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Mente-me e seremos mais felizes


Banda sonora

(O quarto é apenas iluminado pelo luar que entra através da janela aberta; a brisa agita a cortina, provocando um sussurro desagradável. Fazem amor, de forma enérgica; ela contorce-se e geme num tom desprendido e gutural, inconsciente, ligeiramente excessivo; ele mantém-se em silêncio, movendo-se ritmadamente e respirando com dificuldade. Quando chegam ao fim, ela grita, descontrolada e um pouco – só um pouco – histérica, totalmente entregue ao orgasmo; ele está silencioso e rígido, de olhos cerrados, deixando-se apertar por ela. Permanecem uns segundos abraçados, controlando as respirações, à espera que os corpos serenem; depois, por iniciativa dele, separam-se.)
ELA (num tom ofegante e desprovido de emotividade): Hoje, foi bastante bom. (Ri, um pouco eufórica.) Mesmo bom.
ELE (num tom seco e acusatório, desnecessariamente agressivo): Mas é preciso fazeres tanto barulho?
(Ela suspira ruidosamente, um pouco magoada; afasta-se dele e vira-se para a janela, ficando a olhar para a cortina esvoaçante. Ele permanece imóvel e silencioso, tentando serenar a respiração, talvez temendo que ela reaja e o acuse de qualquer coisa inesperada, provoque uma discussão, force um diálogo; mas pouco depois, adormece. Ela mantém-se imóvel e de olhos abertos, muito abertos: escutando o ressonar dele, barulhento e opressivo; insuportável.)

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Mente-me e seremos mais felizes



Mentiras em papel pardo

TU: Estava a pensar no dia em que nos conhecemos, lembras-te? Naquela tasca estranha para onde nos arrastaram, os dois para ali com cara de seca, sem nenhuma vontade de ficar. Não nos conhecíamos de lado nenhum mas tinhas isso em comum: a cara de seca. E então tu, já no fim da noite, rasgaste um pedaço daquele papel pardo que cobria as mesas, escreveste lá o teu número de telemóvel e deste-me o papelinho, com um sorriso envergonhado nos lábios.
EU: Sorriso nos lábios mas a mão a tremer. Como poderia não lembrar?
TU: Estava a pensar que teria sido uma grande sorte se a porcaria das mesas não tivessem aquelas toalhas de papel. Muitas mentiras teriam sido evitadas, muitos equívocos, muita infelicidade. Muito tempo que não se teria perdido.

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Mente-me e seremos mais felizes



Breves e inconsequentes explicações sobre mentir. Entrevista aqui.

Mente-me e seremos mais felizes


Depois do sexo e antes de adormecer, citam-se os clássicos (I)

EU: Achas que devemos dizer sempre a verdade?
TU: Sempre, como?
EU: Num casamento, por exemplo.
TU: Bom, não foi o Proust que afirmou que passamos a vida a mentir, sobretudo àqueles que mais amamos?
EU: Julgo que sim. Mas antes já o Nietzsche dissera que se os esposos não vivessem juntos, haveria mais matrimónios felizes.
(Risos.)




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Mente-me e seremos mais felizes


Vencedor do Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco / APE e um dos principais exploradores da narrativa breve e do conto em língua portuguesa, Paulo Kellerman regressa com uma antologia de 82 micronarrativas em forma de diálogo onde explora de forma incisiva, provocatória e desconcertante a incapacidade de gerir o silêncio e lidar com as verdades mais íntimas e inconfessáveis no âmbito dos relacionamentos afectivos.


Completamente nus...



Ilustração de Licínio Florêncio para o conto A porta aberta. 
(Do livro Silêncios entre nós e Ebook Silêncios ilustrados)


Retiras a mão do meu sexo e ergues-te um pouco, para me olhares bem enquanto dispo a camisola do pijama; estamos, agora, completamente nus, as nossas pernas a tocarem-se; mas não te apressas, afinal nem espreitaste os meus seios nus. Olhas-me nos olhos, como eu te olho nos olhos: e assim permaneceremos por muito tempo. Depois, deixar-te-ás cair sobre mim, com suavidade; o teu sexo encontrará o seu caminho, a tua língua também. Fecharei os olhos, então: finalmente; perguntar-me-ei, talvez, se também fechaste os teus.
Mas, no quarto do lado, o menino começa a ressonar suavemente; esqueceste-te de fechar a porta outra vez.

Serviço público

Foi-me solicitado que colaborasse na divulgação de algumas informações gerais relativas a uma doença algo desconhecida chamada Endometriose. Quem nunca ouviu falar no termo, é favor seguir o link. Obrigado.