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# 70: Cento e catorze mortos

Quando ela o viu entrar no bar, reconheceu-o imediatamente; teriam passado uns oito anos, talvez nove – não: oito; definitivamente –, desde o ano em que lhe dera aulas de língua portuguesa durante alguns meses, como professora de substituição, e nunca mais o vira, nunca mais pensara nele; ainda assim, reconheceu-o inequivocamente mal o viu, teve a certeza de que era um antigo aluno, conseguiu visualizá-lo de imediato (um rapaz envergonhado que nunca falava, nunca sorria, que se sentava a uma mesa recuada e olhava muito pela janela). Foi saboreando a bebida enquanto o espreitava, tentando calcular a sua idade – vinte e sete ou vinte e oito, algures por aí – e apreciando a sua desenvoltura e a forma confiante como circulava pelo bar, estudando o seu corpo, o seu sorriso, as suas mãos; (recordou, de súbito, que fora nesse ano lectivo que casara mas logo se concentrou em afastar essa memória, em focalizar-se no presente). Tentou perceber se o rapaz aguardava alguém, ou se era esperado por alguém, enquanto tentava lembrar o seu nome, enquanto se perguntava se ele a recordaria, se a olharia com interesse ou com agastamento, se gostaria de a reencontrar; enquanto ponderava, especialmente, se seria demasiado estranho e degenerado e desesperado ir para a cama com um ex-aluno.
Quando terminou a bebida (olhou distraidamente em redor, tentando perceber se alguém lhe viria oferecer outra; mas ninguém reparara em si, ninguém iria gastar três euros e cinquenta cêntimos consigo), decidiu que quando recordasse o nome dele, o abordaria e logo se veria como correria a conversa, logo se veria se as suas necessidades momentâneas seriam compatíveis ou não; pensava, por isso, em nomes – António, Diogo, Carlos, Francisco, Duarte, João, Afonso, Miguel, Tiago; como são banais e indistinguíveis os nomes, pensava ela: como se o nome de alguém não fizesse, afinal, grande diferença, nenhuma diferença –, tentando associar qualquer um desses nomes àquele rosto sereno e belo, tão jovem. Sim, iria abordá-lo, esperando que aquela ténue ligação mantida num passado distante e quase esquecido fosse suficiente para sustentar e impulsionar uma relação, mesmo que fugaz, no presente.

– Estás bom, João?
– Desculpe, mas conheço-a?
– Será que estou assim tão diferente? Não vais dizer que estou velha, pois não?
– Oh senhora, vai-me desculpar mas…
– Bolas, João. Não me chames senhora, que me fazes sentir ainda mais velha do que realmente sou.
– Não queria ofendê-la mas não estou a ver de onde…
– Fui tua professora, há uns anitos. Língua portuguesa, décimo segundo ano; professora de substituição, estivemos juntos apenas um trimestre. Mas lembro-me muito bem de ti, João; lembro-me que não ouvias nada do que dizia, que passavas o tempo a olhar pela janela.
– Stora Patrícia?
– Que querido, afinal até te lembras do meu nome.
– Está diferente, stora. Mesmo diferente.
– Para melhor, espero.
– Claro, claro que sim. Para melhor.
– E gostas do que vês?
– Desculpe?
– Gostas do que vês?
– Acho que sim, stora, acho que gosto.
– A sério? Bom, se me ofereceres uma bebida, podes tratar-me por tu.
– Ok. Sabe, se usasse esse tipo de roupa nas aulas, de certeza que eu não teria olhado tanto pela janela; suponho que foi por isso que não a reconheci. A roupa muda tudo, altera as pessoas; disfarça-as um pouco. Mas bebe o quê, stora?

Beberam e riram durante um bocado, trocando recordações e insinuações, piadinhas, olhares. Ela percebeu como ele ficou um pouco perturbado quando consciencializou que a noite iria terminar em sexo, que era isso – apenas isso? – que ela desejava dele; talvez até se tenha sentido desconfortável ao compreender que estava a ser um pouco manipulado, que iria servir como mera distracção de uma quarentona solitária. Mas também percebeu que ele estava curioso, que estava interessado; e sentiu-se lisonjeada, sentiu-se leve e confortável, sentiu-se feliz. Mais que tudo: sentiu-se aliviada.
Foi ela que pagou a conta, foi ela que decidiu para onde iriam; ele submeteu-se à sua liderança sem protestos nem sugestões, como se ainda estivessem na sala de aula, como se ainda existisse uma hierarquia a uni-los. Durante a viagem, tentaram falar um pouco da matéria que ela lhe ensinara e de que ele não recordava absolutamente nada, falaram do que ele sentia quando olhava pela janela e do que ela sentia quando via os alunos olharem pela janela; ela falou do seu casamento fracassado e ele falou dos seus namoros fracassados – ela teve a sensação que ele estava a exagerar, que as suas relações não teriam sido assim tão fracassadas, e sentiu-se comovida com o esforço dele. Falaram um pouco de música e bares, de filmes, de sítios interessantes para passar férias; falaram do facto de estarem a fazer algo que habitualmente não faziam – engatar pessoas num bar, colocar a necessidade de sexo à frente de tudo – mas não se esforçaram em justificar os seus actos. Falaram do tempo. Falaram do estado do país e de política e da crise e dos problemas dos professores e do desemprego dos licenciados. Falaram do facto de haver dezasseis anos de diferença a separá-los – ele disse que ela estava muito bem para a idade que tinha, mesmo mesmo bem, e ela quase acreditou.
Por fim, chegaram ao bairro onde ela vivia desde o divórcio (deram uma voltas em busca de um lugar para estacionar; e ambos sentiram que se não aparecesse rapidamente um lugar, o desconforto cresceria até se tornar insuportável, talvez tivessem que abortar o projecto, esquecer aquela noite). Ela conduziu-o ao seu apartamento, depois de subirem sete andares de elevador no mais completo silêncio, afastados um do outro, como se fossem desconhecidos – na verdade, eram desconhecidos. Entraram e durante um instante não souberam o que fazer, como começar. Não conseguiram, sequer, olhar o outro, enfrentar o olhar do outro.
Então, ela disse uma coisa absolutamente parva: vamos lá ver se mereceres um vinte. Ele sorriu, embaraçado – apenas embaraçado e não intimidado; aproximou-se e tocou-a, pela primeira vez; tocou-a no peito, que por acaso era onde ela queria mesmo ser tocada – um dos sítios em que queria ser tocada, na verdade; afastou-lhe a roupa, que fora escolhida considerando o grau de facilidade com que poderia ser removida, e baixou a cabeça com naturalidade, passou a língua pelo mamilo; ela fechou os olhos, quase sorriu; ele movimentou a língua com perícia, ela gemeu um pouco (achou que ele deveria estar à espera de um gemido); e etc., pela noite fora.

Quando terminaram, sentiram-se confusos e desconfortáveis, prisioneiros da escuridão e do silêncio que os envolvia, dos seus próprios cheiros, do eco dos seus gemidos mais ou menos forçados; sentiram-se quase à beira do arrependimento; e por isso (para se manterem ocupados, para se distraírem), também porque não havia absolutamente mais nada que pudessem fazer, foderam de novo.
E enquanto o faziam, com empenho e voracidade, fustigando os corpos – como se tentassem expulsar deles a apatia e a indiferença, forçando-os a sentir qualquer coisa, a reagir –, pensavam no que aconteceria depois, no que fariam e diriam, na forma como se olhariam, ambos percebendo que aquela relação – que ainda não era propriamente uma relação; que, na verdade, nunca chegaria a ser uma relação – estava condenada; ambos recordaram relacionamentos anteriores (fracassos anteriores), em que se sentiam prisioneiros porque deixara de existir comunicação possível (não havia nada a dizer ou a escutar), relacionamentos tão estáticos que seria necessário um sismo para os fazer mover nalguma direcção, e perguntavam-se como fora possível deixarem-se arrastar para uma nova situação sem futuro.
Iam simplesmente fodendo, mentes absortas enquanto os corpos interagiam – pensado, talvez, como serão infelizes aquelas pessoas que juram ser incapazes de fazer sexo quando não existe amor e ternura e cumplicidade e tralará; como conseguirão? –, ignorando que afinal havia algo a uni-los, a aproximá-los: a incapacidade e inépcia em se relacionar com alguém (e se, simplesmente, conversassem sobre isso? Poderiam partir daí e seguir em frente, sem pressa).

– Obrigada, João.
– Porquê?
– Por teres vindo. Por teres ficado. A sério, João. Obrigada.
– Não digas isso. Sinto-me esquisito.
– A sério, nem imaginas como me tenho sentido só e desapreciada. Foi muito importante, isto. Não imaginas, mesmo.
(Nem ela própria conseguia perceber se estava a ser totalmente sincera, ou pelo menos um bocadinho sincera; talvez precisasse apenas de se sentir agradecida, bastando verbalizar esse sentimento – se o conseguia verbalizar, talvez existisse mesmo. Afinal, a partir do momento em que se diz algo, deixa de importar se efectivamente se sente o que se acabou de se expressar; não é? Se está dito, dito está, end of story.)
– Olha, já que estamos a falar e assim, queria confessar uma coisa.
– Confessar? Confessar o quê, João?
– A verdade é que não me chamo João. Desculpa.
– Não?
– Não.
– Não te chamas João?
– Não. Desculpa não ter dito antes.
– Tinha a certeza que te chamavas João. Quase a certeza.
– Não faz mal.
– Pois não. Acho que não faz mal.
(E como ela não lhe perguntou qual era afinal o seu nome, ele sentiu-se um pouco envergonhado e não foi capaz de dizer mais nada.)

Tinham dormido um pouco, ou fingido que dormiam; entretanto, amanhecera. Estavam na varanda, partilhando um cigarro (excesso de intimidade, talvez?), quando ela fizera uma pergunta inesperada (costumavas imaginar-me nua, imaginar como seria o meu corpo, quando te dava aulas?) a que ele respondera sem pensar, instintivamente (claro que sim); ela percebeu a mentira e sentiu-se magoada, ele percebeu que ela estava magoada e sentiu-se verdadeiramente arrependido de estar ali (afinal, pensou lugubremente, uma boa foda – sim, fora boa – não vale tudo). Depois disso, não conseguiram voltar a dialogar, limitando-se a dividir o cigarro (e que aconteceria, o que fariam, quando o cigarro terminasse?); compreendiam que precisavam de iniciar o processo de separação, que seria necessariamente diplomático e hipócrita, mas não sabiam como. (Ele queria simplesmente dizer: olha, foi bastante bom mas tenho que ir, ok?; ela gostaria de dizer: dou-te um dez e meio, está bem?)
Poderiam retomar um dos assuntos da noite anterior mas, na verdade, já tudo fora dito; poderiam, talvez, fazer planos para o pequeno-almoço ou até fantasiar sobre uma qualquer viagem que fariam em conjunto (planeá-la com fingido entusiasmo, na certeza de que jamais a realizariam), perspectivar um próximo encontro, algures; poderiam confessar o que tinham considerado mais surpreendente no desempenho sexual do outro, confessar o que ainda gostariam de fazer com o corpo do outro; poderiam falar sobre o tempo, do estado do país e de política e da crise e dos problemas dos professores e do desemprego dos licenciados; e dos falsos recibos verdes. Poderiam esforçar-se: mas não conseguiam, não quiseram. E, por isso, limitavam-se a partilhar o cigarro, a soprar o fumo, a olhar em frente, a respirar silenciosamente; à espera que acontecesse algo, qualquer coisa que os salvasse, uma distracção, um pretexto de conversa, uma fuga; qualquer coisa.

Primeiro, ouviram um barulho estranho que não conseguiram identificar e, logo depois, viram o avião; viram como estava demasiado próximo, demasiado baixo; viram que havia uma asa em chamas, um rasto de fumo preto; viram que o avião ia cair na cidade, mesmo em cima da cidade, ali pertinho, que estava tão baixo que jamais conseguiria chegar ao aeroporto; viram quando embateu no chão, mesmo perante eles, no meio da auto-estrada, numa tentativa fracassada de aterragem forçada; viram como se arrastou, como embateu numa ponte, como explodiu tal e qual como acontece nos filmes. Não viram mas imaginaram pessoas a gritar, pessoas a chorar, pessoas a desesperar, pessoas a explodir, pessoas a morrer.
E sentiram-se agradecidos (apesar de horrorizados) porque agora havia um pretexto para suspender o desconforto que sentiam, para se esquecerem de si próprios durante uns minutos; não precisariam de falar do pequeno-almoço, de fingir que iriam voltar a estar juntos. Não precisariam de se expor, de se vulnerabilizar, agora que havia algo externo a uni-los; bastaria, por isso, deslumbrarem-se um pouco com aquela desgraça e, quando chegasse o momento, voltar a acender um cigarro; entretanto, o tempo passaria e, naturalmente, chegaria o momento da separação (ela ficaria a arrumar e a arejar o apartamento, ligaria a máquina de lavar, talvez comesse um iogurte; ele teria de chamar um táxi, demoraria algum tempo a escapar à confusão do trânsito provocada pelo acidente mas lá acabaria por chegar a casa).
Mais um dia, mais uma foda, mais algumas horas gastas; e a vida a prosseguir.

– Achas que morreu muita gente?
– De certeza.
– Coitados. Tenho pena das famílias. E também das pessoas que agora vão ter que andar pela auto-estrada a apanhar os pedaços de corpos.
– O trânsito vai ficar fechado durante dias, vai ser uma confusão.
– E de certeza que não vão conseguir recolher tudo. Já imaginaste passares ali daqui uma semana ou duas e teres a sensação que acabaste de pisar um pedaço de osso ou de crânio?
– Se calhar, quando um avião se incendeia e explode, os corpos das pessoas também se incendeiam e explodem, transformando-se em cinzas.
– Achas que terá sido um atentado?
– Duvido.
– Já alguma vez pensaste como gostarias de morrer?
– Não, nem por isso. Vou para dentro, ver o que estão a dizer na televisão sobre o acidente. Ficas?

Cento e catorze mortos, ao que parece. Foi o que disseram na televisão.
Talvez até possam falar disso, agora que sabem mais detalhes sobre o acidente (cento e catorze, já imaginaste? Mesmo ali à nossa frente, a caírem mesmo perante nós, como se fosse uma chuvada ou assim), caso um dia se voltem a cruzar num qualquer bar.

(Num jornal qualquer foi publicada a lista dos cento e catorze nomes; mas nenhum deles reparou, nenhum deles se interessou – na verdade, alguém teria lido os cento e catorze nomes? –. Afinal, eram apenas nomes; e como são banais e indistinguíveis os nomes, pensariam eles, pensa toda a gente: como se o nome de alguém não fizesse, afinal, grande diferença, nenhuma diferença.)

Esboço # 90

Parazo de validade expirado.

Esboço # 89

Prazo de validade expirado.

# 69: Apologia das telenovelas

ELE: Juro que não percebo o fascínio dela pela merda das telenovelas. Com a tua mulher é igual?
EU: Nem por isso.
ELE: Pois com a minha é sagrado; chega àquela hora e o mundo desliga, deixa de girar. Nada mais interessa, nada conta; é impossível tirá-la de perto da televisão, fazê-la sair de casa. Não sei se estás a ver.
EU: Estou.
ELE: E aquilo mói, sabes? É uma coisa que se põe entre nós, um muro intransponível. Podíamos estar a fazer montes de coisas, sei lá… Podíamos ver outra treta qualquer na televisão, um filme ou assim… ou podíamos beber um copo e conversar sobre o futuro e sobre ter filhos e sobre os amigos que se foram divorciando, podíamos ir para a varanda fumar enquanto contávamos estrelas, podíamos foder um bocado, podíamos ir a um bar ou ao teatro ou visitar uns amigos, podíamos fazer qualquer coisa juntos. Mas não, enquanto aquela merda dura, não há hipótese, não se mexe dali. Parece-te normal?
EU: Acho que sim.
ELE: A sério?
EU: Já pensaste fazer-lhe companhia?
ELE: A ver a telenovela? Estás a gozar comigo ou quê?
EU: Os casais estão sempre a desafiarem-se silenciosamente, a envolverem-se em duelos patetas. Uma espécie de luta não assumida pela liderança, pela supremacia; ou pela subsistência de alguma individualidade.
ELE: Grande tanga.
EU: A vida matrimonial é uma grande tanga. Até aposto que sei como são as coisas, lá em casa. Tu a ver se ela se farta das telenovelas e te faz a vontade, ela a ver se tu lhe fazes companhia nem que seja só uma noite; e se ninguém cede, apesar de serem cedências muito simples, a coisa vai-se arrastado, há-de chegar o momento em que um ou outro acaba por se desinteressar do que o outro faz ou deixa de fazer.
ELE: Que raio de conversa, tiraste um curso de psicólogo por correspondência ou quê?
EU: Olha lá, qual é que te parece o motivo dela, para ver telenovelas?
ELE: Isso gostava eu de perceber. Aquilo parece tudo tão básico, tão estereotipado. E ela é uma mulher inteligente, sabes isso. Porra, é mais inteligente que eu, muito mais, e sensível e pragmática e culta e sei lá que mais. E isso é que me faz confusão, ela perder tempo com aquilo. Deixar-se manipular, permitir que brinquem com as suas emoções de uma forma despudorada, como se fosse uma criança. Faz-me uma confusão que não imaginas.
EU: Pensa nisto. Quando olhas para uma telenovela, vês uma coisa; mas outras pessoas podem olhar exactamente para o mesmo e ver algo muito diferente. Ver algo que nem te passa pela cabeça.
ELE: Não compliques, carago.
EU: A sério. Olha lá, que representa para ti uma telenovela?
ELE: Perda de tempo.
EU: Está bem, mas e que mais? Que pensas quando ouves o conceito “telenovela”?
ELE: Conceito? Eh pá, não me fodas com filosofias.
EU: Talvez penses em histórias básicas e elementares, estruturadas em conflitos primários e oposições simplistas, histórias previsíveis e arrastadas, manipuladoras. Falhei muito?
ELE: Nem por isso. Mas o mais irritante é a previsibilidade. Um gajo vê cinco minutos daquilo e adivinha de imediato como tudo vai acabar, passados nove meses. E sabes o que é mais ridículo? Mesmo que ela não conseguisse prever quem morre e quem casa, quem é pai e quem é irmão, não haveria problema; sabes porquê?
EU: Porquê?
ELE: Porque antes de ver, lê tudo na porcaria das revistas. Já sabe o que vai acontecer, porque é fácil adivinhar e porque leu, e mesmo assim vê aquilo tudo, com prazer e ansiedade, como se estivesse a assistir a algo verdadeiramente inesperado e importante.
EU: Estás a dar-me razão.
ELE: Estou?
EU: Estás a confirmar aquilo que te dizia. Ela olha para aquilo de maneira diferente, vê algo muito diferente do que tu vês.
ELE: Mas que vê ela, afinal?
EU: Já experimentaste perguntar-lhe?
ELE: Já.
EU: E que respondeu ela?
ELE: Encolheu os ombros.
EU: Mas insististe?
ELE: Nem por isso.
EU: Não insististe?
ELE: Já disse que não, porra.
EU: Eh pá, não percebes muito de mulheres, pois não?
ELE: Vais tu ensinar-me, se calhar.
EU: Talvez devesses ver um bocado de uma telenovela e aprender qualquer coisa sobre mulheres. O básico e assim.
ELE: Ou talvez vá pedir à tua ex-mulher que me ensine uma coisas.
EU: Já pensaste que as telenovelas são metáforas da vida?
ELE: E a dar-lhe. Metáforas e conceitos e filosofias e o catano. Isso é palavreado de quem não sabe o que dizer. Estar para aí a gastar palavras, mais nada.
EU: Foste tu que puxaste a conversa.
ELE: E já me arrependi.
EU: Sabes, esta não liga muito mas a minha primeira mulher gostava de telenovelas, era mais ou menos como a tua. Sabes porquê?
ELE: Não. Porquê?
EU: Precisamente por causa daquilo que te estava a dizer.
ELE: O quê?
EU: Aquilo das telenovelas serem metáforas da vida.
ELE: E como sabes que era por isso que ela via telenovelas?
EU: Perguntei-lhe.
ELE: E ela respondeu? Disse, naquela voz de fumadora dela: gosto de telenovelas porque são metáforas da vida.
EU: Mais ou menos.
ELE: Suponho que te explicou que porra quer isso dizer.
EU: Não. Não foi preciso.
ELE: Não foi preciso? Tão esperto que o meu amigo é, percebe logo tudo. Ou já tinhas tirado o curso por correspondência?
EU: As telenovelas são previsíveis e repetitivas, repletas de momentos desnecessários e supérfluos, de ilusões e equívocos, são entediantes, enganadoras, são lineares, são incoerentes, são deterministas e circulares, são… Bom, resumindo são muito parecidas com a vida, ou pelo menos com uma certa visão que muita gente tem da vida, são retratos condensados e estilizados da vida comum, da vida de todos nós. Aquelas personagens somos nós, estás a ver?, aquelas histórias são as nossas vidas.
ELE: Falas tanto e não dizes nada. Repara que estou a dizer isto com um sorriso. Mas estou a dizê-lo. E se não mudas de disco, vou repeti-lo.
EU: Acho que foi algo do género que a minha ex quis dizer com a história da metáfora. Que via telenovelas porque se identificava com elas… Ou melhor, porque se identificava nelas. Via-as para se confrontar com a sua própria vida, para redimensionar a sua própria telenovela privada, para projectar a sua vidinha num contexto mais amplo, mais abrangente, mais clarificador.
ELE: Hum hum.
EU: Ou talvez tivesse esperança de ser surpreendida pelas telenovelas que via, uma esperança secreta de que apesar da previsibilidade e repetição dos argumentos, apesar das revelações que lia nas revistas, acabasse por assistir a qualquer coisa inesperada, a um desenlace surpreendente ou um rumo imprevisto ou um acontecimento inexplicável. Porque se isso acontecesse, e lembra-te que na perspectiva dela as telenovelas são imitações da vida quotidiana, talvez houvesse esperança de algo semelhante ocorrer na sua vida, uma surpresa qualquer que perturbasse a rotina dos dias, que lhe mudasse o destino.
ELE: Já viste, um gajo faz um comentário qualquer, só para fazer conversa e tal, uma perguntazinha inocente ou assim, e acabas sempre a falar de ti, nunca falha, pões-te logo com teorias e desculpas e tretas.
EU: É capaz de ser verdade.
ELE: E sabes que mais? Isso irrita, foda-se, nem imaginas o que irrita. Aliás, de certeza que foi por isso que ela se divorciou de ti. De certezinha.
EU: Divorciou-se porque percebeu que estava a viver na telenovela errada. E a tua mulher, pelo que contas, deve estar quase a perceber o mesmo.
ELE: Não digas isso nem a brincar.
EU: Ok, não digo. Mas que queres que te diga, afinal?
ELE: Tudo menos isso.
EU: Olha, acho que já percebi o que queres. Queres que te assegure que, na verdade, as telenovelas são apenas entretenimentos simplistas para alienar as pessoas, para distraí-las das coisas mesmo importantes como a crise e assim. O ópio do povo e tal. É isso, não é? Tal e qual a história do pai natal que contei ao meu filho; olha que ele acreditou, ainda acredita, e isto é mais ou menos igual. Ou não é? Porque eu consigo ser bastante convincente a contar histórias da carochinha; apesar de saber que o segredo é apenas contá-las a quem está predisposto a acreditar nelas, a quem precisa de acreditar nelas. Voltemos ao princípio, então. Como é que perguntaste, no início da conversa? Qual é o fascínio dela pela merda das telenovelas, não foi? Ou algo do género. Bom, eu respondo. Respondo-te assim. Deixa-a lá, não te preocupes com isso, é apenas uma forma de fuga e descompressão, uma forma ingénua e inofensiva de aliviar o stress do quotidiano e tal. Ok? Então vamos embora, que se faz tarde.

Coisas que me contam no consultório # 01

No outro dia fomos jantar naquele restaurante novo que abriu junto ao rio, eu e a minha mulher; tínhamos voltado a discutir por causa da universidade do miúdo e, talvez por isso, estávamos um pouco mais silenciosos do que o normal, mais distantes e rancorosos, mais isolados; sabe como é. Talvez tenhamos ido ao restaurante apenas para não ficarmos os dois em casa, silenciosos e agastados, acumulando ressentimentos e desviando propositadamente os olhares, calculámos – separadamente – que talvez fosse mais seguro estar em público, rodeados de gente, para não cedermos à tentação de nos agredirmos, para não cedermos à tentação fácil de provocar uma reacção do outro, forçando-o a fazer qualquer coisa má apenas para depois o podermos acusar de ter feito essa coisa má. Bom, a verdade é que não sei bem porquê mas lá fomos. Lá estávamos. E então, como precisava de me distrair um pouco, tal como o senhor doutor diz, não é?, procurar focos de interesse que permitam aliviar a tensão latente e isso, comecei a fazer o que costumo fazer algumas vezes, que é olhar para as pessoas, observá-las e estudá-las, espiar um pouco. Já falámos sobre isso, lembra-se? Nada de novo, portanto. Bom, acontece que acabei por reparar num casal que estava na mesa ao lado. Mais jovens do que nós, no início dos trinta; gente com bom gosto; bonita, ela. Lá estavam, caladinhos, ainda mais apáticos e distantes do que nós, como se nem se conhecessem, como se fossem dois desconhecidos que tivessem sido forçados a partilhar uma mesa; era o que pareciam, dois anónimos surpreendidos numa situação constrangedora. E afinal, talvez tenha sido por isso que concentrei a minha atenção neles, por intuir que enquanto casal estavam ainda em pior estado do que nós. Ele olhava para a televisão, absorto e inerte, talvez um pouco esquecido do local onde se encontrava, quase agindo como se estivesse sozinho em casa, estendido no sofá à espera que o sono chegasse ou o tempo passasse, o que calhasse acontecer primeiro. E ela comia devagarinho, o garfo na mão direita, levando espaçadamente pequenos pedaços de comida à boca; tal e qual uma criança contrariada, uma criança aborrecida; uma criança de castigo, foi o que pensei: olha, esta age como se o casamento fosse um castigo. Claro que não faço ideia por que motivo concluí que se tratava de um casal, talvez nem fosse, poderia ser um primeiro encontro, ou um blind date, ou outra coisa qualquer, sei lá eu, mas também não importa. Parti do princípio que eram casados e fui espiando. Bom, foi então que, por acaso, foi mesmo por acaso, reparei que ela tinha a mão, a outra mão, entre as pernas, ali esquecida e arrumadinha, como se estivesse a aquecê-la ou assim; ou como se estivesse a escondê-la, a protegê-la, não sei bem; percebe? Uma coisa banal e irrelevante, sem interesse; mas logo depois notei que, por vezes, ela movia a mão de uma forma que me chamou a atenção: discretamente mas com intenção, sabe? Não era uma acção distraída e inconsciente, havia intenção. Como se estivesse a acariciar-se, percebe? Propositadamente e em público, em frente do namorado ou do marido ou lá o que era. A mão entre as coxas, ali mesmo junto do sexo, está a ver? Não que fosse um toque descaradamente sexual, uma espécie de tentativa de masturbação em público ou assim, não é isso que estou a dizer, mas também não se tratava de um simples toque ocasional e inócuo, inofensivo. Isso, não era; e sabe porquê? Porque sempre que o fazia, sempre que se tocava, apenas as calças justas a separar os dedos e o sexo, desculpe por falar assim, ela olhava o marido; olhava-o, como se estivesse a desafiá-lo; ainda pensei que seria para o vigiar, para se certificar que ele não a surpreendia, tal como uma criança vigia o pai para perceber se ele já notou que está a dar comida ao gato aninhado ali ao lado da cadeira, mas depois percebi que era mesmo desafio, talvez até provocação; como se pretendesse ser surpreendida, talvez forçá-lo a quebrar a indiferença, a reagir; a regressar ao restaurante. Fui assistindo, levemente excitado, já lhe disse que ela era uma mulher bonita; sentia-me um pouco envergonhado mas continuava a espiar, deixando-me seduzir por aquele pequeno drama um pouco pateta, talvez até imaginado, quem sabe?, podia ser tudo imaginação minha. Fui espreitando, esquecendo-me das minhas circunstâncias, do local onde me encontrava, do que devia estar a fazer ou a dizer. Fugindo de mim e dos meus problemas, tentando entrar um pouco à força num mundo diferente, desconhecido e cativante, novo. É sempre assim, não é senhor doutor?, temos aversão ao vazio, precisamos é de ocupar o cérebro com qualquer coisa; e é sempre mais fácil distrairmo-nos com os problemas dos outros do que dar atenção aos nossos, vale tudo desde que não pensemos nos nossos dramazinhos, se não fosse assim não precisávamos de psiquiatras para nada, não acha senhor doutor? Enfim. Não sei quanto tempo durou este devaneio mas, de repente, a minha mulher falou, apanhando-me desprevenido, foi quase um susto, tinha esquecido completamente que ela estava mesmo ali à minha frente; ouvi-a e vi-a e voltei subitamente a tomar consciência do seu perfume, assim de repente. Regressei. Perguntou-me se o bacalhau não me parecia um pouco salgado. Uma banalidade completa, está a ver?, mas sabe melhor do que eu como os casais gastam as coisas relevantes que têm a dizer entre si logo no primeiro ano de casamento, depois limitam-se a ir repetindo fórmulas, numa tentativa por vezes desesperada de encontrar novas formas de dizer as mesmas coisas, que de qualquer modo vão perdendo a relevância por já terem sido tão repetidas, foram-se esvaziando devagarinho; e o resto, são insignificâncias que se vão dizendo apenas para preencher o silêncio ou para dar sinal de vida. Coisas como aquilo do bacalhau, que ela me perguntou assim de repente. Disse que sim, forçando-me a regressar à minha realidade, à minha mesa; ela respondeu que não comia um bacalhau decente há décadas, eu disse que não estava assim tão mau, ela não soube como continuar a conversa. Ficámos a olhar para os pratos, para o bacalhau. À espera de qualquer coisa que pudesse acontecer, é um bocado triste quando uma pessoa se habitua a esperar que as coisas aconteçam, quando desiste de provocar e controlar os acontecimentos. É triste mas é mesmo assim, paciência. Mas olhe que foi bom termos conversado sobre o bacalhau, se é que aquilo se pode qualificar como uma conversa, foi um sinal de que tínhamos esquecido a zanga, um sinal de que era altura de seguir em frente. Como vê, até as conversas mais indigentes têm a sua utilidade, o que é certamente um consolo para os idiotas. Não se ria, é mesmo assim. A apatia lá foi caindo suavemente sobre nós, na realidade não chegara a dissipar-se verdadeiramente, não é? Talvez nunca chegue a dissipar-se, sei lá eu. Tudo como antes, mais ou menos. Os minutos a arrastarem-se e o olhar a fugir-me para a mesa do lado. Lá estava ela, a mãozinha entre as pernas. Deixei-me estar a olhar. Depois, espreitei a minha mulher, apenas para conferir que não me espiava; vi a expressão reflectiva e distante, pensei maldosamente que talvez ainda estivesse a pensar no bacalhau, mas que sei eu do que pensa ela, afinal? Contudo, houve algo nessa expressão que me fez deter o olhar e me impediu de regressar à mesa do lado; havia no seu rosto, no seu olhar, um halo, gosto desta palavra, senhor doutor, foi a minha mãe que ma ensinou, um halo de distância e de apatia, de desinteresse, que me incomodou de uma forma especialmente desconfortável. Sabe porquê? Porque compreendi, assim de súbito, numa daquelas epifanias de que falam nos filmes, que era uma expressão muito semelhante à da mulher da mesa do lado; mesmo muito semelhante. Igualzinha, para dizer a verdade. E então, logo de seguida, veio a dúvida, uma dúvida atroz: será que a minha mulher já fez algo semelhante? Algo tão… como dizer? Desesperado, talvez seja a palavra. Desesperado. Percebe, doutor? E se ela estivesse a fazer precisamente a mesma coisa naquele momento, lá do outro lado da mesa? Ou algo do género, um qualquer disparate típico de gente desesperada. Como um garoto que rouba fruta apenas para chamar a atenção dos pais, porque o castigo que possa sofrer sempre é melhor que o desinteresse; não me saía esta ideia da cabeça, um garoto a roubar fruta. Talvez me consiga explicar o significado desta ideia em concreto, senhor doutor; ou, se calhar, não tem significado nenhum, é apenas uma ideia. Somos todos um pouco como os garotos, não acha? Ou, na verdade, nunca deixamos de ser garotos? Não interessa. O que importa é que percebi, assim de repente, que é a maneira como se percebem as coisas importantes, sabemos que algo é importante apenas porque percebemos o seu significado ou impacto de repente, caso contrário não seria importante, não sei se concorda, e… e perdi-me, desculpe senhor doutor. Ora bem, o que estava a querer dizer é que percebi, de repente, como lhe estava a explicar, o quanto estávamos afastados, eu e a minha mulher, o quanto aprendêramos a desconhecer-nos; percebi como havia muito pouco a ligar-nos, a aproximar-nos, a unir-nos. Nada em comum, na verdade; nem o bacalhau, já reparou? Nenhum interesse em saber do outro, em olhar para o outro. Percebe onde quero chegar, senhor doutor? É que, na verdade, se ela estivesse a fazer qualquer coisa, fosse o que fosse, algo semelhante ao que estava a fazer a mulher da mesa do lado, isso pouco me importaria. Pouco, nada. Mesmo nada, nadinha. Por isso, diga-me lá: acha que fiz mal em avançar assim de repente para o divórcio? Bom, de repente não foi, há quem diga que é no dia do casamento que se começa a preparar o divórcio e não sou eu que vou discordar. Mas a verdade é que… Bom, a verdade é que durante um bocado ainda pensei que talvez fosse melhor seguir o sentido oposto; não sei porquê mas pensei nisso; sei lá… levá-la numa viagem qualquer, por exemplo; uma coisa romântica tipo segunda lua de mel, está a ver?, passear de mãos dadas e abraçá-la e tal, fazê-la sentir-se amada ou pelo menos desejada, ou pelo menos ouvida, sorrir-lhe e fazê-la sorrir, beijá-la em público, oferecer-lhe uma pulseira que ela tivesse espreitado numa montra, dividir um jornal na esplanada do hotel e sei lá que mais; disparates que os rapazes de vinte anos fazem quando julgam que estão apaixonados; está a perceber, doutor? Confesso que ainda pensei nisso, admito que sim, pensei. Mas olhe lá, deixe-me perguntar-lhe isto: parece-lhe que eu ainda tenha idade para romantismos? É que eu acho que não tenho.

# 68: Ok

ELA: Sabes, desculpa falar nisto mas gostava de te pedir um favor.
ELE: O quê?
ELA: Gostava que dissesses que me amas. Que olhasses para mim e dissesses: amo-te. Só uma vez, chegava.
ELE: Mas eu não te amo. Sabes isso.
ELA: Sei. Mas podias dizê-lo na mesma. Não podias?
ELE: Suponho que sim.
(Pausa.)
ELA: Não ficaste aborrecido, pois não?
ELE: Claro que não.
ELA: Não queria aborrecer-te.
ELE: Eu sei. Mas deixaste-me pensativo.
ELA: Desculpa.
ELE: Não faz mal.
(Pausa.)
ELA: Continuas pensativo.
ELE: Sim, estava a pensar que tens razão, que poderia perfeitamente olhar para ti e dizer que te amo.
ELA: Apesar de não o sentires.
ELE: Sim. Mas não é isso que importa. O que conta é que poderia dizê-lo.
ELA: Um favor que me fazias.
ELE: Não seria propriamente um sacrifício ou assim.
ELA: Não quero que faças sacrifícios.
ELE: Não, claro que não seria um sacrifício. Seria uma espécie de presente.
ELA: Como se fosse o nosso aniversário.
ELE: É, mais ou menos isso.
(Pausa.)
ELE: Então, aqui vai.
ELA: Está bem.
ELE: Amo-te.
(Pausa.)
ELA: Obrigado. Obrigado por dizeres.
ELE: Não precisas de agradecer.
(Pausa.)
ELE: E foi bom?
ELA: Ouvir-te dizê-lo? Sim, foi bom. Interessante.
ELE: Ainda bem, fico contente.
ELA: Ok.
ELE: Talvez até possa voltar a fazê-lo. Qualquer dia.
ELA: A sério? Seria simpático.
(Pausa.)
ELE: Mas achas que mudou alguma coisa? Sentes que mudou alguma coisa?
ELA: Penso que não.
ELE: Seria estranho, se tivesse mudado.
ELA: Pois seria. Mesmo estranho.
(Pausa.)
ELA: Mas, apesar de tudo, foi bom.
ELE: Agradável?
ELA: Sim, penso que é o termo adequado. Agradável.
(Pausa.)
ELA: Continuas pensativo?
ELE: Engraçado, de repente comecei a imaginar que se o dissesse mais vezes, se o fosse repetindo uma e outra vez, talvez começasse a acreditar.
ELA: Acreditar? Que queres dizer? Estás a falar de quê?
ELE: Estou a falar de dizer que te amo. Estranho, não é? Afinal, é só uma palavra. Mas poderia ir repetindo e repetindo e, quem sabe, talvez começasse a acreditar.
ELA: Achas?
ELE: Não sei, estava só a pensar nisso.
ELA: É um pensamento estranho.
ELE: Eu sei.
ELA: Mas bonito.
(Pausa.)
ELE: Sabes o que é ainda mais estranho?
ELA: O quê?
ELE: Vais rir.
ELA: Prometo que não.
ELE: Bom, levei o pensamento mais longe, até às últimas consequências.
ELA: Que queres dizer?
ELE: Estava a pensar que se acreditasse nisso, se o repetisse tanta vez que começasse a acreditar que te amo…
ELA: Sim?
ELE: Talvez começasse a senti-lo.
ELA: Senti-lo?
ELE: Sim, senti-lo. Sentir que te amo.
ELA: Amar-me mesmo? É o que estás a dizer?
ELE: Suponho que sim.
(Pausa.)
ELA: Acho que ia gostar disso.
ELE: Imaginei que sim.
ELA: Seria agradável.
ELE: Estava a pensar que poderia ser interessante experimentar. Depois deste tempo todo, tentar algo novo, algo diferente.
ELA: Sim, acho que devíamos tentar. Devíamos mesmo. Se quiseres, é claro.
ELE: Quero.
(Pausa.)
ELA: Como viste, não ri.
ELE: Pois não.
(Pausa.)
ELE: Vamos então experimentar?
ELA: Sim.
ELE: Nem que seja apenas para nos distrairmos um bocado e tal.
ELA: Para não nos aborrecermos tanto.
ELE: Isso.
(Pausa.)
ELE: Aqui vai, então.
ELA: Está bem.
ELE: Amo-te.
ELA: Ok.
(Pausa.)
ELA: Se calhar é um bocado com dizia um filósofo.
ELE: Qual?
ELA: Não me lembro, acho que era um alemão qualquer.
ELE: E que dizia ele?
ELA: Dizia que o que conta não é tanto a verdade ou os factos mas a forma como se fala dessa verdade ou desses factos.
ELE: Isso é um bocado esquisito.
ELA: Se calhar estou a fazer confusão. Mas tenho a certeza que houve alguém que defendia que o conteúdo do que é dito depende da forma como é enunciado.
ELE: Queres dizer que isso se pode aplicar ao nosso caso?
ELA: Um pouco, talvez.
(Pausa.)
ELE: Aparentemente, somos pessoas filosóficas. Quem diria.
ELA: Ninguém.
(Pausa.)
ELA: Quanto tempo achas que vai demorar?
ELE: Não faço ideia. Afinal, é só uma experiência, pode nem sequer resultar.
ELA: Sim, é verdade. Não devemos apressar a ciência.
ELE: Ciência?
ELA: Claro. Especulaste uma teoria e agora vais testá-la; é ciência pura.
ELE: Tens razão.
ELA: E a ciência, sabes como é. É científica. Implica paciência e perseverança e mais não sei quê.
ELE: É um pouco como o amor, não achas?
ELA: Sim, parece-me uma boa comparação.
ELE: Talvez o amor seja simples ciência.
ELA: Teorias e experimentações e assim?
ELE: Algo do género.
ELA: Talvez.
(Pausa.)
ELA: Nesse caso, no amor existe muita margem para o erro. Não é? Experiências que falham e isso.
ELE: É inevitável.
ELA: E connosco?
ELE: Que queres dizer?
ELA: A experiência não tem corrido mal, pois não?
ELE: Parece-me que não.
ELA: Também penso que não.
(Pausa.)
ELE: Filosóficos e científicos. Parecemos o casal perfeito.
ELA: É verdade.
ELE: Apesar de não nos amarmos.
ELA: Pois não.
ELE: Quase perfeitos, então.
ELA: É.
(Pausa.)
ELE: Achas que já posso dizê-lo novamente?
ELA: Penso que sim.
ELE: Muito bem, aqui vai.
ELA: Estou pronta.
ELE: Amo-te.
ELA: Ok.
ELE: Continua a ser agradável para ti?
ELA: Mais ou menos.
ELE: Ainda bem.
(Pausa.)
ELE: Há pouco, falaste de aniversário.
ELA: Sim.
ELE: Quando é o nosso aniversário, afinal?
ELA: Na verdade, não sei.
ELE: Não?
ELA: Não. Isso desagrada-te? Que eu não saiba.
ELE: Claro que não. De todo.
ELA: Mas ficaste surpreendido.
ELE: Um pouco. Não sei bem porquê.
ELA: Decepcionado.
ELE: Não, claro que não. Acredita que não fiquei.
ELA: Tens a certeza?
ELE: Tenho.
ELA: Ok.
(Pausa.)
ELA: Voltando à experiência.
ELE: Sim.
ELA: E tu, já começaste a sentir alguma diferença?
ELE: A acreditar, é o que queres dizer? A acreditar que te amo?
ELA: Sim.
ELE: Penso que é muito cedo.
ELA: Também pensei o mesmo, era só para ter a certeza.
ELE: Fizeste bem. Gosto que tenhas perguntado.
ELA: Por vezes, penso que estamos de tal forma em sintonia que nem precisaríamos de falar para nos entendermos.
ELE: Sim, também já senti isso.
ELA: E é bom.
ELE: Pois é.
ELA: Tanta gente que se ouve por aí, casais e isso, com conversas irrelevantes. Falam e falam e falam mas não dizem nada. Não se entendem, vê-se logo que estão apenas a falar para si próprios.
ELE: Sim, é um pouco irritante. Ou triste, conforme as situações.
ELA: Pessoas que não têm mesmo noção da figurinha que fazem.
ELE: Pois não.
(Pausa.)
ELA: Mas nós não somos assim.
ELE: Claro que não.
ELA: Filosóficos e científicos.
ELE: Isso mesmo.
(Pausa.)
ELA: Estou a ficar aborrecida.
ELE: Sim? E que te apetece fazer?
ELA: Não sei. Talvez foder um bocado?
ELE: Foder?
ELA: Só para distrair.
ELE: Ok.
ELA: Ok?
ELE: Ok.

# 66: Bimby

1.
Quando chega a casa, ele senta-se no sofá e liga a televisão; vê o final do Portugal em Directo (por causa da meteorologia; mas, na verdade, que lhe importa que chova ou não?), o Preço Certo de princípio ao fim e o início do Telejornal, enquanto a ouve na cozinha a caminhar de um lado para o outro, pegando nisto e largando aquilo, ligando e desligando máquinas, suspirando uma e outra vez. Não gosta particularmente dos programas que vê, muitas vezes nem sequer está muito atento à televisão, mas uma apatia profunda e paralisante invade-o mal entra em casa e impede-o de se erguer do sofá para fazer seja o que for (apesar de ter consciência de que qualquer coisa que se lembre de fazer será sempre mais útil e recompensadora do que aquilo, do que aquela prostração), força-o a manter-se ali, silencioso e inconsciente, desligado, como se precisasse da televisão para se distrair momentaneamente da trivialidade da sua vida, do dia de trabalho que terminara e que se repetiria com exactidão no dia seguinte, e no próximo, indefinidamente.
Mas o que lhe custa mais, o que lhe corrói a consciência e perturba a lassidão habitual, é a permanência constante dela na cozinha, como se fosse prisioneira daquelas quatro paredes, escrava daqueles utensílios; não percebe nem vislumbra o que faz ela durante tanto tempo na cozinha (na verdade, nunca lhe perguntara; mas que poderá ela lá fazer, se não cozinhar?), não percebe por que motivo não lhe faz companhia na sala, partilhando a televisão consigo ou lendo uma revista ou simplesmente estando lá – a possibilidade de ser ele a fazer-lhe companhia na cozinha sempre lhe parecera imprudente e arriscada: e se ela reagisse com desagrado à sua presença, ou mesmo com indiferença?
Não sente propriamente ciúmes da cozinha, apesar de por vezes suspeitar (e sabe que este é um pensamento muito, muito palerma) que não tem grandes hipóteses de concorrer com a diversidade e versatilidade de ofertas de que ela pode usufruir naquele espaço (que tem ele, afinal, para oferecer à mulher que ama – ama? –, além da sua presença silenciosa e apática, do seu toque ocasional e displicente, do seu sorriso forçado? Até a Bimby, por exemplo, poderá oferecer muito mais do que isso, muito mais); mas intui que aquela presença ostensiva na cozinha, conciliada com a sua própria presença ostensiva no sofá, simboliza de modo incisivo e clarividente o crescente afastamento a que estão condenados, como se com a passagem dos anos deixassem de ter o que dizer ao outro (ou, pior: perdessem a vontade de dizer fosse o que fosse ao outro), restando apenas o silêncio e a solidão a uni-los.
Ela trouxe o jantar para a sala quando ia o telejornal na quarta notícia e agora jantam em silêncio, olhando com indiferença para a televisão; o noticiário não anuncia nada que mereça ser comentado ou discutido, não lhes proporciona nenhum pretexto para quebrarem o silêncio. Limitam-se a mastigar e pestanejar, mecanicamente, como se fossem duas Bimbys ocupadas na elaboração de um empadão, competindo para terminar em primeiro lugar. Nunca lhe ocorrera que ela pudesse detestar a sua cozinha e que todo o tempo que lá passa, fingindo-se ocupada, sirva apenas para não ser forçada – forçada? – a estar com ele (seria possível tamanha dissimulação?, perguntar-se-ia ele, sem perceber que o seu próprio interesse fingido na televisão representa igual grau de hipocrisia), sirva apenas para se proteger dele – porque, afinal, a cozinha não é uma prisão mas um refúgio; nunca lhe ocorrera que ela lá permanecesse, junto da sua ruidosa e multifuncional Bimby, apenas para evitar a sua companhia, para não o ver nem ouvir, para não ser constrangida a falar-lhe porque não tinha nada, absolutamente nada, para lhe dizer. Nunca lhe ocorrera; mas quando ocorresse (e iria certamente ocorrer, num qualquer fim de tarde, enquanto tentava adivinhar o valor da montra final do Preço Certo e o apito da Bimby inundasse subitamente a casa), era muito provável que continuasse sentado no seu sofá, a olhar para a televisão sem verdadeiramente ver ou ouvir e à espera que acontecesse o que tivesse de acontecer.

2.
Enquanto transporta a louça suja para a cozinha, ela questiona-se se, agora que chega o momento de cumprir uma vez mais a tradição de comemorar o aniversário do casamento – o décimo sétimo – com um jantar teoricamente romântico num qualquer restaurante absurdamente caro, não será a altura ideal para olhá-lo nos olhos e formular a única questão que precisa de ser formulada e que anda a mastigar há demasiado tempo: há quanto tempo terminou o nosso casamento?
Está ainda a pensar nisto, perguntando-se se alguma vez terá coragem de o fazer, quando o ouve levantar-se do sofá e caminhar com vagar pela sala, como se hesitasse na direcção a tomar; pensa que irá à casa de banho mas, afinal, entra na cozinha e dá uma voltinha por ali, confuso e embaraçado, parando finalmente em frente do armariozinho onde se encontra a Bimby; e, incapaz de a olhar directamente (há quanto tempo não se olham directamente?), pergunta: para que serve esta maquineta, afinal? Ela estranha a sua presença, a sua pergunta, o seu interesse; e não sabe como reagir. Apenas passados muitos segundos, quando o silêncio se tornara atroz (mais atroz do que o habitual), consegue responder: serve para tudo; e após uma ligeira hesitação, começa a concretizar a sua resposta, detalhando as utilidades da máquina com uma vaga irritação e contrariedade na voz mas, logo depois, com crescente entusiasmo e surpresa, ao perceber que ele a ouve com aparente interesse, com vontade, com atenção. Agradada por constatar que ele não só formulara uma pergunta como ouvia a resposta: fizera um esforço, tentara, tomara uma iniciativa, levantara-se do sofá; está ali, à sua frente, olhando-a e escutando-a, quem sabe se à beira de um sorriso.
E enquanto fala (enquanto se ouve falar), há uma ideia disparatada, de uma irracionalidade e absurdez sem limite mas de certo modo irresistível, que lhe baila na cabeça: talvez algum do sucesso comercial da Bimby resida na sua capacidade oculta de adiar o fim (salvar seria demasiado) de alguns casamentos. Sorri, surpreendida com a frivolidade da ideia – na verdade, surpreendida com a frivolidade do seu comportamento; e irritada com o facto de se contentar com tão pouco, com uma simples migalha de tempo, de atenção – e continua a tagarelar, sabendo que acabará por chegar o momento em que não haverá nada mais a dizer, o momento em que tudo voltará ao que foi, ao que sempre será.