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Kellerman Remixed

Está em marcha o projecto “kellerman remixed”. Convidei uma série de amigos, com ou sem obra publicada, para reescreverem estórias minhas e as remixes começam a chegar (espantosas e surpreendentes). Entretanto, uma delas assumiu contornos inesperados: António Cova enviou uma música e não uma estória. Chama-se “Fodidos estamos” e poderá facilmente tornar-se um hino geracional. Eis então o single de apresentação do livro… Enjoy.

# 71: Enxotar a tristeza

ELE: No outro dia aconteceu-me uma coisa um bocado assustadora.
ELA: Sério? Conta.
ELE: Quero dizer, na verdade foi uma coisa sem jeito nenhum.
ELA: Mas assustadora.
ELE: Sim.
ELA: E queres falar disso.
ELE: Quero.
ELA: Ok. Avança, tenho uns minutos.
ELE: Então, foi assim. Estava lá no apartamento, na varanda, sentadinho na minha poltrona, a ouvir música e assim. Descansado da vida.
ELA: E depois?
ELE: Ia pensando numas merdas, nada de especial, daquelas coisas que passam pela cabeça e um gajo nem percebe de onde veio aquilo. Estava completamente distraído, sabes, apenas isso, e fui pensando e pensando e pensando.
ELA: Assustador, realmente. Tu quando pensas…
ELE: Pois. E quanto mais pensava…
ELA: Sim? E quanto mais pensavas?
ELE: Bom, fui ficando triste.
ELA: Triste?
ELE: Triste.
ELA: Porquê?
ELE: Não sei. Não faço ideia. Não estava triste e de repente comecei a ficar. Pronto. Sei lá explicar. Fiquei triste. Triste e apreensivo e ansioso. Uma data de coisas.
ELA: Estou a ver.
ELE: Coisas depressivas. Percebes? Comecei a sentir-me… Deprimido.
ELA: Assim de repente? E que fizeste?
ELE: Nada, não fiz nada. Deixei-me estar, a ver onde é que aquilo me conduzia. À espera que passasse.
ELA: Tudo acaba por passar.
ELE: Pois. Mas, antes disso, houve a tal parte assustadora.
ELA: Que aconteceu?
ELE: Deu-me uma vontade danada de saltar da varanda.
ELA: Foda-se. Sério?
ELE: É.
ELA: Saltar cá para baixo? Saltar mesmo? É isso que queres dizer?
ELE: Saltar, saltar mesmo. Fugir. Desistir de tudo. Acabar com a tristeza, com a incerteza, com a falta de sentido. Sei lá.
ELA: Ena. Estás mesmo mal. Mesmo, mesmo mal.
ELE: Durante um instante, senti uma tentação tremenda, nem imaginas. Senti mesmo, durante uma fracção de segundo. Não sei explicar, foi mesmo estranho. Não me mexi, estava esparramado na poltrona, a música continuava a entrar-me pelos ouvidos, os olhos continuavam a deslizar pelo azul do céu… mas o espírito, ou sei lá o quê, algo dentro de mim, estava a afastar-se, e a tentar que o corpo o seguisse. A puxar por mim…
ELA: Estás a falar a sério? Sentiste-te mesmo tentado? Não acredito. Foda-se, olha que nunca te ouvi falar assim. O espírito a afastar-se, e não sei quê, parece conversa de tolos, foda-se. Foda-se, mesmo, que estás a assustar-me.
ELE: Não vale a pena assustares-te. Passou, como disseste tudo acaba por passar. Senti uma tentação, admito que senti, não sei porquê, não sei de onde veio, foi uma coisa fugaz e instantânea, fulgurante, mas senti. E agora, que estou a falar disso, parece tudo um bocado palerma, mas não altura foi… não sei. Intenso.
ELA: Mas, e depois?
ELE: Controlei-me, assumi o controlo de mim próprio, por assim dizer; obriguei-me a assumir o controlo, a afastar o devaneio. Mas aquele instante, aquele momento, foi efectivamente tentador. E isso é que foi assustador, o mais assustador.
ELA: Temes que volte a acontecer, é isso? E que seja ainda mais tentador.
ELE: Mais ou menos.
ELA: Estou a ver. Estás mesmo fodido, desculpa que te diga.
ELE: E que achas disto tudo?
ELA: Sei lá, não acho nada… O que queres que ache? O que é que tu achas?
ELE: Acho que… Não sei. Julgo que, depois disto, percebi que não gosto de estar sozinho, que não me apetece estar sozinho em casa… Não te rias, é a verdade.
ELA: Isso é uma conclusão um bocado extrema, não?
ELE: É o que sinto. Sei lá se é extrema.
ELA: E, na verdade, não estás verdadeiramente sozinho.
ELE: Desculpa?
ELA: Não estás sozinho. Tens o tal espírito a acompanhar-te, lembras-te? O tal que te quer puxar.
ELE: Não gozes.
ELA: Ok, não gozo. Mas que pensas fazer? Já procuraste um psiquiatra, para arranjares uns comprimidos?
ELE: Não.
ELA: E então? Estás à espera de quê?
ELE: Bom, na verdade era mesmo sobre isso que queria falar contigo.
ELA: Explica-te lá, não estou a ver onde queres chegar.
ELE: Tenho andado a pensar que não devia estar sozinho.
ELA: Não devias?
ELE: Não quero.
ELA: Ok.
ELE: E… Bom. Há quanto tempo andamos?
ELA: Quase um ano. Mas que tem isso a propósito do espírito saltador?
ELE: Um ano. É muito tempo, não é? Se calhar, podíamos… não sei. Estás a ver?
ELA: Desculpa lá. Estás a acabar comigo, é isso?
ELE: Não. Claro que não. Porra, não. É o contrário.
ELA: O contrário?
ELE: Sim, o contrário.
ELA: O contrário. Estás a perguntar-me se quero viver contigo?
ELE: Ou casar e assim.
ELA: Desculpa?
ELE: Casar.
ELA: E assim.
ELE: Pois.
ELA: Estás a pedir-me em casamento? É isso? Tu estás a pedir-me em casamento?
ELE: Acho que sim. Acho que estou.
ELA: Ok, ok, ok. Já percebi. Estou a perceber, já estou a perceber onde queres chegar. Desculpa a reacção. Ou melhor: a falta de reacção. Nunca ninguém me pediu em casamento, sabes isso; não sei bem como é que se faz. Não estava à espera, não estava mesmo.
ELE: Tudo bem.
ELA: Apanhaste-me de surpresa. Completamente.
ELE: E então?
ELA: Não sei o que te dizer.
ELE: Não sabes.
ELA: Não sei.
ELE: Alguma coisa deverás querer dizer.
ELA: Suponho que sim.
ELE: Então…
ELA: Então… E foi a cena da varanda que desencadeou isto tudo. Certo? O susto e isso. Foi o que te deu a ideia de casar?
ELE: Pelo menos, fez-me pensar um bocado.
ELA: Fez-te pensar.
ELE: Sim, é o que tenho feito nestes dias. Pensar.
ELA: E assustaste-te, pensaste tanto que te assustaste. Percebeste que não queres estar sozinho. Que a presença de alguém lá por casa talvez enxote a tristeza e tal. Que precisas de companhia na varanda.
ELE: Porque estás a falar nesse tom?
ELA: Olha, desculpa o tom, já te disse que isto de pedidos de casamento é novo para mim. Mas se estás realmente com medo que o espírito ou lá o que é te faça saltar da varanda abaixo, não seria mais fácil desceres do quinto andar e comprares um apartamento no rés-do-chão?
ELE: Desculpa?
ELA: Pensa nisso que eu tenho que ir, já estou atrasada, mesmo atrasada. Mas a sério, pensa nisso: um rés-do-chão; ok? Resolvia-te os problemas todos, de certezinha. Não achas? Se calhar, pensaste tanto, que te desorientaste; ou então, tens estado a pensar na direcção errada, por assim dizer. Bom. Tenho mesmo que ir. Xau, depois diz qualquer coisa.

Pausa

É verdade que a Gaveta tem estado quase ao abandono; o que não significa que eu esteja completamente parado. Quem quiser ir acompanhando as (poucas) novidades que vão surgindo, pode procurar por estes lados, onde será bem-vindo.
Quanto a estórias, por aqui continuarão a aparecer. Mais dia, menos dia...

# 70: Cento e catorze mortos

Quando ela o viu entrar no bar, reconheceu-o imediatamente; teriam passado uns oito anos, talvez nove – não: oito; definitivamente –, desde o ano em que lhe dera aulas de língua portuguesa durante alguns meses, como professora de substituição, e nunca mais o vira, nunca mais pensara nele; ainda assim, reconheceu-o inequivocamente mal o viu, teve a certeza de que era um antigo aluno, conseguiu visualizá-lo de imediato (um rapaz envergonhado que nunca falava, nunca sorria, que se sentava a uma mesa recuada e olhava muito pela janela). Foi saboreando a bebida enquanto o espreitava, tentando calcular a sua idade – vinte e sete ou vinte e oito, algures por aí – e apreciando a sua desenvoltura e a forma confiante como circulava pelo bar, estudando o seu corpo, o seu sorriso, as suas mãos; (recordou, de súbito, que fora nesse ano lectivo que casara mas logo se concentrou em afastar essa memória, em focalizar-se no presente). Tentou perceber se o rapaz aguardava alguém, ou se era esperado por alguém, enquanto tentava lembrar o seu nome, enquanto se perguntava se ele a recordaria, se a olharia com interesse ou com agastamento, se gostaria de a reencontrar; enquanto ponderava, especialmente, se seria demasiado estranho e degenerado e desesperado ir para a cama com um ex-aluno.
Quando terminou a bebida (olhou distraidamente em redor, tentando perceber se alguém lhe viria oferecer outra; mas ninguém reparara em si, ninguém iria gastar três euros e cinquenta cêntimos consigo), decidiu que quando recordasse o nome dele, o abordaria e logo se veria como correria a conversa, logo se veria se as suas necessidades momentâneas seriam compatíveis ou não; pensava, por isso, em nomes – António, Diogo, Carlos, Francisco, Duarte, João, Afonso, Miguel, Tiago; como são banais e indistinguíveis os nomes, pensava ela: como se o nome de alguém não fizesse, afinal, grande diferença, nenhuma diferença –, tentando associar qualquer um desses nomes àquele rosto sereno e belo, tão jovem. Sim, iria abordá-lo, esperando que aquela ténue ligação mantida num passado distante e quase esquecido fosse suficiente para sustentar e impulsionar uma relação, mesmo que fugaz, no presente.

– Estás bom, João?
– Desculpe, mas conheço-a?
– Será que estou assim tão diferente? Não vais dizer que estou velha, pois não?
– Oh senhora, vai-me desculpar mas…
– Bolas, João. Não me chames senhora, que me fazes sentir ainda mais velha do que realmente sou.
– Não queria ofendê-la mas não estou a ver de onde…
– Fui tua professora, há uns anitos. Língua portuguesa, décimo segundo ano; professora de substituição, estivemos juntos apenas um trimestre. Mas lembro-me muito bem de ti, João; lembro-me que não ouvias nada do que dizia, que passavas o tempo a olhar pela janela.
– Stora Patrícia?
– Que querido, afinal até te lembras do meu nome.
– Está diferente, stora. Mesmo diferente.
– Para melhor, espero.
– Claro, claro que sim. Para melhor.
– E gostas do que vês?
– Desculpe?
– Gostas do que vês?
– Acho que sim, stora, acho que gosto.
– A sério? Bom, se me ofereceres uma bebida, podes tratar-me por tu.
– Ok. Sabe, se usasse esse tipo de roupa nas aulas, de certeza que eu não teria olhado tanto pela janela; suponho que foi por isso que não a reconheci. A roupa muda tudo, altera as pessoas; disfarça-as um pouco. Mas bebe o quê, stora?

Beberam e riram durante um bocado, trocando recordações e insinuações, piadinhas, olhares. Ela percebeu como ele ficou um pouco perturbado quando consciencializou que a noite iria terminar em sexo, que era isso – apenas isso? – que ela desejava dele; talvez até se tenha sentido desconfortável ao compreender que estava a ser um pouco manipulado, que iria servir como mera distracção de uma quarentona solitária. Mas também percebeu que ele estava curioso, que estava interessado; e sentiu-se lisonjeada, sentiu-se leve e confortável, sentiu-se feliz. Mais que tudo: sentiu-se aliviada.
Foi ela que pagou a conta, foi ela que decidiu para onde iriam; ele submeteu-se à sua liderança sem protestos nem sugestões, como se ainda estivessem na sala de aula, como se ainda existisse uma hierarquia a uni-los. Durante a viagem, tentaram falar um pouco da matéria que ela lhe ensinara e de que ele não recordava absolutamente nada, falaram do que ele sentia quando olhava pela janela e do que ela sentia quando via os alunos olharem pela janela; ela falou do seu casamento fracassado e ele falou dos seus namoros fracassados – ela teve a sensação que ele estava a exagerar, que as suas relações não teriam sido assim tão fracassadas, e sentiu-se comovida com o esforço dele. Falaram um pouco de música e bares, de filmes, de sítios interessantes para passar férias; falaram do facto de estarem a fazer algo que habitualmente não faziam – engatar pessoas num bar, colocar a necessidade de sexo à frente de tudo – mas não se esforçaram em justificar os seus actos. Falaram do tempo. Falaram do estado do país e de política e da crise e dos problemas dos professores e do desemprego dos licenciados. Falaram do facto de haver dezasseis anos de diferença a separá-los – ele disse que ela estava muito bem para a idade que tinha, mesmo mesmo bem, e ela quase acreditou.
Por fim, chegaram ao bairro onde ela vivia desde o divórcio (deram uma voltas em busca de um lugar para estacionar; e ambos sentiram que se não aparecesse rapidamente um lugar, o desconforto cresceria até se tornar insuportável, talvez tivessem que abortar o projecto, esquecer aquela noite). Ela conduziu-o ao seu apartamento, depois de subirem sete andares de elevador no mais completo silêncio, afastados um do outro, como se fossem desconhecidos – na verdade, eram desconhecidos. Entraram e durante um instante não souberam o que fazer, como começar. Não conseguiram, sequer, olhar o outro, enfrentar o olhar do outro.
Então, ela disse uma coisa absolutamente parva: vamos lá ver se mereceres um vinte. Ele sorriu, embaraçado – apenas embaraçado e não intimidado; aproximou-se e tocou-a, pela primeira vez; tocou-a no peito, que por acaso era onde ela queria mesmo ser tocada – um dos sítios em que queria ser tocada, na verdade; afastou-lhe a roupa, que fora escolhida considerando o grau de facilidade com que poderia ser removida, e baixou a cabeça com naturalidade, passou a língua pelo mamilo; ela fechou os olhos, quase sorriu; ele movimentou a língua com perícia, ela gemeu um pouco (achou que ele deveria estar à espera de um gemido); e etc., pela noite fora.

Quando terminaram, sentiram-se confusos e desconfortáveis, prisioneiros da escuridão e do silêncio que os envolvia, dos seus próprios cheiros, do eco dos seus gemidos mais ou menos forçados; sentiram-se quase à beira do arrependimento; e por isso (para se manterem ocupados, para se distraírem), também porque não havia absolutamente mais nada que pudessem fazer, foderam de novo.
E enquanto o faziam, com empenho e voracidade, fustigando os corpos – como se tentassem expulsar deles a apatia e a indiferença, forçando-os a sentir qualquer coisa, a reagir –, pensavam no que aconteceria depois, no que fariam e diriam, na forma como se olhariam, ambos percebendo que aquela relação – que ainda não era propriamente uma relação; que, na verdade, nunca chegaria a ser uma relação – estava condenada; ambos recordaram relacionamentos anteriores (fracassos anteriores), em que se sentiam prisioneiros porque deixara de existir comunicação possível (não havia nada a dizer ou a escutar), relacionamentos tão estáticos que seria necessário um sismo para os fazer mover nalguma direcção, e perguntavam-se como fora possível deixarem-se arrastar para uma nova situação sem futuro.
Iam simplesmente fodendo, mentes absortas enquanto os corpos interagiam – pensado, talvez, como serão infelizes aquelas pessoas que juram ser incapazes de fazer sexo quando não existe amor e ternura e cumplicidade e tralará; como conseguirão? –, ignorando que afinal havia algo a uni-los, a aproximá-los: a incapacidade e inépcia em se relacionar com alguém (e se, simplesmente, conversassem sobre isso? Poderiam partir daí e seguir em frente, sem pressa).

– Obrigada, João.
– Porquê?
– Por teres vindo. Por teres ficado. A sério, João. Obrigada.
– Não digas isso. Sinto-me esquisito.
– A sério, nem imaginas como me tenho sentido só e desapreciada. Foi muito importante, isto. Não imaginas, mesmo.
(Nem ela própria conseguia perceber se estava a ser totalmente sincera, ou pelo menos um bocadinho sincera; talvez precisasse apenas de se sentir agradecida, bastando verbalizar esse sentimento – se o conseguia verbalizar, talvez existisse mesmo. Afinal, a partir do momento em que se diz algo, deixa de importar se efectivamente se sente o que se acabou de se expressar; não é? Se está dito, dito está, end of story.)
– Olha, já que estamos a falar e assim, queria confessar uma coisa.
– Confessar? Confessar o quê, João?
– A verdade é que não me chamo João. Desculpa.
– Não?
– Não.
– Não te chamas João?
– Não. Desculpa não ter dito antes.
– Tinha a certeza que te chamavas João. Quase a certeza.
– Não faz mal.
– Pois não. Acho que não faz mal.
(E como ela não lhe perguntou qual era afinal o seu nome, ele sentiu-se um pouco envergonhado e não foi capaz de dizer mais nada.)

Tinham dormido um pouco, ou fingido que dormiam; entretanto, amanhecera. Estavam na varanda, partilhando um cigarro (excesso de intimidade, talvez?), quando ela fizera uma pergunta inesperada (costumavas imaginar-me nua, imaginar como seria o meu corpo, quando te dava aulas?) a que ele respondera sem pensar, instintivamente (claro que sim); ela percebeu a mentira e sentiu-se magoada, ele percebeu que ela estava magoada e sentiu-se verdadeiramente arrependido de estar ali (afinal, pensou lugubremente, uma boa foda – sim, fora boa – não vale tudo). Depois disso, não conseguiram voltar a dialogar, limitando-se a dividir o cigarro (e que aconteceria, o que fariam, quando o cigarro terminasse?); compreendiam que precisavam de iniciar o processo de separação, que seria necessariamente diplomático e hipócrita, mas não sabiam como. (Ele queria simplesmente dizer: olha, foi bastante bom mas tenho que ir, ok?; ela gostaria de dizer: dou-te um dez e meio, está bem?)
Poderiam retomar um dos assuntos da noite anterior mas, na verdade, já tudo fora dito; poderiam, talvez, fazer planos para o pequeno-almoço ou até fantasiar sobre uma qualquer viagem que fariam em conjunto (planeá-la com fingido entusiasmo, na certeza de que jamais a realizariam), perspectivar um próximo encontro, algures; poderiam confessar o que tinham considerado mais surpreendente no desempenho sexual do outro, confessar o que ainda gostariam de fazer com o corpo do outro; poderiam falar sobre o tempo, do estado do país e de política e da crise e dos problemas dos professores e do desemprego dos licenciados; e dos falsos recibos verdes. Poderiam esforçar-se: mas não conseguiam, não quiseram. E, por isso, limitavam-se a partilhar o cigarro, a soprar o fumo, a olhar em frente, a respirar silenciosamente; à espera que acontecesse algo, qualquer coisa que os salvasse, uma distracção, um pretexto de conversa, uma fuga; qualquer coisa.

Primeiro, ouviram um barulho estranho que não conseguiram identificar e, logo depois, viram o avião; viram como estava demasiado próximo, demasiado baixo; viram que havia uma asa em chamas, um rasto de fumo preto; viram que o avião ia cair na cidade, mesmo em cima da cidade, ali pertinho, que estava tão baixo que jamais conseguiria chegar ao aeroporto; viram quando embateu no chão, mesmo perante eles, no meio da auto-estrada, numa tentativa fracassada de aterragem forçada; viram como se arrastou, como embateu numa ponte, como explodiu tal e qual como acontece nos filmes. Não viram mas imaginaram pessoas a gritar, pessoas a chorar, pessoas a desesperar, pessoas a explodir, pessoas a morrer.
E sentiram-se agradecidos (apesar de horrorizados) porque agora havia um pretexto para suspender o desconforto que sentiam, para se esquecerem de si próprios durante uns minutos; não precisariam de falar do pequeno-almoço, de fingir que iriam voltar a estar juntos. Não precisariam de se expor, de se vulnerabilizar, agora que havia algo externo a uni-los; bastaria, por isso, deslumbrarem-se um pouco com aquela desgraça e, quando chegasse o momento, voltar a acender um cigarro; entretanto, o tempo passaria e, naturalmente, chegaria o momento da separação (ela ficaria a arrumar e a arejar o apartamento, ligaria a máquina de lavar, talvez comesse um iogurte; ele teria de chamar um táxi, demoraria algum tempo a escapar à confusão do trânsito provocada pelo acidente mas lá acabaria por chegar a casa).
Mais um dia, mais uma foda, mais algumas horas gastas; e a vida a prosseguir.

– Achas que morreu muita gente?
– De certeza.
– Coitados. Tenho pena das famílias. E também das pessoas que agora vão ter que andar pela auto-estrada a apanhar os pedaços de corpos.
– O trânsito vai ficar fechado durante dias, vai ser uma confusão.
– E de certeza que não vão conseguir recolher tudo. Já imaginaste passares ali daqui uma semana ou duas e teres a sensação que acabaste de pisar um pedaço de osso ou de crânio?
– Se calhar, quando um avião se incendeia e explode, os corpos das pessoas também se incendeiam e explodem, transformando-se em cinzas.
– Achas que terá sido um atentado?
– Duvido.
– Já alguma vez pensaste como gostarias de morrer?
– Não, nem por isso. Vou para dentro, ver o que estão a dizer na televisão sobre o acidente. Ficas?

Cento e catorze mortos, ao que parece. Foi o que disseram na televisão.
Talvez até possam falar disso, agora que sabem mais detalhes sobre o acidente (cento e catorze, já imaginaste? Mesmo ali à nossa frente, a caírem mesmo perante nós, como se fosse uma chuvada ou assim), caso um dia se voltem a cruzar num qualquer bar.

(Num jornal qualquer foi publicada a lista dos cento e catorze nomes; mas nenhum deles reparou, nenhum deles se interessou – na verdade, alguém teria lido os cento e catorze nomes? –. Afinal, eram apenas nomes; e como são banais e indistinguíveis os nomes, pensariam eles, pensa toda a gente: como se o nome de alguém não fizesse, afinal, grande diferença, nenhuma diferença.)

Esboço # 90

Parazo de validade expirado.

Esboço # 89

Prazo de validade expirado.

# 69: Apologia das telenovelas

ELE: Juro que não percebo o fascínio dela pela merda das telenovelas. Com a tua mulher é igual?
EU: Nem por isso.
ELE: Pois com a minha é sagrado; chega àquela hora e o mundo desliga, deixa de girar. Nada mais interessa, nada conta; é impossível tirá-la de perto da televisão, fazê-la sair de casa. Não sei se estás a ver.
EU: Estou.
ELE: E aquilo mói, sabes? É uma coisa que se põe entre nós, um muro intransponível. Podíamos estar a fazer montes de coisas, sei lá… Podíamos ver outra treta qualquer na televisão, um filme ou assim… ou podíamos beber um copo e conversar sobre o futuro e sobre ter filhos e sobre os amigos que se foram divorciando, podíamos ir para a varanda fumar enquanto contávamos estrelas, podíamos foder um bocado, podíamos ir a um bar ou ao teatro ou visitar uns amigos, podíamos fazer qualquer coisa juntos. Mas não, enquanto aquela merda dura, não há hipótese, não se mexe dali. Parece-te normal?
EU: Acho que sim.
ELE: A sério?
EU: Já pensaste fazer-lhe companhia?
ELE: A ver a telenovela? Estás a gozar comigo ou quê?
EU: Os casais estão sempre a desafiarem-se silenciosamente, a envolverem-se em duelos patetas. Uma espécie de luta não assumida pela liderança, pela supremacia; ou pela subsistência de alguma individualidade.
ELE: Grande tanga.
EU: A vida matrimonial é uma grande tanga. Até aposto que sei como são as coisas, lá em casa. Tu a ver se ela se farta das telenovelas e te faz a vontade, ela a ver se tu lhe fazes companhia nem que seja só uma noite; e se ninguém cede, apesar de serem cedências muito simples, a coisa vai-se arrastado, há-de chegar o momento em que um ou outro acaba por se desinteressar do que o outro faz ou deixa de fazer.
ELE: Que raio de conversa, tiraste um curso de psicólogo por correspondência ou quê?
EU: Olha lá, qual é que te parece o motivo dela, para ver telenovelas?
ELE: Isso gostava eu de perceber. Aquilo parece tudo tão básico, tão estereotipado. E ela é uma mulher inteligente, sabes isso. Porra, é mais inteligente que eu, muito mais, e sensível e pragmática e culta e sei lá que mais. E isso é que me faz confusão, ela perder tempo com aquilo. Deixar-se manipular, permitir que brinquem com as suas emoções de uma forma despudorada, como se fosse uma criança. Faz-me uma confusão que não imaginas.
EU: Pensa nisto. Quando olhas para uma telenovela, vês uma coisa; mas outras pessoas podem olhar exactamente para o mesmo e ver algo muito diferente. Ver algo que nem te passa pela cabeça.
ELE: Não compliques, carago.
EU: A sério. Olha lá, que representa para ti uma telenovela?
ELE: Perda de tempo.
EU: Está bem, mas e que mais? Que pensas quando ouves o conceito “telenovela”?
ELE: Conceito? Eh pá, não me fodas com filosofias.
EU: Talvez penses em histórias básicas e elementares, estruturadas em conflitos primários e oposições simplistas, histórias previsíveis e arrastadas, manipuladoras. Falhei muito?
ELE: Nem por isso. Mas o mais irritante é a previsibilidade. Um gajo vê cinco minutos daquilo e adivinha de imediato como tudo vai acabar, passados nove meses. E sabes o que é mais ridículo? Mesmo que ela não conseguisse prever quem morre e quem casa, quem é pai e quem é irmão, não haveria problema; sabes porquê?
EU: Porquê?
ELE: Porque antes de ver, lê tudo na porcaria das revistas. Já sabe o que vai acontecer, porque é fácil adivinhar e porque leu, e mesmo assim vê aquilo tudo, com prazer e ansiedade, como se estivesse a assistir a algo verdadeiramente inesperado e importante.
EU: Estás a dar-me razão.
ELE: Estou?
EU: Estás a confirmar aquilo que te dizia. Ela olha para aquilo de maneira diferente, vê algo muito diferente do que tu vês.
ELE: Mas que vê ela, afinal?
EU: Já experimentaste perguntar-lhe?
ELE: Já.
EU: E que respondeu ela?
ELE: Encolheu os ombros.
EU: Mas insististe?
ELE: Nem por isso.
EU: Não insististe?
ELE: Já disse que não, porra.
EU: Eh pá, não percebes muito de mulheres, pois não?
ELE: Vais tu ensinar-me, se calhar.
EU: Talvez devesses ver um bocado de uma telenovela e aprender qualquer coisa sobre mulheres. O básico e assim.
ELE: Ou talvez vá pedir à tua ex-mulher que me ensine uma coisas.
EU: Já pensaste que as telenovelas são metáforas da vida?
ELE: E a dar-lhe. Metáforas e conceitos e filosofias e o catano. Isso é palavreado de quem não sabe o que dizer. Estar para aí a gastar palavras, mais nada.
EU: Foste tu que puxaste a conversa.
ELE: E já me arrependi.
EU: Sabes, esta não liga muito mas a minha primeira mulher gostava de telenovelas, era mais ou menos como a tua. Sabes porquê?
ELE: Não. Porquê?
EU: Precisamente por causa daquilo que te estava a dizer.
ELE: O quê?
EU: Aquilo das telenovelas serem metáforas da vida.
ELE: E como sabes que era por isso que ela via telenovelas?
EU: Perguntei-lhe.
ELE: E ela respondeu? Disse, naquela voz de fumadora dela: gosto de telenovelas porque são metáforas da vida.
EU: Mais ou menos.
ELE: Suponho que te explicou que porra quer isso dizer.
EU: Não. Não foi preciso.
ELE: Não foi preciso? Tão esperto que o meu amigo é, percebe logo tudo. Ou já tinhas tirado o curso por correspondência?
EU: As telenovelas são previsíveis e repetitivas, repletas de momentos desnecessários e supérfluos, de ilusões e equívocos, são entediantes, enganadoras, são lineares, são incoerentes, são deterministas e circulares, são… Bom, resumindo são muito parecidas com a vida, ou pelo menos com uma certa visão que muita gente tem da vida, são retratos condensados e estilizados da vida comum, da vida de todos nós. Aquelas personagens somos nós, estás a ver?, aquelas histórias são as nossas vidas.
ELE: Falas tanto e não dizes nada. Repara que estou a dizer isto com um sorriso. Mas estou a dizê-lo. E se não mudas de disco, vou repeti-lo.
EU: Acho que foi algo do género que a minha ex quis dizer com a história da metáfora. Que via telenovelas porque se identificava com elas… Ou melhor, porque se identificava nelas. Via-as para se confrontar com a sua própria vida, para redimensionar a sua própria telenovela privada, para projectar a sua vidinha num contexto mais amplo, mais abrangente, mais clarificador.
ELE: Hum hum.
EU: Ou talvez tivesse esperança de ser surpreendida pelas telenovelas que via, uma esperança secreta de que apesar da previsibilidade e repetição dos argumentos, apesar das revelações que lia nas revistas, acabasse por assistir a qualquer coisa inesperada, a um desenlace surpreendente ou um rumo imprevisto ou um acontecimento inexplicável. Porque se isso acontecesse, e lembra-te que na perspectiva dela as telenovelas são imitações da vida quotidiana, talvez houvesse esperança de algo semelhante ocorrer na sua vida, uma surpresa qualquer que perturbasse a rotina dos dias, que lhe mudasse o destino.
ELE: Já viste, um gajo faz um comentário qualquer, só para fazer conversa e tal, uma perguntazinha inocente ou assim, e acabas sempre a falar de ti, nunca falha, pões-te logo com teorias e desculpas e tretas.
EU: É capaz de ser verdade.
ELE: E sabes que mais? Isso irrita, foda-se, nem imaginas o que irrita. Aliás, de certeza que foi por isso que ela se divorciou de ti. De certezinha.
EU: Divorciou-se porque percebeu que estava a viver na telenovela errada. E a tua mulher, pelo que contas, deve estar quase a perceber o mesmo.
ELE: Não digas isso nem a brincar.
EU: Ok, não digo. Mas que queres que te diga, afinal?
ELE: Tudo menos isso.
EU: Olha, acho que já percebi o que queres. Queres que te assegure que, na verdade, as telenovelas são apenas entretenimentos simplistas para alienar as pessoas, para distraí-las das coisas mesmo importantes como a crise e assim. O ópio do povo e tal. É isso, não é? Tal e qual a história do pai natal que contei ao meu filho; olha que ele acreditou, ainda acredita, e isto é mais ou menos igual. Ou não é? Porque eu consigo ser bastante convincente a contar histórias da carochinha; apesar de saber que o segredo é apenas contá-las a quem está predisposto a acreditar nelas, a quem precisa de acreditar nelas. Voltemos ao princípio, então. Como é que perguntaste, no início da conversa? Qual é o fascínio dela pela merda das telenovelas, não foi? Ou algo do género. Bom, eu respondo. Respondo-te assim. Deixa-a lá, não te preocupes com isso, é apenas uma forma de fuga e descompressão, uma forma ingénua e inofensiva de aliviar o stress do quotidiano e tal. Ok? Então vamos embora, que se faz tarde.