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Para variar, um texto político

Não é tempo para lamúrias e lutos e queixas e fugas; é tempo para revoluções. E não podemos levar de novo cinquenta anos a fazer uma revolução. Não pode ser, não é uma opção; porque dentro de cinquenta anos já não existirá nada por que valha a pena lutar. Temos que começar agora, e já vamos atrasados. Afinal, uma revolução até é simples de se fazer; basta começar por dizer “não”. Dizer “não”, e depois gritar “não”; ir repetindo e gritando, sempre “não”, e acreditar que se muitos dissermos “não”, será mesmo “não”. É quanto basta para começar uma revolução. E há que começar já, porque estamos fartos.
Estamos fartos de quem nos rouba a esperança, estamos fartos de ter medo e de fugir e de recear o futuro, estamos fartos de estar quietos, estamos fartos de egoísmos e de gente que vai andando com as vidinhas às costas sem olhar para o mundo que ao lado se desmorona, estamos fartos de nos acomodarmos, estamos fartos de mercados e raitings e troikas e juros e merkels e privatizações e neoliberais e aumentos de impostos, estamos fartos de ser tratados como imbecis, estamos fartos de gatunagens e humilhações, estamos fartos de quem diz que direita e esquerda é a mesma coisa, estamos fartos de fado e tourada e futebol e de todas as outras distracções de regime, estamos fartos de jotas, estamos fartos de sofrer porque não sabemos o que vai ser dos nossos filhos, estamos fartos que nos digam que não vale a pena lutar e protestar e recusar, estamos fartos de quem nos quer ver transformados num povo de burros e atrasadinhos e resignados e subservientes, estamos fartos de pobreza e miséria e de quem diz que esse é o nosso destino inevitável, estamos fartos de passados gloriosos e história e saudosismo e de dão sebastiões, estamos fartos de quem nos quer fazer acreditar que ter um emprego é um privilégio e um luxo, estamos fartos de já não conseguirmos arranjar motivos para rir, estamos fartos que dêem cabo dos serviços públicos de educação e saúde e televisão e dos outros todos, estamos fartos de não ter dinheiro para a gasolina, estamos fartos da ausência de ética e de solidariedade das elites, estamos fartos de comentadores e economistas e de todos os outros que nos negam o direito de acreditar em utopias, estamos fartos de não nos sentirmos livres, estamos fartos de quem tem medo da palavra revolução, estamos fartos de ser fodidos dia após dia após dia.
Estamos fartos. Ou não, será que estaremos? Quem se calar talvez ainda não esteja, talvez aguente mais um bocado; que aguente, então. Mas quem estiver farto que diga “não”, que grite “não”, que escreva “não”. Que acredite que cada “não” dito, gritado ou escrito faz alguma diferença e que é à junção solidária de tantos “nãos” que se chama revolução.
Agora, as ruas irão encher-se de gente, alguma silenciosa e outra que dirá “não”. Por lá andarão, certamente, muitos dos 4035539 cidadãos portugueses que nas últimas legislativas não se deram ao trabalho de votar, por certamente estarem ocupados com coisa bem mais importante; por lá andarão muitos dos 793508 cidadãos portugueses que, como eu, votaram num partido de esquerda; por lá andarão muitos dos 1568168 cidadãos portugueses que votaram no PS, que não sendo bem de direita, de esquerda certamente não será; por lá andarão muitos dos 413189 cidadãos portugueses que votaram num daqueles partidos de que nem sabemos bem o significado da sigla mas que são tão importantes como todos os outros; por lá andarão alguns dos 2813729 cidadãos portugueses que votaram nos partidos do governo e entretanto se arrependeram. Por lá andaremos muitos de nós; e a revolução começará assim: dizendo “não”.
 
(15 de Setembro de 2012)

A escada


(A partir do quadro “Jacob’s dream”, de Marc Chagall)

Havia um menino que perdera a sua mãe quando era muito pequeno, o que o deixava muito infeliz. Mas as pessoas faziam-lhe festinhas no cabelo ou davam-lhe pancadinhas no braço e diziam: não fiques triste porque a tua mãe está no céu. O menino ouvia toda aquela conversa sobre céu (que parece que é o lugar para onde vão as mães que já não podem viver nas suas casas) e ficava pensativo; e tanto pensou que, devagarinho, foi-lhe surgindo uma ideia: talvez pudesse construir uma escada gigante; e depois, subiria por ela, até chegar ao céu; procuraria a mãe (por entre as nuvens, por trás das estrelas?) e dir-lhe-ia: mamã, volta para casa que tenho saudades tuas. E desceriam os dois pela escada, de mão dada.
Sim, parecia-lhe uma boa ideia.

Começou a construção numa tarde de Verão, fresquinha e muito azul; o jardim estava tranquilo (havia apenas uns pássaros a passear por ali, preguiçosos), parecia que o mundo parara para descansar um pouco. Foi construindo e construindo, degrau após degrau; por vezes, parava para descansar e perguntava a si próprio se o céu ficaria muito longe; olhava as nuvens que passavam devagarinho e pensava em aviões (cheios de mães) que subiam sempre e nunca desciam. Depois, suspirava ruidosamente e regressava ao trabalho.
Decidiu fazer um intervalo quando terminou o sétimo degrau. E nesse dia não regressou ao jardim (adormeceu no sofá, depois do lanche); mas à noite, antes de dormir, fez umas contas; como só sabia contar até novecentos e noventa e nove (desconfiava que os números acabavam aí), imaginou que esse seria o número de degraus que teria de construir para chegar até ao céu; quis saber quantos ainda lhe faltariam, uma vez que já fizera sete: mas, infelizmente, ainda não aprendera a fazer contas de tirar.
Adormeceu triste, pensando que talvez não visse a mãe antes do fim do Verão.

O menino construía alguns degraus todos os dias e a escada ia crescendo, um pouco torta mas bem firme. Entretanto, o Verão acabou e teve de regressar à escola (a nova professora tinha umas tranças muito compridas que apetecia mesmo puxar e oferecia gomas aos meninos que tinham bolinha azul no comportamento; mas não ensinava contas de tirar). O pai encontrou uma namorada e voltou a sorrir. E a mãe continuava à sua espera, lá no céu (talvez um pouco triste com a demora).
Até que, certo dia, a escada chegou à Lua (degrau número novecentos e catorze). O menino sentou-se numa rocha e pôs-se a olhar para a Terra, um pouquinho triste e desanimado, enquanto imaginava o que faria quando finalmente reencontrasse a mãe.
Então, aconteceu a desgraça. Pensou e pensou e pensou: mas não conseguiu recordar como era o rosto da mãe; a verdade é que andara tão distraído com a construção da escada que até se esquecera de pensar na mãe. Como estava na Lua, sozinho e longe de toda a gente, não teve vergonha de chorar.

Nos dias seguintes, não lhe apeteceu trabalhar na construção da escada. Deixou-se andar pelo jardim (era de novo Verão e havia alguns pássaros a passear por ali, preguiçosos; seriam os mesmos?), irritado consigo próprio. Mas de repente, enquanto dava pontapés nas folhas caídas pela relva, recordou o som do riso da sua mãe; depois, logo depois, o cheiro das suas mãos. Parou para se sentar, fechou os olhos com força: e durante um momento muito pequenino, enquanto saboreava aquelas duas recordações preciosas, pareceu que ela estava mesmo ali, junto de si.
Abriu os olhos e tentou pensar com mais força, com mais desespero, lembrar-se de tudo, mesmo de tudo. E as recordações começaram a surgir, devagarinho, umas após outras (como degraus de uma escada).
Ia anoitecendo. Havia nuvens brancas a passear no céu e o cheiro distante de flores no ar (mas onde estariam as abelhas?); os passarinhos ainda cantavam, tentando vencer o silêncio. E o menino, sentado num canto do seu jardim, começava a acreditar que o enganavam quando diziam que a mãe estava no céu; começava a acreditar que a sua mãe estaria, na verdade, junto de si; dentro de si. Como se fosse parte de si.
E sorria, olhando para a Lua que acabara de aparecer. Pensando: o céu da minha mãe está aqui, sou eu.

Um anjo doente



(Um conto antigo, retirado de um dos livros; baseia-se num quadro de Tamara de Lempicka.)

Chego demasiado cedo. Irei arrepender-me, claro.
Olho o teu rosto. E tento não pensar, não sentir, não desejar; apenas saciar-me de ti, amar-te através da contemplação; partilhar da tua beleza, da tua tranquilidade, da tua paz. Respiras devagarinho, não te moves; e o tempo passa por ti, esvai-se, indiferente aos ruídos, aos soluços do mundo. Estamos sós, juntos por um momento que não vai durar o suficiente. Procuro na tua face os pequenos segredos que descobri, um dia, noutra vida, que fui aprendendo a amar; e encontro-os, um a um, intactos: à minha espera. É como se fosse – agora, finalmente – tomando posse de ti, apropriando-me do teu corpo, devassando-te. Até que deixes de ser quem és, transformando-te em alguém diferente, alguém que permanecerá comigo, junto de mim, dentro de mim, parte de mim.
Agora, que estás finalmente aqui, à distância de um toque, serena e indefesa, não sei que te dizer. Já saboreei cada molécula do teu rosto (e quase consegui sentir o sabor da tua carne, a textura da tua pele, o aroma da tua presença). Sinto-me impotente, desajeitado, incrédulo. Tudo o que posso fazer é aceitar que não voltaremos a estar tão próximos como neste momento; e suportar a dor de não te poder envolver com os meus braços e serenar com a minha presença o receio que sentirás dentro de momentos, quando souberes, quando perceberes.
Vigio o teu sono. Olho-te. Aguardo. Fantasio.
Gostava de formar – de ter formado – contigo uma daquelas duplas de amantes que conseguem extrair da simples presença (ou, mesmo, da simples existência) do outro a energia e o vigor necessários para enfrentar as adversidades da sua mortalidade, os limites do seu corpo, os pavores da sua alma. Por exemplo: gostava de ser o marido que percorre os corredores desertos do hospital, esperando, receando, imaginando que nada pode correr bem e que tudo correrá mal, sentando-se e erguendo-se logo depois para caminhar um pouco, olhando as paredes (talvez brancas, talvez beges), contando as fendas provocadas pelos anos de uso, lendo letra a letra os cartazes publicitários das companhias farmacêuticas, sentando-se e erguendo-se para caminhar mais um pouco, sentindo o coração parar sempre que uma enfermeira se aproxima, fazendo promessas secretas. Sim, gostava de sofrer por ti: e transformar as tuas dores nos meus sofrimentos, os meus sofrimentos nos teus risos.
Mas nem sofrer me é permitido, nada me é permitido além de planar pelos céus desertos, assombrar quartos de hospital, desejar o corpo de mulheres moribundas: sou um simples anjo. Um anjo doente: um anjo que sente.
E tu estás a morrer: venho receber-te.

O teu marido, o teu verdadeiro marido, está lá fora, para além desta parede branca (ou será bege?). Percorre os corredores desertos do hospital, esperando, receando, imaginando que nada pode correr bem e que tudo correrá mal, sentando-se e erguendo-se logo depois para caminhar um pouco, olhando as paredes, contando as fendas provocadas pelos anos de uso, lendo letra a letra os cartazes publicitários das companhias farmacêuticas, sentando-se e erguendo-se para caminhar mais um pouco, sentindo o coração parar sempre que uma enfermeira se aproxima, fazendo promessas secretas. Sofrendo. Implorando. Cedendo à tentação de desistir, de desacreditar. Talvez intuindo a verdade: já não estás no quarto cuja porta ele espreita sofregamente a cada dez segundos que passam, onde se despediu de ti, onde te beijou a testa, o ombro, o cabelo, a face; onde repetiu os gestos rotineiros que sempre me foram, sempre me serão, interditos. Talvez já tenha adivinhado que estás aqui, comigo: nos meus braços. A caminho da tua eternidade.
Avançamos devagar, sem pressa nem vontade; empurrados. A noite está escura, sem estrelas, sem mistério nem esperança, opaca, vazia; não nos acolhe: suporta-nos, simplesmente. Sinto-me cansado; penso: teria frio, se pudesse senti-lo. Apresso-me: não quero estar junto de ti, ter-te nos braços, quando acordares e descobrires que morreste.
Sou o anjo que transporta, apenas.

Legenda # 07: Parem e gostem

(Escrito a partir de uma fotografia de Rute Violante)

01.
Quem visse o velho pensaria que estava simplesmente à espera que a morte chegasse; mas a verdade é que ninguém olhava, as pessoas continuavam a passar – apressadas, sempre muito apressadas – e nunca olhavam, como se estivessem demasiado ocupadas com os seus problemas e pressas para repararem na morte de alguém. Afinal, se reparassem no velho e pensassem que estava à espera da morte, iriam afirmar, displicentes e um pouco arrogantes, que todos estamos à espera da chegada da morte, que é esse o propósito da vida: prepararmo-nos para morrer; diriam, também, que os velhos têm bastante mais sorte do que todos os outros porque estão melhor preparados, tiveram mais tempo para se preparar. Sim, as pessoas que passavam poderiam dizer algo do género: e nem estariam a tentar ser irónicas; di-lo-iam sem se interromperem ou se desviarem do seu trajecto, sempre em andamento, porque parar é morrer e a ironia é só para quem tempo.
Portanto, lá estava o velho sentado a uma das mesas do parque. Era aí que passava as suas manhãs, com o riozinho a deslizar por trás e as folhas de árvore amarelecidas a caírem em seu redor, como se fossem flocos de neve defeituosos que nenhuma criança quisesse pegar. O facto de escolher uma mesa, e não um dos banquinhos de jardim onde todos os outros velhos se sentavam, era peculiar; uma mesa de piquenique, habituada a reunir famílias sorridentes e tagarelas e não a servir de sala de espera de casa mortuária, de antecâmara de cemitério; porque a escolheria ele? Talvez fosse, simplesmente, um convite lançado ao mundo, um desafio a quem passava; uma mesa é quase sempre um objecto social, supõe-se que seja usada para fazer algo com outra pessoa, que implique e proporcione uma partilha, que aproxime e una. O que significaria que o velho ainda não estava decidido a ceder, que ainda lutava e resistia, que até poderia estar atrasado para o seu próprio funeral mas não se resignava, não renunciava à vida (ou seja: era teimoso); a escolha da mesa seria, portanto, um simples pedido de companhia – como quem coloca uma mensagem no facebook: parem e gostem. Poder-se-ia, por outro lado, pensar que o velho, antes de ser velho, tivesse feito naquela mesma mesa muitos piqueniques com a sua família sorridente e tagarela, uma família que entretanto fora sorrir e tagarelar para outro lado qualquer, deixando-o só com as suas memórias e reminiscências, com a sua espera resignada; estaria, então, ele a despedir-se da sua vida, regressando a um local onde fora feliz? Já se sabe, os velhos vão para o parque porque têm medo de morrer em casa, sozinhos; mas esquecem que há algo mais triste do que morrer na solidão completa, que é morrer no meio da indiferença e apatia e desinteresse de uma multidão, entre a gente que passa e nem olha. Esquecem que muito pior do que a solidão completa é a solidão acompanhada; ou talvez não esqueçam, talvez queiram apenas experimentar uma solidão diferente, para variar.
Fosse qual fosse o motivo, lá continuava manhã após manhã, silencioso e apático, imóvel, quase morto. Talvez pensasse: “que triste é ser apenas parte do cenário.” E se tivesse um neto ali a jeito, fazendo-lhe companhia, talvez lhe dissesse num tom conformado: “todos gostaríamos de ser protagonistas de qualquer coisa mas durante a maior parte do tempo somos um simples pormenor no cenário, um detalhe em que os verdadeiros protagonistas nem sequer reparam.” E o neto, desatento e desinteressado, perguntaria: “quê?” Mas como não havia nenhum neto por perto, permanecia calado. Havia pessoas a passar, mais mulheres do que homens, caminhando com rapidez e destreza, com elegância, um pouco tensas e ansiosas, como se temessem que os empregos lhes fugissem; ou que a própria vida lhes fugisse, que estivesse lá mais à frente, já à saída do parque, e fosse imperativo apanhá-la antes que fosse demasiado tarde; pessoas com receio de estarem atrasadas em relação à sua própria vida. Dentro de algum tempo os escritórios e as repartições e as lojas estariam a abarrotar de funcionários e assistentes e auxiliares, não haveria mais ninguém a atravessar o parque (era estranho mas ninguém passeava naquele parque) até que fosse hora de almoço e todos regressassem, fazendo o percurso inverso. E durante todo esse tempo, o velho ali estaria; sozinho e à espera.
Ou talvez não. Na verdade, nunca estava verdadeiramente sozinho quando se encontrava no parque; acompanhava-o a natureza. Porque o velho sentia uma enorme empatia com a natureza que o rodeava e envolvia, com as árvores e as folhas amarelas pisadas e os passaritos esvoaçantes, com o riacho e o céu distante e o cheiro a verde misturado com o cheiro a cinzento,  com as formigas que transportavam pedaços de casca de árvore, com o sopro do vento e as minúsculas ilhas de relva que contrariavam a supremacia descolorida do outono, com a neblina que costumava desaparecer por volta das dez menos um quarto, com as manchas de humidade da chuva, com o cheiro ténue das árvores e que sempre o remetia para a infância. A natureza também nunca protagonizava nada, também era forçada a cumprir função de simples cenário; e o velho identificava-se com isso. Claro que, por vezes, invejava a natureza: afinal, todos os homens – mesmo os protagonistas; especialmente os protagonistas – acabariam por desaparecer, por serem esquecidos; mas a natureza, mesmo sendo mero cenário, permaneceria, renovando-se eternamente. Claro que o velho, apesar de solitário e silencioso, não era imbecil: sabia muito bem como era absurdo sentir inveja da natureza; e dizia a si próprio que tais pensamentos – na verdade, todos os seus pensamentos – serviam apenas para passar o tempo.
E a verdade é que ele lá ia passando, o tempo.

02.
O que aconteceu foi isto: ontem, estava o velho sentado à mesa de piquenique a observar como a suave brisa arrumava em montinhos as folhas de árvore espalhados pelo chão, com aparente arbitrariedade e displicência – pensando distraidamente: se deus existisse, seria uma espécie de vento; nada mais que isso, apenas vento –, quando uma mulher, apressada e absorta como todas as outras, se desviou inesperadamente do seu trajecto habitual e se aproximou do velho; mas não só: sorriu-lhe; mas não só: falou-lhe. Ou seja: algo inopinado e totalmente novo acabara de acontecer. Uma protagonista reparara no cenário, interagira com o cenário; e o cenário ficou surpreendido, sem saber como reagir. Poderia apenas ter sorrido mas não se lembrou disso; olhou-a, simplesmente, à espera. Ela disse: “raio de tempo.” E logo depois: “olhe, não me arranja um cigarrinho?” O velho não fumava há trinta anos; mas, naquele momento, arrependeu-se profundamente de ter deixado de fumar; se não o tivesse feito, teria o habitual maço de cigarros no bolso do casaco, junto ao coração; e não só lhe daria um cigarro como lho acenderia com o seu próprio isqueiro, ficaria a vê-la soprar a primeira nuvem de fumo.
Abanou a cabeça e baixou o olhar; poderia também ter encolhido os ombros mas pareceu-lhe que isso seria excessivo. Ela percebeu e sorriu, disse: “é pena.” E depois: “há quanto tempo deixou de fumar?” E ele respondeu, apenas um pouco surpreendido com a pergunta: “trinta anos.” “Chiça,” disse ela, “ainda eu nem tinha nascido.” E ficaram a olhar um para o outro. Durante um breve instante, o velho pensou que ela poderia sentar-se e ficar ali a conversar durante um bocado, a ouvi-lo recordar como eram os cigarros de há trinta anos; pensou como seria revigorante senti-la momentaneamente interessada em si, nas suas palavras e nas suas histórias, na sua existência de cenário. Seria ainda capaz de provocar o riso de uma mulher jovem e bonita? Já nem se lembrava da última vez em que isso acontecera, em que isso fora possível. Mas se conseguisse, de que serviria isso? De que serve o riso de uma mulher jovem e bonita a um velho decadente e solitário? Na verdade, pensou o velho, o riso existente no mundo é limitado, escasso, precioso; para que alguém ria, outra pessoa terá que ficar triste, é necessário que ocorra uma transferência de sentimento; apenas os ingénuos ou os idiotas acreditam que o riso surge do nada, do vazio, como se fosse algo miraculoso; ou pior, que é contagioso, que se reproduz e multiplica indefinidamente. Não: até o riso é ciência. O velho sabe que o riso tem sempre um preço, sabe que a única forma de fazer aquela mulher rir seria abdicar do seu próprio riso, oferecendo-lho; ou seja: ficar mais triste. Sabia isso e, ainda assim, estava disposto a fazê-lo, gostaria de o fazer: oferecer-lhe riso, já que não tinha cigarros para lhe dar. Mas não sabia como, já não se lembrava como se fazia. Ou pior: talvez já não possuísse riso em si.
É possível – improvável mas possível – que a mulher tenha sentido uma momentânea tentação de suspender a sua rotina, de interromper a previsibilidade do seu dia, e ficar por ali durante alguns minutos, acompanhando aquele velho solitário na sua mesa rodeada de folhas amarelas. Perguntar-lhe como eram os cigarros de há trinta anos, por exemplo; podia perguntar-lhe isso. E talvez ele se tornasse falador, talvez desviasse o olhar do chão. Custava-lhe muito que um velho olhasse para o chão pois parecia-lhe que quando isso acontecia o velho estava, afinal, a espreitar o seu próprio futuro e a conformar-se com a iminência do seu destino próximo, que era ser enterrado na terra e apodrecer devagarinho. Os velhos deviam olhar para o céu e não para o chão, era o que ela pensava; olhar para o céu e pisar a terra com força, caminhando em frente. E se o velho falasse sobre os cigarros de há trinta anos talvez se entusiasmasse um pouco e desviasse o olhar do seu destino, esquecendo-o. O problema é que estava atrasada; atrasada e a precisar de um cigarro. Por isso, disse: “bom, trinta anos é mesmo muito tempo.” E afastou-se, depois de lhe acenar – um aceno de garotinha, na verdade –, retomando o seu caminho, conformando-se ao seu destino.
O velho ficou a vê-la afastar-se, desaparecendo ao longe entre as outras pessoas que atravessavam o parque; subitamente, perguntou-se há quanto tempo já não tinha um pensamento de natureza sexual e, logo de seguida, perguntou-se porque diabo estaria a pensar tal coisa. E então sorriu, lembrou-se de sorrir; era o que deveria ter feito de imediato, mal a mulher se aproximara, mas só agora se lembrava de o fazer. Sorriu. Não fazia mal, pensou; sempre fora um defeito seu, sorrir demasiado tarde. De qualquer forma, percebeu que ainda conseguia sorrir. E é sempre espantoso, quando o cenário percebe que pode sorrir.

03.
Por vezes, quando está em casa, sozinho e rodeado de silêncio, a olhar para as paredes que já foram brancas, o velho pensa no parque e sente saudades do amarelo das folhas, do amarelo pelo ar e do amarelo pelo chão, do amarelo everywhere; sente saudades de muito, de tudo, mas especialmente do amarelo; lembra-se do murmúrio do riozito, do cheiro do ar livre que é tão diferente do cheiro do ar do seu quarto, da suavidade da madeira molhada da mesa de piquenique quando lhe toca com a ponta dos dedos. Pensa no parque sem pessoas nem movimento, pacífico e acolhedor, convidativo; como se fosse um cenário pronto a ser usado. Quase consegue visualizar o parque como se fosse uma pintura, que depois pendura no cinzento das suas paredes e para onde olha como se olha para uma janela, através de uma janela. Olha para o cinzento que já foi branco pensando em amarelo e quase consegue ouvir o rumor do rio, aquele som quase imperceptível que fazem os peixitos quando se agitam na água; e também a melodia repetitiva dos pássaros, cantando para nada, apenas porque sim. Quase consegue ouvir.

04.
Hoje o velho traz um maço de cigarros e dois isqueiros; comprou tudo logo pela manhã, na tabacaria da esquina, custando-lhe o devaneio o equivalente a três semanas de euromilhões; teve que aguardar mais de meia hora pela abertura da tabacaria e quase desistiu. Senta-se no sítio do costume e espera; não lhe custa muito esperar porque isso é, afinal, aquilo que os velhos melhor fazem, a vida serviu-lhe para pouco mais do que ensinar a esperar. Mas sente uma dor na perna e isso é algo desconcertante: essa não é uma dor comum e, portanto, não tem remédios para ela; terá que ir ao centro de saúde, e depois à farmácia. Não é mais uma dor que o incomodará demasiado mas sente-se um pouco aborrecido, descobrir uma dor nova é sempre irritante; há dores tão antigas e persistentes que se habituou a elas, são uma espécie de companhia, de distracção, de entretenimento. E as novas dores, quando chegam de surpresa, vêm distraí-lo um pouco dessa distracção. Esta coisa nova na perna, que apareceu durante a noite, parece não ser algo passageiro ou pontual; vem para ficar e, portanto, terá mesmo que ir passeá-la ao centro de saúde. Pior do que ter que suportar as dores é não ter ninguém com quem falar sobre elas; de que serve sentir dor se não nos podemos queixar dela a alguém que se interesse, se não a podemos usar para obter atenção e ternura dos outros? Afinal, a doença não servirá apenas para isso? Para nos colocar momentaneamente no centro do mundo? Irá portanto ao centro de saúde.
Pensa: “foda-se, que envelhecer é tão triste.” E, incapaz de não o fazer, vai pensando nas perdas que foi acumulando; tenta recordar a última vez em que correu numa praia, a última vez em que andou de bicicleta e a última vez em que teve uma erecção, a última vez em que dançou, em que abraçou e levantou uma mulher no ar, a última vez em que alguém lhe deu um aperto de mão e isso não fez estalar os ossos e a última vez em que se penteou sem que o cabelo se acumulasse no pente, a última vez em que dormiu uma noite inteira sem sentir qualquer dor, qualquer incómodo físico, em que simplesmente dormiu; e enquanto pensa em tudo isso olha para o chão, seguindo os avanços insistentes e resolutos de um par de formigas. E é quando observa as formigas que se lembra, inesperadamente, do dia em que atirou uma caixa de preservativos para o lixo porque teve a certeza absoluta que nunca mais iria precisar deles. Sabe – mas quer esquecer – que o corpo, na verdade, só é verdadeiramente sentido e percepcionado, só é verdadeiramente consciencializado, em dois momentos antagónicos: na dor e no prazer. Para além disso, o corpo de nada serve, é apenas cenário; envelhecer será pouco mais do que um processo lento e inexorável de diminuição dos momentos em que o corpo proporciona prazer e aumento dos momentos em que proporciona dor; a lenta e irreversível transformação de corpo em dor.
Tenta distrair-se, esquecer os preservativos desnecessários. E olha em frente porque só daí poderá chegar verdadeira distracção; vê a gente do costume desfilar, sempre apressada e absorta, triste e cansada logo pela manhã; tem um pensamento inesperado, algo absurdo, que o entretém enquanto repara na infinidade de tons de cinzento com que se pode descolorir a roupa: de toda aquela gente talvez seja ele que esteja mais próximo da morte mas quem sabe se não será, afinal, ele o que está mais vivo; porque as pessoas parecem tão anestesiadas pelas preocupações e pelas necessidades, pela angústia de ter e ser e parecer, que talvez nem estejam verdadeiramente vivas. Mas logo depois percebe que este é apenas mais um pensamento invejoso e rancoroso, uma idiotice. E ele sabe que também nisto funciona a lei das compensações, tal como nos risos: por cada capacidade que se perde, adquire-se um pensamento rancoroso. Morrer é, também, uma espécie de rancor definitivo: perdeu-se tudo, ficou apenas um ressentimento absoluto e permanente.
Os minutos vão passando e a mulher não aparece. A velhice é um estado triste não apenas porque o corpo vai avariando mas também porque a fronteira entre bom senso e insanidade vai tornando-se muito ténue; e se lhe tivesse dado para comprar uma caixa de preservativos, em vez do maço de cigarros? Sorri com a parvoíce da ideia, e sabe-lhe bem sorrir. Seria estranho andar por aí com uma caixa de preservativos no bolso; e se lhe desse um ataque no meio da rua? Os tipos da ambulância iriam fartar-se de rir quando encontrassem a embalagem intacta, novinha; talvez até ficassem com ela, e se assim fosse nem tudo se perderia. Vai observando as folhas amareladas caídas no chão, para se distrair das pessoas que passam, também para tentar recordar quando foi a última vez que o seu corpo foi fonte de prazer. São bonitas, as folhas; quase apetece apanhá-las e guardá-las num livro, uma a uma, cuidadosamente, como antes faziam as raparigas que gostavam de poemas. Mas apesar da beleza das folhas o distrair um pouco, a pergunta que lhe baila pela cabeça é esta: porque se apaixonam as pessoas? É uma triste pergunta para um velho fazer a si próprio. Contudo, é a pergunta que não o abandona, desde que aquela mulher desconhecida se desviou do seu caminho para lhe sorrir e pedir um cigarro. Ele não tinha o cigarro e sorrira tarde de mais; perdera uma oportunidade e, agora, pensava em questões absurdas, que é o que sempre faz quem perde oportunidades.
Entretanto, o tempo vai avançando; há agora menos pessoas a passarem, as folhas continuam a cair das árvores por motivo nenhum, além dos óbvios: serem arrastadas pelo vento e pisadas por alguém, uma e outra vez. Pessoas que pisam folhas de árvore, pensa o velho, são pessoas desatentas e desdenhosas, indiferentes à beleza, à delicadeza, à efemeridade; é como se pisassem a própria essência da vida. É também por isso que, antes, as raparigas guardavam as folhas em cadernos: era como se estivessem a guardar pedaços de vida ou, pelo menos, símbolos de vida. Continua a olhar para as folhas mas não por motivos filosóficos, cansou-se de filosofias ainda antes de deixar de fumar; olha, simplesmente, porque receia espreitar as pessoas que passam, receia reconhecer entre elas a mulher e perceber que ela não vai parar para lhe falar, que não vai sequer olhar. Sabe que é isso que irá acontecer, que irá ser irremediavelmente devolvido ao seu destino de cenário; ainda assim, apetece-lhe acreditar que não. Apetece-lhe fantasiar, que é algo que os velhos também se vão desabituando de fazer, porque a fantasia é uma forma de sonho e os velhos têm medo de sonhar, sabem melhor do que ninguém que sonhar pode ser muito perigoso. Desabituou-se mas não esqueceu por completo como se faz; e por isso fantasia, rodeado por folhas amarelas e pelo vazio da natureza. Se ela vier, a primeira coisa que perguntará será o seu nome. Sempre resultara, noutros tempos; perguntar o nome e sorrir logo de seguida ou mesmo em simultâneo, não poderia esquecer-se de sorrir. E depois de elogiar o nome dela, fosse ele qual fosse, diria: “eu sou o Afonso.”
Chama-se Afonso, o velho. 

Legendas anteriores:
#06: A partir de uma fotografia de Sofia Mota
#05: A partir de um desenho de João Concha
#04: A partir de uma fotografia de Julieta Domingos
#03: A partir de uma fotografia de Cátia Biscaia
#02: A partir de uma fotografia de Francisca Moreira
#01: A partir de uma fotografia de Lara Jacinto

Sorrisos de manhã de domingo


(Uma velha estória, há muito esquecida e agora reencontrada; é uma interpretação de um dos meus quadros favoritos: Morning Sun, de Edward Hopper.) 


Agora, faço isto todas as manhãs: sento-me na cama e olho pela janela. Olho, simplesmente: à espera que o tempo passe, à espera que um sonho ou uma esperança ou uma oportunidade entre pela janela e me invada o corpo e a alma, trazendo consigo algum entusiasmo, algum prazer por estar viva e ter vida pela frente; qualquer coisa. Fico assim durante alguns minutos, enfrentando a luz do sol; olho, também, o céu, procurando no seu azul, nos seus múltiplos e indefinidos tons de azul, uma distracção do cinzento deste quarto, do cinzento da minha vida, do cinzento do meu futuro (e quando o cinzento da minha vida se mistura com o cinzento do céu sinto-me estranhamente acompanhada, menos só.) Depois, inevitavelmente, resigno-me: sei que nada acontecerá, que ninguém virá. E desisto; visto-me muito devagarinho concentrando-me em cada detalhe da roupa, da maquilhagem, dos acessórios, da escolha dos sapatos e do perfume; depois, devidamente camuflada, saio e enfrento o mundo; ou melhor: escondo-me do mundo, no mundo.
Mas são importantes, estes momentos: recordam-me como estou só; e, algo perfidamente, dão-me alento: porque é impossível piorar, é impossível ser mais infeliz, ou permanecer assim infeliz para sempre.

Por vezes, quando as fantasias nocturnas não se dissipam tão velozmente como deveriam, dou por mim a tocar-me, a acariciar-me, a confortar-me. Toco-me, para me sentir menos desprotegida, esforçando-me por acreditar que não estou só, que sou alguém; acompanho-me. Toco-me, também, para acalmar o corpo, para o serenar, para o saciar. Para o distrair.
Descobri na masturbação uma forma cruel mas eficaz de protecção; quando acalmo e anestesio o corpo com o prazer que eu própria lhe proporciono, deixo de sentir necessidade de sair deste quarto e partir em busca de alguém, de um qualquer homem anónimo, sem rosto nem nome, sem pretensões nem diálogos nem futuro, que me acalme e pacifique, fodendo-me com competência mas distanciamento. Porque certamente que o encontraria, encontrei sempre que quis, sempre que precisei. Encontraria; mas, e depois? Depois de satisfeito o corpo, pensaria – seria inevitável, penso sempre – que esse homem poderia, talvez, tentar serenar-me a alma, preenchendo-a com amor (amor… mas que coisa mais pomposa), ou simplesmente com carinho e cumplicidade e riso e alegria; pensaria que talvez ele se pudesse interessar por mim, e não apenas pelo meu corpo. Pensaria que talvez esse homem anónimo, competente mas desinteressado, pudesse tentar amar-me. Ou seja: iludir-me-ia; e sofreria. Porque, agora, parece que ninguém tenta amar seja quem for; já nem me lembro do último que tentou amar-me.

Um destes dias, quando olhava pela janela, perguntei-me: há quanto tempo não sou verdadeiramente amada? E fui saltando de companheiro em companheiro, recuando no tempo, especulando qual deles me poderia ter amado, tentando recordar quais deles me disseram amo-te, tentando adivinhar se algum dos que disse – poucos, tão poucos – teria sido sincero. A conclusão, desencantada e dolorosa, a que cheguei foi que, afinal, talvez nenhum me tivesse amado. Mas decidi ir um pouco mais longe, avançar mais por mim a dentro; e arrisquei perguntar-me se eu os teria amado, se teria amado algum dos homens da minha vida. E a resposta que chegou lá de dentro, bem do fundo de mim, foi: talvez não. Sem dúvida que desejei amá-los; e talvez tenha fingido amá-los, talvez tenha até acreditado que os amava. Mas não mais do que isso.
Então, enquanto me agarrava aos joelhos e sentia a pele fria, tão insuportavelmente fria apesar do calor do sol que entrava pela janela, desisti de fugir, não me apeteceu continuar a fugir; e permiti que a interrogação final, fatal, me atingisse: será que nunca fui amada apenas porque nunca amei? Levantei-me e caminhei devagar, muito devagar, entrei na casa de banho, fechei a porta. E chorei. Olhei-me no espelho e chorei, até deixar de sentir pena de mim própria.

O céu está repleto de nuvens brancas e redondas que se arrastam com preguiça, resignadas e apáticas como transeuntes arrastando as all star e os saltos altos no corredor de um centro comercial numa manhã de domingo; a luz do sol da manhã invade o quarto, fraca e ténue, triste. E não há mais ninguém, apenas eu e a luz e as nuvens e a vontade de companhia. Sinto-me vazia, mais do que o habitual. Sinto a mente ziguezaguear, frenética e assustada, arrastando-me atrás de si, apetite após apetite; e o mais triste é que sei que me está a arrastar para lado nenhum. Apetece-me chorar; apetece-me rir; apetece-me abraçar; apetece-me morrer; apetece-me falar; apetece-me acreditar; apetece-me ser olhada; apetece-me uma surpresa; apetece-me arrebatamento; apetece-me o oposto de solidão e não sei o poderá isso ser; mais que tudo, apetece-me ser tocada.
Toco-me, então; não há mais ninguém para o fazer, agora, neste momento; por isso, toco-me a mim própria. Envolvo o seio na mão, aperto o mamilo. Fecho os olhos: e imagino-me beijada, imagino o meu mamilo acariciado por uma língua. Tento acreditar na fantasia, retirando da escuridão que me envolve o vislumbre de imagem de um qualquer rosto, percorro a memória em busca da recordação de uma boca que preencha e consubstancie o meu devaneio. E é então que, inesperadamente, me surge o teu rosto, o teu beijo; pela primeira vez em tantos, tantos anos penso em ti. E deslumbro-me com a nitidez das imagens, repentinas, imparáveis: nós os dois deitados na praia, cobertos de areia, arrepiados e desconfortáveis; a tua mão no meu seio, os teus dedos no meu mamilo; e depois, abrupto e desajeitado: lambeste-o, chupaste-o, mordeste-o. Pela primeira vez: para ti, para mim.
Lembras-te? Tínhamos dezasseis anos e queríamos ser médicos, ter filhos, comprar um barco, viver em África e escrever poemas, salvar o mundo, descobrir novos mundos; mas antes, queríamos, mais que tudo, descobrir os nossos corpos e levá-los ao limite. Fugíamos das aulas, escondíamo-nos na praia; e fazíamos amor, desajeitadamente e muito depressa, com uma intensidade quase doentia; depois, deixávamo-nos estar, disfarçando a decepção que sentíamos por o sexo nunca ser verdadeiramente reconfortante com longas conversas inconsequentes, desfilando fantasias que nem chegavam a ser utopias de adolescente, fantasias que não passavam de devaneios de criança. E depois, partíamos, de bicicleta, tão eufóricos quanto frustrados. Lembras-te?
A ti, amei-te; e tu, amaste-me. Tenho a certeza.
Não sei por que penso agora em ti, não sei por que nunca pensei em ti, até hoje. Largo o seio e levanto-me, aproximo-me da janela. Olho o mundo, lá fora: e não tenho medo, por um momento consigo não ter medo. Já amei, já fui amada; afinal, o que desejo não é uma impossibilidade: já aconteceu, pode repetir-se. E que se fodam todos os que me dizem que a felicidade, a minha felicidade, não virá na forma de um homem. Olho a cidade anónima e distante, expectante, subitamente convidativa; pergunto-me o que será feito de ti; pergunto-me se não estarás a olhar por uma qualquer janela, a pensar em mim.

Agora, faço isto todas as manhãs: sento-me na cama e olho pela janela. Penso em ti. Penso que talvez pudesse partir pela cidade fora, à tua procura; penso que, se o fizesse, certamente te encontraria; penso que, se nos encontrássemos, poderíamos tentar ser felizes, outra vez, mais uma vez. Penso que sou (sinto-me como) uma miúda de dezasseis anos, a alimentar devaneios inconsequentes: e não me importo.
(Quando passeio no centro comercial, ao domingo de manhã, já não olho tanto para o chão como fazem quase todas as outras pessoas, já não reparo tanto nos saltos altos e nas all star; olho os rostos (sim, atrevo-me a fazê-lo), olho-os simplesmente, durante uma fracção de momento; e surpreendo-me tanto, mas tanto, quando algum desses rostos, um dos que também não olha o chão, me sorri que não consigo deixar de sorrir também. Vou sorrindo, então: sorrisos de manhã de domingo; treinando para o dia em que finalmente te encontrar e me perguntares se ainda quero ir a África.)