
# 73: Eu e a minha namorada
Eis mais uma estória da série de contos escritos a partir da pintura de Joana Lucas (desta vez, o conto escrito a partir do quadro “Eu e a minha namorada”). Dentro de dias, estará disponível um ebook gratuito com as seis estórias e os respectivos quadros inspiradores.
Hoje queria falar-lhe de um vizinho lá do prédio; pode ser, doutor? Deixe-me contar a história, que depois já percebe onde quero chegar. Está bem? É uma pessoa normalíssima, este vizinho; diz boa tarde ou boa noite conforme a hora, como todos os outros, quase sempre sem olhar para a pessoa a quem se está a dirigir, mas isso também é normal; sossegado e silencioso, muito vagaroso, sempre muito vagaroso, como se não tivesse pressa de nada, como se nunca fosse esperado por ninguém, algures; o que é um pouco estranho, num homem assim novo, mas enfim, até sabe bem uma pessoa cruzar-se com alguém que não age permanentemente como se o mundo estivesse para acabar, alguém que parece dizer-nos, assim com um sorriso e tal, eh pá, tem lá calma que ainda há morte que chegue para todos. Sempre sozinho, o que também não é lá muito normal, mas paciência. Lá anda ele metido na sua vida, que não deve ser muito diferente da vida dos outros todos, entra no elevador e sai do elevador, abre as portas quando há uma senhora por perto, queixa-se da merda que os cães de alguns vizinhos deixam plantada nos passeios do condomínio, enfim, distrai-se com a vida, que é o melhor que temos a fazer; e isto é o que vemos, porque do resto da vida do homem nada sabemos, como é óbvio. Até aqui, tudo normal. Certo? O que tem piada, doutor, é o saco que ele usa. Não sei se está a ver, aqueles sacos que agora as pessoas usam para tudo, em substituição dos velhinhos sacos de plástico, para transportar as compras do supermercado e assim. Ele anda sempre com o mesmo, não falha. E nem é um saco que dê muito nas vistas, reproduz o rosto de uma mulher e nada mais, uma mulher normal, percebe?, e não uma actriz ou assim, apenas o grande plano do rosto de uma mulher normal, igual às mulheres que todos conhecemos, e pronto, é apenas isso. Mas que tem então o saco de especial?, pergunta o doutor. Bom, o que acontece é que o homem usa o diabo do saco desde que veio viver para o prédio, portanto para aí há uns dois anos; sempre o mesmo, nunca ninguém lhe viu outra coisa nas mãos; mas há mais: é que o saco está sempre impecável, como se nunca tivesse sido usado; até parece que ele tem lá um stock infindável de sacos iguais em casa e vai renovando. Admita lá, doutor, é uma coisa uma bocado esquisita, não? Quero dizer, não daquele esquisito assustador e perigoso mas do esquisito engraçado. E sabe como é, as pessoas não têm nada melhor para fazer do que comentar a vida alheia, é sempre melhor rir dos outros do que lamentarmo-nos de nós próprios; resumindo: a malta topou aquilo dos sacos e começou a falar, tornou-se uma espécie de pretexto para especulações variadas e geralmente maldosas; mas coisas inofensivas, claro. E é isto que se tem passado nos últimos dois anos. Até que, esta semana, o mistério se resolve. Ou melhor: não se resolveu, na verdade até complicou um bocado, mas lá se deu um passo em frente, e por isso é que estou aqui a contar-lhe a história. Descobrimos o significado dos sacos, doutor. E garanto-lhe que vai achar piada a isto. Então é assim: a foto que ele pôs nos sacos é o retrato da namorada. Parece que, certo dia, a mulher desapareceu, sem despedidas nem explicações; evaporou-se, doutor. Não se sabe se o abandonou, se foi raptada, se morreu algures, se foi levada por extraterrestres. Desapareceu e o homem nunca mais foi o mesmo, ia dando cabo da vida mas lá acabou por se recompor, à força dos remédios que o doutor bem conhece; mudou de emprego e de cidade, foi então que lá apareceu no prédio. Sempre com os sacos da mulher atrás, como se aquilo fosse um pedido de ajuda ambulante, um pedido de ajuda não muito ostensivo mas, ainda assim, um pedido de ajuda. Tipo anúncio de pessoa desaparecida, percebe?, como os americanos põem fotos de meninos desaparecidos nas caixas de cereais e nos pacotes de leite, não tanto para os encontrarem mas, isto é o que eu penso, mais para arruinar os pequenos-almoços das outras pessoas todas, do género já que eu estou miserável, tu também não hás-de estar feliz, olha lá para o pacote e vê o que te pode acontecer. Ou então é uma despedida ou uma forma de mostrar ao mundo que foi feliz com aquela mulher ou um estratagema para ela perceber, caso o veja na rua, que ele não a esqueceu. Sabe-se lá o que vai pela cabeça do homem; porque, motivações, não deu nenhuma; limitou-se a clarificar o significado do saco mas não avançou justificações, confessou apenas que era a namorada que estava nos sacos e acrescentou alguns dos pormenores que acabei de lhe contar. Está a ver, doutor? Que lhe parece uma coisa destas? Parece coisa de filme. Bom, a verdade é que estou aqui a falar disto com jovialidade e tal mas aquilo mexeu um bocado comigo, tirou-me uns minutos de sono. E, doutor, a verdade completa é que tenho andado a pensar na história do homem, a pensar nele e na sua namorada de plástico. A extrapolar, por assim dizer. É que, e veja lá se me percebe, comecei a pensar que ele talvez quisesse andar com o saco para se sentir acompanhado. Acompanhado pela namorada, para não desfilar pela rua sozinho, para sentir de alguma forma a sua presença, a sua companhia; para andar de mão dada com ela, pelo menos metaforicamente. Isto parece-lhe muito estapafúrdio, doutor? Talvez seja, mas se todos pensássemos apenas coisas inteligentes, estava o mundo cheio de Einsteins, ou não era? Sabe o que mais pensei? Eu digo-lhe. Pensei assim: se calhar, o homem não é assim tão diferente de todos os outros. Ele vive com uma fotografia emplastrada num saco de plástico; mas, e os outros? Nós? Por vezes, vivemos com a memória de alguém que amámos, com o fantasma da pessoa que amámos. Ou não é verdade? Quantos casamentos não subsistem apenas à custa da recordação de momentos passados de felicidade absoluta, e da ingénua crença na possibilidade de repetição dessas recordações? Como já adivinhou, estou a referir-me ao meu caso pessoal. Ali estava ao lado da minha mulher, ouvindo-a ressonar muito ligeiramente, encolhidinha no seu canto da cama para não haver o risco dos nossos corpos se tocarem, tão misteriosa para mim com uma das luas de Júpiter, é esse que tem as luas, não é?, e ia pensando assim: há relações em que as pessoas apenas se mantêm porque tem que ser, porque um dos elementos agarra-se ao outro e não larga, um dos elementos arrasta o outro para o casamento, ou, de certa forma, arrasta o casamento às costas, tal e qual o meu vizinho arrasta o seu saco e uma relação que já não o é. Foi o que pensei, a noite passada, enquanto ouvia a minha mulher respirar alto, é deselegante afirmar que uma mulher ressona, e a pensar qual dos dois arrasta mais o casamento às costas, qual dos dois é o Júpiter que atrai a lua e não a deixa partir pelo espaço fora em busca de melhor órbita, livre. E depois, lá adormeci; tive um pesadelo do caraças, acordei tarde, atrasei-me; e de manhã, lá desço no elevador com o vizinho mais o seu saco, há coincidências que até arrepiam, e eu a pensar porra, que isto só pode ser um sinal. Será um sinal, doutor? Dê-me lá a sua opinião.
(Comentário escrito pelo psiquiatra no seu caderninho, no final da consulta:
Talvez o apego do homem ao seu saco represente, afinal, uma forma simultaneamente subliminar mas incisiva de desprezo, uma forma cruel de anunciar ao mundo a mensagem de ódio e despeito que dirige à ex-companheira, algo do género antes servias para cozinhar e foder, agora serves para transportar arroz e papel higiénico. Uma forma algo ingénua, pouco sincera, de publicitar que está só e feliz com isso?)
Hoje queria falar-lhe de um vizinho lá do prédio; pode ser, doutor? Deixe-me contar a história, que depois já percebe onde quero chegar. Está bem? É uma pessoa normalíssima, este vizinho; diz boa tarde ou boa noite conforme a hora, como todos os outros, quase sempre sem olhar para a pessoa a quem se está a dirigir, mas isso também é normal; sossegado e silencioso, muito vagaroso, sempre muito vagaroso, como se não tivesse pressa de nada, como se nunca fosse esperado por ninguém, algures; o que é um pouco estranho, num homem assim novo, mas enfim, até sabe bem uma pessoa cruzar-se com alguém que não age permanentemente como se o mundo estivesse para acabar, alguém que parece dizer-nos, assim com um sorriso e tal, eh pá, tem lá calma que ainda há morte que chegue para todos. Sempre sozinho, o que também não é lá muito normal, mas paciência. Lá anda ele metido na sua vida, que não deve ser muito diferente da vida dos outros todos, entra no elevador e sai do elevador, abre as portas quando há uma senhora por perto, queixa-se da merda que os cães de alguns vizinhos deixam plantada nos passeios do condomínio, enfim, distrai-se com a vida, que é o melhor que temos a fazer; e isto é o que vemos, porque do resto da vida do homem nada sabemos, como é óbvio. Até aqui, tudo normal. Certo? O que tem piada, doutor, é o saco que ele usa. Não sei se está a ver, aqueles sacos que agora as pessoas usam para tudo, em substituição dos velhinhos sacos de plástico, para transportar as compras do supermercado e assim. Ele anda sempre com o mesmo, não falha. E nem é um saco que dê muito nas vistas, reproduz o rosto de uma mulher e nada mais, uma mulher normal, percebe?, e não uma actriz ou assim, apenas o grande plano do rosto de uma mulher normal, igual às mulheres que todos conhecemos, e pronto, é apenas isso. Mas que tem então o saco de especial?, pergunta o doutor. Bom, o que acontece é que o homem usa o diabo do saco desde que veio viver para o prédio, portanto para aí há uns dois anos; sempre o mesmo, nunca ninguém lhe viu outra coisa nas mãos; mas há mais: é que o saco está sempre impecável, como se nunca tivesse sido usado; até parece que ele tem lá um stock infindável de sacos iguais em casa e vai renovando. Admita lá, doutor, é uma coisa uma bocado esquisita, não? Quero dizer, não daquele esquisito assustador e perigoso mas do esquisito engraçado. E sabe como é, as pessoas não têm nada melhor para fazer do que comentar a vida alheia, é sempre melhor rir dos outros do que lamentarmo-nos de nós próprios; resumindo: a malta topou aquilo dos sacos e começou a falar, tornou-se uma espécie de pretexto para especulações variadas e geralmente maldosas; mas coisas inofensivas, claro. E é isto que se tem passado nos últimos dois anos. Até que, esta semana, o mistério se resolve. Ou melhor: não se resolveu, na verdade até complicou um bocado, mas lá se deu um passo em frente, e por isso é que estou aqui a contar-lhe a história. Descobrimos o significado dos sacos, doutor. E garanto-lhe que vai achar piada a isto. Então é assim: a foto que ele pôs nos sacos é o retrato da namorada. Parece que, certo dia, a mulher desapareceu, sem despedidas nem explicações; evaporou-se, doutor. Não se sabe se o abandonou, se foi raptada, se morreu algures, se foi levada por extraterrestres. Desapareceu e o homem nunca mais foi o mesmo, ia dando cabo da vida mas lá acabou por se recompor, à força dos remédios que o doutor bem conhece; mudou de emprego e de cidade, foi então que lá apareceu no prédio. Sempre com os sacos da mulher atrás, como se aquilo fosse um pedido de ajuda ambulante, um pedido de ajuda não muito ostensivo mas, ainda assim, um pedido de ajuda. Tipo anúncio de pessoa desaparecida, percebe?, como os americanos põem fotos de meninos desaparecidos nas caixas de cereais e nos pacotes de leite, não tanto para os encontrarem mas, isto é o que eu penso, mais para arruinar os pequenos-almoços das outras pessoas todas, do género já que eu estou miserável, tu também não hás-de estar feliz, olha lá para o pacote e vê o que te pode acontecer. Ou então é uma despedida ou uma forma de mostrar ao mundo que foi feliz com aquela mulher ou um estratagema para ela perceber, caso o veja na rua, que ele não a esqueceu. Sabe-se lá o que vai pela cabeça do homem; porque, motivações, não deu nenhuma; limitou-se a clarificar o significado do saco mas não avançou justificações, confessou apenas que era a namorada que estava nos sacos e acrescentou alguns dos pormenores que acabei de lhe contar. Está a ver, doutor? Que lhe parece uma coisa destas? Parece coisa de filme. Bom, a verdade é que estou aqui a falar disto com jovialidade e tal mas aquilo mexeu um bocado comigo, tirou-me uns minutos de sono. E, doutor, a verdade completa é que tenho andado a pensar na história do homem, a pensar nele e na sua namorada de plástico. A extrapolar, por assim dizer. É que, e veja lá se me percebe, comecei a pensar que ele talvez quisesse andar com o saco para se sentir acompanhado. Acompanhado pela namorada, para não desfilar pela rua sozinho, para sentir de alguma forma a sua presença, a sua companhia; para andar de mão dada com ela, pelo menos metaforicamente. Isto parece-lhe muito estapafúrdio, doutor? Talvez seja, mas se todos pensássemos apenas coisas inteligentes, estava o mundo cheio de Einsteins, ou não era? Sabe o que mais pensei? Eu digo-lhe. Pensei assim: se calhar, o homem não é assim tão diferente de todos os outros. Ele vive com uma fotografia emplastrada num saco de plástico; mas, e os outros? Nós? Por vezes, vivemos com a memória de alguém que amámos, com o fantasma da pessoa que amámos. Ou não é verdade? Quantos casamentos não subsistem apenas à custa da recordação de momentos passados de felicidade absoluta, e da ingénua crença na possibilidade de repetição dessas recordações? Como já adivinhou, estou a referir-me ao meu caso pessoal. Ali estava ao lado da minha mulher, ouvindo-a ressonar muito ligeiramente, encolhidinha no seu canto da cama para não haver o risco dos nossos corpos se tocarem, tão misteriosa para mim com uma das luas de Júpiter, é esse que tem as luas, não é?, e ia pensando assim: há relações em que as pessoas apenas se mantêm porque tem que ser, porque um dos elementos agarra-se ao outro e não larga, um dos elementos arrasta o outro para o casamento, ou, de certa forma, arrasta o casamento às costas, tal e qual o meu vizinho arrasta o seu saco e uma relação que já não o é. Foi o que pensei, a noite passada, enquanto ouvia a minha mulher respirar alto, é deselegante afirmar que uma mulher ressona, e a pensar qual dos dois arrasta mais o casamento às costas, qual dos dois é o Júpiter que atrai a lua e não a deixa partir pelo espaço fora em busca de melhor órbita, livre. E depois, lá adormeci; tive um pesadelo do caraças, acordei tarde, atrasei-me; e de manhã, lá desço no elevador com o vizinho mais o seu saco, há coincidências que até arrepiam, e eu a pensar porra, que isto só pode ser um sinal. Será um sinal, doutor? Dê-me lá a sua opinião.
(Comentário escrito pelo psiquiatra no seu caderninho, no final da consulta:
Talvez o apego do homem ao seu saco represente, afinal, uma forma simultaneamente subliminar mas incisiva de desprezo, uma forma cruel de anunciar ao mundo a mensagem de ódio e despeito que dirige à ex-companheira, algo do género antes servias para cozinhar e foder, agora serves para transportar arroz e papel higiénico. Uma forma algo ingénua, pouco sincera, de publicitar que está só e feliz com isso?)
# 72: Princesas
No início deste ano, desafiei-me a escrever alguns contos a partir dos maravilhosos quadros de Joana Lucas. Estão finalmente concluídos e, em breve, estarão disponíveis num ebook. Por enquanto, fica a estória “Princesas” – escrita a partir do quadro com o mesmo título – e um profundo agradecimento à Joana.
Oh doutor, há quanto tempo é que eu ando a caminhar para aqui? Mais de um ano, não é?, bem mais. No outro dia, dei por mim a pensar: mas que raio ainda terei eu para lhe dizer? E não me lembrei de nada, a verdade é que não me lembrei de nada novo; se calhar, devia comprar um daqueles caderninhos pretos que toda a gente usa, assim como esses que o doutor aí tem, e, ao longo da semana, ir apontado as coisas de que poderia falar quando aqui chegasse. Tem clientes que fazem isso, não tem? Desculpe lá, estou a brincar consigo. Mas agora a sério: haverá alguma coisa que não saiba de mim, doutor? Por esta altura, deve saber mais de mim do que eu própria. Já ouviu falar daquelas pessoas que têm uma vida tão monótona que quando chegam ao sofá do psiquiatra, põem-se a inventar, vão fantasiando o que calha, a ver se o homem não se enfada demasiado? Porque o que querem é falar, que alguém as escute; é para isso que pagam, para serem ouvidas. Bom, doutor, eu nunca precisei de inventar. Contei-lhe tudo. Estou farta de lhe falar do meu casamento, da prisão em que estou, e de como não consigo libertar-me, por mais que pareça simples e fácil, não consigo. Todas as semanas lhe falo disso, não é? Mais detalhe, menos detalhe, mas a história não tem evoluído muito, há coisas que estão destinadas a não mudarem muito. E também lhe falei do casamento dos meus pais, não foi?, falei-lhe abundantemente disso; de como discutiam, de como a minha mãe chorava e o meu pai gritava, de como bebiam e atiravam coisas, de como se olhavam com fúria e ódio, falei-lhe de tudo isso. Falei de como eu fugia, sempre que sentia uma discussão aproximar-se; de como me escondia nos armários, debaixo da cama, na varanda. Falei-lhe muito da varanda, não foi?, e até parecia uma daquelas histórias inventadas que as pessoas contam. Lembra-se, doutor? Pendurava-me na varanda e ficava à espera que a tempestade passasse, enquanto pensava em coisas de criança; pensava, por exemplo, que num daqueles dias talvez aparecesse por ali um príncipe que me levasse, salvando-me de tudo aquilo; um príncipe que andasse perdido pela cidade, em busca de meninas que pudesse salvar. Porque fantasiam tanto as crianças com príncipes, doutor? Falámos disso mas não chegámos a nenhuma conclusão, desculpe lá que lhe diga mas nunca se chegam a muitas conclusões, aqui. E como não bastasse estar triste por causa das discussões dos meus pais, vinha aquela nova tristeza de esperar por um príncipe que nunca chegava. E se os príncipes apenas salvam princesas?, perguntava-me eu. Mas sentia-me uma princesa, apesar de não o ser; e, por isso, julgava-me no direito de ser salva por um príncipe. Criancices, doutor. Criancices. Contei-lhe tudo isto, como lhe contei que num momento mais desesperante e confuso da minha vida de adulta, cedi à tentação de repetir os comportamentos que tinha quando era miúda. Confessei-lhe como, certo dia, me pendurei na varanda e lá me deixei ficar, sentadinha e de pernas a abanar, calçada com os meus melhores sapatos de princesa que não é princesa a sério, à espera que viesse um príncipe que me salvasse daquele casamento miserável, que eu não conseguia salvar-me sozinha; que viesse um príncipe e matasse o dragão. Uma mulher de trinta e dois anos sentada na varanda à espera de príncipes. Tem piada, não tem? Já agora, uma curiosidade: por estes dias, neste nosso século de internets e carros que estacionam sozinhos, de que forma se deslocam os príncipes? Será que ainda andam a cavalo? Deixe lá, doutor, não ligue, como vê, hoje estou um pouco alterada. Deve ser do calor. O que importa é que lhe contei tudo isto, não tenho segredos para si, e, já que aqui estamos e ainda temos muito tempo, aproveito para lhe contar mais uma coisinha. Voltei a ir à varanda. É verdade, doutor, voltei. E lá estava eu, se é que consegue imaginar tal coisa; foi terça-feira, lembra-se como estava um dia magnífico? Pois foi o dia em que voltei a perder o juízo. Tinha uns sapatos novos, lindíssimos, que comprei num impulso, vítima de um capricho, e que ainda não usara, porque por estes dias não há na minha vida qualquer pretexto que justifique usar uns sapatos daqueles. Vermelhos, doutor, uns sapatos vermelhos. Pois calcei-os e segui para a varanda; esperava príncipes mas apenas passavam autocarros, repletos de velhinhos e de estudantes, deitando fumo; autocarros, que de certa forma são a antítese dos príncipes: previsíveis e regulares, monótonos. Foram passando e eu fui esperando. Como imagina, não esperava nada de especial, a partir de certa altura esperamos apenas por hábito, da mesma forma que respiramos ou sorrimos, apenas por hábito, sabemos que não vai chegar nada, sabemos que atingimos o plafond, e apesar disso insistimos em esperar. Fui esperando, portanto. E sabe o que aconteceu, doutor? Afinal, sempre tenho qualquer coisa nova para lhe contar, porque o que aconteceu foi algo inesperado. Gostava de lhe dizer que o que aconteceu foi cair-me um dos sapatos novos do pé e acertar na cabeça de um moço que na altura fosse a passar, e calhar o moço olhar e surpreender o meu olhar, e ficarmos para ali a olhar, o sapato no chão e um alto a crescer-lhe na cabeça, o tempo a passar, os autocarros também, e de repente, pimba, percebíamos apenas através do olhar que nos amávamos e que iríamos ser felizes para sempre, ou ainda por mais tempo. Gostava de lhe contar uma historieta destas, sabe porquê, doutor, porque gostava mesmo que me acontecesse uma historieta destas. Mas, infelizmente, o sapato não me caiu do pé, azar. O que realmente aconteceu foi menos extraordinário. Sabe o que foi, doutor? Eu conto, como lhe contei tudo o resto. De repente, percebi que não viria príncipe nenhum. Quer dizer, não percebi, que isso já eu tinha percebido há muito tempo. Não, o que aconteceu foi que aceitei que não vinha príncipe nenhum, que apenas continuariam a passar autocarros e nada mais; por muito bonitos que fossem os sapatos, doutor. Não viriam príncipes. E essa consciencialização súbita foi libertadora. Porque o que eu pensei foi isto: não virão príncipes e ainda bem porque eu não preciso de ser salva. Está a perceber, doutor, o alcance disto? Uma verdadeira revolução na minha vida. Um break-through dos valentes. Pela primeira vez na minha vida percebi que não preciso de ser salva por ninguém, que não preciso de príncipes nenhuns para nada; quero lá eu saber de príncipes, foi o que eu pensei, ainda pendurada na varanda. Percebi, assim de repente, como se tivesse sido atingida por um raio, que não existem por aí príncipes nem princesas, doutor; apenas gente que vai fazendo pela vida; e os outros. Desculpe lá o simplismo das minhas teorias mas é mesmo assim, não consigo explicar melhor. Princesas só as da televisão e já se sabe que essas acabam sempre mal; foi o que eu compreendi lá no poleiro da varanda. Levantei-me e regressei ao interior e… bem, doutor, sabe o que fiz? Tratei de pôr a minha vida em ordem, foi o que fiz. Comecei logo ali e ainda não parei. Mas isso agora não interessa, doutor, porque o que eu queria dizer-lhe é que sinto que não preciso mesmo de príncipes para nada. Nem de príncipes nem de psiquiatras, como já deve ter percebido, tenha paciência mas é mesmo assim, doutor. Tenho pena.
(Comentário escrito pelo psiquiatra no seu caderninho, no final da consulta:
Ora foda-se.)
Oh doutor, há quanto tempo é que eu ando a caminhar para aqui? Mais de um ano, não é?, bem mais. No outro dia, dei por mim a pensar: mas que raio ainda terei eu para lhe dizer? E não me lembrei de nada, a verdade é que não me lembrei de nada novo; se calhar, devia comprar um daqueles caderninhos pretos que toda a gente usa, assim como esses que o doutor aí tem, e, ao longo da semana, ir apontado as coisas de que poderia falar quando aqui chegasse. Tem clientes que fazem isso, não tem? Desculpe lá, estou a brincar consigo. Mas agora a sério: haverá alguma coisa que não saiba de mim, doutor? Por esta altura, deve saber mais de mim do que eu própria. Já ouviu falar daquelas pessoas que têm uma vida tão monótona que quando chegam ao sofá do psiquiatra, põem-se a inventar, vão fantasiando o que calha, a ver se o homem não se enfada demasiado? Porque o que querem é falar, que alguém as escute; é para isso que pagam, para serem ouvidas. Bom, doutor, eu nunca precisei de inventar. Contei-lhe tudo. Estou farta de lhe falar do meu casamento, da prisão em que estou, e de como não consigo libertar-me, por mais que pareça simples e fácil, não consigo. Todas as semanas lhe falo disso, não é? Mais detalhe, menos detalhe, mas a história não tem evoluído muito, há coisas que estão destinadas a não mudarem muito. E também lhe falei do casamento dos meus pais, não foi?, falei-lhe abundantemente disso; de como discutiam, de como a minha mãe chorava e o meu pai gritava, de como bebiam e atiravam coisas, de como se olhavam com fúria e ódio, falei-lhe de tudo isso. Falei de como eu fugia, sempre que sentia uma discussão aproximar-se; de como me escondia nos armários, debaixo da cama, na varanda. Falei-lhe muito da varanda, não foi?, e até parecia uma daquelas histórias inventadas que as pessoas contam. Lembra-se, doutor? Pendurava-me na varanda e ficava à espera que a tempestade passasse, enquanto pensava em coisas de criança; pensava, por exemplo, que num daqueles dias talvez aparecesse por ali um príncipe que me levasse, salvando-me de tudo aquilo; um príncipe que andasse perdido pela cidade, em busca de meninas que pudesse salvar. Porque fantasiam tanto as crianças com príncipes, doutor? Falámos disso mas não chegámos a nenhuma conclusão, desculpe lá que lhe diga mas nunca se chegam a muitas conclusões, aqui. E como não bastasse estar triste por causa das discussões dos meus pais, vinha aquela nova tristeza de esperar por um príncipe que nunca chegava. E se os príncipes apenas salvam princesas?, perguntava-me eu. Mas sentia-me uma princesa, apesar de não o ser; e, por isso, julgava-me no direito de ser salva por um príncipe. Criancices, doutor. Criancices. Contei-lhe tudo isto, como lhe contei que num momento mais desesperante e confuso da minha vida de adulta, cedi à tentação de repetir os comportamentos que tinha quando era miúda. Confessei-lhe como, certo dia, me pendurei na varanda e lá me deixei ficar, sentadinha e de pernas a abanar, calçada com os meus melhores sapatos de princesa que não é princesa a sério, à espera que viesse um príncipe que me salvasse daquele casamento miserável, que eu não conseguia salvar-me sozinha; que viesse um príncipe e matasse o dragão. Uma mulher de trinta e dois anos sentada na varanda à espera de príncipes. Tem piada, não tem? Já agora, uma curiosidade: por estes dias, neste nosso século de internets e carros que estacionam sozinhos, de que forma se deslocam os príncipes? Será que ainda andam a cavalo? Deixe lá, doutor, não ligue, como vê, hoje estou um pouco alterada. Deve ser do calor. O que importa é que lhe contei tudo isto, não tenho segredos para si, e, já que aqui estamos e ainda temos muito tempo, aproveito para lhe contar mais uma coisinha. Voltei a ir à varanda. É verdade, doutor, voltei. E lá estava eu, se é que consegue imaginar tal coisa; foi terça-feira, lembra-se como estava um dia magnífico? Pois foi o dia em que voltei a perder o juízo. Tinha uns sapatos novos, lindíssimos, que comprei num impulso, vítima de um capricho, e que ainda não usara, porque por estes dias não há na minha vida qualquer pretexto que justifique usar uns sapatos daqueles. Vermelhos, doutor, uns sapatos vermelhos. Pois calcei-os e segui para a varanda; esperava príncipes mas apenas passavam autocarros, repletos de velhinhos e de estudantes, deitando fumo; autocarros, que de certa forma são a antítese dos príncipes: previsíveis e regulares, monótonos. Foram passando e eu fui esperando. Como imagina, não esperava nada de especial, a partir de certa altura esperamos apenas por hábito, da mesma forma que respiramos ou sorrimos, apenas por hábito, sabemos que não vai chegar nada, sabemos que atingimos o plafond, e apesar disso insistimos em esperar. Fui esperando, portanto. E sabe o que aconteceu, doutor? Afinal, sempre tenho qualquer coisa nova para lhe contar, porque o que aconteceu foi algo inesperado. Gostava de lhe dizer que o que aconteceu foi cair-me um dos sapatos novos do pé e acertar na cabeça de um moço que na altura fosse a passar, e calhar o moço olhar e surpreender o meu olhar, e ficarmos para ali a olhar, o sapato no chão e um alto a crescer-lhe na cabeça, o tempo a passar, os autocarros também, e de repente, pimba, percebíamos apenas através do olhar que nos amávamos e que iríamos ser felizes para sempre, ou ainda por mais tempo. Gostava de lhe contar uma historieta destas, sabe porquê, doutor, porque gostava mesmo que me acontecesse uma historieta destas. Mas, infelizmente, o sapato não me caiu do pé, azar. O que realmente aconteceu foi menos extraordinário. Sabe o que foi, doutor? Eu conto, como lhe contei tudo o resto. De repente, percebi que não viria príncipe nenhum. Quer dizer, não percebi, que isso já eu tinha percebido há muito tempo. Não, o que aconteceu foi que aceitei que não vinha príncipe nenhum, que apenas continuariam a passar autocarros e nada mais; por muito bonitos que fossem os sapatos, doutor. Não viriam príncipes. E essa consciencialização súbita foi libertadora. Porque o que eu pensei foi isto: não virão príncipes e ainda bem porque eu não preciso de ser salva. Está a perceber, doutor, o alcance disto? Uma verdadeira revolução na minha vida. Um break-through dos valentes. Pela primeira vez na minha vida percebi que não preciso de ser salva por ninguém, que não preciso de príncipes nenhuns para nada; quero lá eu saber de príncipes, foi o que eu pensei, ainda pendurada na varanda. Percebi, assim de repente, como se tivesse sido atingida por um raio, que não existem por aí príncipes nem princesas, doutor; apenas gente que vai fazendo pela vida; e os outros. Desculpe lá o simplismo das minhas teorias mas é mesmo assim, não consigo explicar melhor. Princesas só as da televisão e já se sabe que essas acabam sempre mal; foi o que eu compreendi lá no poleiro da varanda. Levantei-me e regressei ao interior e… bem, doutor, sabe o que fiz? Tratei de pôr a minha vida em ordem, foi o que fiz. Comecei logo ali e ainda não parei. Mas isso agora não interessa, doutor, porque o que eu queria dizer-lhe é que sinto que não preciso mesmo de príncipes para nada. Nem de príncipes nem de psiquiatras, como já deve ter percebido, tenha paciência mas é mesmo assim, doutor. Tenho pena.
(Comentário escrito pelo psiquiatra no seu caderninho, no final da consulta:
Ora foda-se.)
Kellerman Remixed
Está em marcha o projecto “kellerman remixed”. Convidei uma série de amigos, com ou sem obra publicada, para reescreverem estórias minhas e as remixes começam a chegar (espantosas e surpreendentes). Entretanto, uma delas assumiu contornos inesperados: António Cova enviou uma música e não uma estória. Chama-se “Fodidos estamos” e poderá facilmente tornar-se um hino geracional. Eis então o single de apresentação do livro… Enjoy.
# 71: Enxotar a tristeza
ELE: No outro dia aconteceu-me uma coisa um bocado assustadora.
ELA: Sério? Conta.
ELE: Quero dizer, na verdade foi uma coisa sem jeito nenhum.
ELA: Mas assustadora.
ELE: Sim.
ELA: E queres falar disso.
ELE: Quero.
ELA: Ok. Avança, tenho uns minutos.
ELE: Então, foi assim. Estava lá no apartamento, na varanda, sentadinho na minha poltrona, a ouvir música e assim. Descansado da vida.
ELA: E depois?
ELE: Ia pensando numas merdas, nada de especial, daquelas coisas que passam pela cabeça e um gajo nem percebe de onde veio aquilo. Estava completamente distraído, sabes, apenas isso, e fui pensando e pensando e pensando.
ELA: Assustador, realmente. Tu quando pensas…
ELE: Pois. E quanto mais pensava…
ELA: Sim? E quanto mais pensavas?
ELE: Bom, fui ficando triste.
ELA: Triste?
ELE: Triste.
ELA: Porquê?
ELE: Não sei. Não faço ideia. Não estava triste e de repente comecei a ficar. Pronto. Sei lá explicar. Fiquei triste. Triste e apreensivo e ansioso. Uma data de coisas.
ELA: Estou a ver.
ELE: Coisas depressivas. Percebes? Comecei a sentir-me… Deprimido.
ELA: Assim de repente? E que fizeste?
ELE: Nada, não fiz nada. Deixei-me estar, a ver onde é que aquilo me conduzia. À espera que passasse.
ELA: Tudo acaba por passar.
ELE: Pois. Mas, antes disso, houve a tal parte assustadora.
ELA: Que aconteceu?
ELE: Deu-me uma vontade danada de saltar da varanda.
ELA: Foda-se. Sério?
ELE: É.
ELA: Saltar cá para baixo? Saltar mesmo? É isso que queres dizer?
ELE: Saltar, saltar mesmo. Fugir. Desistir de tudo. Acabar com a tristeza, com a incerteza, com a falta de sentido. Sei lá.
ELA: Ena. Estás mesmo mal. Mesmo, mesmo mal.
ELE: Durante um instante, senti uma tentação tremenda, nem imaginas. Senti mesmo, durante uma fracção de segundo. Não sei explicar, foi mesmo estranho. Não me mexi, estava esparramado na poltrona, a música continuava a entrar-me pelos ouvidos, os olhos continuavam a deslizar pelo azul do céu… mas o espírito, ou sei lá o quê, algo dentro de mim, estava a afastar-se, e a tentar que o corpo o seguisse. A puxar por mim…
ELA: Estás a falar a sério? Sentiste-te mesmo tentado? Não acredito. Foda-se, olha que nunca te ouvi falar assim. O espírito a afastar-se, e não sei quê, parece conversa de tolos, foda-se. Foda-se, mesmo, que estás a assustar-me.
ELE: Não vale a pena assustares-te. Passou, como disseste tudo acaba por passar. Senti uma tentação, admito que senti, não sei porquê, não sei de onde veio, foi uma coisa fugaz e instantânea, fulgurante, mas senti. E agora, que estou a falar disso, parece tudo um bocado palerma, mas não altura foi… não sei. Intenso.
ELA: Mas, e depois?
ELE: Controlei-me, assumi o controlo de mim próprio, por assim dizer; obriguei-me a assumir o controlo, a afastar o devaneio. Mas aquele instante, aquele momento, foi efectivamente tentador. E isso é que foi assustador, o mais assustador.
ELA: Temes que volte a acontecer, é isso? E que seja ainda mais tentador.
ELE: Mais ou menos.
ELA: Estou a ver. Estás mesmo fodido, desculpa que te diga.
ELE: E que achas disto tudo?
ELA: Sei lá, não acho nada… O que queres que ache? O que é que tu achas?
ELE: Acho que… Não sei. Julgo que, depois disto, percebi que não gosto de estar sozinho, que não me apetece estar sozinho em casa… Não te rias, é a verdade.
ELA: Isso é uma conclusão um bocado extrema, não?
ELE: É o que sinto. Sei lá se é extrema.
ELA: E, na verdade, não estás verdadeiramente sozinho.
ELE: Desculpa?
ELA: Não estás sozinho. Tens o tal espírito a acompanhar-te, lembras-te? O tal que te quer puxar.
ELE: Não gozes.
ELA: Ok, não gozo. Mas que pensas fazer? Já procuraste um psiquiatra, para arranjares uns comprimidos?
ELE: Não.
ELA: E então? Estás à espera de quê?
ELE: Bom, na verdade era mesmo sobre isso que queria falar contigo.
ELA: Explica-te lá, não estou a ver onde queres chegar.
ELE: Tenho andado a pensar que não devia estar sozinho.
ELA: Não devias?
ELE: Não quero.
ELA: Ok.
ELE: E… Bom. Há quanto tempo andamos?
ELA: Quase um ano. Mas que tem isso a propósito do espírito saltador?
ELE: Um ano. É muito tempo, não é? Se calhar, podíamos… não sei. Estás a ver?
ELA: Desculpa lá. Estás a acabar comigo, é isso?
ELE: Não. Claro que não. Porra, não. É o contrário.
ELA: O contrário?
ELE: Sim, o contrário.
ELA: O contrário. Estás a perguntar-me se quero viver contigo?
ELE: Ou casar e assim.
ELA: Desculpa?
ELE: Casar.
ELA: E assim.
ELE: Pois.
ELA: Estás a pedir-me em casamento? É isso? Tu estás a pedir-me em casamento?
ELE: Acho que sim. Acho que estou.
ELA: Ok, ok, ok. Já percebi. Estou a perceber, já estou a perceber onde queres chegar. Desculpa a reacção. Ou melhor: a falta de reacção. Nunca ninguém me pediu em casamento, sabes isso; não sei bem como é que se faz. Não estava à espera, não estava mesmo.
ELE: Tudo bem.
ELA: Apanhaste-me de surpresa. Completamente.
ELE: E então?
ELA: Não sei o que te dizer.
ELE: Não sabes.
ELA: Não sei.
ELE: Alguma coisa deverás querer dizer.
ELA: Suponho que sim.
ELE: Então…
ELA: Então… E foi a cena da varanda que desencadeou isto tudo. Certo? O susto e isso. Foi o que te deu a ideia de casar?
ELE: Pelo menos, fez-me pensar um bocado.
ELA: Fez-te pensar.
ELE: Sim, é o que tenho feito nestes dias. Pensar.
ELA: E assustaste-te, pensaste tanto que te assustaste. Percebeste que não queres estar sozinho. Que a presença de alguém lá por casa talvez enxote a tristeza e tal. Que precisas de companhia na varanda.
ELE: Porque estás a falar nesse tom?
ELA: Olha, desculpa o tom, já te disse que isto de pedidos de casamento é novo para mim. Mas se estás realmente com medo que o espírito ou lá o que é te faça saltar da varanda abaixo, não seria mais fácil desceres do quinto andar e comprares um apartamento no rés-do-chão?
ELE: Desculpa?
ELA: Pensa nisso que eu tenho que ir, já estou atrasada, mesmo atrasada. Mas a sério, pensa nisso: um rés-do-chão; ok? Resolvia-te os problemas todos, de certezinha. Não achas? Se calhar, pensaste tanto, que te desorientaste; ou então, tens estado a pensar na direcção errada, por assim dizer. Bom. Tenho mesmo que ir. Xau, depois diz qualquer coisa.
ELA: Sério? Conta.
ELE: Quero dizer, na verdade foi uma coisa sem jeito nenhum.
ELA: Mas assustadora.
ELE: Sim.
ELA: E queres falar disso.
ELE: Quero.
ELA: Ok. Avança, tenho uns minutos.
ELE: Então, foi assim. Estava lá no apartamento, na varanda, sentadinho na minha poltrona, a ouvir música e assim. Descansado da vida.
ELA: E depois?
ELE: Ia pensando numas merdas, nada de especial, daquelas coisas que passam pela cabeça e um gajo nem percebe de onde veio aquilo. Estava completamente distraído, sabes, apenas isso, e fui pensando e pensando e pensando.
ELA: Assustador, realmente. Tu quando pensas…
ELE: Pois. E quanto mais pensava…
ELA: Sim? E quanto mais pensavas?
ELE: Bom, fui ficando triste.
ELA: Triste?
ELE: Triste.
ELA: Porquê?
ELE: Não sei. Não faço ideia. Não estava triste e de repente comecei a ficar. Pronto. Sei lá explicar. Fiquei triste. Triste e apreensivo e ansioso. Uma data de coisas.
ELA: Estou a ver.
ELE: Coisas depressivas. Percebes? Comecei a sentir-me… Deprimido.
ELA: Assim de repente? E que fizeste?
ELE: Nada, não fiz nada. Deixei-me estar, a ver onde é que aquilo me conduzia. À espera que passasse.
ELA: Tudo acaba por passar.
ELE: Pois. Mas, antes disso, houve a tal parte assustadora.
ELA: Que aconteceu?
ELE: Deu-me uma vontade danada de saltar da varanda.
ELA: Foda-se. Sério?
ELE: É.
ELA: Saltar cá para baixo? Saltar mesmo? É isso que queres dizer?
ELE: Saltar, saltar mesmo. Fugir. Desistir de tudo. Acabar com a tristeza, com a incerteza, com a falta de sentido. Sei lá.
ELA: Ena. Estás mesmo mal. Mesmo, mesmo mal.
ELE: Durante um instante, senti uma tentação tremenda, nem imaginas. Senti mesmo, durante uma fracção de segundo. Não sei explicar, foi mesmo estranho. Não me mexi, estava esparramado na poltrona, a música continuava a entrar-me pelos ouvidos, os olhos continuavam a deslizar pelo azul do céu… mas o espírito, ou sei lá o quê, algo dentro de mim, estava a afastar-se, e a tentar que o corpo o seguisse. A puxar por mim…
ELA: Estás a falar a sério? Sentiste-te mesmo tentado? Não acredito. Foda-se, olha que nunca te ouvi falar assim. O espírito a afastar-se, e não sei quê, parece conversa de tolos, foda-se. Foda-se, mesmo, que estás a assustar-me.
ELE: Não vale a pena assustares-te. Passou, como disseste tudo acaba por passar. Senti uma tentação, admito que senti, não sei porquê, não sei de onde veio, foi uma coisa fugaz e instantânea, fulgurante, mas senti. E agora, que estou a falar disso, parece tudo um bocado palerma, mas não altura foi… não sei. Intenso.
ELA: Mas, e depois?
ELE: Controlei-me, assumi o controlo de mim próprio, por assim dizer; obriguei-me a assumir o controlo, a afastar o devaneio. Mas aquele instante, aquele momento, foi efectivamente tentador. E isso é que foi assustador, o mais assustador.
ELA: Temes que volte a acontecer, é isso? E que seja ainda mais tentador.
ELE: Mais ou menos.
ELA: Estou a ver. Estás mesmo fodido, desculpa que te diga.
ELE: E que achas disto tudo?
ELA: Sei lá, não acho nada… O que queres que ache? O que é que tu achas?
ELE: Acho que… Não sei. Julgo que, depois disto, percebi que não gosto de estar sozinho, que não me apetece estar sozinho em casa… Não te rias, é a verdade.
ELA: Isso é uma conclusão um bocado extrema, não?
ELE: É o que sinto. Sei lá se é extrema.
ELA: E, na verdade, não estás verdadeiramente sozinho.
ELE: Desculpa?
ELA: Não estás sozinho. Tens o tal espírito a acompanhar-te, lembras-te? O tal que te quer puxar.
ELE: Não gozes.
ELA: Ok, não gozo. Mas que pensas fazer? Já procuraste um psiquiatra, para arranjares uns comprimidos?
ELE: Não.
ELA: E então? Estás à espera de quê?
ELE: Bom, na verdade era mesmo sobre isso que queria falar contigo.
ELA: Explica-te lá, não estou a ver onde queres chegar.
ELE: Tenho andado a pensar que não devia estar sozinho.
ELA: Não devias?
ELE: Não quero.
ELA: Ok.
ELE: E… Bom. Há quanto tempo andamos?
ELA: Quase um ano. Mas que tem isso a propósito do espírito saltador?
ELE: Um ano. É muito tempo, não é? Se calhar, podíamos… não sei. Estás a ver?
ELA: Desculpa lá. Estás a acabar comigo, é isso?
ELE: Não. Claro que não. Porra, não. É o contrário.
ELA: O contrário?
ELE: Sim, o contrário.
ELA: O contrário. Estás a perguntar-me se quero viver contigo?
ELE: Ou casar e assim.
ELA: Desculpa?
ELE: Casar.
ELA: E assim.
ELE: Pois.
ELA: Estás a pedir-me em casamento? É isso? Tu estás a pedir-me em casamento?
ELE: Acho que sim. Acho que estou.
ELA: Ok, ok, ok. Já percebi. Estou a perceber, já estou a perceber onde queres chegar. Desculpa a reacção. Ou melhor: a falta de reacção. Nunca ninguém me pediu em casamento, sabes isso; não sei bem como é que se faz. Não estava à espera, não estava mesmo.
ELE: Tudo bem.
ELA: Apanhaste-me de surpresa. Completamente.
ELE: E então?
ELA: Não sei o que te dizer.
ELE: Não sabes.
ELA: Não sei.
ELE: Alguma coisa deverás querer dizer.
ELA: Suponho que sim.
ELE: Então…
ELA: Então… E foi a cena da varanda que desencadeou isto tudo. Certo? O susto e isso. Foi o que te deu a ideia de casar?
ELE: Pelo menos, fez-me pensar um bocado.
ELA: Fez-te pensar.
ELE: Sim, é o que tenho feito nestes dias. Pensar.
ELA: E assustaste-te, pensaste tanto que te assustaste. Percebeste que não queres estar sozinho. Que a presença de alguém lá por casa talvez enxote a tristeza e tal. Que precisas de companhia na varanda.
ELE: Porque estás a falar nesse tom?
ELA: Olha, desculpa o tom, já te disse que isto de pedidos de casamento é novo para mim. Mas se estás realmente com medo que o espírito ou lá o que é te faça saltar da varanda abaixo, não seria mais fácil desceres do quinto andar e comprares um apartamento no rés-do-chão?
ELE: Desculpa?
ELA: Pensa nisso que eu tenho que ir, já estou atrasada, mesmo atrasada. Mas a sério, pensa nisso: um rés-do-chão; ok? Resolvia-te os problemas todos, de certezinha. Não achas? Se calhar, pensaste tanto, que te desorientaste; ou então, tens estado a pensar na direcção errada, por assim dizer. Bom. Tenho mesmo que ir. Xau, depois diz qualquer coisa.
Pausa
É verdade que a Gaveta tem estado quase ao abandono; o que não significa que eu esteja completamente parado. Quem quiser ir acompanhando as (poucas) novidades que vão surgindo, pode procurar por estes lados, onde será bem-vindo.
Quanto a estórias, por aqui continuarão a aparecer. Mais dia, menos dia...
Quanto a estórias, por aqui continuarão a aparecer. Mais dia, menos dia...
# 70: Cento e catorze mortos
Quando ela o viu entrar no bar, reconheceu-o imediatamente; teriam passado uns oito anos, talvez nove – não: oito; definitivamente –, desde o ano em que lhe dera aulas de língua portuguesa durante alguns meses, como professora de substituição, e nunca mais o vira, nunca mais pensara nele; ainda assim, reconheceu-o inequivocamente mal o viu, teve a certeza de que era um antigo aluno, conseguiu visualizá-lo de imediato (um rapaz envergonhado que nunca falava, nunca sorria, que se sentava a uma mesa recuada e olhava muito pela janela). Foi saboreando a bebida enquanto o espreitava, tentando calcular a sua idade – vinte e sete ou vinte e oito, algures por aí – e apreciando a sua desenvoltura e a forma confiante como circulava pelo bar, estudando o seu corpo, o seu sorriso, as suas mãos; (recordou, de súbito, que fora nesse ano lectivo que casara mas logo se concentrou em afastar essa memória, em focalizar-se no presente). Tentou perceber se o rapaz aguardava alguém, ou se era esperado por alguém, enquanto tentava lembrar o seu nome, enquanto se perguntava se ele a recordaria, se a olharia com interesse ou com agastamento, se gostaria de a reencontrar; enquanto ponderava, especialmente, se seria demasiado estranho e degenerado e desesperado ir para a cama com um ex-aluno.
Quando terminou a bebida (olhou distraidamente em redor, tentando perceber se alguém lhe viria oferecer outra; mas ninguém reparara em si, ninguém iria gastar três euros e cinquenta cêntimos consigo), decidiu que quando recordasse o nome dele, o abordaria e logo se veria como correria a conversa, logo se veria se as suas necessidades momentâneas seriam compatíveis ou não; pensava, por isso, em nomes – António, Diogo, Carlos, Francisco, Duarte, João, Afonso, Miguel, Tiago; como são banais e indistinguíveis os nomes, pensava ela: como se o nome de alguém não fizesse, afinal, grande diferença, nenhuma diferença –, tentando associar qualquer um desses nomes àquele rosto sereno e belo, tão jovem. Sim, iria abordá-lo, esperando que aquela ténue ligação mantida num passado distante e quase esquecido fosse suficiente para sustentar e impulsionar uma relação, mesmo que fugaz, no presente.
– Estás bom, João?
– Desculpe, mas conheço-a?
– Será que estou assim tão diferente? Não vais dizer que estou velha, pois não?
– Oh senhora, vai-me desculpar mas…
– Bolas, João. Não me chames senhora, que me fazes sentir ainda mais velha do que realmente sou.
– Não queria ofendê-la mas não estou a ver de onde…
– Fui tua professora, há uns anitos. Língua portuguesa, décimo segundo ano; professora de substituição, estivemos juntos apenas um trimestre. Mas lembro-me muito bem de ti, João; lembro-me que não ouvias nada do que dizia, que passavas o tempo a olhar pela janela.
– Stora Patrícia?
– Que querido, afinal até te lembras do meu nome.
– Está diferente, stora. Mesmo diferente.
– Para melhor, espero.
– Claro, claro que sim. Para melhor.
– E gostas do que vês?
– Desculpe?
– Gostas do que vês?
– Acho que sim, stora, acho que gosto.
– A sério? Bom, se me ofereceres uma bebida, podes tratar-me por tu.
– Ok. Sabe, se usasse esse tipo de roupa nas aulas, de certeza que eu não teria olhado tanto pela janela; suponho que foi por isso que não a reconheci. A roupa muda tudo, altera as pessoas; disfarça-as um pouco. Mas bebe o quê, stora?
Beberam e riram durante um bocado, trocando recordações e insinuações, piadinhas, olhares. Ela percebeu como ele ficou um pouco perturbado quando consciencializou que a noite iria terminar em sexo, que era isso – apenas isso? – que ela desejava dele; talvez até se tenha sentido desconfortável ao compreender que estava a ser um pouco manipulado, que iria servir como mera distracção de uma quarentona solitária. Mas também percebeu que ele estava curioso, que estava interessado; e sentiu-se lisonjeada, sentiu-se leve e confortável, sentiu-se feliz. Mais que tudo: sentiu-se aliviada.
Foi ela que pagou a conta, foi ela que decidiu para onde iriam; ele submeteu-se à sua liderança sem protestos nem sugestões, como se ainda estivessem na sala de aula, como se ainda existisse uma hierarquia a uni-los. Durante a viagem, tentaram falar um pouco da matéria que ela lhe ensinara e de que ele não recordava absolutamente nada, falaram do que ele sentia quando olhava pela janela e do que ela sentia quando via os alunos olharem pela janela; ela falou do seu casamento fracassado e ele falou dos seus namoros fracassados – ela teve a sensação que ele estava a exagerar, que as suas relações não teriam sido assim tão fracassadas, e sentiu-se comovida com o esforço dele. Falaram um pouco de música e bares, de filmes, de sítios interessantes para passar férias; falaram do facto de estarem a fazer algo que habitualmente não faziam – engatar pessoas num bar, colocar a necessidade de sexo à frente de tudo – mas não se esforçaram em justificar os seus actos. Falaram do tempo. Falaram do estado do país e de política e da crise e dos problemas dos professores e do desemprego dos licenciados. Falaram do facto de haver dezasseis anos de diferença a separá-los – ele disse que ela estava muito bem para a idade que tinha, mesmo mesmo bem, e ela quase acreditou.
Por fim, chegaram ao bairro onde ela vivia desde o divórcio (deram uma voltas em busca de um lugar para estacionar; e ambos sentiram que se não aparecesse rapidamente um lugar, o desconforto cresceria até se tornar insuportável, talvez tivessem que abortar o projecto, esquecer aquela noite). Ela conduziu-o ao seu apartamento, depois de subirem sete andares de elevador no mais completo silêncio, afastados um do outro, como se fossem desconhecidos – na verdade, eram desconhecidos. Entraram e durante um instante não souberam o que fazer, como começar. Não conseguiram, sequer, olhar o outro, enfrentar o olhar do outro.
Então, ela disse uma coisa absolutamente parva: vamos lá ver se mereceres um vinte. Ele sorriu, embaraçado – apenas embaraçado e não intimidado; aproximou-se e tocou-a, pela primeira vez; tocou-a no peito, que por acaso era onde ela queria mesmo ser tocada – um dos sítios em que queria ser tocada, na verdade; afastou-lhe a roupa, que fora escolhida considerando o grau de facilidade com que poderia ser removida, e baixou a cabeça com naturalidade, passou a língua pelo mamilo; ela fechou os olhos, quase sorriu; ele movimentou a língua com perícia, ela gemeu um pouco (achou que ele deveria estar à espera de um gemido); e etc., pela noite fora.
Quando terminaram, sentiram-se confusos e desconfortáveis, prisioneiros da escuridão e do silêncio que os envolvia, dos seus próprios cheiros, do eco dos seus gemidos mais ou menos forçados; sentiram-se quase à beira do arrependimento; e por isso (para se manterem ocupados, para se distraírem), também porque não havia absolutamente mais nada que pudessem fazer, foderam de novo.
E enquanto o faziam, com empenho e voracidade, fustigando os corpos – como se tentassem expulsar deles a apatia e a indiferença, forçando-os a sentir qualquer coisa, a reagir –, pensavam no que aconteceria depois, no que fariam e diriam, na forma como se olhariam, ambos percebendo que aquela relação – que ainda não era propriamente uma relação; que, na verdade, nunca chegaria a ser uma relação – estava condenada; ambos recordaram relacionamentos anteriores (fracassos anteriores), em que se sentiam prisioneiros porque deixara de existir comunicação possível (não havia nada a dizer ou a escutar), relacionamentos tão estáticos que seria necessário um sismo para os fazer mover nalguma direcção, e perguntavam-se como fora possível deixarem-se arrastar para uma nova situação sem futuro.
Iam simplesmente fodendo, mentes absortas enquanto os corpos interagiam – pensado, talvez, como serão infelizes aquelas pessoas que juram ser incapazes de fazer sexo quando não existe amor e ternura e cumplicidade e tralará; como conseguirão? –, ignorando que afinal havia algo a uni-los, a aproximá-los: a incapacidade e inépcia em se relacionar com alguém (e se, simplesmente, conversassem sobre isso? Poderiam partir daí e seguir em frente, sem pressa).
– Obrigada, João.
– Porquê?
– Por teres vindo. Por teres ficado. A sério, João. Obrigada.
– Não digas isso. Sinto-me esquisito.
– A sério, nem imaginas como me tenho sentido só e desapreciada. Foi muito importante, isto. Não imaginas, mesmo.
(Nem ela própria conseguia perceber se estava a ser totalmente sincera, ou pelo menos um bocadinho sincera; talvez precisasse apenas de se sentir agradecida, bastando verbalizar esse sentimento – se o conseguia verbalizar, talvez existisse mesmo. Afinal, a partir do momento em que se diz algo, deixa de importar se efectivamente se sente o que se acabou de se expressar; não é? Se está dito, dito está, end of story.)
– Olha, já que estamos a falar e assim, queria confessar uma coisa.
– Confessar? Confessar o quê, João?
– A verdade é que não me chamo João. Desculpa.
– Não?
– Não.
– Não te chamas João?
– Não. Desculpa não ter dito antes.
– Tinha a certeza que te chamavas João. Quase a certeza.
– Não faz mal.
– Pois não. Acho que não faz mal.
(E como ela não lhe perguntou qual era afinal o seu nome, ele sentiu-se um pouco envergonhado e não foi capaz de dizer mais nada.)
Tinham dormido um pouco, ou fingido que dormiam; entretanto, amanhecera. Estavam na varanda, partilhando um cigarro (excesso de intimidade, talvez?), quando ela fizera uma pergunta inesperada (costumavas imaginar-me nua, imaginar como seria o meu corpo, quando te dava aulas?) a que ele respondera sem pensar, instintivamente (claro que sim); ela percebeu a mentira e sentiu-se magoada, ele percebeu que ela estava magoada e sentiu-se verdadeiramente arrependido de estar ali (afinal, pensou lugubremente, uma boa foda – sim, fora boa – não vale tudo). Depois disso, não conseguiram voltar a dialogar, limitando-se a dividir o cigarro (e que aconteceria, o que fariam, quando o cigarro terminasse?); compreendiam que precisavam de iniciar o processo de separação, que seria necessariamente diplomático e hipócrita, mas não sabiam como. (Ele queria simplesmente dizer: olha, foi bastante bom mas tenho que ir, ok?; ela gostaria de dizer: dou-te um dez e meio, está bem?)
Poderiam retomar um dos assuntos da noite anterior mas, na verdade, já tudo fora dito; poderiam, talvez, fazer planos para o pequeno-almoço ou até fantasiar sobre uma qualquer viagem que fariam em conjunto (planeá-la com fingido entusiasmo, na certeza de que jamais a realizariam), perspectivar um próximo encontro, algures; poderiam confessar o que tinham considerado mais surpreendente no desempenho sexual do outro, confessar o que ainda gostariam de fazer com o corpo do outro; poderiam falar sobre o tempo, do estado do país e de política e da crise e dos problemas dos professores e do desemprego dos licenciados; e dos falsos recibos verdes. Poderiam esforçar-se: mas não conseguiam, não quiseram. E, por isso, limitavam-se a partilhar o cigarro, a soprar o fumo, a olhar em frente, a respirar silenciosamente; à espera que acontecesse algo, qualquer coisa que os salvasse, uma distracção, um pretexto de conversa, uma fuga; qualquer coisa.
Primeiro, ouviram um barulho estranho que não conseguiram identificar e, logo depois, viram o avião; viram como estava demasiado próximo, demasiado baixo; viram que havia uma asa em chamas, um rasto de fumo preto; viram que o avião ia cair na cidade, mesmo em cima da cidade, ali pertinho, que estava tão baixo que jamais conseguiria chegar ao aeroporto; viram quando embateu no chão, mesmo perante eles, no meio da auto-estrada, numa tentativa fracassada de aterragem forçada; viram como se arrastou, como embateu numa ponte, como explodiu tal e qual como acontece nos filmes. Não viram mas imaginaram pessoas a gritar, pessoas a chorar, pessoas a desesperar, pessoas a explodir, pessoas a morrer.
E sentiram-se agradecidos (apesar de horrorizados) porque agora havia um pretexto para suspender o desconforto que sentiam, para se esquecerem de si próprios durante uns minutos; não precisariam de falar do pequeno-almoço, de fingir que iriam voltar a estar juntos. Não precisariam de se expor, de se vulnerabilizar, agora que havia algo externo a uni-los; bastaria, por isso, deslumbrarem-se um pouco com aquela desgraça e, quando chegasse o momento, voltar a acender um cigarro; entretanto, o tempo passaria e, naturalmente, chegaria o momento da separação (ela ficaria a arrumar e a arejar o apartamento, ligaria a máquina de lavar, talvez comesse um iogurte; ele teria de chamar um táxi, demoraria algum tempo a escapar à confusão do trânsito provocada pelo acidente mas lá acabaria por chegar a casa).
Mais um dia, mais uma foda, mais algumas horas gastas; e a vida a prosseguir.
– Achas que morreu muita gente?
– De certeza.
– Coitados. Tenho pena das famílias. E também das pessoas que agora vão ter que andar pela auto-estrada a apanhar os pedaços de corpos.
– O trânsito vai ficar fechado durante dias, vai ser uma confusão.
– E de certeza que não vão conseguir recolher tudo. Já imaginaste passares ali daqui uma semana ou duas e teres a sensação que acabaste de pisar um pedaço de osso ou de crânio?
– Se calhar, quando um avião se incendeia e explode, os corpos das pessoas também se incendeiam e explodem, transformando-se em cinzas.
– Achas que terá sido um atentado?
– Duvido.
– Já alguma vez pensaste como gostarias de morrer?
– Não, nem por isso. Vou para dentro, ver o que estão a dizer na televisão sobre o acidente. Ficas?
Cento e catorze mortos, ao que parece. Foi o que disseram na televisão.
Talvez até possam falar disso, agora que sabem mais detalhes sobre o acidente (cento e catorze, já imaginaste? Mesmo ali à nossa frente, a caírem mesmo perante nós, como se fosse uma chuvada ou assim), caso um dia se voltem a cruzar num qualquer bar.
(Num jornal qualquer foi publicada a lista dos cento e catorze nomes; mas nenhum deles reparou, nenhum deles se interessou – na verdade, alguém teria lido os cento e catorze nomes? –. Afinal, eram apenas nomes; e como são banais e indistinguíveis os nomes, pensariam eles, pensa toda a gente: como se o nome de alguém não fizesse, afinal, grande diferença, nenhuma diferença.)
Quando terminou a bebida (olhou distraidamente em redor, tentando perceber se alguém lhe viria oferecer outra; mas ninguém reparara em si, ninguém iria gastar três euros e cinquenta cêntimos consigo), decidiu que quando recordasse o nome dele, o abordaria e logo se veria como correria a conversa, logo se veria se as suas necessidades momentâneas seriam compatíveis ou não; pensava, por isso, em nomes – António, Diogo, Carlos, Francisco, Duarte, João, Afonso, Miguel, Tiago; como são banais e indistinguíveis os nomes, pensava ela: como se o nome de alguém não fizesse, afinal, grande diferença, nenhuma diferença –, tentando associar qualquer um desses nomes àquele rosto sereno e belo, tão jovem. Sim, iria abordá-lo, esperando que aquela ténue ligação mantida num passado distante e quase esquecido fosse suficiente para sustentar e impulsionar uma relação, mesmo que fugaz, no presente.
– Estás bom, João?
– Desculpe, mas conheço-a?
– Será que estou assim tão diferente? Não vais dizer que estou velha, pois não?
– Oh senhora, vai-me desculpar mas…
– Bolas, João. Não me chames senhora, que me fazes sentir ainda mais velha do que realmente sou.
– Não queria ofendê-la mas não estou a ver de onde…
– Fui tua professora, há uns anitos. Língua portuguesa, décimo segundo ano; professora de substituição, estivemos juntos apenas um trimestre. Mas lembro-me muito bem de ti, João; lembro-me que não ouvias nada do que dizia, que passavas o tempo a olhar pela janela.
– Stora Patrícia?
– Que querido, afinal até te lembras do meu nome.
– Está diferente, stora. Mesmo diferente.
– Para melhor, espero.
– Claro, claro que sim. Para melhor.
– E gostas do que vês?
– Desculpe?
– Gostas do que vês?
– Acho que sim, stora, acho que gosto.
– A sério? Bom, se me ofereceres uma bebida, podes tratar-me por tu.
– Ok. Sabe, se usasse esse tipo de roupa nas aulas, de certeza que eu não teria olhado tanto pela janela; suponho que foi por isso que não a reconheci. A roupa muda tudo, altera as pessoas; disfarça-as um pouco. Mas bebe o quê, stora?
Beberam e riram durante um bocado, trocando recordações e insinuações, piadinhas, olhares. Ela percebeu como ele ficou um pouco perturbado quando consciencializou que a noite iria terminar em sexo, que era isso – apenas isso? – que ela desejava dele; talvez até se tenha sentido desconfortável ao compreender que estava a ser um pouco manipulado, que iria servir como mera distracção de uma quarentona solitária. Mas também percebeu que ele estava curioso, que estava interessado; e sentiu-se lisonjeada, sentiu-se leve e confortável, sentiu-se feliz. Mais que tudo: sentiu-se aliviada.
Foi ela que pagou a conta, foi ela que decidiu para onde iriam; ele submeteu-se à sua liderança sem protestos nem sugestões, como se ainda estivessem na sala de aula, como se ainda existisse uma hierarquia a uni-los. Durante a viagem, tentaram falar um pouco da matéria que ela lhe ensinara e de que ele não recordava absolutamente nada, falaram do que ele sentia quando olhava pela janela e do que ela sentia quando via os alunos olharem pela janela; ela falou do seu casamento fracassado e ele falou dos seus namoros fracassados – ela teve a sensação que ele estava a exagerar, que as suas relações não teriam sido assim tão fracassadas, e sentiu-se comovida com o esforço dele. Falaram um pouco de música e bares, de filmes, de sítios interessantes para passar férias; falaram do facto de estarem a fazer algo que habitualmente não faziam – engatar pessoas num bar, colocar a necessidade de sexo à frente de tudo – mas não se esforçaram em justificar os seus actos. Falaram do tempo. Falaram do estado do país e de política e da crise e dos problemas dos professores e do desemprego dos licenciados. Falaram do facto de haver dezasseis anos de diferença a separá-los – ele disse que ela estava muito bem para a idade que tinha, mesmo mesmo bem, e ela quase acreditou.
Por fim, chegaram ao bairro onde ela vivia desde o divórcio (deram uma voltas em busca de um lugar para estacionar; e ambos sentiram que se não aparecesse rapidamente um lugar, o desconforto cresceria até se tornar insuportável, talvez tivessem que abortar o projecto, esquecer aquela noite). Ela conduziu-o ao seu apartamento, depois de subirem sete andares de elevador no mais completo silêncio, afastados um do outro, como se fossem desconhecidos – na verdade, eram desconhecidos. Entraram e durante um instante não souberam o que fazer, como começar. Não conseguiram, sequer, olhar o outro, enfrentar o olhar do outro.
Então, ela disse uma coisa absolutamente parva: vamos lá ver se mereceres um vinte. Ele sorriu, embaraçado – apenas embaraçado e não intimidado; aproximou-se e tocou-a, pela primeira vez; tocou-a no peito, que por acaso era onde ela queria mesmo ser tocada – um dos sítios em que queria ser tocada, na verdade; afastou-lhe a roupa, que fora escolhida considerando o grau de facilidade com que poderia ser removida, e baixou a cabeça com naturalidade, passou a língua pelo mamilo; ela fechou os olhos, quase sorriu; ele movimentou a língua com perícia, ela gemeu um pouco (achou que ele deveria estar à espera de um gemido); e etc., pela noite fora.
Quando terminaram, sentiram-se confusos e desconfortáveis, prisioneiros da escuridão e do silêncio que os envolvia, dos seus próprios cheiros, do eco dos seus gemidos mais ou menos forçados; sentiram-se quase à beira do arrependimento; e por isso (para se manterem ocupados, para se distraírem), também porque não havia absolutamente mais nada que pudessem fazer, foderam de novo.
E enquanto o faziam, com empenho e voracidade, fustigando os corpos – como se tentassem expulsar deles a apatia e a indiferença, forçando-os a sentir qualquer coisa, a reagir –, pensavam no que aconteceria depois, no que fariam e diriam, na forma como se olhariam, ambos percebendo que aquela relação – que ainda não era propriamente uma relação; que, na verdade, nunca chegaria a ser uma relação – estava condenada; ambos recordaram relacionamentos anteriores (fracassos anteriores), em que se sentiam prisioneiros porque deixara de existir comunicação possível (não havia nada a dizer ou a escutar), relacionamentos tão estáticos que seria necessário um sismo para os fazer mover nalguma direcção, e perguntavam-se como fora possível deixarem-se arrastar para uma nova situação sem futuro.
Iam simplesmente fodendo, mentes absortas enquanto os corpos interagiam – pensado, talvez, como serão infelizes aquelas pessoas que juram ser incapazes de fazer sexo quando não existe amor e ternura e cumplicidade e tralará; como conseguirão? –, ignorando que afinal havia algo a uni-los, a aproximá-los: a incapacidade e inépcia em se relacionar com alguém (e se, simplesmente, conversassem sobre isso? Poderiam partir daí e seguir em frente, sem pressa).
– Obrigada, João.
– Porquê?
– Por teres vindo. Por teres ficado. A sério, João. Obrigada.
– Não digas isso. Sinto-me esquisito.
– A sério, nem imaginas como me tenho sentido só e desapreciada. Foi muito importante, isto. Não imaginas, mesmo.
(Nem ela própria conseguia perceber se estava a ser totalmente sincera, ou pelo menos um bocadinho sincera; talvez precisasse apenas de se sentir agradecida, bastando verbalizar esse sentimento – se o conseguia verbalizar, talvez existisse mesmo. Afinal, a partir do momento em que se diz algo, deixa de importar se efectivamente se sente o que se acabou de se expressar; não é? Se está dito, dito está, end of story.)
– Olha, já que estamos a falar e assim, queria confessar uma coisa.
– Confessar? Confessar o quê, João?
– A verdade é que não me chamo João. Desculpa.
– Não?
– Não.
– Não te chamas João?
– Não. Desculpa não ter dito antes.
– Tinha a certeza que te chamavas João. Quase a certeza.
– Não faz mal.
– Pois não. Acho que não faz mal.
(E como ela não lhe perguntou qual era afinal o seu nome, ele sentiu-se um pouco envergonhado e não foi capaz de dizer mais nada.)
Tinham dormido um pouco, ou fingido que dormiam; entretanto, amanhecera. Estavam na varanda, partilhando um cigarro (excesso de intimidade, talvez?), quando ela fizera uma pergunta inesperada (costumavas imaginar-me nua, imaginar como seria o meu corpo, quando te dava aulas?) a que ele respondera sem pensar, instintivamente (claro que sim); ela percebeu a mentira e sentiu-se magoada, ele percebeu que ela estava magoada e sentiu-se verdadeiramente arrependido de estar ali (afinal, pensou lugubremente, uma boa foda – sim, fora boa – não vale tudo). Depois disso, não conseguiram voltar a dialogar, limitando-se a dividir o cigarro (e que aconteceria, o que fariam, quando o cigarro terminasse?); compreendiam que precisavam de iniciar o processo de separação, que seria necessariamente diplomático e hipócrita, mas não sabiam como. (Ele queria simplesmente dizer: olha, foi bastante bom mas tenho que ir, ok?; ela gostaria de dizer: dou-te um dez e meio, está bem?)
Poderiam retomar um dos assuntos da noite anterior mas, na verdade, já tudo fora dito; poderiam, talvez, fazer planos para o pequeno-almoço ou até fantasiar sobre uma qualquer viagem que fariam em conjunto (planeá-la com fingido entusiasmo, na certeza de que jamais a realizariam), perspectivar um próximo encontro, algures; poderiam confessar o que tinham considerado mais surpreendente no desempenho sexual do outro, confessar o que ainda gostariam de fazer com o corpo do outro; poderiam falar sobre o tempo, do estado do país e de política e da crise e dos problemas dos professores e do desemprego dos licenciados; e dos falsos recibos verdes. Poderiam esforçar-se: mas não conseguiam, não quiseram. E, por isso, limitavam-se a partilhar o cigarro, a soprar o fumo, a olhar em frente, a respirar silenciosamente; à espera que acontecesse algo, qualquer coisa que os salvasse, uma distracção, um pretexto de conversa, uma fuga; qualquer coisa.
Primeiro, ouviram um barulho estranho que não conseguiram identificar e, logo depois, viram o avião; viram como estava demasiado próximo, demasiado baixo; viram que havia uma asa em chamas, um rasto de fumo preto; viram que o avião ia cair na cidade, mesmo em cima da cidade, ali pertinho, que estava tão baixo que jamais conseguiria chegar ao aeroporto; viram quando embateu no chão, mesmo perante eles, no meio da auto-estrada, numa tentativa fracassada de aterragem forçada; viram como se arrastou, como embateu numa ponte, como explodiu tal e qual como acontece nos filmes. Não viram mas imaginaram pessoas a gritar, pessoas a chorar, pessoas a desesperar, pessoas a explodir, pessoas a morrer.
E sentiram-se agradecidos (apesar de horrorizados) porque agora havia um pretexto para suspender o desconforto que sentiam, para se esquecerem de si próprios durante uns minutos; não precisariam de falar do pequeno-almoço, de fingir que iriam voltar a estar juntos. Não precisariam de se expor, de se vulnerabilizar, agora que havia algo externo a uni-los; bastaria, por isso, deslumbrarem-se um pouco com aquela desgraça e, quando chegasse o momento, voltar a acender um cigarro; entretanto, o tempo passaria e, naturalmente, chegaria o momento da separação (ela ficaria a arrumar e a arejar o apartamento, ligaria a máquina de lavar, talvez comesse um iogurte; ele teria de chamar um táxi, demoraria algum tempo a escapar à confusão do trânsito provocada pelo acidente mas lá acabaria por chegar a casa).
Mais um dia, mais uma foda, mais algumas horas gastas; e a vida a prosseguir.
– Achas que morreu muita gente?
– De certeza.
– Coitados. Tenho pena das famílias. E também das pessoas que agora vão ter que andar pela auto-estrada a apanhar os pedaços de corpos.
– O trânsito vai ficar fechado durante dias, vai ser uma confusão.
– E de certeza que não vão conseguir recolher tudo. Já imaginaste passares ali daqui uma semana ou duas e teres a sensação que acabaste de pisar um pedaço de osso ou de crânio?
– Se calhar, quando um avião se incendeia e explode, os corpos das pessoas também se incendeiam e explodem, transformando-se em cinzas.
– Achas que terá sido um atentado?
– Duvido.
– Já alguma vez pensaste como gostarias de morrer?
– Não, nem por isso. Vou para dentro, ver o que estão a dizer na televisão sobre o acidente. Ficas?
Cento e catorze mortos, ao que parece. Foi o que disseram na televisão.
Talvez até possam falar disso, agora que sabem mais detalhes sobre o acidente (cento e catorze, já imaginaste? Mesmo ali à nossa frente, a caírem mesmo perante nós, como se fosse uma chuvada ou assim), caso um dia se voltem a cruzar num qualquer bar.
(Num jornal qualquer foi publicada a lista dos cento e catorze nomes; mas nenhum deles reparou, nenhum deles se interessou – na verdade, alguém teria lido os cento e catorze nomes? –. Afinal, eram apenas nomes; e como são banais e indistinguíveis os nomes, pensariam eles, pensa toda a gente: como se o nome de alguém não fizesse, afinal, grande diferença, nenhuma diferença.)
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