Um conto escrito em parceria com Elsa Rodrigues. Nasce de
uma frase de Baudelaire e inclui banda sonora dos anos oitenta. Pode ser lido na Preguiça.
Mente-me e seremos mais felizes
Banda sonora
(O quarto é
apenas iluminado pelo luar que entra através da janela aberta; a brisa agita a
cortina, provocando um sussurro desagradável. Fazem amor, de forma enérgica;
ela contorce-se e geme num tom desprendido e gutural, inconsciente,
ligeiramente excessivo; ele mantém-se em silêncio, movendo-se ritmadamente e
respirando com dificuldade. Quando chegam ao fim, ela grita, descontrolada e um
pouco – só um pouco – histérica, totalmente entregue ao orgasmo; ele está
silencioso e rígido, de olhos cerrados, deixando-se apertar por ela. Permanecem
uns segundos abraçados, controlando as respirações, à espera que os corpos
serenem; depois, por iniciativa dele, separam-se.)
ELA (num
tom ofegante e desprovido de emotividade): Hoje, foi bastante bom. (Ri,
um pouco eufórica.) Mesmo bom.
ELE (num
tom seco e acusatório, desnecessariamente agressivo): Mas é preciso fazeres
tanto barulho?
(Ela suspira
ruidosamente, um pouco magoada; afasta-se dele e vira-se para a janela, ficando
a olhar para a cortina esvoaçante. Ele permanece imóvel e silencioso, tentando
serenar a respiração, talvez temendo que ela reaja e o acuse de qualquer coisa
inesperada, provoque uma discussão, force um diálogo; mas pouco depois,
adormece. Ela mantém-se imóvel e de olhos abertos, muito abertos: escutando o
ressonar dele, barulhento e opressivo; insuportável.)
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Mente-me e seremos mais felizes
Mentiras em papel pardo
TU: Estava a pensar no dia em que nos conhecemos,
lembras-te? Naquela tasca estranha para onde nos arrastaram, os dois para ali
com cara de seca, sem nenhuma vontade de ficar. Não nos conhecíamos de lado
nenhum mas tinhas isso em comum: a cara de seca. E então tu, já no fim da
noite, rasgaste um pedaço daquele papel pardo que cobria as mesas, escreveste
lá o teu número de telemóvel e deste-me o papelinho, com um sorriso
envergonhado nos lábios.
EU: Sorriso nos lábios mas a mão a tremer. Como
poderia não lembrar?
TU: Estava a pensar que teria sido uma grande sorte
se a porcaria das mesas não tivessem aquelas toalhas de papel. Muitas mentiras
teriam sido evitadas, muitos equívocos, muita infelicidade. Muito tempo que não
se teria perdido.
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Sabido, Google, IBA, Kobo, LeyaOnline, Livraria Cultura, Submarino, Wook
Mente-me e seremos mais felizes
Depois do sexo e antes de adormecer, citam-se os clássicos (I)
EU: Achas que devemos dizer sempre a verdade?
TU: Sempre, como?
EU: Num casamento, por exemplo.
TU: Bom, não foi o Proust que afirmou que passamos
a vida a mentir, sobretudo àqueles que mais amamos?
EU: Julgo que sim. Mas antes já o Nietzsche dissera
que se os esposos não vivessem juntos, haveria mais matrimónios felizes.
(Risos.)
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Mente-me e seremos mais felizes
Vencedor do Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco /
APE e um dos principais exploradores da narrativa breve e do conto em língua
portuguesa, Paulo Kellerman regressa com uma antologia de 82 micronarrativas em
forma de diálogo onde explora de forma incisiva, provocatória e desconcertante
a incapacidade de gerir o silêncio e lidar com as verdades mais íntimas e
inconfessáveis no âmbito dos relacionamentos afectivos.
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