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Legenda # 07: Parem e gostem

(Escrito a partir de uma fotografia de Rute Violante)

01.
Quem visse o velho pensaria que estava simplesmente à espera que a morte chegasse; mas a verdade é que ninguém olhava, as pessoas continuavam a passar – apressadas, sempre muito apressadas – e nunca olhavam, como se estivessem demasiado ocupadas com os seus problemas e pressas para repararem na morte de alguém. Afinal, se reparassem no velho e pensassem que estava à espera da morte, iriam afirmar, displicentes e um pouco arrogantes, que todos estamos à espera da chegada da morte, que é esse o propósito da vida: prepararmo-nos para morrer; diriam, também, que os velhos têm bastante mais sorte do que todos os outros porque estão melhor preparados, tiveram mais tempo para se preparar. Sim, as pessoas que passavam poderiam dizer algo do género: e nem estariam a tentar ser irónicas; di-lo-iam sem se interromperem ou se desviarem do seu trajecto, sempre em andamento, porque parar é morrer e a ironia é só para quem tempo.
Portanto, lá estava o velho sentado a uma das mesas do parque. Era aí que passava as suas manhãs, com o riozinho a deslizar por trás e as folhas de árvore amarelecidas a caírem em seu redor, como se fossem flocos de neve defeituosos que nenhuma criança quisesse pegar. O facto de escolher uma mesa, e não um dos banquinhos de jardim onde todos os outros velhos se sentavam, era peculiar; uma mesa de piquenique, habituada a reunir famílias sorridentes e tagarelas e não a servir de sala de espera de casa mortuária, de antecâmara de cemitério; porque a escolheria ele? Talvez fosse, simplesmente, um convite lançado ao mundo, um desafio a quem passava; uma mesa é quase sempre um objecto social, supõe-se que seja usada para fazer algo com outra pessoa, que implique e proporcione uma partilha, que aproxime e una. O que significaria que o velho ainda não estava decidido a ceder, que ainda lutava e resistia, que até poderia estar atrasado para o seu próprio funeral mas não se resignava, não renunciava à vida (ou seja: era teimoso); a escolha da mesa seria, portanto, um simples pedido de companhia – como quem coloca uma mensagem no facebook: parem e gostem. Poder-se-ia, por outro lado, pensar que o velho, antes de ser velho, tivesse feito naquela mesma mesa muitos piqueniques com a sua família sorridente e tagarela, uma família que entretanto fora sorrir e tagarelar para outro lado qualquer, deixando-o só com as suas memórias e reminiscências, com a sua espera resignada; estaria, então, ele a despedir-se da sua vida, regressando a um local onde fora feliz? Já se sabe, os velhos vão para o parque porque têm medo de morrer em casa, sozinhos; mas esquecem que há algo mais triste do que morrer na solidão completa, que é morrer no meio da indiferença e apatia e desinteresse de uma multidão, entre a gente que passa e nem olha. Esquecem que muito pior do que a solidão completa é a solidão acompanhada; ou talvez não esqueçam, talvez queiram apenas experimentar uma solidão diferente, para variar.
Fosse qual fosse o motivo, lá continuava manhã após manhã, silencioso e apático, imóvel, quase morto. Talvez pensasse: “que triste é ser apenas parte do cenário.” E se tivesse um neto ali a jeito, fazendo-lhe companhia, talvez lhe dissesse num tom conformado: “todos gostaríamos de ser protagonistas de qualquer coisa mas durante a maior parte do tempo somos um simples pormenor no cenário, um detalhe em que os verdadeiros protagonistas nem sequer reparam.” E o neto, desatento e desinteressado, perguntaria: “quê?” Mas como não havia nenhum neto por perto, permanecia calado. Havia pessoas a passar, mais mulheres do que homens, caminhando com rapidez e destreza, com elegância, um pouco tensas e ansiosas, como se temessem que os empregos lhes fugissem; ou que a própria vida lhes fugisse, que estivesse lá mais à frente, já à saída do parque, e fosse imperativo apanhá-la antes que fosse demasiado tarde; pessoas com receio de estarem atrasadas em relação à sua própria vida. Dentro de algum tempo os escritórios e as repartições e as lojas estariam a abarrotar de funcionários e assistentes e auxiliares, não haveria mais ninguém a atravessar o parque (era estranho mas ninguém passeava naquele parque) até que fosse hora de almoço e todos regressassem, fazendo o percurso inverso. E durante todo esse tempo, o velho ali estaria; sozinho e à espera.
Ou talvez não. Na verdade, nunca estava verdadeiramente sozinho quando se encontrava no parque; acompanhava-o a natureza. Porque o velho sentia uma enorme empatia com a natureza que o rodeava e envolvia, com as árvores e as folhas amarelas pisadas e os passaritos esvoaçantes, com o riacho e o céu distante e o cheiro a verde misturado com o cheiro a cinzento,  com as formigas que transportavam pedaços de casca de árvore, com o sopro do vento e as minúsculas ilhas de relva que contrariavam a supremacia descolorida do outono, com a neblina que costumava desaparecer por volta das dez menos um quarto, com as manchas de humidade da chuva, com o cheiro ténue das árvores e que sempre o remetia para a infância. A natureza também nunca protagonizava nada, também era forçada a cumprir função de simples cenário; e o velho identificava-se com isso. Claro que, por vezes, invejava a natureza: afinal, todos os homens – mesmo os protagonistas; especialmente os protagonistas – acabariam por desaparecer, por serem esquecidos; mas a natureza, mesmo sendo mero cenário, permaneceria, renovando-se eternamente. Claro que o velho, apesar de solitário e silencioso, não era imbecil: sabia muito bem como era absurdo sentir inveja da natureza; e dizia a si próprio que tais pensamentos – na verdade, todos os seus pensamentos – serviam apenas para passar o tempo.
E a verdade é que ele lá ia passando, o tempo.

02.
O que aconteceu foi isto: ontem, estava o velho sentado à mesa de piquenique a observar como a suave brisa arrumava em montinhos as folhas de árvore espalhados pelo chão, com aparente arbitrariedade e displicência – pensando distraidamente: se deus existisse, seria uma espécie de vento; nada mais que isso, apenas vento –, quando uma mulher, apressada e absorta como todas as outras, se desviou inesperadamente do seu trajecto habitual e se aproximou do velho; mas não só: sorriu-lhe; mas não só: falou-lhe. Ou seja: algo inopinado e totalmente novo acabara de acontecer. Uma protagonista reparara no cenário, interagira com o cenário; e o cenário ficou surpreendido, sem saber como reagir. Poderia apenas ter sorrido mas não se lembrou disso; olhou-a, simplesmente, à espera. Ela disse: “raio de tempo.” E logo depois: “olhe, não me arranja um cigarrinho?” O velho não fumava há trinta anos; mas, naquele momento, arrependeu-se profundamente de ter deixado de fumar; se não o tivesse feito, teria o habitual maço de cigarros no bolso do casaco, junto ao coração; e não só lhe daria um cigarro como lho acenderia com o seu próprio isqueiro, ficaria a vê-la soprar a primeira nuvem de fumo.
Abanou a cabeça e baixou o olhar; poderia também ter encolhido os ombros mas pareceu-lhe que isso seria excessivo. Ela percebeu e sorriu, disse: “é pena.” E depois: “há quanto tempo deixou de fumar?” E ele respondeu, apenas um pouco surpreendido com a pergunta: “trinta anos.” “Chiça,” disse ela, “ainda eu nem tinha nascido.” E ficaram a olhar um para o outro. Durante um breve instante, o velho pensou que ela poderia sentar-se e ficar ali a conversar durante um bocado, a ouvi-lo recordar como eram os cigarros de há trinta anos; pensou como seria revigorante senti-la momentaneamente interessada em si, nas suas palavras e nas suas histórias, na sua existência de cenário. Seria ainda capaz de provocar o riso de uma mulher jovem e bonita? Já nem se lembrava da última vez em que isso acontecera, em que isso fora possível. Mas se conseguisse, de que serviria isso? De que serve o riso de uma mulher jovem e bonita a um velho decadente e solitário? Na verdade, pensou o velho, o riso existente no mundo é limitado, escasso, precioso; para que alguém ria, outra pessoa terá que ficar triste, é necessário que ocorra uma transferência de sentimento; apenas os ingénuos ou os idiotas acreditam que o riso surge do nada, do vazio, como se fosse algo miraculoso; ou pior, que é contagioso, que se reproduz e multiplica indefinidamente. Não: até o riso é ciência. O velho sabe que o riso tem sempre um preço, sabe que a única forma de fazer aquela mulher rir seria abdicar do seu próprio riso, oferecendo-lho; ou seja: ficar mais triste. Sabia isso e, ainda assim, estava disposto a fazê-lo, gostaria de o fazer: oferecer-lhe riso, já que não tinha cigarros para lhe dar. Mas não sabia como, já não se lembrava como se fazia. Ou pior: talvez já não possuísse riso em si.
É possível – improvável mas possível – que a mulher tenha sentido uma momentânea tentação de suspender a sua rotina, de interromper a previsibilidade do seu dia, e ficar por ali durante alguns minutos, acompanhando aquele velho solitário na sua mesa rodeada de folhas amarelas. Perguntar-lhe como eram os cigarros de há trinta anos, por exemplo; podia perguntar-lhe isso. E talvez ele se tornasse falador, talvez desviasse o olhar do chão. Custava-lhe muito que um velho olhasse para o chão pois parecia-lhe que quando isso acontecia o velho estava, afinal, a espreitar o seu próprio futuro e a conformar-se com a iminência do seu destino próximo, que era ser enterrado na terra e apodrecer devagarinho. Os velhos deviam olhar para o céu e não para o chão, era o que ela pensava; olhar para o céu e pisar a terra com força, caminhando em frente. E se o velho falasse sobre os cigarros de há trinta anos talvez se entusiasmasse um pouco e desviasse o olhar do seu destino, esquecendo-o. O problema é que estava atrasada; atrasada e a precisar de um cigarro. Por isso, disse: “bom, trinta anos é mesmo muito tempo.” E afastou-se, depois de lhe acenar – um aceno de garotinha, na verdade –, retomando o seu caminho, conformando-se ao seu destino.
O velho ficou a vê-la afastar-se, desaparecendo ao longe entre as outras pessoas que atravessavam o parque; subitamente, perguntou-se há quanto tempo já não tinha um pensamento de natureza sexual e, logo de seguida, perguntou-se porque diabo estaria a pensar tal coisa. E então sorriu, lembrou-se de sorrir; era o que deveria ter feito de imediato, mal a mulher se aproximara, mas só agora se lembrava de o fazer. Sorriu. Não fazia mal, pensou; sempre fora um defeito seu, sorrir demasiado tarde. De qualquer forma, percebeu que ainda conseguia sorrir. E é sempre espantoso, quando o cenário percebe que pode sorrir.

03.
Por vezes, quando está em casa, sozinho e rodeado de silêncio, a olhar para as paredes que já foram brancas, o velho pensa no parque e sente saudades do amarelo das folhas, do amarelo pelo ar e do amarelo pelo chão, do amarelo everywhere; sente saudades de muito, de tudo, mas especialmente do amarelo; lembra-se do murmúrio do riozito, do cheiro do ar livre que é tão diferente do cheiro do ar do seu quarto, da suavidade da madeira molhada da mesa de piquenique quando lhe toca com a ponta dos dedos. Pensa no parque sem pessoas nem movimento, pacífico e acolhedor, convidativo; como se fosse um cenário pronto a ser usado. Quase consegue visualizar o parque como se fosse uma pintura, que depois pendura no cinzento das suas paredes e para onde olha como se olha para uma janela, através de uma janela. Olha para o cinzento que já foi branco pensando em amarelo e quase consegue ouvir o rumor do rio, aquele som quase imperceptível que fazem os peixitos quando se agitam na água; e também a melodia repetitiva dos pássaros, cantando para nada, apenas porque sim. Quase consegue ouvir.

04.
Hoje o velho traz um maço de cigarros e dois isqueiros; comprou tudo logo pela manhã, na tabacaria da esquina, custando-lhe o devaneio o equivalente a três semanas de euromilhões; teve que aguardar mais de meia hora pela abertura da tabacaria e quase desistiu. Senta-se no sítio do costume e espera; não lhe custa muito esperar porque isso é, afinal, aquilo que os velhos melhor fazem, a vida serviu-lhe para pouco mais do que ensinar a esperar. Mas sente uma dor na perna e isso é algo desconcertante: essa não é uma dor comum e, portanto, não tem remédios para ela; terá que ir ao centro de saúde, e depois à farmácia. Não é mais uma dor que o incomodará demasiado mas sente-se um pouco aborrecido, descobrir uma dor nova é sempre irritante; há dores tão antigas e persistentes que se habituou a elas, são uma espécie de companhia, de distracção, de entretenimento. E as novas dores, quando chegam de surpresa, vêm distraí-lo um pouco dessa distracção. Esta coisa nova na perna, que apareceu durante a noite, parece não ser algo passageiro ou pontual; vem para ficar e, portanto, terá mesmo que ir passeá-la ao centro de saúde. Pior do que ter que suportar as dores é não ter ninguém com quem falar sobre elas; de que serve sentir dor se não nos podemos queixar dela a alguém que se interesse, se não a podemos usar para obter atenção e ternura dos outros? Afinal, a doença não servirá apenas para isso? Para nos colocar momentaneamente no centro do mundo? Irá portanto ao centro de saúde.
Pensa: “foda-se, que envelhecer é tão triste.” E, incapaz de não o fazer, vai pensando nas perdas que foi acumulando; tenta recordar a última vez em que correu numa praia, a última vez em que andou de bicicleta e a última vez em que teve uma erecção, a última vez em que dançou, em que abraçou e levantou uma mulher no ar, a última vez em que alguém lhe deu um aperto de mão e isso não fez estalar os ossos e a última vez em que se penteou sem que o cabelo se acumulasse no pente, a última vez em que dormiu uma noite inteira sem sentir qualquer dor, qualquer incómodo físico, em que simplesmente dormiu; e enquanto pensa em tudo isso olha para o chão, seguindo os avanços insistentes e resolutos de um par de formigas. E é quando observa as formigas que se lembra, inesperadamente, do dia em que atirou uma caixa de preservativos para o lixo porque teve a certeza absoluta que nunca mais iria precisar deles. Sabe – mas quer esquecer – que o corpo, na verdade, só é verdadeiramente sentido e percepcionado, só é verdadeiramente consciencializado, em dois momentos antagónicos: na dor e no prazer. Para além disso, o corpo de nada serve, é apenas cenário; envelhecer será pouco mais do que um processo lento e inexorável de diminuição dos momentos em que o corpo proporciona prazer e aumento dos momentos em que proporciona dor; a lenta e irreversível transformação de corpo em dor.
Tenta distrair-se, esquecer os preservativos desnecessários. E olha em frente porque só daí poderá chegar verdadeira distracção; vê a gente do costume desfilar, sempre apressada e absorta, triste e cansada logo pela manhã; tem um pensamento inesperado, algo absurdo, que o entretém enquanto repara na infinidade de tons de cinzento com que se pode descolorir a roupa: de toda aquela gente talvez seja ele que esteja mais próximo da morte mas quem sabe se não será, afinal, ele o que está mais vivo; porque as pessoas parecem tão anestesiadas pelas preocupações e pelas necessidades, pela angústia de ter e ser e parecer, que talvez nem estejam verdadeiramente vivas. Mas logo depois percebe que este é apenas mais um pensamento invejoso e rancoroso, uma idiotice. E ele sabe que também nisto funciona a lei das compensações, tal como nos risos: por cada capacidade que se perde, adquire-se um pensamento rancoroso. Morrer é, também, uma espécie de rancor definitivo: perdeu-se tudo, ficou apenas um ressentimento absoluto e permanente.
Os minutos vão passando e a mulher não aparece. A velhice é um estado triste não apenas porque o corpo vai avariando mas também porque a fronteira entre bom senso e insanidade vai tornando-se muito ténue; e se lhe tivesse dado para comprar uma caixa de preservativos, em vez do maço de cigarros? Sorri com a parvoíce da ideia, e sabe-lhe bem sorrir. Seria estranho andar por aí com uma caixa de preservativos no bolso; e se lhe desse um ataque no meio da rua? Os tipos da ambulância iriam fartar-se de rir quando encontrassem a embalagem intacta, novinha; talvez até ficassem com ela, e se assim fosse nem tudo se perderia. Vai observando as folhas amareladas caídas no chão, para se distrair das pessoas que passam, também para tentar recordar quando foi a última vez que o seu corpo foi fonte de prazer. São bonitas, as folhas; quase apetece apanhá-las e guardá-las num livro, uma a uma, cuidadosamente, como antes faziam as raparigas que gostavam de poemas. Mas apesar da beleza das folhas o distrair um pouco, a pergunta que lhe baila pela cabeça é esta: porque se apaixonam as pessoas? É uma triste pergunta para um velho fazer a si próprio. Contudo, é a pergunta que não o abandona, desde que aquela mulher desconhecida se desviou do seu caminho para lhe sorrir e pedir um cigarro. Ele não tinha o cigarro e sorrira tarde de mais; perdera uma oportunidade e, agora, pensava em questões absurdas, que é o que sempre faz quem perde oportunidades.
Entretanto, o tempo vai avançando; há agora menos pessoas a passarem, as folhas continuam a cair das árvores por motivo nenhum, além dos óbvios: serem arrastadas pelo vento e pisadas por alguém, uma e outra vez. Pessoas que pisam folhas de árvore, pensa o velho, são pessoas desatentas e desdenhosas, indiferentes à beleza, à delicadeza, à efemeridade; é como se pisassem a própria essência da vida. É também por isso que, antes, as raparigas guardavam as folhas em cadernos: era como se estivessem a guardar pedaços de vida ou, pelo menos, símbolos de vida. Continua a olhar para as folhas mas não por motivos filosóficos, cansou-se de filosofias ainda antes de deixar de fumar; olha, simplesmente, porque receia espreitar as pessoas que passam, receia reconhecer entre elas a mulher e perceber que ela não vai parar para lhe falar, que não vai sequer olhar. Sabe que é isso que irá acontecer, que irá ser irremediavelmente devolvido ao seu destino de cenário; ainda assim, apetece-lhe acreditar que não. Apetece-lhe fantasiar, que é algo que os velhos também se vão desabituando de fazer, porque a fantasia é uma forma de sonho e os velhos têm medo de sonhar, sabem melhor do que ninguém que sonhar pode ser muito perigoso. Desabituou-se mas não esqueceu por completo como se faz; e por isso fantasia, rodeado por folhas amarelas e pelo vazio da natureza. Se ela vier, a primeira coisa que perguntará será o seu nome. Sempre resultara, noutros tempos; perguntar o nome e sorrir logo de seguida ou mesmo em simultâneo, não poderia esquecer-se de sorrir. E depois de elogiar o nome dela, fosse ele qual fosse, diria: “eu sou o Afonso.”
Chama-se Afonso, o velho. 

Legendas anteriores:
#06: A partir de uma fotografia de Sofia Mota
#05: A partir de um desenho de João Concha
#04: A partir de uma fotografia de Julieta Domingos
#03: A partir de uma fotografia de Cátia Biscaia
#02: A partir de uma fotografia de Francisca Moreira
#01: A partir de uma fotografia de Lara Jacinto

Sorrisos de manhã de domingo


(Uma velha estória, há muito esquecida e agora reencontrada; é uma interpretação de um dos meus quadros favoritos: Morning Sun, de Edward Hopper.) 


Agora, faço isto todas as manhãs: sento-me na cama e olho pela janela. Olho, simplesmente: à espera que o tempo passe, à espera que um sonho ou uma esperança ou uma oportunidade entre pela janela e me invada o corpo e a alma, trazendo consigo algum entusiasmo, algum prazer por estar viva e ter vida pela frente; qualquer coisa. Fico assim durante alguns minutos, enfrentando a luz do sol; olho, também, o céu, procurando no seu azul, nos seus múltiplos e indefinidos tons de azul, uma distracção do cinzento deste quarto, do cinzento da minha vida, do cinzento do meu futuro (e quando o cinzento da minha vida se mistura com o cinzento do céu sinto-me estranhamente acompanhada, menos só.) Depois, inevitavelmente, resigno-me: sei que nada acontecerá, que ninguém virá. E desisto; visto-me muito devagarinho concentrando-me em cada detalhe da roupa, da maquilhagem, dos acessórios, da escolha dos sapatos e do perfume; depois, devidamente camuflada, saio e enfrento o mundo; ou melhor: escondo-me do mundo, no mundo.
Mas são importantes, estes momentos: recordam-me como estou só; e, algo perfidamente, dão-me alento: porque é impossível piorar, é impossível ser mais infeliz, ou permanecer assim infeliz para sempre.

Por vezes, quando as fantasias nocturnas não se dissipam tão velozmente como deveriam, dou por mim a tocar-me, a acariciar-me, a confortar-me. Toco-me, para me sentir menos desprotegida, esforçando-me por acreditar que não estou só, que sou alguém; acompanho-me. Toco-me, também, para acalmar o corpo, para o serenar, para o saciar. Para o distrair.
Descobri na masturbação uma forma cruel mas eficaz de protecção; quando acalmo e anestesio o corpo com o prazer que eu própria lhe proporciono, deixo de sentir necessidade de sair deste quarto e partir em busca de alguém, de um qualquer homem anónimo, sem rosto nem nome, sem pretensões nem diálogos nem futuro, que me acalme e pacifique, fodendo-me com competência mas distanciamento. Porque certamente que o encontraria, encontrei sempre que quis, sempre que precisei. Encontraria; mas, e depois? Depois de satisfeito o corpo, pensaria – seria inevitável, penso sempre – que esse homem poderia, talvez, tentar serenar-me a alma, preenchendo-a com amor (amor… mas que coisa mais pomposa), ou simplesmente com carinho e cumplicidade e riso e alegria; pensaria que talvez ele se pudesse interessar por mim, e não apenas pelo meu corpo. Pensaria que talvez esse homem anónimo, competente mas desinteressado, pudesse tentar amar-me. Ou seja: iludir-me-ia; e sofreria. Porque, agora, parece que ninguém tenta amar seja quem for; já nem me lembro do último que tentou amar-me.

Um destes dias, quando olhava pela janela, perguntei-me: há quanto tempo não sou verdadeiramente amada? E fui saltando de companheiro em companheiro, recuando no tempo, especulando qual deles me poderia ter amado, tentando recordar quais deles me disseram amo-te, tentando adivinhar se algum dos que disse – poucos, tão poucos – teria sido sincero. A conclusão, desencantada e dolorosa, a que cheguei foi que, afinal, talvez nenhum me tivesse amado. Mas decidi ir um pouco mais longe, avançar mais por mim a dentro; e arrisquei perguntar-me se eu os teria amado, se teria amado algum dos homens da minha vida. E a resposta que chegou lá de dentro, bem do fundo de mim, foi: talvez não. Sem dúvida que desejei amá-los; e talvez tenha fingido amá-los, talvez tenha até acreditado que os amava. Mas não mais do que isso.
Então, enquanto me agarrava aos joelhos e sentia a pele fria, tão insuportavelmente fria apesar do calor do sol que entrava pela janela, desisti de fugir, não me apeteceu continuar a fugir; e permiti que a interrogação final, fatal, me atingisse: será que nunca fui amada apenas porque nunca amei? Levantei-me e caminhei devagar, muito devagar, entrei na casa de banho, fechei a porta. E chorei. Olhei-me no espelho e chorei, até deixar de sentir pena de mim própria.

O céu está repleto de nuvens brancas e redondas que se arrastam com preguiça, resignadas e apáticas como transeuntes arrastando as all star e os saltos altos no corredor de um centro comercial numa manhã de domingo; a luz do sol da manhã invade o quarto, fraca e ténue, triste. E não há mais ninguém, apenas eu e a luz e as nuvens e a vontade de companhia. Sinto-me vazia, mais do que o habitual. Sinto a mente ziguezaguear, frenética e assustada, arrastando-me atrás de si, apetite após apetite; e o mais triste é que sei que me está a arrastar para lado nenhum. Apetece-me chorar; apetece-me rir; apetece-me abraçar; apetece-me morrer; apetece-me falar; apetece-me acreditar; apetece-me ser olhada; apetece-me uma surpresa; apetece-me arrebatamento; apetece-me o oposto de solidão e não sei o poderá isso ser; mais que tudo, apetece-me ser tocada.
Toco-me, então; não há mais ninguém para o fazer, agora, neste momento; por isso, toco-me a mim própria. Envolvo o seio na mão, aperto o mamilo. Fecho os olhos: e imagino-me beijada, imagino o meu mamilo acariciado por uma língua. Tento acreditar na fantasia, retirando da escuridão que me envolve o vislumbre de imagem de um qualquer rosto, percorro a memória em busca da recordação de uma boca que preencha e consubstancie o meu devaneio. E é então que, inesperadamente, me surge o teu rosto, o teu beijo; pela primeira vez em tantos, tantos anos penso em ti. E deslumbro-me com a nitidez das imagens, repentinas, imparáveis: nós os dois deitados na praia, cobertos de areia, arrepiados e desconfortáveis; a tua mão no meu seio, os teus dedos no meu mamilo; e depois, abrupto e desajeitado: lambeste-o, chupaste-o, mordeste-o. Pela primeira vez: para ti, para mim.
Lembras-te? Tínhamos dezasseis anos e queríamos ser médicos, ter filhos, comprar um barco, viver em África e escrever poemas, salvar o mundo, descobrir novos mundos; mas antes, queríamos, mais que tudo, descobrir os nossos corpos e levá-los ao limite. Fugíamos das aulas, escondíamo-nos na praia; e fazíamos amor, desajeitadamente e muito depressa, com uma intensidade quase doentia; depois, deixávamo-nos estar, disfarçando a decepção que sentíamos por o sexo nunca ser verdadeiramente reconfortante com longas conversas inconsequentes, desfilando fantasias que nem chegavam a ser utopias de adolescente, fantasias que não passavam de devaneios de criança. E depois, partíamos, de bicicleta, tão eufóricos quanto frustrados. Lembras-te?
A ti, amei-te; e tu, amaste-me. Tenho a certeza.
Não sei por que penso agora em ti, não sei por que nunca pensei em ti, até hoje. Largo o seio e levanto-me, aproximo-me da janela. Olho o mundo, lá fora: e não tenho medo, por um momento consigo não ter medo. Já amei, já fui amada; afinal, o que desejo não é uma impossibilidade: já aconteceu, pode repetir-se. E que se fodam todos os que me dizem que a felicidade, a minha felicidade, não virá na forma de um homem. Olho a cidade anónima e distante, expectante, subitamente convidativa; pergunto-me o que será feito de ti; pergunto-me se não estarás a olhar por uma qualquer janela, a pensar em mim.

Agora, faço isto todas as manhãs: sento-me na cama e olho pela janela. Penso em ti. Penso que talvez pudesse partir pela cidade fora, à tua procura; penso que, se o fizesse, certamente te encontraria; penso que, se nos encontrássemos, poderíamos tentar ser felizes, outra vez, mais uma vez. Penso que sou (sinto-me como) uma miúda de dezasseis anos, a alimentar devaneios inconsequentes: e não me importo.
(Quando passeio no centro comercial, ao domingo de manhã, já não olho tanto para o chão como fazem quase todas as outras pessoas, já não reparo tanto nos saltos altos e nas all star; olho os rostos (sim, atrevo-me a fazê-lo), olho-os simplesmente, durante uma fracção de momento; e surpreendo-me tanto, mas tanto, quando algum desses rostos, um dos que também não olha o chão, me sorri que não consigo deixar de sorrir também. Vou sorrindo, então: sorrisos de manhã de domingo; treinando para o dia em que finalmente te encontrar e me perguntares se ainda quero ir a África.)

Legenda # 06: Filmes palermas


(Escrito a partir de uma fotografia de Sofia Mota.)

É então que me abraças pela primeira vez. E sinto que acontece algo semelhante ao que sempre vi nos filmes palermas (tu sabes o quanto gosto de filmes palermas, não sabes?): um daqueles momentos em que parece que o mundo pára durante um fragmento de segundo e tudo se suspende em redor; claro que sabemos muito bem que o mundo, na verdade, não parou, pois o mundo não é nada de paragens, mas de certa forma deixou de nos importar que ande ou não ande; portanto, é como se tivesse mesmo parado. Parvo, não achas? A verdade é que esta fantasia acaba por ser uma forma de libertação ingénua mas eficaz, porque é em instantes assim que nos desembaraçamos momentaneamente do mundo e dos seus constrangimentos. Talvez por isso goste de filmes palermas: lembram-nos coisinhas elementares e essenciais, há muito esquecidas porque sempre as escondemos sob camadas de racionalização e filosofia e presunção e complexidade; coisinhas mesmo, mesmo simples que deveriam ser evidentes e inquestionáveis mas que ocultámos de tal forma, com tanta dedicação e empenho, com tanta eficiência, que esquecemos as coisinhas em si e apenas nos lembramos das camadas que fomos amontoando; porque, na verdade, somos pessoas que precisam de camadas, muitas camadas, pois acreditamos que elas podem disfarçar – ou mesmo preencher, quem sabe – os nossos vazios existenciais e o facto de, afinal, sermos um pouquinho ocos.
Portanto: o mundo pára quando sinto todo o teu corpo envolver o meu, complementando-o e prolongando-o, dando-lhe uma nova dimensão e realidade, uma nova espessura; um propósito. Sim, sei que isto já nem é conversa de filme palerma mas, bem pior, discurso de telenovela; mas que queres? É o que sinto. Que estou a ser tocada não pelos teus dedos ou pelos teus lábios mas pela totalidade do teu corpo. E penso: ah, então é para isto que o meu corpo serve, era disto que estava à espera. Porque há qualquer coisa de desestruturante e arrebatador, de desconcertante, numa primeira vez; é o primeiro abraço que me dás e por mais vezes que se repita, sei que nenhuma dessas réplicas se aproximará da intensidade inicial; portanto, de certa forma também é o último abraço, porque os que vierem posteriormente serão outra coisa qualquer, serão algo diferente, serão imitações e tentativas.   
O abraço dura uns segundos; mas tentar medir ou quantificar a felicidade é um disparate, é um vício dos infelizes; claro que não interessa quanto tempo tenha durado um momento de felicidade, na verdade tudo interessa excepto isso. Mas confesso que, por vezes, tenho pensamentos tolos. Por exemplo: que giro seria se houvesse uma medida para a felicidade – o teu beijo proporcionou-me três quilos ou setecentos bytes ou meio mililitro ou vinte watts de felicidade. Se assim fosse, até se poderia estabelecer um qualquer mercado de trocas, sistemas de crédito, um índice na bolsa, empréstimos bancários específicos, avaliações das agências de rating; enfim, poder-se-ia matematizar a felicidade e comercializá-la. (Poderias até perguntar, se fosses tão tolo como eu: sabes quanto me deves, por estes segundos de felicidade que te dei?) Tolices, enfim. Não ligues.
Portanto, não importa que o abraço tenha durado apenas uns segundos: o mundo pára e isso é que conta. Depois, passados os tais segundos que não interessam, termina o abraço ao mesmo tempo em que os relógios retomam o seu monótono tiquetaquear (eu sei: estou a dizer que o tempo parou mas, simultaneamente, os segundos continuaram a passar; pois, uma parvinha). Claro que o parque, onde tudo isto ocorre, está cheio de vida; há, por exemplo, outros casais de namorados (para mim, é o abraço que oficializa o início do nosso namoro; é neste pedacinho de parque verde e solarengo, aqui mesmo ao lado de um repuxo que inesperadamente entra em funcionamento, que nos transformámos em namorados, e não me chateia que toda a gente considere esta palavra, este conceito – namorados – um arcaísmo, uma ingenuidade, um romantismo de poeta, uma irrelevância; sei que agora vivemos no mundo facebookiano das relações, no mundo concreto do sexo; mas eu quero ser namorada e ter um namorado). Mas não só, há também uma miríade de velhinhos solitários, de crianças barulhentas, de cães e pássaros, de bichinhos invisíveis, de pessoas desinteressadas, de borboletas. E o azul do céu e o verde das árvores, o cheiro da relva e das plantas e do algodão doce da barraquinha lá do fundo, o zumbido do calor (é a primeira vez que percebo que o calor zumbe): tudo a envolver-nos, a compor o nosso cenário, a emoldurar o nosso abraço; tudo infinitamente distante mas, simultaneamente, parte da nossa realidade, de nós. Como se o nosso abraço abrangesse, também, o mundo.
Se falasses neste momento, talvez dissesses: “Olha que é só um abraço, nada mais.” Talvez não o digas mas pensarás que tudo isto não tem assim tanta importância; afinal, quantas pessoas abraçaste, antes de mim? Talvez este momento signifique pouco para ti, talvez nada saibas de filmes palermas. Poderia perguntar-te o que sentes mas receio uma decepção, e afinal ainda é demasiado cedo para decepções; e se respondesses, por exemplo, “Estou com fome” ou “Dói-me um joelho”? Se dissesses algo que denunciasse que nem reparas na minha presença, quanto mais no meu abraço? Não, prefiro não arriscar. Claro que este momento é nosso e não apenas meu, que de certa forma me estou a apropriar dele e a transformá-lo naquilo que mais me convém. Mas não é isso a paixão? A ilusão de que o outro possa sentir precisamente o mesmo que sentimos? A projecção daquilo que sentimos no outro, como se ele fosse um mero espelho? Ah, mas desculpa, que me estou a afastar do mundo dos filmes palermas e a ceder a uma espécie de cinismo elementar e inconsequente. Sorry. Se não te vou dizer nada disto, porque estou a pensá-lo?
O que gostaria mesmo era de me abstrair deste momento e observá-lo (sim, como se visse um filme), para conseguir analisá-lo detalhadamente; ser espectadora de mim própria, deste fragmento da minha vida – desculpa: da nossa vida. E perceber tudo, não apenas a tua reacção (o grande problema dos abraços é que nunca conseguimos perscrutar o olhar de quem nos abraça, perceber exactamente o que o outro sente enquanto nos aperta contra o seu corpo). Perceber mesmo tudo; por exemplo: que pensarão as pessoas que nos rodeiam, se por acaso nos olharem? E porque não olham, porque não param para ver? Porque são tão indiferentes a um abraço que, afinal, é capaz de imobilizar o mundo? Porque serão as pessoas indiferentes à felicidade alheia?
Gostava, então, que este pedaço da minha vida fosse um filme; uma cena num filme palerma. Ou um quadro do Monet ou do Macke, que andavam sempre a pintar gente em parques: a minha felicidade em forma de cor, exposta (pendurada) na parede de um museu para toda a gente apreciar. Gostava que houvesse uma forma de fixar este momento, de fixar este abraço, de fixar esta memória, de fixar esta sensação de mundo parado, de fixar esta felicidade, de fixar este princípio de amor, de fixar o prazer que sinto quando estas gotas de água fresca vindas do repuxo tocam as minhas pernas nuas, de fixar este desejo absurdo de permanecer fixa. Gostava, sim.
E lamento que entre toda esta multidão que saltita preguiçosamente pelo parque, daqui para ali e dali para acolá, sem objectivo nem pressa, não exista nenhum daqueles fotógrafos que sempre andam pelos parques a apontar as suas máquinas à banalidade da vida com o secreto, ambicioso e generoso desejo de transformar os monótonos detalhes do quotidiano em beleza pura (como se as máquinas fotográficas fossem uma espécie de varinha mágica). Porque se estivesse um qualquer fotógrafo a vaguear aqui pelo parque, certamente não resistiria (nunca resistem) a fotografar o nosso abraço; e teríamos, então, uma prova deste momento especial em que fizemos o mundo parar; uma prova a que poderíamos regressar mais tarde, as vezes que desejássemos, quando não conseguíssemos acreditar que fora possível sermos tão felizes; e diríamos: foi mesmo verdade, aconteceu. O nosso abraço não seria uma cena de filme nem seria uma pintura; seria melhor: uma fotografia. Sabes porquê? Porque efectivamente a máquina pode ser uma varinha mágica pois existe magia na forma como alguns fotógrafos conseguem captar e fixar sentimentos; afinal não seria por acaso que há muitos, muitos anos uma ou outra pessoa receava ser fotografada porque temia que a fotografia lhe roubasse um pedaço da alma. E será que não rouba mesmo? Irias certamente rir se te dissesse como até desconfio que se calhar rouba, e que se roubar não faz muito mal porque assim poderemos guardar esse pedacinho de vida cuidadosamente; ficaríamos a conhecer o seu aspecto e forma, a sua localização. E não seria isso tranquilizador? Afinal, a fotografia dá substância ao sentimento, de alguma forma materializa-o; e é essa a sua magia.
Vou pensando tudo isto, que são divagações que me bailam pela cabeça e que gostaria de partilhar contigo; mas receio fazê-lo, ainda receio fazê-lo. E se respondesses com desplante e indiferença, com uma qualquer inconveniência? Por exemplo: “Chiça, parece que tens doze anos ou assim.” Ou: “Olha, o que eu queria mesmo era ir foder um bocado.” Poderias dizer algo do género, não poderias?
Por isso, vou permanecendo calada, sentindo o momento, apropriando-me dele e fazendo-o apenas meu, transformando-o em memória; saboreando o abraço, a paragem do mundo, o cheiro a algodão doce. E és tu quem finalmente quebra o silêncio, depois de o abraço se dissipar. Dizes: “Porque não vamos ver um filme? Um daqueles muito palermas em se chora um bocadinho e se sorri muito. Apetece-te?”


Legendas anteriores:
#05: A partir de um desenho de João Concha
#04: A partir de uma fotografia de Julieta Domingos
#03: A partir de uma fotografia de Cátia Biscaia
#02: A partir de uma fotografia de Francisca Moreira
#01: A partir de uma fotografia de Lara Jacinto

Nota fotográfica

Fotografia e literatura. Maravilha... :)
Aqui.

Bilhete de identidade


Estória velhinha (vê-se logo pelo título, que já nem existem bilhetes de identidade), baseada no quadro "Sunlight in a cafeteria", de Edward Hopper.


ELA (um pouco embaraçada): Obrigada. (Pausa breve.) Tu também.
(ELE sorri, com tristeza; ela desvia o olhar.)
ELE (sem a olhar): Tenho feito algum exercício.
ELA (com alguma surpresa, talvez fingida): A sério?
ELE (com displicência): É. (Pausa breve. Apoia as mãos na cadeira, revelando a sua predisposição em prolongar a conversa. ELA, sentada, olha-o momentaneamente e volta a desviar o olhar, talvez incomodada com a imposição da presença dele; aguarda, resignada.) Meti-me num ginásio e comecei a gostar daquilo, nem sei bem porquê. Estar para ali a esforçar o corpo, a apreciar o cansaço e assim, sempre me pareceu uma coisa um bocado estúpida; mas, ao mesmo tempo, é libertador. (Pausa breve.) É esquisito, não sei explicar. Uma espécie de intervalo da vida e da rotina e dos problemas, percebes?
ELA (encolhe os ombros, tentando manter-se imparcial, não revelar desinteresse ou curiosidade): Nunca fui a ginásios. (Mexe distraidamente o jornal que tem à frente, que estava a ler antes de ele a abordar.) Fico-me pela parte do estúpido.
(ELE sorri, desconfortável; vê como ela vira a página do jornal, com enfado; como se estivesse aborrecida; ou desinteressada da sua presença; move-se, denunciando algum nervosismo, apoiando o peso do corpo nas costas da cadeira.)
ELE (num tom de voz velado): Estás à espera de alguém?
(ELA abana a cabeça, sem o olhar; volta outra página do jornal.)
ELE (tentando parecer entusiasmado): Aposto que também vieste tratar do bilhete de identidade. Aquilo ali está complicado, não sei a que horas nos despachamos.
(ELA olha-o durante um momento, talvez preparando-se para dizer algo; mas permanece calada, como se se arrependesse do seu pensamento, da sua intenção.)
 ELE (receoso, quase tímido): É curioso, não é? Estamos divorciados há… quê? Sete meses?
ELA (num tom gélido, traindo a sua pretensão de desinteresse): Nove.
ELE (ignorando a frieza dela): Nove meses. E escolhemos precisamente o mesmo dia para vir mudar o estado civil, no bilhete de identidade. (Pausa breve.) Como se tivéssemos combinado.
(Olham-se em silêncio, embaraçados e tímidos.)
ELE (um pouco ansioso): Posso sentar-me aqui?
(ELA encolhe os ombros. ELE hesita durante alguns segundos; depois, arrasta a cadeira e senta-se. Permanecem em silêncio, sem se olharem. Pouco depois, aproxima-se um funcionário do café; olha-os em silêncio, simultaneamente expectante e desinteressado.)
ELE (dirigindo-se ao funcionário): Uma torrada e um sumo de maçã, se faz favor.
(O funcionário olha a mulher, que acaba por abanar a cabeça. Afasta-se, em passos lentos e arrastados.)
ELA (após um longo silêncio; tom seco, como se se obrigasse a falar): Ginásios e torradas. Tens mesmo uma vida nova. (Pausa breve.) E que mais mudou, nestes nove meses?
ELE (num tom baixo e hesitante, envergonhado): Já não estou com ela.
(ELA olha-o, surpreendida; esboça um breve sorriso de surpresa e incredulidade. ELE evita o seu olhar.)
ELA (também num tom mais baixo, apreensivo): Já não estás com ela?
(ELE abana a cabeça, lentamente, com desânimo; ou talvez vergonha. Ouve-se um estrondo inesperado, talvez devido à queda de um copo; mas ambos mantêm os olhares fixos e absortos, indiferentes.)
ELA (num tom simultaneamente embaraçado e curioso): Quanto tempo viveram juntos, afinal?
ELE (após um longo silêncio): Umas semanas, não sei bem quantas. (Pausa breve.) Nove ou dez, talvez. Ou menos.
ELA (tentando dominar uma súbita indignação, um prenúncio de fúria): Só? (Pausa breve.) Mas porquê? (Pausa breve.) Porquê?
ELE (hesitante): Suponho que nos cansámos. (Pausa breve.) Que me cansei.
(O funcionário surge, de súbito, junto da mesa, surpreendendo-os a ambos. Pousa a torrada e o sumo em frente do homem, com gestos vagarosos, descuidados, e fica a olhá-los, durante alguns instantes; depois afasta-se. Num gesto automático, talvez inconsciente, o homem pega um pedaço de torrada, que tem um aspecto seco e queimado, e dá uma dentada; engole com dificuldade e pousa o pedaço que tinha na mão. A mulher tem estado a olhá-lo, fixamente, acusadora e expectante.)
ELA (irritada e incrédula): Cansaste-te?
(ELE encolhe os ombros, embaraçado. Permanecem em silêncio, afastados e distantes, desconfortáveis.)
ELA (muito tempo mais tarde, quase num murmúrio): Cansaste-te. (E, de súbito ri; uma gargalhada breve e explosiva, ansiosa, libertadora.)
(ELE olha-a e sorri, com tristeza. Bebe um gole de sumo. Volta a pegar um pedaço de torrada, que logo pousa.)
ELA (olhando a chávena de chá que tem à sua frente, vazia.) Acho que vou ver como está a fila. (Não se move, como se pretendesse que ele a contrariasse, impedisse a sua partida.) Mas a manhã já está perdida. (Começa a dobrar o jornal.)
(De súbito, a mulher levanta-se, desajeitada e impulsivamente. ELE fica a olhá-la, vendo-a afastar-se em direcção ao balcão do café; paga, pergunta qualquer coisa ao funcionário, que primeiro encolhe os ombros e depois abana a cabeça. Depois, regressa à mesa. Olham-se durante um instante, desconfortáveis. Ele permanece sentado, ela de pé. Como se estivessem ansiosos por se despedirem mas não quisessem tomar a iniciativa; ou como se, secretamente, não se quisessem despedir mas temessem que o outro o percebesse.)
ELE (num tom sonhador, sem a olhar): Estava a olhar para ti e a pensar que… sei lá. (Pausa breve.) A pensar disparates.
(ELE olha-a, como se procurasse um incentivo a continuar; ELA, contudo, mantém-se rígida e inexpressiva.)
ELE (tímido e inseguro): Não sei. Acho que se não nos conhecêssemos e estivéssemos os dois aqui ao mesmo tempo, neste café. (Pausa breve.) Assim como estamos mas cada um sentado na sua mesa, cada um distraído com os seus problemas e pensamentos, sem nada a unir-nos. Sem um passado comum. Percebes? Perfeitamente desconhecidos e anónimos.  
(ELA agora olha-o, curiosa.)
ELE (hesitante): Se isso acontecesse. (Pausa breve.) Acho que não conseguiria tirar os olhos de ti. (Pausa longa.) Acho que acabaria por me levantar e meter conversa. Tentar.
(ELA sorri, contrariada. Depois, arruma a cadeira a que está apoiada, a mesma onde antes estivera sentada. Olha-o, em silêncio.)
ELA (num tom provocatório, quase amigável): E eu talvez correspondesse ao teu interesse. (Pausa breve.) Mas depois, eventualmente, acabavas por te cansar. (Sorri.) Outra vez.
(ELE encolhe-se quase imperceptivelmente, como se tivesse sido atingido por um golpe traiçoeiro, como se estivesse a ser atacado.)
ELA (quase jovial): Vou andando. (Olham-se, embaraçados e constrangidos; ELA hesita durante um instante; depois, avança um passo.) Gostei de te ver.
(ELA caminha com alguma ansiedade, subitamente apressada; passa mesmo junto dele, quase o tocando.)