Baque
Apesar de terem
passado quase trinta anos, lembra-se daquele fim de tarde em que subitamente
decidiu regressar a casa por um caminho diferente, um atalho de terra batida
que atravessava o deserto de campos e por onde não passavam carros. Lembra-se
do enfado que habitualmente sentia ao percorrer os dez quilómetros que
separavam escola e casa, alternando dia após dia os três percursos possíveis
numa tentativa ingénua de iludir o aborrecimento. Lembra-se que a inesperada escolha
de um trajecto alternativo lhe proporcionou a sensação de estar a baralhar o
destino e a iludir a rotina. Lembra-se como o facto de ter cedido a um impulso
súbito, a um apetecimento, lhe deu
prazer e alegria. Lembra-se da inesperada sensação de liberdade, de se ter sentido
só e de essa solidão saber bem, por ser uma opção sua, por ser um breve
intervalo do mundo e das suas pressas, uma fuga momentânea. Lembra-se de se
imaginar como um adulto ao volante do seu carro, de regresso a casa após um
aborrecido dia de trabalho, que subitamente decide conduzir sem destino nem
pressa, ouvindo música no volume máximo, sentindo que não está amarrado à sua
própria vida e controla o seu rumo (é uma chatice as bicicletas não terem
auto-rádio, pensou). Lembra-se de se sentir livre naquele ambiente virgem, onde
a natureza imperava através dos seus cheiros e cores, dos zumbidos de
bicharocos esvoaçantes que existem desde o início do mundo. Lembra-se do suor
na testa e do peso na mochila nas costas, do cansaço nas pernas, do prazer de
percorrer com o olhar os vastos horizontes verdes cobertos pela luz dourada do
fim de tarde. Lembra-se da lentidão do seu avanço na tentativa ingénua de
retardar o regresso à rotina do lanche e dos TPCs e da TV e da ansiedade
melancólica de ter treze anos para sempre. Lembra-se da suave mas inebriante
euforia de se sentir entregue àquele momento, alheado de passado ou futuro,
conectado com o presente e nada mais, sentindo essa euforia como algo quase
físico, um suave nó no estômago, uma onda de estremecimento, um baque de emoção.
Lembra-se de sorrir. Lembra-se de fazer manobras parvas e da bicicleta derrapar
e de sentir um momento de pânico. Lembra-se do descontrolo e da queda e do
embate no chão rijo por onde nunca passavam carros. Lembra-se do som do baque
provocado pela sua queda. Lembra-se da dor. Lembra-se do desmaio. Lembra-se da
sensação de medo e confusão, de névoa, de desligamento, de tristeza, ao acordar
do desmaio. Lembra-se do silêncio. Lembra-se da lentidão com que
consciencializou onde estava e o que acontecera. Lembra-se de erguer um pouco a
cabeça e olhar em redor, receoso de que alguém pudesse ter assistido à queda.
Lembra-se de se ter levantado lentamente, de tentar sacudir a sujidade da
roupa, de erguer a bicicleta. Lembra-se de pedalar com dificuldade de regresso
a casa, sentindo dor e medo e espanto e embaraço e confusão e pressa. Lembra-se
de pensar: e se não tivesse acordado do desmaio? Lembro-me, apesar de terem
passado quase trinta anos.
(38º texto de opinião para o Jornal de Leiria.)
Dedos
Dizias-me:
por vezes, as palavras não bastam. E eu respondia: sim, tens razão; mas, por
outro lado, sem palavras não existimos. Havia um silêncio e concluías: apenas
com palavras, também não.
Foi
na última vez que tivemos esta conversa que decidi escrever-te um livro. E colocar
nesse livro tudo o que tenho para te dizer, todas as palavras que quero que
sejam tuas, que guardes em ti. Talvez as palavras não nos bastem porque somos
incapazes de as guardar, de as tornar parte de nós; não achas? Tontice minha,
talvez. Mas não acreditas que uma palavra exacta dita no momento adequado poderá
ter tanta importância como… sei lá… um dedo? Não tens guardadas em ti palavras
que são tão físicas e palpáveis, tão visíveis e fundamentais, tão vivas, tão pele-e-carne-e-sangue-e-osso
como cada um dos dedos das tuas mãos?
Pensei,
então, em escrever-te um livro e nele colocar todas as palavras que quero que sejam
tuas. Para que as possas ler sempre que desejares, como desejares. Para que,
por um momento, possas imaginar que são apenas tuas, criadas para ti. Para que
te apropries delas e nelas me encontres. Para que as possas sentir; como se
fossem dedos. Pele-e-carne-e-sangue-e-osso.
(Imagem: John Tarahteeff)
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