Statcounter

# 75: Somos todos manequins

Agora que inicio nova colaboração com a fotógrafa Tina Azinheiro, recupero um pedaço do ebook que partilhámos em 2010 (disponível aqui). Uma estória cinzenta escrita a partir de uma foto extraordinária.


DEUS (admirado): Um manequim?

EU (sorrindo, sem tentar disfarçar a tristeza): Sim. Daqueles muito antigos, sem cabeça nem braços, sem elegância, sem dignidade.

DEUS (curioso): E que fizeste com ele?

EU (nostálgico): Coloquei-o ao fundo do quarto, junto da janela; como se fosse uma planta frágil que precisasse de luz e de brisa, da ilusão de liberdade.

DEUS (insistente): Mas para que querias um manequim no quarto?

EU (simultaneamente enfático e sonhador): Para me acordar.

DEUS (desconcertado): Não percebo.

EU (pensativo, um pouco hesitante): Sentia-me acessório e irrelevante, dispensável. (Pausa breve.) As pessoas passavam por mim como se eu fosse invisível, como se não existisse; ou existisse mas não tivesse qualquer substância, qualquer interesse; como se fosse apenas parte do cenário, uma peculiar e inexplicável agregação de átomos, sem objectivo nem utilidade.

DEUS (num murmúrio): Um manequim.

EU (distante e abstraído, entregue à recordação): Todos os dias, antes de adormecer, olhava o perfil do manequim recortado pela frágil escuridão vinda da rua e tentava sentir o que imaginava que todas as pessoas sentiam em relação a mim. (Pausa breve.) E logo depois, de manhã, quando acordava, lá estava ele, imutável e discreto, um pouco sombrio, irrelevante e deslocado.

DEUS (algo condescendente): Indiferente.

EU (ignorando-o): Olhava o manequim enquanto me vestia, lento e abstraído, e perguntava a mim próprio: que poderei fazer hoje para que os outros não me vejam como um manequim, parte do cenário? Ou melhor: para que me vejam, simplesmente? Que posso fazer para que a minha vida não seja estática e redundante, como a existência deste manequim?

(Permanecemos em silêncio, sentados na esplanada quase vazia. Do outro lado da rua, uma mulher de olhar indiferente e gestos cansados continua a despir metodicamente os manequins em exibição numa montra; as peças de roupa vão-se amontoando no chão, desordenadas e irrelevantes, enquanto a nudez artificial dos manequins é exposta.)

EU (abstraindo-me dos manequins e incapaz de desviar o olhar da funcionária da loja que os vai despindo): Foi numa dessas manhãs, olhando o manequim silencioso, que comecei a desconfiar que talvez todas as vidas fossem redundantes e estáticas. (Pausa breve.) Todas e não apenas a minha.

(Aguardo o seu comentário, que pressinto; que desejo: apetece-me ser confrontado. Discutir. Mas ele ignora-me.)

EU (subitamente incomodado; arrependido de ter cedido à volúpia da confissão; mas incapaz de me conter): Pressenti, também, que talvez apenas varie o grau de empenho de cada um em fingir que não é assim. Percebi que não interessa que a vida seja interessante ou não, basta que pareça interessante.

(Sorrio, tentando disfarçar o incómodo. Ele permanece em silêncio, pensativo. Ou será que nem está a ouvir-me?)

EU (num tom forçadamente aligeirado): Somos todos manequins, afinal. O que muda é a roupa que cada um usa; o disfarce. (Pausa breve.) Camadas e camadas de subterfúgio mas, lá no fundo, permanece apenas madeira descolorida e grosseira, quase, quase apodrecida.

(A funcionária da loja desapareceu, levando consigo toda a roupa; apenas os manequins permanecem na montra, extáticos e um pouco obscenos. Há pessoas a passar pelo passeio, apressadas e melancólicas, tristes; mas nenhuma delas olha os manequins.)

# 74: La Redoute

Estávamos a fazer sexo quando o telemóvel dela tocou. Não sei bem como aconteceu tal coisa mas a verdade é que estávamos no sofá da sala e não no quarto, logo depois do almoço, com o sol a entrar pela janela e um murmúrio de vozes vindo do apartamento do lado, as roupas amarrotadas e apenas meio despidas. Não sei se está a imaginar, doutor. Como já lhe contei, agora raramente fazemos sexo, e nunca por iniciativa dela, sempre são uns doze anos de casamento ou assim, por isso pode perceber o inesperado da situação: estava eu estendido no sofá a ver as notícias quando ela vem da cozinha e se senta ao meu lado, os corpos a tocarem-se ligeiramente, só mesmo um pedacinho; e pronto, foi quanto bastou, tal como acontecia antes, e quando digo antes, doutor, quero dizer há muito, muito tempo, bastava estarmos juntos, bastava os corpos tocarem-se momentaneamente, e o desejo brotava logo, violento e arrebatador, desculpe lá falar assim, até pareço um totó. Ficámos quietos e caladinhos durante uns momentos, os dois a pensarmos na mesma coisa, e, logo depois, ela beija-me; eu reajo, claro que reajo, não é doutor?, e ficamos entusiasmados, tudo a correr naturalmente, como sempre deveria correr, duas pessoas que se amam fazem amor a meio da tarde e pronto. Mas é então que toca o telemóvel; continuo a fazer o que estava a fazer, se é que me entende, mas ela, logo ao primeiro toque do telemóvel, imobiliza-se, como se tentasse perceber o que estava a acontecer, não sei como explicar de outra forma, tipo alguém que acorda de repente sem fazer ideia de onde está, sem fazer ideia que tinha adormecido; dois toques mais tarde, salta de cima de mim e marcha em direcção à cozinha, apressada e desengonçada. Não disse nada, não me olhou, não sorriu, não acenou ou assim, não demonstrou qualquer contrariedade por estar a ser interrompida, por interromper; aliás, doutor, de repente até parecia que eu nem estava ali, percebe o que quero dizer?; fico a vê-la afastar-se, compondo a saia, agindo como se apenas quinze segundos atrás estivesse simplesmente sentada no sofá a ver televisão ou a espreitar uma revista e não a foder com o marido, desculpe lá falar assim, doutor, mas era o que estávamos a fazer. Não imagina como me senti, ali abandonado, excitação e frustração a misturarem-se, confundindo-se e enervando-me; consegue imaginar?, eu estendido no sofá com as calças pelos tornozelos, a olhar desconsolado para o meu pénis ainda rígido e brilhante, e a tipa das notícias a falar sobre um festival da sardinha não sei onde, um festival da sardinha, não sei se está a ver. Uma sensação do diabo, doutor. Mas piora, porque logo depois ouço-a atender a merda do telemóvel e a coisa tornou-se verdadeiramente surreal; ouvi-a lá da cozinha a dizer… sabe o quê, doutor?, disse “Olá, estava mesmo a pensar em ti…”; e a rir, doutor, a rir, como se lhe tivessem respondido algo verdadeiramente divertido; ouvi-a acrescentar “Olha, ainda bem que ligaste…”, depois baixou o tom, não sei se de propósito ou se inconscientemente. E eu a perguntar-me com quem estaria ela a falar, ainda surpreendido com a agilidade com que ela mudara de situação e de estado de espírito, a perguntar-me se poderia estar realmente a pensar noutra pessoa qualquer enquanto se balanceava em cima de mim, se estaria realmente satisfeita por ter sido interrompida. Uma sensação do raio, doutor. Acho que me senti meio estupidificado, como se fosse aquela a primeira vez em que percebesse que não fazia a mais pequena ideia do que se passava na mente da mulher que julgava amar, que acreditava que me amava; e talvez tenha sido realmente a primeira vez, doutor, em que consciencializei, de forma objectiva e desapaixonada, que não faço ideia o que pensa ela quando está comigo, o que pensa ela de mim. É natural, isto? Acontece com toda a gente, doutor? Será que as pessoas apenas fingem que entendem os outros, apenas fingem conhecer os outros para que a vida em sociedade seja viável? Enfim, adiante. Ouvia-a tagarelar, agora num tom mais baixo e comedido, e imaginava-a a ajeitar as cuecas, completamente esquecida e desinteressada de mim, enquanto ia olhando para a televisão, incapaz de me decidir a vestir-me, ainda com esperança que ela regressasse com um sorriso apologético e um piscar de olho cúmplice (um piscar de olho, doutor; ela, que nunca me piscou o olho, nem uma única vez: por que raio haveria de o fazer agora?). Desejando simplesmente foder, desculpe lá outra vez, doutor, como se isso afinal pudesse significar alguma coisa ou salvar alguma coisa ou valer alguma coisa. E suponho que foi por essa altura que comecei a pensar em divórcio pela primeira vez; sei que isto parece um bocado pateta, já imaginou?, eu ali meio despido, flácido e ridículo e vulnerável, sentindo pena de mim, acho que foi isso que senti, mais do que revolta ou ódio ou decepção ou sei lá o quê, apenas uma grande pena de mim; e ao mesmo tempo, doutor, e esta foi a parte mais esquisita, senti também uma inesperada vontade de acabar com tudo aquilo, de seguir em frente, de mudar de capítulo, ou melhor, de capítulo não, de livro, doutor. Mudar de livro. Já lhe contei que estamos juntos desde a faculdade? Juntámos as bolsas e alugámos o nosso primeiro apartamento, onde passávamos as noites a planear o futuro e com pressa que o tempo passasse. Parece que foi noutra vida, não parece? Afinal, de quantas vidas é feita uma vida? Quantas vidas vivemos durante a nossa vida? Deixe lá, doutor, às vezes dá-me para devanear; voltando ao que interessa. O que aconteceu foi isto: ela continuava a tagarelar na cozinha e eu com aquela palavra, aquela ideia, a bailar-me na cabeça, algo em que nunca pensara antes, juro-lhe, doutor, nunca, algo que jamais julgara possível aplicar-se a mim. Divórcio, doutor. Uma palavra com um poder tremendo, que representa uma espécie de potencialidade libertadora ou algo do género, não acha? E eu que nunca tinha pensado nisso, nessa perspectiva, mesmo nunca, quando se pensa em divórcio, pensa-se sempre numa espécie de apocalipse ou assim. Pois pensei nessa tarde, enquanto voltava a arrumar o pénis no sítio dele; depois, levantei-me do sofá e olhei durante um momento para a televisão e, seguindo um impulso irresistível, saí para a rua. Foi o que fiz, doutor; abandonei-a. Puxei a porta sem nenhum cuidado especial, chamei o elevador e esperei que chegasse, evitei olhar-me ao espelho e decidi que não fazia mal que o meu corpo cheirasse ligeiramente a sexo, segui pelo passeio repleto de gente sem olhar para ninguém, entrei no carro, dei umas voltas sem destino, fui perguntando a mim próprio quanto tempo demoraria ela a telefonar-me e só quando já era noite percebi que ela não ligaria. E não me importei, doutor, percebi que não me importava nada; limitei-me a dar mais umas voltas e pronto. Fugira, certo que isso dificilmente significaria alguma coisa ou salvaria alguma coisa ou valeria alguma coisa; Nem sei se se pode dizer que fugi, limitei-me a mudar de sítio, para descobrir que essa simples mudança de cenário implicava mudanças inesperadas. Ok, fugi: e soube-me bem, doutor, soube-me tão bem. Foi espantoso perceber como o amor (ou melhor: aquilo que eu achara ser amor, e agora não faço ideia o que seria) se dissipou num momento, assim, com um estalar de dedos, deixou simplesmente de existir, transformou-se em nada; olhe, de certa forma, limitei-me a imitá-la: tal como ela perdera subitamente o interesse pelo sexo, naquela tarde, e me trocara por uma conversa telefónica, também eu perdi o interesse por ela, como por magia, troquei-a por não sei bem o quê. Por nada, talvez. Na verdade, esvaziei-me dela, por assim dizer; e caraças, doutor, soube-me tão bem sentir-me vazio, nem imagina. Olhe lá bem para mim, doutor; não se nota que estou diferente? Que estou oco? Acho que é esse o termo adequado, oco. Prontinho para ser enchido de novo, por assim dizer; e ainda é melhor do que nascer de novo ou assim. Mas só lhe queria perguntar uma coisa, doutor: onde se vai buscar uma vida nova, como se faz para se começar tudo de novo? É que esta está definitivamente gasta e preciso de outra. Não haverá algures uma espécie de pronto-a-vestir de vidas, um sítio onde uma pessoa possa ir buscar uma vida nova, percebe?, como se vai a uma loja buscar um casaco ou uma camisa ou umas cuecas? Ou, melhor ainda, um catálogo, sim, é isso, um catálogo de possibilidades, conhece algo do género? Tipo La Redoute, uma pessoa escolhe o que quer e manda vir e pronto, é só começar a usar. É só começar a usar, doutor. Diga-me lá a verdade: há ou não por aí uma La Redoute de vidas e tal? E onde é que me inscrevo para a receber? Onde, doutor?

(Comentários escritos pelo psiquiatra no seu caderninho, durante a consulta:
“Primeiro comentário: tenho que descobrir a que festival da sardinha se refere o homem, pode ser que ainda esteja a decorrer e possa lá dar um salto. Segundo comentário: Oh pá, vai às putas que isso passa logo.”)

Ebook # 05: Consultório



O ebook “Consultório”, que reúne seis contos originais e seis pinturas de Joana Lucas, está finalmente disponível. É só seguir o link.

# 73: Eu e a minha namorada

Eis mais uma estória da série de contos escritos a partir da pintura de Joana Lucas (desta vez, o conto escrito a partir do quadro “Eu e a minha namorada”). Dentro de dias, estará disponível um ebook gratuito com as seis estórias e os respectivos quadros inspiradores.


Hoje queria falar-lhe de um vizinho lá do prédio; pode ser, doutor? Deixe-me contar a história, que depois já percebe onde quero chegar. Está bem? É uma pessoa normalíssima, este vizinho; diz boa tarde ou boa noite conforme a hora, como todos os outros, quase sempre sem olhar para a pessoa a quem se está a dirigir, mas isso também é normal; sossegado e silencioso, muito vagaroso, sempre muito vagaroso, como se não tivesse pressa de nada, como se nunca fosse esperado por ninguém, algures; o que é um pouco estranho, num homem assim novo, mas enfim, até sabe bem uma pessoa cruzar-se com alguém que não age permanentemente como se o mundo estivesse para acabar, alguém que parece dizer-nos, assim com um sorriso e tal, eh pá, tem lá calma que ainda há morte que chegue para todos. Sempre sozinho, o que também não é lá muito normal, mas paciência. Lá anda ele metido na sua vida, que não deve ser muito diferente da vida dos outros todos, entra no elevador e sai do elevador, abre as portas quando há uma senhora por perto, queixa-se da merda que os cães de alguns vizinhos deixam plantada nos passeios do condomínio, enfim, distrai-se com a vida, que é o melhor que temos a fazer; e isto é o que vemos, porque do resto da vida do homem nada sabemos, como é óbvio. Até aqui, tudo normal. Certo? O que tem piada, doutor, é o saco que ele usa. Não sei se está a ver, aqueles sacos que agora as pessoas usam para tudo, em substituição dos velhinhos sacos de plástico, para transportar as compras do supermercado e assim. Ele anda sempre com o mesmo, não falha. E nem é um saco que dê muito nas vistas, reproduz o rosto de uma mulher e nada mais, uma mulher normal, percebe?, e não uma actriz ou assim, apenas o grande plano do rosto de uma mulher normal, igual às mulheres que todos conhecemos, e pronto, é apenas isso. Mas que tem então o saco de especial?, pergunta o doutor. Bom, o que acontece é que o homem usa o diabo do saco desde que veio viver para o prédio, portanto para aí há uns dois anos; sempre o mesmo, nunca ninguém lhe viu outra coisa nas mãos; mas há mais: é que o saco está sempre impecável, como se nunca tivesse sido usado; até parece que ele tem lá um stock infindável de sacos iguais em casa e vai renovando. Admita lá, doutor, é uma coisa uma bocado esquisita, não? Quero dizer, não daquele esquisito assustador e perigoso mas do esquisito engraçado. E sabe como é, as pessoas não têm nada melhor para fazer do que comentar a vida alheia, é sempre melhor rir dos outros do que lamentarmo-nos de nós próprios; resumindo: a malta topou aquilo dos sacos e começou a falar, tornou-se uma espécie de pretexto para especulações variadas e geralmente maldosas; mas coisas inofensivas, claro. E é isto que se tem passado nos últimos dois anos. Até que, esta semana, o mistério se resolve. Ou melhor: não se resolveu, na verdade até complicou um bocado, mas lá se deu um passo em frente, e por isso é que estou aqui a contar-lhe a história. Descobrimos o significado dos sacos, doutor. E garanto-lhe que vai achar piada a isto. Então é assim: a foto que ele pôs nos sacos é o retrato da namorada. Parece que, certo dia, a mulher desapareceu, sem despedidas nem explicações; evaporou-se, doutor. Não se sabe se o abandonou, se foi raptada, se morreu algures, se foi levada por extraterrestres. Desapareceu e o homem nunca mais foi o mesmo, ia dando cabo da vida mas lá acabou por se recompor, à força dos remédios que o doutor bem conhece; mudou de emprego e de cidade, foi então que lá apareceu no prédio. Sempre com os sacos da mulher atrás, como se aquilo fosse um pedido de ajuda ambulante, um pedido de ajuda não muito ostensivo mas, ainda assim, um pedido de ajuda. Tipo anúncio de pessoa desaparecida, percebe?, como os americanos põem fotos de meninos desaparecidos nas caixas de cereais e nos pacotes de leite, não tanto para os encontrarem mas, isto é o que eu penso, mais para arruinar os pequenos-almoços das outras pessoas todas, do género já que eu estou miserável, tu também não hás-de estar feliz, olha lá para o pacote e vê o que te pode acontecer. Ou então é uma despedida ou uma forma de mostrar ao mundo que foi feliz com aquela mulher ou um estratagema para ela perceber, caso o veja na rua, que ele não a esqueceu. Sabe-se lá o que vai pela cabeça do homem; porque, motivações, não deu nenhuma; limitou-se a clarificar o significado do saco mas não avançou justificações, confessou apenas que era a namorada que estava nos sacos e acrescentou alguns dos pormenores que acabei de lhe contar. Está a ver, doutor? Que lhe parece uma coisa destas? Parece coisa de filme. Bom, a verdade é que estou aqui a falar disto com jovialidade e tal mas aquilo mexeu um bocado comigo, tirou-me uns minutos de sono. E, doutor, a verdade completa é que tenho andado a pensar na história do homem, a pensar nele e na sua namorada de plástico. A extrapolar, por assim dizer. É que, e veja lá se me percebe, comecei a pensar que ele talvez quisesse andar com o saco para se sentir acompanhado. Acompanhado pela namorada, para não desfilar pela rua sozinho, para sentir de alguma forma a sua presença, a sua companhia; para andar de mão dada com ela, pelo menos metaforicamente. Isto parece-lhe muito estapafúrdio, doutor? Talvez seja, mas se todos pensássemos apenas coisas inteligentes, estava o mundo cheio de Einsteins, ou não era? Sabe o que mais pensei? Eu digo-lhe. Pensei assim: se calhar, o homem não é assim tão diferente de todos os outros. Ele vive com uma fotografia emplastrada num saco de plástico; mas, e os outros? Nós? Por vezes, vivemos com a memória de alguém que amámos, com o fantasma da pessoa que amámos. Ou não é verdade? Quantos casamentos não subsistem apenas à custa da recordação de momentos passados de felicidade absoluta, e da ingénua crença na possibilidade de repetição dessas recordações? Como já adivinhou, estou a referir-me ao meu caso pessoal. Ali estava ao lado da minha mulher, ouvindo-a ressonar muito ligeiramente, encolhidinha no seu canto da cama para não haver o risco dos nossos corpos se tocarem, tão misteriosa para mim com uma das luas de Júpiter, é esse que tem as luas, não é?, e ia pensando assim: há relações em que as pessoas apenas se mantêm porque tem que ser, porque um dos elementos agarra-se ao outro e não larga, um dos elementos arrasta o outro para o casamento, ou, de certa forma, arrasta o casamento às costas, tal e qual o meu vizinho arrasta o seu saco e uma relação que já não o é. Foi o que pensei, a noite passada, enquanto ouvia a minha mulher respirar alto, é deselegante afirmar que uma mulher ressona, e a pensar qual dos dois arrasta mais o casamento às costas, qual dos dois é o Júpiter que atrai a lua e não a deixa partir pelo espaço fora em busca de melhor órbita, livre. E depois, lá adormeci; tive um pesadelo do caraças, acordei tarde, atrasei-me; e de manhã, lá desço no elevador com o vizinho mais o seu saco, há coincidências que até arrepiam, e eu a pensar porra, que isto só pode ser um sinal. Será um sinal, doutor? Dê-me lá a sua opinião.

(Comentário escrito pelo psiquiatra no seu caderninho, no final da consulta:
Talvez o apego do homem ao seu saco represente, afinal, uma forma simultaneamente subliminar mas incisiva de desprezo, uma forma cruel de anunciar ao mundo a mensagem de ódio e despeito que dirige à ex-companheira, algo do género
antes servias para cozinhar e foder, agora serves para transportar arroz e papel higiénico. Uma forma algo ingénua, pouco sincera, de publicitar que está só e feliz com isso?)

# 72: Princesas

No início deste ano, desafiei-me a escrever alguns contos a partir dos maravilhosos quadros de Joana Lucas. Estão finalmente concluídos e, em breve, estarão disponíveis num ebook. Por enquanto, fica a estória “Princesas” – escrita a partir do quadro com o mesmo título – e um profundo agradecimento à Joana.


Oh doutor, há quanto tempo é que eu ando a caminhar para aqui? Mais de um ano, não é?, bem mais. No outro dia, dei por mim a pensar: mas que raio ainda terei eu para lhe dizer? E não me lembrei de nada, a verdade é que não me lembrei de nada novo; se calhar, devia comprar um daqueles caderninhos pretos que toda a gente usa, assim como esses que o doutor aí tem, e, ao longo da semana, ir apontado as coisas de que poderia falar quando aqui chegasse. Tem clientes que fazem isso, não tem? Desculpe lá, estou a brincar consigo. Mas agora a sério: haverá alguma coisa que não saiba de mim, doutor? Por esta altura, deve saber mais de mim do que eu própria. Já ouviu falar daquelas pessoas que têm uma vida tão monótona que quando chegam ao sofá do psiquiatra, põem-se a inventar, vão fantasiando o que calha, a ver se o homem não se enfada demasiado? Porque o que querem é falar, que alguém as escute; é para isso que pagam, para serem ouvidas. Bom, doutor, eu nunca precisei de inventar. Contei-lhe tudo. Estou farta de lhe falar do meu casamento, da prisão em que estou, e de como não consigo libertar-me, por mais que pareça simples e fácil, não consigo. Todas as semanas lhe falo disso, não é? Mais detalhe, menos detalhe, mas a história não tem evoluído muito, há coisas que estão destinadas a não mudarem muito. E também lhe falei do casamento dos meus pais, não foi?, falei-lhe abundantemente disso; de como discutiam, de como a minha mãe chorava e o meu pai gritava, de como bebiam e atiravam coisas, de como se olhavam com fúria e ódio, falei-lhe de tudo isso. Falei de como eu fugia, sempre que sentia uma discussão aproximar-se; de como me escondia nos armários, debaixo da cama, na varanda. Falei-lhe muito da varanda, não foi?, e até parecia uma daquelas histórias inventadas que as pessoas contam. Lembra-se, doutor? Pendurava-me na varanda e ficava à espera que a tempestade passasse, enquanto pensava em coisas de criança; pensava, por exemplo, que num daqueles dias talvez aparecesse por ali um príncipe que me levasse, salvando-me de tudo aquilo; um príncipe que andasse perdido pela cidade, em busca de meninas que pudesse salvar. Porque fantasiam tanto as crianças com príncipes, doutor? Falámos disso mas não chegámos a nenhuma conclusão, desculpe lá que lhe diga mas nunca se chegam a muitas conclusões, aqui. E como não bastasse estar triste por causa das discussões dos meus pais, vinha aquela nova tristeza de esperar por um príncipe que nunca chegava. E se os príncipes apenas salvam princesas?, perguntava-me eu. Mas sentia-me uma princesa, apesar de não o ser; e, por isso, julgava-me no direito de ser salva por um príncipe. Criancices, doutor. Criancices. Contei-lhe tudo isto, como lhe contei que num momento mais desesperante e confuso da minha vida de adulta, cedi à tentação de repetir os comportamentos que tinha quando era miúda. Confessei-lhe como, certo dia, me pendurei na varanda e lá me deixei ficar, sentadinha e de pernas a abanar, calçada com os meus melhores sapatos de princesa que não é princesa a sério, à espera que viesse um príncipe que me salvasse daquele casamento miserável, que eu não conseguia salvar-me sozinha; que viesse um príncipe e matasse o dragão. Uma mulher de trinta e dois anos sentada na varanda à espera de príncipes. Tem piada, não tem? Já agora, uma curiosidade: por estes dias, neste nosso século de internets e carros que estacionam sozinhos, de que forma se deslocam os príncipes? Será que ainda andam a cavalo? Deixe lá, doutor, não ligue, como vê, hoje estou um pouco alterada. Deve ser do calor. O que importa é que lhe contei tudo isto, não tenho segredos para si, e, já que aqui estamos e ainda temos muito tempo, aproveito para lhe contar mais uma coisinha. Voltei a ir à varanda. É verdade, doutor, voltei. E lá estava eu, se é que consegue imaginar tal coisa; foi terça-feira, lembra-se como estava um dia magnífico? Pois foi o dia em que voltei a perder o juízo. Tinha uns sapatos novos, lindíssimos, que comprei num impulso, vítima de um capricho, e que ainda não usara, porque por estes dias não há na minha vida qualquer pretexto que justifique usar uns sapatos daqueles. Vermelhos, doutor, uns sapatos vermelhos. Pois calcei-os e segui para a varanda; esperava príncipes mas apenas passavam autocarros, repletos de velhinhos e de estudantes, deitando fumo; autocarros, que de certa forma são a antítese dos príncipes: previsíveis e regulares, monótonos. Foram passando e eu fui esperando. Como imagina, não esperava nada de especial, a partir de certa altura esperamos apenas por hábito, da mesma forma que respiramos ou sorrimos, apenas por hábito, sabemos que não vai chegar nada, sabemos que atingimos o plafond, e apesar disso insistimos em esperar. Fui esperando, portanto. E sabe o que aconteceu, doutor? Afinal, sempre tenho qualquer coisa nova para lhe contar, porque o que aconteceu foi algo inesperado. Gostava de lhe dizer que o que aconteceu foi cair-me um dos sapatos novos do pé e acertar na cabeça de um moço que na altura fosse a passar, e calhar o moço olhar e surpreender o meu olhar, e ficarmos para ali a olhar, o sapato no chão e um alto a crescer-lhe na cabeça, o tempo a passar, os autocarros também, e de repente, pimba, percebíamos apenas através do olhar que nos amávamos e que iríamos ser felizes para sempre, ou ainda por mais tempo. Gostava de lhe contar uma historieta destas, sabe porquê, doutor, porque gostava mesmo que me acontecesse uma historieta destas. Mas, infelizmente, o sapato não me caiu do pé, azar. O que realmente aconteceu foi menos extraordinário. Sabe o que foi, doutor? Eu conto, como lhe contei tudo o resto. De repente, percebi que não viria príncipe nenhum. Quer dizer, não percebi, que isso já eu tinha percebido há muito tempo. Não, o que aconteceu foi que aceitei que não vinha príncipe nenhum, que apenas continuariam a passar autocarros e nada mais; por muito bonitos que fossem os sapatos, doutor. Não viriam príncipes. E essa consciencialização súbita foi libertadora. Porque o que eu pensei foi isto: não virão príncipes e ainda bem porque eu não preciso de ser salva. Está a perceber, doutor, o alcance disto? Uma verdadeira revolução na minha vida. Um break-through dos valentes. Pela primeira vez na minha vida percebi que não preciso de ser salva por ninguém, que não preciso de príncipes nenhuns para nada; quero lá eu saber de príncipes, foi o que eu pensei, ainda pendurada na varanda. Percebi, assim de repente, como se tivesse sido atingida por um raio, que não existem por aí príncipes nem princesas, doutor; apenas gente que vai fazendo pela vida; e os outros. Desculpe lá o simplismo das minhas teorias mas é mesmo assim, não consigo explicar melhor. Princesas só as da televisão e já se sabe que essas acabam sempre mal; foi o que eu compreendi lá no poleiro da varanda. Levantei-me e regressei ao interior e… bem, doutor, sabe o que fiz? Tratei de pôr a minha vida em ordem, foi o que fiz. Comecei logo ali e ainda não parei. Mas isso agora não interessa, doutor, porque o que eu queria dizer-lhe é que sinto que não preciso mesmo de príncipes para nada. Nem de príncipes nem de psiquiatras, como já deve ter percebido, tenha paciência mas é mesmo assim, doutor. Tenho pena.

(Comentário escrito pelo psiquiatra no seu caderninho, no final da consulta:
Ora foda-se.)

Kellerman Remixed

Está em marcha o projecto “kellerman remixed”. Convidei uma série de amigos, com ou sem obra publicada, para reescreverem estórias minhas e as remixes começam a chegar (espantosas e surpreendentes). Entretanto, uma delas assumiu contornos inesperados: António Cova enviou uma música e não uma estória. Chama-se “Fodidos estamos” e poderá facilmente tornar-se um hino geracional. Eis então o single de apresentação do livro… Enjoy.

# 71: Enxotar a tristeza

ELE: No outro dia aconteceu-me uma coisa um bocado assustadora.
ELA: Sério? Conta.
ELE: Quero dizer, na verdade foi uma coisa sem jeito nenhum.
ELA: Mas assustadora.
ELE: Sim.
ELA: E queres falar disso.
ELE: Quero.
ELA: Ok. Avança, tenho uns minutos.
ELE: Então, foi assim. Estava lá no apartamento, na varanda, sentadinho na minha poltrona, a ouvir música e assim. Descansado da vida.
ELA: E depois?
ELE: Ia pensando numas merdas, nada de especial, daquelas coisas que passam pela cabeça e um gajo nem percebe de onde veio aquilo. Estava completamente distraído, sabes, apenas isso, e fui pensando e pensando e pensando.
ELA: Assustador, realmente. Tu quando pensas…
ELE: Pois. E quanto mais pensava…
ELA: Sim? E quanto mais pensavas?
ELE: Bom, fui ficando triste.
ELA: Triste?
ELE: Triste.
ELA: Porquê?
ELE: Não sei. Não faço ideia. Não estava triste e de repente comecei a ficar. Pronto. Sei lá explicar. Fiquei triste. Triste e apreensivo e ansioso. Uma data de coisas.
ELA: Estou a ver.
ELE: Coisas depressivas. Percebes? Comecei a sentir-me… Deprimido.
ELA: Assim de repente? E que fizeste?
ELE: Nada, não fiz nada. Deixei-me estar, a ver onde é que aquilo me conduzia. À espera que passasse.
ELA: Tudo acaba por passar.
ELE: Pois. Mas, antes disso, houve a tal parte assustadora.
ELA: Que aconteceu?
ELE: Deu-me uma vontade danada de saltar da varanda.
ELA: Foda-se. Sério?
ELE: É.
ELA: Saltar cá para baixo? Saltar mesmo? É isso que queres dizer?
ELE: Saltar, saltar mesmo. Fugir. Desistir de tudo. Acabar com a tristeza, com a incerteza, com a falta de sentido. Sei lá.
ELA: Ena. Estás mesmo mal. Mesmo, mesmo mal.
ELE: Durante um instante, senti uma tentação tremenda, nem imaginas. Senti mesmo, durante uma fracção de segundo. Não sei explicar, foi mesmo estranho. Não me mexi, estava esparramado na poltrona, a música continuava a entrar-me pelos ouvidos, os olhos continuavam a deslizar pelo azul do céu… mas o espírito, ou sei lá o quê, algo dentro de mim, estava a afastar-se, e a tentar que o corpo o seguisse. A puxar por mim…
ELA: Estás a falar a sério? Sentiste-te mesmo tentado? Não acredito. Foda-se, olha que nunca te ouvi falar assim. O espírito a afastar-se, e não sei quê, parece conversa de tolos, foda-se. Foda-se, mesmo, que estás a assustar-me.
ELE: Não vale a pena assustares-te. Passou, como disseste tudo acaba por passar. Senti uma tentação, admito que senti, não sei porquê, não sei de onde veio, foi uma coisa fugaz e instantânea, fulgurante, mas senti. E agora, que estou a falar disso, parece tudo um bocado palerma, mas não altura foi… não sei. Intenso.
ELA: Mas, e depois?
ELE: Controlei-me, assumi o controlo de mim próprio, por assim dizer; obriguei-me a assumir o controlo, a afastar o devaneio. Mas aquele instante, aquele momento, foi efectivamente tentador. E isso é que foi assustador, o mais assustador.
ELA: Temes que volte a acontecer, é isso? E que seja ainda mais tentador.
ELE: Mais ou menos.
ELA: Estou a ver. Estás mesmo fodido, desculpa que te diga.
ELE: E que achas disto tudo?
ELA: Sei lá, não acho nada… O que queres que ache? O que é que tu achas?
ELE: Acho que… Não sei. Julgo que, depois disto, percebi que não gosto de estar sozinho, que não me apetece estar sozinho em casa… Não te rias, é a verdade.
ELA: Isso é uma conclusão um bocado extrema, não?
ELE: É o que sinto. Sei lá se é extrema.
ELA: E, na verdade, não estás verdadeiramente sozinho.
ELE: Desculpa?
ELA: Não estás sozinho. Tens o tal espírito a acompanhar-te, lembras-te? O tal que te quer puxar.
ELE: Não gozes.
ELA: Ok, não gozo. Mas que pensas fazer? Já procuraste um psiquiatra, para arranjares uns comprimidos?
ELE: Não.
ELA: E então? Estás à espera de quê?
ELE: Bom, na verdade era mesmo sobre isso que queria falar contigo.
ELA: Explica-te lá, não estou a ver onde queres chegar.
ELE: Tenho andado a pensar que não devia estar sozinho.
ELA: Não devias?
ELE: Não quero.
ELA: Ok.
ELE: E… Bom. Há quanto tempo andamos?
ELA: Quase um ano. Mas que tem isso a propósito do espírito saltador?
ELE: Um ano. É muito tempo, não é? Se calhar, podíamos… não sei. Estás a ver?
ELA: Desculpa lá. Estás a acabar comigo, é isso?
ELE: Não. Claro que não. Porra, não. É o contrário.
ELA: O contrário?
ELE: Sim, o contrário.
ELA: O contrário. Estás a perguntar-me se quero viver contigo?
ELE: Ou casar e assim.
ELA: Desculpa?
ELE: Casar.
ELA: E assim.
ELE: Pois.
ELA: Estás a pedir-me em casamento? É isso? Tu estás a pedir-me em casamento?
ELE: Acho que sim. Acho que estou.
ELA: Ok, ok, ok. Já percebi. Estou a perceber, já estou a perceber onde queres chegar. Desculpa a reacção. Ou melhor: a falta de reacção. Nunca ninguém me pediu em casamento, sabes isso; não sei bem como é que se faz. Não estava à espera, não estava mesmo.
ELE: Tudo bem.
ELA: Apanhaste-me de surpresa. Completamente.
ELE: E então?
ELA: Não sei o que te dizer.
ELE: Não sabes.
ELA: Não sei.
ELE: Alguma coisa deverás querer dizer.
ELA: Suponho que sim.
ELE: Então…
ELA: Então… E foi a cena da varanda que desencadeou isto tudo. Certo? O susto e isso. Foi o que te deu a ideia de casar?
ELE: Pelo menos, fez-me pensar um bocado.
ELA: Fez-te pensar.
ELE: Sim, é o que tenho feito nestes dias. Pensar.
ELA: E assustaste-te, pensaste tanto que te assustaste. Percebeste que não queres estar sozinho. Que a presença de alguém lá por casa talvez enxote a tristeza e tal. Que precisas de companhia na varanda.
ELE: Porque estás a falar nesse tom?
ELA: Olha, desculpa o tom, já te disse que isto de pedidos de casamento é novo para mim. Mas se estás realmente com medo que o espírito ou lá o que é te faça saltar da varanda abaixo, não seria mais fácil desceres do quinto andar e comprares um apartamento no rés-do-chão?
ELE: Desculpa?
ELA: Pensa nisso que eu tenho que ir, já estou atrasada, mesmo atrasada. Mas a sério, pensa nisso: um rés-do-chão; ok? Resolvia-te os problemas todos, de certezinha. Não achas? Se calhar, pensaste tanto, que te desorientaste; ou então, tens estado a pensar na direcção errada, por assim dizer. Bom. Tenho mesmo que ir. Xau, depois diz qualquer coisa.

Pausa

É verdade que a Gaveta tem estado quase ao abandono; o que não significa que eu esteja completamente parado. Quem quiser ir acompanhando as (poucas) novidades que vão surgindo, pode procurar por estes lados, onde será bem-vindo.
Quanto a estórias, por aqui continuarão a aparecer. Mais dia, menos dia...