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Ebook



Vai avançando o novo ebook “Foto sínteses”. Por enquanto, convido à exploração do magnífico trabalho das cinco fotógrafas que aceitaram colaborar neste projecto. As estórias chegarão um dia destes…

A felicidade alheia



Fiquei surpreendida quando ele me conduziu à loja e disse: escolhe o que quiseres. Senti-me feliz, claro: ele ainda não me oferecera nada, desde que estávamos juntos; e, por momentos, quase me senti amada (mas ainda era muito cedo para isso, obviamente). Deambulámos por ali, sem pressa, tocando as roupas com as pontas dos dedos e sorrindo, segredando banalidades; até que, por fim, vi o que queria e soube que seria meu.
Quando saí do provador da loja, exibindo o vestido que seleccionara, os olhos dele brilharam. Sorri e olhámo-nos em silêncio durante alguns segundos; não havia mais ninguém na loja, a música que se ouvia não era excessivamente incomodativa; o momento, que me pareceu especial, poderia ter-se prolongado por uma eternidade. Por fim, ele disse: extraordinário. Ri, agradada e feliz; agradecida. E o momento terminou, devagarinho.
Claro que gostaria de sair da loja usando o vestido mas, como estávamos juntos há poucos dias, não quis forçar, não quis parecer parvinha, não quis que ele me dissesse: és tão vaidosa. A rapariga da caixa olhou-nos com indiferença, sem sequer sorrir; pegou no vestido e fez as coisas que as raparigas das caixas sempre fazem, com enfado e sem excessiva eficiência. Não me importei, sempre soube como a felicidade alheia incomoda e perturba os infelizes, os menos felizes, os pouco felizes. Inesperadamente, ele disse: faça-me um embrulho, se faz favor. Estranhei um pouco mas não disse nada; pensei vagamente em jogos eróticos e sorri para mim própria, excitada. Ficámos, então, a olhar para a moça, em silêncio e sem pressa, vendo-a tratar do embrulho, contrariada e abstraída. (Eu a pensar em sexo; ele, não sei.)
Demos a mão e virámos costas à rapariga, como se fossemos um par de adolescentes apaixonados e nada no mundo interessasse além da ostentação da nossa felicidade. Mas quando íamos a sair da loja, naquele sítio onde geralmente começam a tocar os alarmes, ele disse: a minha mulher vai gostar mesmo do raio do vestido; escolheste bem. Houve um silêncio súbito; depois, uma sensação de vazio, ou de queda, ou de desamparo, ou de fim, ou de perda, ou de desesperança. Então, quase ao mesmo tempo, ouvi um inesperado riso distante, um riso triste e infeliz, desnecessário: a moça da caixa.
Por fim, senti a vida retomar a sua marcha e prosseguir, arrastando-me consigo, enquanto compreendia que não havia par nenhum (nunca houvera, nunca haveria). Um pouco mais tarde, quando já sabia que éramos apenas duas pessoas desconhecidas, ele tirou-me o saquinho da mão; mas, nessa altura, já eu quase conseguira esquecer o vestido.

Bambúrrio

(Um desafio do Paulo Freixinho, o mestre das palavras cruzadas: criar uma estória contendo algumas palavras sugeridas por ele: amplexo, ciciar, iniquidade, bambúrrio, amizade e confabular. Eis o resultado. Já agora: a estória é inspirada no quadro Krefeld Project Sun Room Scene 1, Eric Fischl.)



Ele, já despido, pega o copo e olha pela janela, tecendo comentários preguiçosos e irrelevantes sobre dois operários que trabalham no jardim da casa vizinha. Ela, ainda vestida, está indolentemente estendida num cadeirão e escuta-o, sem grande curiosidade ou interesse. Estão confortáveis, adiando ao máximo o sexo; porque a antecipação é quase tão excitante como a própria concretização; e, também, porque mal comecem já não haverá pausas, intervalos, adiamentos: e tudo terminará demasiado depressa. E, por vezes, é agradável simplesmente conversar um pouco, confabular sem pressa nem objectivo; como se existisse verdadeira amizade entre si.)
ELA (num tom quase indiferente): Ainda não disseste o que achas do vestido.
ELE (sem se voltar para ela): É novo?
ELA (sem se entusiasmar): Vi-o no outro dia numa montra e pensei logo naquilo que tinhas dito.
ELE (após uma pausa, quase contrariado): O que é que eu disse?
ELA (agastada): Que gostavas de me ver num vestido preto.
ELE (fingindo interesse mas sem a olhar): Fica-te bem.
ELA (incrédula mas bem-disposta): Não te lembras, pois não?
(Ele não responde; vira-se lentamente e olha-a, apreciativamente.)
ELE (sem desviar o olhar): Tens alguma coisa por baixo?
ELA (sorrindo): Vem ver.
(Ele sorri e pousa o copo; aproxima-se dela, aperta-a contra si num amplexo quase indiferente; afasta-lhe a alça do vestido, envolve o seio com a mão, acaricia o mamilo sem pressa; Ela observa o seu próprio seio, séria. Então, toca um telemóvel. Ela suspira, irritada; Ele afasta-se dela e caminha pela sala, procurando a roupa; retira o telemóvel do bolso do casaco e atende.)
ELE (num tom frio, falando para o telemóvel): Sim? (Escuta atentamente, enquanto caminha pela sala. Ela olha o seu pénis flácido, aborrecida; volta a cobrir o seio, ajeita o vestido.) Onde? (Acena com a cabeça, concentrado na conversa.) Ok. (E desliga. Pousa o telemóvel junto do copo e fica a olhar para a janela, pensativo.)
ELA (irritada): Então, fodemos ou não?
(Ele ignora-a, como se nem tivesse ouvido.)
ELE (num tom triste e pensativo, quase um ciciar, como se falasse consigo próprio): A minha mulher teve um acidente de carro. (Caminha em direcção às suas roupas, sem pressa.) Acho que tenho de ir ao hospital. (Mas parece indeciso, pegando a camisa sem a vestir; talvez aquela desgraça pudesse ser, afinal, um princípio de libertação, um acaso inesperado, quase um bambúrrio.)
(Ela estende-se no cadeirão, procurando uma posição mais confortável.)
ELA (fechando os olhos; num tom indolente, o tom de iniquidade e indiferença que sempre a caracterizara): Vai lá, espero aqui por ti.

A estória da Patrícia

Por vezes, acontecem coisas curiosas. O Manuel (que não conheço) contactou-me a perguntar se aceitava escrever uma estória original para a sua amiga Patrícia (que também não conheço). Pretendia fazer-lhe uma surpresa e oferecer-lhe a estória num gesto de pura amizade. Aceitei, claro; é que não há nada tão precioso como a amizade. Não será dos meus melhores contos mas é, para mim, especial. E é da Patrícia, apenas; mas como ela autorizou, aqui está: "Dois adolescentes comem gelados na Santini, num domingo à tarde…" Ou, simplesmente, "A estória da Patrícia".   




Ele (muito entusiasmado, esbracejando um pouco, feliz; numa voz demasiado alta, que por vezes provoca olhares desaprovadores porque a felicidade alheia incomoda sempre um bocado, provoca inveja):
Havia a música, claro; e a música era feita de emoção pura, uma emoção que me atravessava todo o corpo e o dominava, o anestesiava, o inebriava; era como se houvesse uma qualquer força estranha e impalpável percorrendo-me os vasos sanguíneos, junto com os glóbulos vermelhos e essas coisas todas, uma força vital que provinha directamente da música e que algum órgão exótico e semidesconhecido, escondido num qualquer canto recôndito do corpo (tipo o pâncreas, estás a ver? Uma daquelas cenas que ninguém sabe para que servem), transformava em prazer e bem-estar, em euforia, em felicidade. Mas não só: havia também o movimento e a agitação, o toque em corpos desconhecidos, a intensidade de olhares, a partilha de sensações similares com toda aquela gente, ali ao lado, ali tão perto, gente estranha e, ainda assim, gente gémea; e os cheiros, os cheiros misturados de tanta gente, e o próprio cheiro do prazer, da alegria. E depois, por fim: a possibilidade de cantar; cantar em uníssono com a música, fazendo parte dela, integrando-a e dominando-a, duplicando a emoção e reproduzindo-a, mas também devolvendo-a ao mundo e aos outros, já pensaste nisso?, devolver a música depois de ela nos transformar um pouco, devolvê-la diferente e um pouquinho mais densa, mais rica, levando consigo algo de nós. É como se durante aqueles momentos fossemos aquilo que ouvimos, não sei se percebes o que quero dizer, a música somos nós e nós somos música. 

Ela (concentrada no gelado, num tom cansado e algo distante):
Yah, vejo que gostaste mesmo do concerto. 

Ele (segurando a colher cheia de gelado mas sem a aproximar da boca, permitindo que um pedaço caia na mesa):
Pois. Nem imaginas quanto. É uma coisa inexplicável, não é? Sei lá, como estar a saborear um gelado maravilhoso, tipo este que estamos a comer agora, e nada mais, mas mesmo nada mais, importasse no mundo; ou como mergulhar no mar e ser envolvido pela água, ser engolido e abraçado e protegido, tudo ao mesmo tempo; ou cair pelos ares e ser puxado por um pára-quedas, aquela sensação de vazio e euforia; ou olhar para um quadro daqueles mesmo extraordinários e…

Ela (olhando-o com alguma incredulidade, com um sorriso irónico):
Mas que conversa é essa? Tu nunca olhaste para nenhum quadro extraordinário, sabes lá o que estás a dizer… Já para não falar de pára-quedas e mergulhos e isso. Come lá o gelado, anda.

Ele (triste, quase irritado):
Não sejas assim, porra. Faz de conta, tá bem? Olha, até houve um instante em que pensei que aquela cena toda estava a ser tão magnífica e intensa que certamente iria ser o momento mais feliz da minha vida, de toda a minha vida; e quase fiquei triste, porque pode ser desesperador, não é?,  perceber, assim aos quinze anos de idade, que o momento mais feliz da vida já chegou, já passou, perceber que a felicidade máxima deixara de ser uma possibilidade para se transformar numa memória. Mas sabes o que aconteceu, mesmo no momento em que estava a pensar nisso? Ela pegou-me a mão, foi o que aconteceu; sabes, a rapariga com quem fui, acho que nem a conheces: pegou-me a mão. E cum caraças, no meio daquela intensidade toda, a música e a gente e isso, vai ela e pega-me na mão. Agarrou nela, pela primeira desde sempre, e apertou com suavidade, acomodou-a, como se a estivesse a proteger, como se fosse algo precioso. E então tive a certeza que aquele fora – estava a ser – mesmo o momento mais feliz da minha vida e jamais seria superado; mas iria ser repetido, igualado, duplicado, reproduzido tantas vezes, mas mesmo tantas, que até pensei como era algo injusto que a minha vida pudesse ser tão magnífica.

Ela (terminando o gelado, pegando num guardanapo):
Eh pá, fui a muitos concertos, sei como é. Já percebi, ok? Foste ao teu primeiro concerto e gostaste da experiência, foi uma coisa do caraças; muito bem, fico feliz. Mas não precisas de parecer tolinho. Até parece que tens doze anos, ou assim.

Ele (tom exagerado e efusivo):
Mas é que foi mesmo, mesmo mágico. Sei lá. Até acho que foi quase tão bom como fazer sexo e assim, quase tão intenso e…

Ela (impaciente):
Olha lá, pensas que eu não sei que ainda és virgem? Chiça. Acaba lá o gelado, para irmos embora. 

(Ele olha-a com uma tristeza indisfarçável no rosto, quase com desolação, sentindo-se confuso; pousa a colherzinha, parece um pouco perdido entre a confusão de risos e vozes. Então, ela abana a cabeça e sorri para si própria; depois, levanta-se, contorna a mesa e abraça-o. Ele deixa-se envolver, em silêncio, sentindo-se de imediato serenado, tranquilo, talvez feliz; quase fecha os olhos, sentindo o contacto do corpo dela, sentindo a amizade e o afecto e o amor através do toque, da proximidade; e nesse instante imagina como teria sido especial se tivesse sido ela, e não a outra, a pegar-lhe a mão no concerto, a estar lá com ele; talvez o mundo tivesse parado, pensa ele. E percebe, de repente e com surpresa, que talvez se possa sempre ser mais feliz, ainda mais, do que já se foi, do que se está a ser. Fica a pensar nisso, durante um bom bocado. Mas só muito depois de se terem separado é que repara que tinha passado todo o tempo a falar de si, que não quisera saber dela, não perguntara, não escutara; repara, demasiado tarde, como ela parecera um pouco ausente e abstraída, talvez até triste; e não fizera nada por ela, portara-se como um imbecil ou, pior, como um garoto de doze anos, egoísta e indiferente, insensível, idiota. Pensa: foda-se, assim ainda vou morrer virgem. E, contrariado, pega no telemóvel, com esperança que ela atenda.)

Para variar, um texto político

Não é tempo para lamúrias e lutos e queixas e fugas; é tempo para revoluções. E não podemos levar de novo cinquenta anos a fazer uma revolução. Não pode ser, não é uma opção; porque dentro de cinquenta anos já não existirá nada por que valha a pena lutar. Temos que começar agora, e já vamos atrasados. Afinal, uma revolução até é simples de se fazer; basta começar por dizer “não”. Dizer “não”, e depois gritar “não”; ir repetindo e gritando, sempre “não”, e acreditar que se muitos dissermos “não”, será mesmo “não”. É quanto basta para começar uma revolução. E há que começar já, porque estamos fartos.
Estamos fartos de quem nos rouba a esperança, estamos fartos de ter medo e de fugir e de recear o futuro, estamos fartos de estar quietos, estamos fartos de egoísmos e de gente que vai andando com as vidinhas às costas sem olhar para o mundo que ao lado se desmorona, estamos fartos de nos acomodarmos, estamos fartos de mercados e raitings e troikas e juros e merkels e privatizações e neoliberais e aumentos de impostos, estamos fartos de ser tratados como imbecis, estamos fartos de gatunagens e humilhações, estamos fartos de quem diz que direita e esquerda é a mesma coisa, estamos fartos de fado e tourada e futebol e de todas as outras distracções de regime, estamos fartos de jotas, estamos fartos de sofrer porque não sabemos o que vai ser dos nossos filhos, estamos fartos que nos digam que não vale a pena lutar e protestar e recusar, estamos fartos de quem nos quer ver transformados num povo de burros e atrasadinhos e resignados e subservientes, estamos fartos de pobreza e miséria e de quem diz que esse é o nosso destino inevitável, estamos fartos de passados gloriosos e história e saudosismo e de dão sebastiões, estamos fartos de quem nos quer fazer acreditar que ter um emprego é um privilégio e um luxo, estamos fartos de já não conseguirmos arranjar motivos para rir, estamos fartos que dêem cabo dos serviços públicos de educação e saúde e televisão e dos outros todos, estamos fartos de não ter dinheiro para a gasolina, estamos fartos da ausência de ética e de solidariedade das elites, estamos fartos de comentadores e economistas e de todos os outros que nos negam o direito de acreditar em utopias, estamos fartos de não nos sentirmos livres, estamos fartos de quem tem medo da palavra revolução, estamos fartos de ser fodidos dia após dia após dia.
Estamos fartos. Ou não, será que estaremos? Quem se calar talvez ainda não esteja, talvez aguente mais um bocado; que aguente, então. Mas quem estiver farto que diga “não”, que grite “não”, que escreva “não”. Que acredite que cada “não” dito, gritado ou escrito faz alguma diferença e que é à junção solidária de tantos “nãos” que se chama revolução.
Agora, as ruas irão encher-se de gente, alguma silenciosa e outra que dirá “não”. Por lá andarão, certamente, muitos dos 4035539 cidadãos portugueses que nas últimas legislativas não se deram ao trabalho de votar, por certamente estarem ocupados com coisa bem mais importante; por lá andarão muitos dos 793508 cidadãos portugueses que, como eu, votaram num partido de esquerda; por lá andarão muitos dos 1568168 cidadãos portugueses que votaram no PS, que não sendo bem de direita, de esquerda certamente não será; por lá andarão muitos dos 413189 cidadãos portugueses que votaram num daqueles partidos de que nem sabemos bem o significado da sigla mas que são tão importantes como todos os outros; por lá andarão alguns dos 2813729 cidadãos portugueses que votaram nos partidos do governo e entretanto se arrependeram. Por lá andaremos muitos de nós; e a revolução começará assim: dizendo “não”.
 
(15 de Setembro de 2012)