícia). E tu sem vir, adiando.
Admito: cedo nos habituámos a criar estratégias para adiar a inevitabilidade do sexo; ambos aprendemos a detectar no outro os indícios da excitação e, como raramente as vontades coincidem, fomos aperfeiçoando alguns métodos que nos permitissem contornar a obrigatoriedade de satisfazer o desejo do outro. Estabelecemos uma estratégia silenciosa e envergonhada, que nos embaraça e constrange, mas que funciona, que nos satisfaz; mas a verdade é que se um de nós quer foder, prefere não o fazer (cerrar os olhos e tentar dissolver a excitação em fantasias, por exemplo) a ter de admitir que o outro o fará contrariado; a ter de admitir que o outro irá foder por favor.
Mas claro que, por vezes, toda esta racionalização se revela absurda e inconsequente: e engolir a excitação, fantasiar orgasmos, não chega; por vezes, é necessário ceder; engolir o orgulho e acreditar que o outro também cederá; que o outro também quer.
Vou esperando, então.
2.
Impaciente, salto da cama e passeio-me, langorosa e convidativa, pela sala; com esperança que percebas e venhas (importa-me lá que o faças por favor; amanhã pensarei nisso, lidarei com o arrependimento; mas, agora, preciso mesmo que venhas), com esperança que não me forces a pedir; tentando desculpar – desculpar, apenas; e não justificar – o teu desinteresse. Mas limitas-te a sorrir, sem alegria nem ânimo; sem me olhar.
Regresso à cama, onde espero, nua e gélida, desesperançada; transformando a frustração em paciência. Quando finalmente chegas, entras na cama cuidadosamente, com movimentos lentos e silenciosos, talvez até sustendo a respiração; tentas que os nossos corpos não se toquem; ou melhor: fazes um esforço consciente para não me tocares. E eu mantenho-me imóvel e rígida, certa de que sabes que estou acordada. Vou esperando, sabendo que nada acontecerá; mas sou incapaz de interromper o silêncio e pedir-te: fode-me, que preciso de acalmar o corpo, adormecer o espírito. Quero fazê-lo mas sei que não conseguirei; e a contradição (há poucos minutos parecia quase disposta à degradação de pedir) destroça-me: porque não a compreendo; não me compreendo.
Por isso, deixo-me estar quieta e infeliz, a tristeza a corroer-me devagarinho; sinto a decepção invadir-me, logo acompanhada pela indignação, pela revolta; pondero se devo confrontar-te, iniciar uma discussão, disfarçar o choro com gritos. Claro que não me movo, que não reajo: limito-me a aguardar que o silêncio da noite me embale, me adormeça.
3.
Depois, subitamente, tomo consciência do teu ressonar; e sinto-me ainda mais só e desamparada, mais triste; como se percebesse finalmente que nunca estive verdadeiramente acompanhada. E o sentimento de solidão e desamparo é tão incisivo, tão dilacerante, que sinto uma desesperada necessidade de conforto, de toque; suponho que poderia suspender o meu ódio por ti e aproximar-me cuidadosamente, aconchegar o meu corpo no teu (como estás a dormir, talvez não te afastasses); sentir a tua pele, a tua pulsação, o teu calor: e enganar a solidão, iludi-la momentaneamente (até que o sono chegue); usar-te. Mas no último instante consigo resistir à tentação e prefiro ceder a uma outra forma de desespero, mais privada, mais segura; prefiro desdobrar-me em companhia (inventar companhia): e toco-me.
Toco-me, numa ingénua tentativa de me sentir menos só; os segundos passam, pérfidos e inconsequentes, acusadores, enquanto os meus toques evoluem inconscientemente (ou muito conscientemente?) para algo novo e diferente, para algo surpreendente e inesperado. Dou por mim a masturbar-me a poucos centímetros de ti, enquanto escuto o teu ressonar monótono e pacificador. E por mais que tente, não consigo sentir-me envergonhada ou culpada ou miserável. Pelo contrário: sinto-me confortável; avançando tranquilamente em direcção ao orgasmo, à auto-suficiência. À libertação, talvez.
(E repara: falo sempre em foder; nunca em fazer amor.)
Galeria # 11

Lucian Freud - Hotel bedroom
(Ela permanece há muito deitada, fixando o vazio com um olhar apático e distante. Ele passeia pelo quarto, tentando disfarçar o nervosismo, tropeçando na sua própria ansiedade; senta-se na pequena poltrona e levanta-se logo de seguida, olha pela janela como se procurasse uma possibilidade de fuga ou uma distracção, escuta a respiração amorfa dela tentando detectar irregularidades, volta a sentar-se na poltrona; por vezes, apetece-lhe gritar; ou fugir, em silêncio e sem destino; ou rir bem alto, como um louco.)
ELE (num tom contido, miraculosamente neutro): Já estamos bastante atrasados.
(Ela não reage; como se estivesse a dormir: mas com os olhos abertos. Ele dá mais uns passos, desorientados e inconsequentes; sente-se ridículo por estar constantemente a andar para chegar a lado nenhum.)
ELE (com desprezo): Sabes o que descobri desde que casei contigo? (Hesita, talvez esperançoso que a sua súbita agressividade provoque uma reacção.) Que a tristeza é contagiosa. (E fica a olhar para Ela, sem saber o que mais acrescentar.)
ELE (num tom contido, miraculosamente neutro): Já estamos bastante atrasados.
(Ela não reage; como se estivesse a dormir: mas com os olhos abertos. Ele dá mais uns passos, desorientados e inconsequentes; sente-se ridículo por estar constantemente a andar para chegar a lado nenhum.)
ELE (com desprezo): Sabes o que descobri desde que casei contigo? (Hesita, talvez esperançoso que a sua súbita agressividade provoque uma reacção.) Que a tristeza é contagiosa. (E fica a olhar para Ela, sem saber o que mais acrescentar.)
Galeria # 10

Sangram Majumdar - Kitchen light
(Jantam em silêncio, na cozinha escurecida; a lâmpada fundira-se há três dias mas Ele ainda não se decidira a trocá-la; por isso, é necessário abrir a porta do frigorífico para que a sua fraca luz lhes ilumine a solidão. Ela já lhe falara nisso algumas vezes, tentando não parecer desesperada; depois desistira.)
ELA (tom algo defensivo, assustada por surpreender o seu olhar perscrutador e incisivo): Porque estás a olhar-me assim?
(Ele mantém o olhar durante alguns segundos, continuando a mastigar lentamente.)
ELE (tom pensativo): Estava a tentar lembrar-me por que motivo me apaixonei por ti.
(Ela escuta, sem o olhar; e só alguns instantes depois de Ele se calar, percebe o verdadeiro significado das palavras; como se não estivessem apenas a alguns centímetros de distância e o som das vozes tivesse que percorrer vários mundos. Então, quando compreende, sente que o coração pára durante um momento, vacilante; sente: mas sabe que está apenas a imaginar. Entretanto, Ele levanta-se sem pressa e afasta-se. Ela tenta distrair-se, pensando como será quando a lâmpada do frigorífico também fundir.)
ELA (tom algo defensivo, assustada por surpreender o seu olhar perscrutador e incisivo): Porque estás a olhar-me assim?
(Ele mantém o olhar durante alguns segundos, continuando a mastigar lentamente.)
ELE (tom pensativo): Estava a tentar lembrar-me por que motivo me apaixonei por ti.
(Ela escuta, sem o olhar; e só alguns instantes depois de Ele se calar, percebe o verdadeiro significado das palavras; como se não estivessem apenas a alguns centímetros de distância e o som das vozes tivesse que percorrer vários mundos. Então, quando compreende, sente que o coração pára durante um momento, vacilante; sente: mas sabe que está apenas a imaginar. Entretanto, Ele levanta-se sem pressa e afasta-se. Ela tenta distrair-se, pensando como será quando a lâmpada do frigorífico também fundir.)
Galeria # 09

Sandra Fisher - Mark & Sarah
(Estão os dois deitados em cima dos lençóis; não fizeram nem irão fazer amor, saboreando a volúpia de estarem nus e vagamente excitados mas recusarem a possibilidade de sexo, de a adiarem para um momento talvez próximo mas ainda incerto. Tocam-se ligeiramente, para se sentirem acompanhados; mas ambos apreciam o facto de, na verdade, se sentirem momentaneamente sós.)
ELE (abrindo os olhos mas sem se mover): Qual é a última coisa em que pensas antes de adormecer?
ELA (sem abrir os olhos): Em ti.
ELE (fechando os olhos): Quando vais deixar de me mentir?
(Ela sorri ligeiramente mas não responde; Ele logo desiste de aguardar uma resposta. E ambos adormecem pouco depois, olhando-se através das pálpebras cerradas.)
ELE (abrindo os olhos mas sem se mover): Qual é a última coisa em que pensas antes de adormecer?
ELA (sem abrir os olhos): Em ti.
ELE (fechando os olhos): Quando vais deixar de me mentir?
(Ela sorri ligeiramente mas não responde; Ele logo desiste de aguardar uma resposta. E ambos adormecem pouco depois, olhando-se através das pálpebras cerradas.)
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