Estreia no dia 7 de Maio a curta de Bruno Carnide "Calou-se. Saiu. Saltei.", para a qual escrevi o argumento. Teaser disponível aqui.
O desfasamento
A partir de uma foto de Sónia Silva.
- O grande problema
do mundo… Sabes qual é? Falta de sincronismo nos olhares. As pessoas nunca
olham juntas, para o mesmo sítio ao mesmo tempo. Já reparaste? Há sempre um
desfasamento, ainda que pareça que se
olha em simultâneo. E quando não se olha em conjunto, não se vê o mesmo; e se
não se vê o mesmo, não se sente parecido ou igual; e se não se sente parecido
ou igual, no fundo estamos condenados a uma desoladora incompreensão, não é? Talvez
seja aí que resida a angústia da solidão: sentimo-nos sós porque percebemos que
nunca ninguém olhará verdadeiramente connosco. Preocupamo-nos em olhar o outro
e ser olhado pelo outro mas sabemos que o que importa é olhar com o outro. Sei
lá, imagina dois apaixonados sentados na areia da praia, de mãos dadas, e a
olhar o mar em silêncio; acreditarão estar em união completa mas é impossível
que olhem precisamente o mesmo pedacinho de mar no mesmo instante. Impossível,
existirá sempre uma divergência milimétrica e momentânea mas insuperável. E
quando se percebe isso, é um pouco desolador; afinal, de que serve ver e não
partilhar totalmente? Claro que muita gente não percebe, ou finge que não
percebe, porque a ilusão é sempre aconchegante. Mas a verdade é que as pessoas
andam tristes, basta olhar em redor e percebê-lo. E quanto mais pessoas há em
redor de nós, pior. Como no metro ou numa feira de diversões ou num shopping: se
há uma multidão, menores parecem ser as possibilidades de ocorrer um olhar em
comum; maior é o isolamento. O que é uma incongruência desconcertante. Perceber
que a quantidade não potencia a qualidade é como descobrir que o sol não gira à
volta da Terra; ou que não existe pai natal; ou que os nossos pais fazem sexo.
E depois há também o movimento, que talvez seja inimigo do olhar. Talvez. Porque
parece que a única forma de duas pessoas conseguirem olhar em conjunto, em
verdadeira sintonia, será estando transformadas numa espécie de estátuas,
congeladas num tempo e espaço comuns; e mesmo assim, a percepção do que se olha
será sempre diferente. Enfim. No fundo, a visão é um sentido irrelevante, não
te parece? Porque, na realidade, somos uma multidão de cegos; os homens não
vêem, porque olhar sozinho não é realmente ver, e esse é o grande problema do
mundo.
- Não sei nada dos problemas
do mundo. Mas tu, pelo que ouço, tens um grande problema. E repara que te olho
nos olhos quando digo isto: tens um grande problema, tu.
Chega de fado
Loic Le Gall é um encenador francês que pegou no livro Chega de Fado e o transformou numa peça de teatro. Adicionou-lhe uma componente multimédia e ainda a poesia de Fernando Pessoa. Haverá versões em português e francês. Trailer disponível aqui.
O corpo diz o que as palavras não conseguem (ou não querem ou não podem)
Um novo conto na enfermaria 6, a partir de uma foto de sonja valentina.
"Não sei o que esperava; mas julgo que sempre acreditei que o primeiro beijo que dou a alguém deverá ser mágico, deverá ser insuportavelmente intenso e transcendental; deverá fazer-me tremer, fazer-me voar, deverá fazer-me morrer e ressuscitar em simultâneo. Talvez seja excessivamente romântica, talvez seja excessivamente idiota; mas acredito que um primeiro beijo deverá ser tão forte que me faça sentir que, após esse beijo, nada mais será igual, algo mudará de forma subliminar mas inquestionável e irreversível. Contudo, nada disso aconteceu; o nosso primeiro beijo foi, simplesmente, murcho."
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