Prazo de validade expirado.
Galeria # 12

Fernando Botero - Couple in bath
(Ele corta a barba, olhando-se cuidadosamente ao espelho, alheado e pensativo, esquecido que ela está ali mesmo ao lado, na banheira; ela espreita-o sem interesse ou afecto, talvez com enfado.)
ELA (num tom algo brusco, provocatório): Não tens medo que, um dia, eu descubra que já não te amo?
ELE (depois de recuperar da surpresa de a ouvir, de se descobrir acompanhado; num tom falsamente jocoso): Acho que tenho mais medo que, um dia, descubra que tenho cancro. (Gostava que ela lhe perguntasse qual o cancro que mais teme mas suspeita que não o fará; e continua a barbear-se, pensando em cancros da próstata e do intestino.)
Esboço # 74
(Estão sentados na varanda há horas, apenas iluminados pela lua; por vezes passa um carro algures, apressado e ruidoso, recordando que o mundo continua a girar. Conversam preguiçosamente e riem bastante; ou permanecem longos períodos em silêncio, confortáveis e serenos; levantam-se ocasionalmente para renovar as bebidas, para petiscar qualquer coisa, para passar pela casa de banho; mas regressam sempre, como se tivessem decidido permanecer na varanda até amanhecer. Nos primeiros meses do casamento era frequente ficarem juntos pela madrugada dentro, decididos a impedir que o sono os separasse momentaneamente, incapazes de se saciarem da companhia do outro; depois, quando tudo se tornou normal e previsível e rotineiro, os hábitos foram sendo alterados, devagarinho.)
ELE (após um longo período de silêncio): Conta-me um segredo. (Sorri, talvez nervoso ou arrependido.) Alguma coisa que nunca me tenhas contado, algo intímo e secreto e estranho.
(Ela olha-o, um pouco espantada. Estuda o seu perfil, escuta a sua respiração tranquila; pondera o que fazer, quase cede à tentação de mentir.)
ELA (numa voz arrastada e hesitante, apologética): Sabes, daquelas vezes em que te apetece fazer amor e finges não perceber os meus sinais, insistes apesar de saberes que eu não quero, apesar de saberes que não me apetece? (Ele move-se, desconfortável; ambos olham a escuridão.) Quando estás a fazer amor e eu à espera que termines, sabes o que sinto? (Hesita apenas um momento; num tom triste e desencantado.) É como se estivesse a ser violada. Sinto que estou a ser violada por um estranho. E nem posso gritar.
(Ele estremece, chocado; mas não fala, não se aproxima dela. Mantém-se em silêncio, agarrando os respectivos copos e olhando a lua; ambos com vontade de fugir mas incapazes de se moverem.)
ELE (após um longo período de silêncio): Conta-me um segredo. (Sorri, talvez nervoso ou arrependido.) Alguma coisa que nunca me tenhas contado, algo intímo e secreto e estranho.
(Ela olha-o, um pouco espantada. Estuda o seu perfil, escuta a sua respiração tranquila; pondera o que fazer, quase cede à tentação de mentir.)
ELA (numa voz arrastada e hesitante, apologética): Sabes, daquelas vezes em que te apetece fazer amor e finges não perceber os meus sinais, insistes apesar de saberes que eu não quero, apesar de saberes que não me apetece? (Ele move-se, desconfortável; ambos olham a escuridão.) Quando estás a fazer amor e eu à espera que termines, sabes o que sinto? (Hesita apenas um momento; num tom triste e desencantado.) É como se estivesse a ser violada. Sinto que estou a ser violada por um estranho. E nem posso gritar.
(Ele estremece, chocado; mas não fala, não se aproxima dela. Mantém-se em silêncio, agarrando os respectivos copos e olhando a lua; ambos com vontade de fugir mas incapazes de se moverem.)
Dão-se livros # 03
O inquérito está encerrado e o livro atribuído (à Isabel.)
O resultado da votação foi equilibrado, com ligeira vantagem para os esboços. Obrigado a todos os participantes.
O resultado da votação foi equilibrado, com ligeira vantagem para os esboços. Obrigado a todos os participantes.
Esboço # 70
(As duas mulheres estão sentadas na paragem do autocarro conversando sobre trivialidades e sorrindo, espreitando sem grande interesse as pessoas que passam, apressadas e rígidas, silenciosas, escondidas nos óculos de sol.)
MULHER UM (após um silêncio, olhando a amiga com ternura): Acho tão extraordinário que continues assim, depois de saberes que tens a doença.
MULHER DOIS (um pouco distante, como se estivesse distraída, mas sorrindo): Assim, como?
MULHER UM (encolhendo os ombros): A sorrir.
MULHER DOIS (num tom desencantado, depois do sorriso desvanecer): Sabes, quando vejo alguém sorrir, pergunto-me se esse sorriso não servirá apenas para esconderá algo; algum medo, algum desespero, alguma angústia. Sei lá. (Hesita; parece momentaneamente confusa.) Pergunto-me se cada uma dessas pessoas não estará apenas a disfarçar o pânico que a corrói com os seus sorrisos. Como eu. (E sorri.)
(Depois, chega o autocarro. As duas mulheres entram, em silêncio; não correspondem ao sorriso profissional do motorista.)
MULHER UM (após um silêncio, olhando a amiga com ternura): Acho tão extraordinário que continues assim, depois de saberes que tens a doença.
MULHER DOIS (um pouco distante, como se estivesse distraída, mas sorrindo): Assim, como?
MULHER UM (encolhendo os ombros): A sorrir.
MULHER DOIS (num tom desencantado, depois do sorriso desvanecer): Sabes, quando vejo alguém sorrir, pergunto-me se esse sorriso não servirá apenas para esconderá algo; algum medo, algum desespero, alguma angústia. Sei lá. (Hesita; parece momentaneamente confusa.) Pergunto-me se cada uma dessas pessoas não estará apenas a disfarçar o pânico que a corrói com os seus sorrisos. Como eu. (E sorri.)
(Depois, chega o autocarro. As duas mulheres entram, em silêncio; não correspondem ao sorriso profissional do motorista.)
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