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Esboço # 69

Prazo de validade expirado.

Esboço # 68

(A mulher ainda não se moveu, desde que o médico anunciou o veredicto; ele vai falando, num tom paciente e sereno – quase interessado –, sobre possibilidades e desenvolvimentos, sobre prazos e perigos e limitações, sobre esperança, enquanto ela escuta, apática e pensativa, estranhamente serena.)
MÉDICO (desconfortável e incomodado, genuinamente triste; num tom assertivo): Temos que ter fé. Acreditar. Nunca, nunca desistir. (A mulher mantém-se indiferente, como se não tivesse ainda compreendido as implicações do que ouviu; como se não tivesse entendido que acabara de ser condenada.) Entretanto, é preciso aproveitar. (Sorri, nervoso.) Aproveitar todos os momentos. Todos.
MULHER (num tom frio e distante; olhando ainda pela janela, incapaz – ou desinteressada? – de enfrentar o médico): Aproveitar? Aproveitar o quê? (Encolhe os ombros, subitamente desesperada por se sentir incapaz de chorar.) O que há para aproveitar?
(O médico desvia o olhar, constrangido; mas não demasiado. Olha o relógio sub-repticiamente e tenta disfarçar – sem grande empenho – um suspiro.)

Esboço # 67

(Acorda subitamente, assustada.)
MULHER (num tom murmurado e receoso, muito apreensivo): Voltei a ter aquele pesadelo.
(Aguarda durante um instante, ainda incapaz de se mover, de abrir os olhos; logo depois, recorda que está sozinha, que não há ninguém para a escutar, para a tranquilizar, para a abraçar. Passaram meses e meses: mas continua a não haver ninguém. Abre os olhos, num esforço ingénuo de tentar expulsar a escuridão que sente dentro de si; tenta esquecer o pesadelo, perguntando-se se terá gritado; espera não ter acordado os garotos. E mantém-se vigilante, tentando localizar na escuridão as suas suaves respirações, separando-as do silêncio opressivo; tentando distingui-las e acompanhá-las, envolvida pelo seu ritmo monótono e previsível, seguro; tentando sentir-se menos só, apenas um bocadinho menos só.)

Esboço # 66

Prazo de validade expirado.

Esboço # 65

Prazo de validade expirado.

Dão-se livros # 03

Desta vez não há desafio, apenas uma pergunta relativa ao que tem sido disponibilizado no blogue. Quais são as estórias mais interessantes: as normais ou os esboços?
Entre os emails recebidos até 21 de Outubro será sorteado o vencedor do livro.

Autópsia # 02: Convidar

1.
Tenho perfeita consciência de que me descontrolei completamente, ao escolher a roupa que trago vestida (e há quanto tempo a comprara, há quanto tempo fantasiava usá-la? Nem me lembro.). Exagerei ao escolher esta t-shirt elástica que delineia de forma obscena o contorno dos meus seios, centímetro a centímetro, terminando na saliência dos mamilos (suspeito que haja gente a olhar com ânsia de tocar, ânsia de perceber por que motivo estarão tão rígidos, tão protuberantes); e exagerei ao escolher uma saia mais ousada do que o habitual, uma saia cujo principal propósito é revelar o princípio das coxas; apenas o princípio, para que o resto seja intuído, adivinhado, fantasiado. Exagerei ao desistir voluntariamente de ser uma mulher completa, um rosto e uma expressão, um conjunto quase harmonioso de sensações e dores e fantasias, para me transformar num simples corpo, num pedaço de carne.
Sem disfarces ou subterfúgios, sem maquilhagem ou protecção; apenas um corpo, exposto e convidativo; disponível.

2.
O dia passou lento e claustrofóbico, repleto de olhares e insinuações, indícios de convite, desajeitadas manifestações de interesse; sinto que a minha simples mudança de vestuário (ou melhor: o significado que essa mudança representa) libertou em todos uma espécie de vontade de foder (de admissão de vontade de foder), uma avidez de sexo que sempre andou à solta pelo escritório, latente e disfarçada, mas que agora, de súbito, se revela de forma quase palpável, quase sufocante.
Contudo, apenas um colega (um rapaz mais novo da contabilidade que por vezes me pede cigarros e passa à minha frente ao entrar no elevador, sem me segurar a porta) fez uma tentativa concreta, uma verdadeira proposta; e quando o rejeitei, irritou-se.
Não me digas que o modo como estás vestida não é um convite descarado, diz ele misturando ódio nas palavras. (Ódio? Talvez não; decepção, apenas.) Tento reagir com calma, não o afrontar demasiado; não o afastar definitivamente. Claro que é um convite, digo eu. Desvio o olhar e acrescento, num tom mais baixo, menos confiante: mas não é um convite para ti.
Ele parece sentir uma súbita vontade de me bater mas controla-se, claro que se controla; e encolhe os ombros, conformado. Sinto-me agradecida por não me perguntar a quem se dirige o convite, afinal; não saberia que responder.

Autópsia # 01: Silenciar

1.
Estás na sala a ver televisão e eu na cama, à tua espera; excitada, o espírito alvoraçado e o corpo ansioso, a antecipar o orgasmo (mais importante: a antecipar todo o percurso que teremos de percorrer até alcançar o orgasmo, carícia após carícia). E tu sem vir, adiando.
Admito: cedo nos habituámos a criar estratégias para adiar a inevitabilidade do sexo; ambos aprendemos a detectar no outro os indícios da excitação e, como raramente as vontades coincidem, fomos aperfeiçoando alguns métodos que nos permitissem contornar a obrigatoriedade de satisfazer o desejo do outro. Estabelecemos uma estratégia silenciosa e envergonhada, que nos embaraça e constrange, mas que funciona, que nos satisfaz; mas a verdade é que se um de nós quer foder, prefere não o fazer (cerrar os olhos e tentar dissolver a excitação em fantasias, por exemplo) a ter de admitir que o outro o fará contrariado; a ter de admitir que o outro irá foder por favor.
Mas claro que, por vezes, toda esta racionalização se revela absurda e inconsequente: e engolir a excitação, fantasiar orgasmos, não chega; por vezes, é necessário ceder; engolir o orgulho e acreditar que o outro também cederá; que o outro também quer.
Vou esperando, então.

2.
Impaciente, salto da cama e passeio-me, langorosa e convidativa, pela sala; com esperança que percebas e venhas (importa-me lá que o faças por favor; amanhã pensarei nisso, lidarei com o arrependimento; mas, agora, preciso mesmo que venhas), com esperança que não me forces a pedir; tentando desculpar – desculpar, apenas; e não justificar – o teu desinteresse. Mas limitas-te a sorrir, sem alegria nem ânimo; sem me olhar.
Regresso à cama, onde espero, nua e gélida, desesperançada; transformando a frustração em paciência. Quando finalmente chegas, entras na cama cuidadosamente, com movimentos lentos e silenciosos, talvez até sustendo a respiração; tentas que os nossos corpos não se toquem; ou melhor: fazes um esforço consciente para não me tocares. E eu mantenho-me imóvel e rígida, certa de que sabes que estou acordada. Vou esperando, sabendo que nada acontecerá; mas sou incapaz de interromper o silêncio e pedir-te: fode-me, que preciso de acalmar o corpo, adormecer o espírito. Quero fazê-lo mas sei que não conseguirei; e a contradição (há poucos minutos parecia quase disposta à degradação de pedir) destroça-me: porque não a compreendo; não me compreendo.
Por isso, deixo-me estar quieta e infeliz, a tristeza a corroer-me devagarinho; sinto a decepção invadir-me, logo acompanhada pela indignação, pela revolta; pondero se devo confrontar-te, iniciar uma discussão, disfarçar o choro com gritos. Claro que não me movo, que não reajo: limito-me a aguardar que o silêncio da noite me embale, me adormeça.

3.
Depois, subitamente, tomo consciência do teu ressonar; e sinto-me ainda mais só e desamparada, mais triste; como se percebesse finalmente que nunca estive verdadeiramente acompanhada. E o sentimento de solidão e desamparo é tão incisivo, tão dilacerante, que sinto uma desesperada necessidade de conforto, de toque; suponho que poderia suspender o meu ódio por ti e aproximar-me cuidadosamente, aconchegar o meu corpo no teu (como estás a dormir, talvez não te afastasses); sentir a tua pele, a tua pulsação, o teu calor: e enganar a solidão, iludi-la momentaneamente (até que o sono chegue); usar-te. Mas no último instante consigo resistir à tentação e prefiro ceder a uma outra forma de desespero, mais privada, mais segura; prefiro desdobrar-me em companhia (inventar companhia): e toco-me.
Toco-me, numa ingénua tentativa de me sentir menos só; os segundos passam, pérfidos e inconsequentes, acusadores, enquanto os meus toques evoluem inconscientemente (ou muito conscientemente?) para algo novo e diferente, para algo surpreendente e inesperado. Dou por mim a masturbar-me a poucos centímetros de ti, enquanto escuto o teu ressonar monótono e pacificador. E por mais que tente, não consigo sentir-me envergonhada ou culpada ou miserável. Pelo contrário: sinto-me confortável; avançando tranquilamente em direcção ao orgasmo, à auto-suficiência. À libertação, talvez.
(E repara: falo sempre em foder; nunca em fazer amor.)