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Sílaba Súbita

Um ano de colaboração com a Sílaba Súbita. Tudo reunido aqui.


O verde da relva


A partir de uma foto de Maria João Faísca.


Olhava o banco abandonado mas nunca parava.

Passava apressado, desejando estar noutro lado qualquer mas incapaz de sentir a importância do momento presente, do momento em que por ali passava. Pensava: caminhar é sempre um adiamento. Ainda não percebera que todos os momentos são, afinal, uma espera. O que acontece é que, por vezes, surgem momentos que consigo saborear e, por isso, nem reparo que são uma espera, sinto-os como uma passagem. No fundo, persigo sempre um absoluto qualquer, momentos e sensações que sejam avassaladoras e insuperáveis; desejo algo monumental e determinante, que me faça parar no tempo, que suspenda o avanço do mundo; e nem percebo que já estou parado; sempre estive, sempre estarei.

Caminhava apressado, olhando o banco abandonado. Caminhar com rapidez significa, afinal, pressa de viver e de sentir; significa urgência. Um desejo e uma necessidade de fugir às esperas que compõem a vida; ansiava continuamente por algo e nem reparava que viver significa estar, e não caminhar. Estar no momento. Mas a vida é conduzida pelo irreal: por desejos e fantasias, por ambições, por medos; e um desejo ou uma fantasia ou uma ambição ou um medo nunca é algo concreto e real, é apenas um pensamento ou uma sensação, algo impalpável e imaterial; na verdade, nada. Um vapor, ou nem isso; um sopro. Mas são esses nadas que me movem, que determinam acções e comportamentos concretos. O imaterial conduz-me, o sopro indica-me uma direcção e empurra-me nessa direcção. Em frente, sempre em frente. Por isso, passava pelo banco, conduzido por um desejo indefinido mas absoluto, e nunca me sentava; se o fizesse, estaria a sincronizar-me com o mundo: assumiria a espera. Porque o mundo está em permanente estado de espera e um banco vazio representa isso mesmo: espera. Mas também possibilidade; o vazio não significa ausência de tudo mas, pelo contrário, possibilidades infinitas. Se algo está vazio, há espaço para ser preenchido por qualquer coisa, por tudo. Seja um banco, seja uma vida.

Olhava e continuava o meu caminho, apressado. E assim teria continuado sempre, se não me tivesses chamado. Eu passava, apressado, e tu disseste:

- Desculpe.

Estranhei porque não é normal que o mundo repare em mim, chame por mim. Sorriste mas era um sorriso triste. Disseste:

- Desculpe. Mas para quê tanta pressa? Porque não se senta durante um minuto?

As perguntas são como janelas, fazem-me olhar para fora de mim próprio. Parei e olhei. E o teu sorriso triste, mais do que as tuas palavras, convidou-me a sentar-me ao teu lado, no mesmo banco que tantas vezes olhara sem ver. Que sempre me parecera vazio mas que, subitamente, transbordava de possibilidade. Deixei-me conduzir pela surpresa e pelo inesperado: sentei-me à tua beira, olhando em frente. E o mundo parou. Não, eu parei. Juntei-me ao mundo: sincronizámos velocidade e ritmo; e esperámos, juntos.

Havia o verde da relva, que subitamente me entrou pelos olhos dentro, como se fosse a primeira vez que compreendesse e sentisse o verdadeiro significado do conceito “verde”; e o amarelo do sol, iluminando a atmosfera e tornando-a perene e suspensa, perseguindo suavemente as sombras. Havia o cheiro das árvores, subitamente avassalador, como se as próprias árvores entrassem em mim e me povoassem. Havia o contacto das minhas mãos com a madeira sólida e antiga do banco (quantas mãos já teriam tocado aquela mesma madeira, deixando nela o toque da sua pele? Quantas pessoas estava a tocar naquele momento, tocando a madeira?). Havia o murmúrio de um qualquer bicho oculto, entrelaçado com o canto distante de um único pássaro. Havia o sabor – mais do que uma memória, o sabor quase concreto – das ameixas vermelhas que comera deitado numa relva assim verde nos verões da minha infância, ouvindo o mesmo pássaro, cheirando árvores idênticas. Havia um mundo a envolver-me, entrando em mim, apropriando-se de mim. Sentia-me entregue a um momento absoluto, simultaneamente espera e passagem. Não sentia nem sonho nem fantasia nem desejo nem ilusão nem ansiedade, apenas o poder dos sentidos prendendo-me ao mundo, à vida. A um banco. À eternidade do momento.

E tu, mesmo à minha beira, perguntaste:

- Há quantos milhões de anos é que o verde já é verde?

Sorri, perguntando-me quantos milhões de instantes e sensações comporão um único momento. Um sorriso concreto e real; como o verde da relva.

Horizons

Experiências em inglês. Estória inspirada numa foto de Maria João Dias, traduzida por Sónia Oliveira. Imenso obrigado.




She was standing by the window when I arrived. I looked at her for a while, in silence. Then I told her: “I love you.” And I smiled, admiring how elegantly she turned to me. But the look she gave me had no surprise or joy. She looked pensive, distant; displeased. She didn’t smile. She said: “When you say you love me, you imprison me a little more. Because by saying it, what you really mean is to state your desire that I remain indefinitely as I am, so that you can keep on loving me. You want me immutable, frozen in an eternal moment; that’s what you love, that moment. I always thought that saying you loved someone is to deny this person the possibility of change, don’t you agree? But I don’t want to look at someone and feel trapped, conditioned. I want to look at someone, to look at you, and feel free. I want you to be the mirror of my freedom, of my possibility of change. I want you to be a window: when I look at you, I want to see a universe of possibilities, infinite horizons, the wide limitless sky. Don’t tell me you love me, ok? Tell me you want to be my window.” She stared at me for a while, in silence. Still pensive, even more distant. Then she turned and contemplated the world through the window; she forgot about me. I could have told her she was wrong, that it was quite the opposite; explain to her that each moment I discovered her once again, I discovered her anew, and every time I’d be blown away; as if I was seeing her for the first time, and each first time was even more intense, more overwhelming; explain that on each of these moments I loved her as if for the first time. But she kept looking through the window, interested in the infinite universes, showing no interest in me. Why should I say anything? After all, I’d only uttered three words and everything fell apart; a longer sentence could prove deadly. But so could silence. There was nothing left but to escape; and that’s why I moved closer to the window.

Queres ser o meu guarda-chuva?



A partir de uma foto de Sonja Valentina.





Pela manhã, olho pela janela e percebo como o dia está magnífico; tão magnífico que, ao sair à rua, não resisto a levar o guarda-chuva comigo. Desço pelo passeio quase deserto sentindo a brisa no rosto e o sol brilhante na pele, sentindo-me livre, sentindo-me liberto. É difícil resistir a olhar o céu, difícil resistir a procurar entre o esplendor do azul um farrapo de nuvem branca, uma minúscula falha no azul que me deixe sem respirar, anestesiado pela imperfeição da beleza perfeita. Mas resisto, importa focar-me nas pessoas com quem me cruzo; não tanto nos rostos, nos olhares; isso ficará para mais tarde. Por enquanto, interessam-me as mãos; e é o que faço: olho as mãos das mulheres com quem me cruzo, na esperança de encontrar numa delas um guarda-chuva. Foi por isso que saí de casa. Porque o dia está magnífico, tão magnífico que apetece apaixonar-me.


Vou caminhando sem pressa, balançando ligeiramente o guarda-chuva na mão. Há quem olhe e estranhe, uns miúdos riem com gosto e abanam a cabeça; nem os velhinhos são compreensivos. Homem jovem e impecavelmente vestido mas agarrado a um guarda-chuva escuro e imponente no mais deslumbrante dos dias de Verão? Só pode ser doido. Serei?
Pouca gente na rua. E claro que é prematuro falar em paixão; prematuro e absurdo. Primeiro há que, obviamente, encontrar alguém com um guarda-chuva na mão e que, por isso, me perceba, intua de imediato os meus motivos. Alguém a quem não seja necessário explicar o que sinto, como sinto. Alguém que perceba o que simboliza andar com um guarda-chuva num dia em que não existe a mais pequena possibilidade de chover. Alguém que, por exemplo, não banalize uma relação como se banaliza o uso do guarda-chuva, que logo se esquece, abandona ou perde mal o sol chega. Alguém que não coleccione relacionamentos por acreditar que a quantidade é uma protecção, como as pessoas que acumulam vários guarda-chuvas para nunca serem surpreendidos quando a intempérie surge inesperadamente mas, depois, nem os distinguem uns dos outros, quase sendo preciso colocar-lhes um papelinho com um número para os individualizar e hierarquizar. Alguém que não procure um relacionamento a pensar nos momentos infelizes ou solitários e guarde a felicidade apenas para si, como aquelas pessoas que ignoram os guarda-chuvas quando não precisam deles, abandonando-os à porta de casa, e que no fundo acreditam que até podem passar sem eles. Alguém que não queira ter um guarda-chuva e prefira ser guarda-chuva.
Caminho pelo passeio respirando o cheiro inebriante das árvores que me rodeiam e penso como seria bom encontrar alguém que sentisse e pensasse assim: igual. Alguém que eu já conhecesse profundamente antes de saber, sequer, que existe; antes de conhecer o seu rosto e perscrutar o seu olhar, antes de ouvir a sua voz e inspirar o seu cheiro, antes de tocar a sua pele.
Mas a manhã ainda mal começou, é demasiado cedo para paixões. Caminho sem pressa nem ansiedade, olhando em frente; à espera do que possa acontecer. E talvez não seja ainda hoje que me cruze com alguém que sorria e pergunte: queres ser o meu guarda-chuva? Na verdade, há sempre algo a acontecer: basta estar atento, basta saber reconhecer; ser activo mas também (principalmente?) receptivo. Aquilo que se designa por viver deve ser pouco mais do que uma forma de ordenar e agregar acontecimentos. Muito raramente se consegue originar algo, provocar algo, conduzir algo, construir algo; limitamo-nos a reconhecer e aproveitar algumas das coisas que nos aparecem pela frente (depois, por vezes, agarramo-nos a elas e fazemo-las nossas). Como uma criança que vai ao centro comercial acompanhado pela mãe: encontra lá tudo o que possa desejar, deambula pelos corredores e ambiciona, pedincha, fantasia, implora, desdenha; tudo está disponível e é alcançável, tudo está à distância de um toque; mas a mãe – já se sabe como são as mães – apenas oferece um chupa de morango e a criança – já se sabe como são as crianças – coloca-o na boca e saboreia; talvez até acabe por agradecer, logo esquecida de todas as possibilidades perdidas. E é isso, afinal, a vida: um chupa de morango.       

Facelist

(A partir de um quadro de Joana Lucas)





– Então, escrevi na face. Meti-me em frente ao espelho e, cuidadosamente, escrevi uma lista de compras. No rosto. Parece-lhe esquisito, isto?

– Parece-me esquisito, sim.

– Pois foi o que fiz. Bolachas, iogurtes, tomates, champô, chocolate. Tudo muito bem escrito, com letrinha legível.

– Porquê uma lista de compras?

– Porque estava de saída para o supermercado. E foi o que fiz, segui para a rua e fui andando pelos passeios, sem pressas nem hesitações, a desfilar um pouco, a ver o que acontecia; como um adolescente com uma tatuagem nova. E sabe o que aconteceu, doutor?

– O que aconteceu?

– Nada. Nadinha. Ninguém ligou a mínima atenção; não houve olhares ou sorrisos ou comentários, abanos de cabeça incrédulos, expressões pesarosas de quem acabou de surpreender um sintoma inequívoco de doidice. Nada. Apenas indiferença e desinteresse ou, nalguns casos, suspeito que não muitos, um esforço consciente em fingir que não se reparou e seguir em frente, não vá o disparate ser contagioso.

– E isso surpreendeu-o?

– Um pouco. Não é propriamente uma surpresa mas é desconsolador perceber como as pessoas se julgam tão interessantes e singulares, tão importantes, tão não sei quê que lhes basta centrarem-se exclusivamente em si mesmas, ignorando tudo, todos. Como se se julgassem auto-suficientes. Não lhe parece uma grande arrogância que alguém marche pelo mundo sem sequer olhar as pessoas com quem se cruza?

– E não será igualmente uma presunção considerar que temos algo de interessante em nós, algo que mereça o olhar do outro, a atenção do outro, o tempo do outro?

– Talvez, agora apanhou-me. Mas a verdade é que gosto de olhar, gosto de tentar perceber algo das pessoas, adivinhar um pouco delas, fantasiá-­las também; tentar decifrar o seu mistério. Como estar a ver um filme na televisão mas sem ligar ao som ou às legendas; olhar, simplesmente, e tentar perceber um pedaço da estória. Mas estou a devanear, por favor não ligue.

– A vida não é um filme. Não é uma narrativa linear. Talvez nem uma narrativa seja, sequer.

– Pois não. E é pena. Mas regressando à estória da lista. Como estava a contar, quase ninguém olhou; e os que olharam, ignoraram o que viam; suponho que ninguém perguntou a si próprio: «Por que anda este gajo com palavras escritas no rosto?» Nada disso, quem olhou aceitou de imediato aquilo que viu como legítimo, como aceitável, como normal. E agora, pergunto-lhe: o que é o normal? O que é a normalidade?

– É uma boa pergunta.

– Suponho que, na perspectiva desta gente, seja tudo aquilo que não a incomode, que não a perturbe, que não a force a reagir. «Normal é tudo o que não me chateia», dirão. É uma questão interessante, esta; não acha? Para que serve a normalidade, afinal? Será, talvez, uma simples questão de número, de quantidade. Se toda a gente escrever a lista de compras na cara, passa certamente a ser normal, ou não é? E já viu o papel que se pouparia, doutor? Enfim, estou a brincar consigo.

– Porque fala em gente? Essa gente. Esse tipo de discurso é uma forma algo pretensiosa de se distanciar daquilo que designa de normalidade, uma forma de se considerar especial.

– Talvez. Mas não é isso que todos ambicionamos? Que alguém nos considere especiais?

– Para quê?

– Porque precisamos de nos sentir especiais. E, para que isso aconteça, precisamos que o outro seja o nosso espelho. Porque há pessoas que funcionam como espelhos, olhamos para elas para nos conhecermos a nós próprios e não tanto a elas; como acontece consigo, doutor. Ajuda-me a conhecer-me; é para isso que venho aqui, não é?

– Se todos nos sentíssemos especiais, acabaríamos por nos centrar em nós próprios. Excluiríamos o outro, recorreríamos a ele apenas como uma espécie de espectador e validador daquilo que cremos ser a nossa especialidade. Como se o mundo fosse uma espécie de passagem de modelos em que todos, sem excepção, são modelos. Seria uma existência triste, não? Ou pior do que triste: inconsequente. Não era precisamente isso que estava a criticar há pouco? É por isso que gosto da ideia de janela. Precisamos de pessoas que funcionem como janelas, que nos permitam sair de nós, que nos convidem ou desafiem a ver para além de nós. Porque precisamos de olhar para dentro mas também para fora; em simultâneo, se possível.

  – Por vezes, olhamos por uma janela e vemos o mundo a desfilar, a convidar-nos, a envolver-nos, a seduzir-nos; mas basta focar o olhar de certa forma e, ao mesmo tempo que nos assombramos com aquilo que está para além de nós, conseguimos ver um vislumbre de nós próprios reflectido na janela, como se estivéssemos perante um espelho algo deformado. Abrimo-nos ao mundo sem perder a noção de quem somos.

  – Exacto. Não nos fechamos em nós. Mas interrompi o relato da aventura. Falava de normalidade.

– Sim. Lá vou eu com o rosto escrito e nem um olhar curioso, perscrutador; vou pensando em como é difícil provocar uma reacção. E se nem um olhar se consegue provocar, como desencadear um sorriso? Pessoas que não olham são pessoas que não sorriem, pessoas que não sorriem são pessoas que não se interessam; e se não se interessam, não olham; se não olham, não sorriem; e etc., doutor, etc.

– A tal passagem de modelos.

– Pois. Mas adiante, deixe-me contar-lhe como prosseguiu o meu exerciciozito. Lá cheguei ao supermercado, com a minha facelist; deslizei pelos corredores empurrando um daqueles carrinhos gigantes, para onde fui colocando as poucas compras que tinha rabiscado na cara; um pacote de bolachas, quatro iogurtes, três tomates dentro de um saco de plástico, um frasco de champô, uma embalagem de chocolate. Por ali andei, desfilando entre donas de casa enfadadas e reformados semiadormecidos, observando os gestos desconsolados das raparigas que repunham o leite e o bacalhau; por ali andei, à espera não sei de quê, à procura não sei de quê. A fazer o mesmo que todos os outros, suponho: gastar tempo. Depois, tive uma ideia súbita: peguei no chocolate e fui devolvê-lo à prateleira, onde o arrumei cuidadosamente. Pergunte lá porquê, doutor.

– Porquê?

– O plano era este: ver se a moça da caixa repararia que um dos itens da lista, neste caso o chocolate, estava em falta; e se reagiria.

– A tentar ser janela, de certa forma.

– Sim, talvez. Tem o dom de ver simbologias em tudo, já reparou? E afinal, tudo o que fazemos acaba por ter uma intenção e uma simbologia; tudo o que fazemos é uma metáfora. Não? Aproximei-me e depositei as compras, ela carregou num botão e aquele mini tapete rolante começou a deslizar; a rapariga, que tinha o rosto apático e uma expressão distante, disse bom dia sem me olhar, perguntou se tinha cartão de cliente mas não aguardou resposta, agarrou o saco de tomates e logo depois o resto das coisas; disse qual o valor a pagar e ficou à espera. Poderia ter dito: «Olhe que se esqueceu do chocolate»; e sorrir. Não disse, não sorriu.

– Era bonita?

– Pergunta curiosa, doutor. Muito bonita.

– Porque não o terá olhado? Alguma teoria?

– Nem por isso. Talvez estivesse simplesmente cansada de olhar e não ver nada; para quê continuar a olhar, então? Dei-lhe o dinheiro, os nossos dedos tocaram-se; mas a reacção dela ao toque do meus dedos foi exactamente a mesma que ao contacto das moedas: nenhuma. Não acha triste, doutor, que o facto de duas pessoas se tocarem não tenha consequência absolutamente nenhuma?

– Acho.

– Eu também. Uma pessoa que não olha e que não reage ao toque é alguém que está vivo? Ou nem por isso?

– A quantidade de gente que está apenas mais ou menos viva é impressionante.

– Afinal também fala em gente. Discurso pretensioso, doutor. Cuidado.

– Acontece. E depois, que se passou?

– Que se passou? Nada, é óbvio. Lá segui com o saco das compras. E fui pensando no que teria sido diferente se a rapariga tivesse falado do chocolate, se tivesse sorrido; que significariam esses gestos, que consequências desencadeariam? Representaria o estabelecimento de alguma espécie de empatia entre nós? E essa empatia simbolizaria algo para ambos? Seria um denominador comum, como se costuma dizer? Talvez até um ponto de partida para qualquer coisa? Enfim, fantasias. Se a moça tivesse dito qualquer coisa, porque haveria depois de acontecer algo?

– Gostaria que tivesse acontecido algo?

– Mas o que poderia acontecer, afinal? Deduzir (ou pior: desejar) que começaríamos a conversar e inevitavelmente apreciaríamos essa conversa, e que daí a combinarmos qualquer coisa seria um pequeno passo, talvez seja um exagero da minha parte, não?

– Uma fantasia.

– No fundo, há aqui algum motivo para reflexão; não me refiro à questão da moça do supermercado propriamente dita mas à dúvida filosófica, digamos assim, subjacente. Já percebeu a que me estou a referir, certamente.

– Nem por isso.

– Como cativar o interesse de alguém? Essa é que é a questão relevante, e de certeza que ninguém descobriu a resposta, porque se houvesse resposta (se alguém tivesse descoberto qual o princípio activo do interesse, se me permite a ironia) também já teriam inventado os comprimidos correspondentes, e já mos teria prescrito.

– Interesse por prescrição médica? Interesse químico? Interesse induzido? Interesse artificial? E porque não fazer transfusões de interesse, em caso mais graves? Intervenções cirúrgicas. No fundo, tratar-se-ia de arranjar forma de não nos preocuparmos em ser interessantes, tal como não nos preocupamos com os mecanismos do crescimento do cabelo. É uma teoria com muito potencial, esta. 

– Não seja irónico, doutor. É um assunto muito relevante. Como fazer para que alguém nos olhe e, mais importante, mantenha o olhar fixo em nós durante um momento, durante o tempo suficiente para perceber que valeu a pena ter olhado? Comprimidos facilitadores de interesse, isso é que dava jeito que alguém inventasse, e não gelados com sabor a couve ou telemóveis do tamanho de cabeças.

– Retirar o factor de imprevisibilidade dos relacionamentos seria condená-los à irrelevância.

– Como sabe? É o mesmo que afirmar que deus é louro. Apenas uma opinião, por mais convicta que seja. Porque a verdade é que não sabe, é impossível saber. Mas regressando à minha estorieta. Pode ser, doutor? Lá segui pelos mesmos passeios de antes, cara escrevinhada e saco de compras a balouçar na mão, cruzando-me com gente que se não era a mesma de antes, parecia. Se ninguém nos sorri, como podemos distinguir as pessoas umas das outras? Já pensou nisso?

– O sorriso como marca de individualidade? Mais uma boa teoria. Está inspirado.

– Tenho demasiado tempo livre, o que é um problema. Deveria arranjar um passatempo. Pesca ou jardinagem ou observação das estrelas; algo que retirasse o foco de mim próprio. Mas ainda não aconteceu; e portanto, penso. É assim que ocupo o tempo livre. A pensar. A imaginar. Por exemplo. Imaginei que se fosse eu a encontrar alguém com o rosto rabiscado, por certo não resistiria a fazer perguntas. «Quem escreveu isso e como reagiu quando lhe pediste para o fazer?»; «Que tipo de caneta usou?»; «Isso magoa ou incomoda?»; «É difícil escrever na pele?”». E por aí adiante, infindáveis dúvidas sem importância nenhuma. Porque a pergunta é a materialização do interesse que temos pelo outro; perguntar é encarar o outro como uma janela.

– Inspiradíssimo.

– Então porque não está a tirar notas? Estou a brincar, doutor. Desculpe lá. Bom. Continuei a imaginar. Fui imaginando o que poderia acontecer se, em vez da lista de compras, escrevesse o número de telefone ou o endereço de e-mail no rosto. Alguém os registaria? Alguém se daria ao trabalho de telefonar, de escrever? E que diria?

– É uma ideia muito curiosa. De ficção científica, talvez. Mas a ficção científica sempre se baseou na hiperbolização dos nossos medos mais profundos.

– Prefiro poesia. Ainda me entusiasmei durante uns três ou quatro segundos mas logo admiti que não teria coragem para o fazer. Consegue imaginar porquê?

– Porquê?

– Seria correr um risco enorme, não? E se ninguém interagisse comigo (odeio esta palavra mas paciência), se ninguém reagisse? Teria que assumir isso como um fracasso, mais um tremendo fracasso. E, depois, teríamos aqui trabalho para uns três anos.

– Mas e se houvesse uma reacção?

– Talvez não soubesse o que fazer. Talvez não soubesse como reagir à reacção. Talvez fugisse, que de certa forma é o que sempre faço, não é? Mas não quero ir por aí agora, está bem? Deixe-me fugir mais uma vez.

– Muito bem, falaremos disso mais tarde. O que aconteceu de seguida?

– Apressei-me a chegar a casa; lavei a cara e comi as bolachas que comprara enquanto ia navegando pelo facebook, que é um sítio que me faz bem porque me recorda que não sou a única pessoa do mundo com uma vida completamente vazia. Tenho que lhe mandar um convite, devíamos ser amigos. Não se ria.  

– No facebook, toda a gente se julga uma espécie de psiquiatra. Seria apenas mais um, entre tantos outros.

– Por acaso, já reparei nisso. É um pouco perturbante.

– E que aconteceu no facebook?

– Ia-me distraindo um pouco mas a estória de escrever na face ainda não estava esquecida. O que me causava confusão é que ninguém tivesse sorrido, absolutamente ninguém. Porque é que as pessoas deixaram de sorrir, doutor? À noite, toda a gente ri mas é porque estão bêbados ou porque sabem que vão fazer sexo, mas se uma pessoa andar pela rua às três e meia da tarde não encontra um único rosto sorridente. Sabe o que penso? A situação é tão desesperante que devia haver uma espécie de serviço público do sorriso.

– Mais uma ideia curiosa. Simultaneamente ficção científica e poesia.

– Mas veja lá se não faz sentido. Assim como há polícias que passam multas e enfermeiras que dão injecções, deveria haver gente que andasse por aí a desencadear sorrisos.

– Profissionais do sorriso.

– Principalmente às três e meia da tarde, que é o momento mais triste do dia. Um serviço público a que se pudesse recorrer, como se recorre aos hospitais e tal. Mas algo que não fosse apenas um direito, como a saúde, deveria ser também uma obrigação, como pagar impostos. Uma espécie de tolice por decreto, para aliviar o stress dos dias; o stress do vazio, como escreveu alguém numa revista de televisão que vi no cabeleireiro.

– Nas revistas também todos são psiquiatras.

– Já imaginou se o diário da república começasse a publicar uma secção de anedotas? Não vejo nenhum partido a propor uma coisa destas, e é pena. É pena, doutor. Ou então, podia ser feito de um modo mais informal. Imagine que as pessoas se organizavam de maneira a que em cada família, ou em cada grupo de amigos, existisse alguma espécie de rotatividade entre os seus elementos, uma escala de turnos, para que todos os dias houvesse sempre alguém com a responsabilidade de fazer um disparate qualquer; um disparate que desencadeasse o sorriso dos outros, algo que quebrasse a cinzentude dos dias e atenuasse o desânimo das três e meia da tarde.

– É uma ideia que, só por si, provoca um sorriso.

– O senhor, que é psiquiatra e deve perceber destas coisas, diga-me lá: porque sorriem as pessoas tão pouco?

– Demasiada consciência de si próprias, talvez. Incapacidade de se libertarem dos seus pensamentos e racionalidades, dos seus medos, das suas ansiedades. Talvez as pessoas estejam demasiado fechadas em si próprias, demasiado auto-conscientes. Demasiado reféns de si.

– Agora é que o doutor falou bem. A maior prisão de alguém é a sua própria mente. Também penso dessa forma. E é raro olharmos para o outro, não é? Olhar de verdade. Sempre que alguém pergunta como estamos (e é raro, ninguém quer saber; ou melhor, até se pergunta mas ninguém quer verdadeiramente conhecer a resposta), respondemos que estamos bem. Mas se estivéssemos efectivamente bem, teríamos sorrido mal víssemos a pessoa e, consequentemente, a pergunta teria sido desnecessária, não chegaria a ser formulada.

– Talvez não queiramos, simplesmente, demonstrar fraqueza e vulnerabilidade, talvez não queiramos denunciar-nos. É mais fácil fingir que estamos bem do que explicar por que motivo estamos mal; até porque há alturas em que não existe nenhum motivo.

– Verdade, doutor. Mas sabe outra coisa que pensei? E se, pelo contrário, somos todos boas pessoas, que se retraem para que a nossa tristeza não contagie aqueles de quem gostamos, que não têm culpa nenhuma dessa tristeza? Como vê, não me canso de devanear; e nunca chego a conclusão nenhuma, naturalmente. Mas vou fazendo perguntas, isso vou, nunca me canso de fazer perguntas. Por exemplo. Já reparou neste paradoxo? Tendemos a guardar a nossa tristeza para nós próprios, de certa maneira apenas nos permitimos estar tristes quando estamos sozinhos, para nos protegermos, para protegermos os outros; mas, afinal, de que serve estar triste se não temos com quem partilhar essa tristeza?

– De que serve estar triste? A tristeza não é uma escolha, muitas vezes será uma inevitabilidade.

– Isso já não sei. Desconfio que a tristeza é, maioritariamente, uma opção, ou até uma tentação. É o que penso. Mas não me vou pôr a discutir isso com um psiquiatra. Seja ou não seja uma opção consciente, tendemos a guardar a tristeza para nós próprios. Por isso é que gostamos tanto do facebook, que é um sítio onde toda a gente parece bela e feliz e inteligente, mesmo as pessoas que têm vidas tristíssimas acreditam que são belas e felizes e inteligentes, porque se assim não fosse como poderiam ter mil setecentos e oitenta e nove amigos? Não partilhamos a nossa tristeza com quem amamos (talvez porque não amemos o suficiente, talvez porque suspeitemos que aqueles que amamos não nos amem o suficiente) mas já não nos custa nada dissimular essa tristeza entre tristezas anónimas. Enfim, doutor, paradoxos.

– Há enorme riqueza na contradição, na complexidade, no paradoxo. 

– Pois, é capaz de haver. Mas regressando à lista de compras, que se faz tarde e ali a sala de espera deve estar a abarrotar.

– Como terminou essa estória, então?

– A verdade, acabei por perceber, era afinal banalíssima, não havia mistério nenhum: ninguém ligou aos meus rabiscos no rosto porque, naturalmente, quem se deu ao trabalho de os olhar, logo deduziu que se tratava de uma tatuagem, uma simples e banal tatuagem. E já ninguém liga a tatuagens, que não se sabe bem se servem para atrair o olhar ou desviar a atenção.

– É uma possibilidade.

– Ninguém percebeu a minha intenção, que era a de provocar um sorriso aqui, outro ali; intenção bem modesta, parece-me; e benigna. E já agora, entre os sorrisos, lançar pela rua uma pequena provocação, uma interrogação silenciosa: se nos esforçamos tanto para que os rostos não transmitam expressões e sentimentos, porque não usá-los para qualquer coisa útil? Transmitir recados, por exemplo.

– Recados?

– Porque não? Ser lista de compras sempre é ter alguma utilidade prática, não acha? Já se serviu para alguma coisa, não ficou o dia completamente desaproveitado. Até se podia usa a face para fazer recados às pessoas, para transmitir avisos ou informações ou pedidos; alugar o espaço, fornecer um serviço. Não ria, doutor.

– Você anda realmente com demasiado tempo livre.

– Olhe lá, já que estamos a falar nisto, que tal passar a receita desta semana aqui no meu rosto? Que me diz? Gostava de ver a expressão da moça da farmácia, já estou a imaginar; pior é que o selo pode descolar-se com a transpiração e depois ela não me avia. Mas valia a pena tentar, doutor. Não acha? Vá, faça-me lá sorrir.