Novo conto na Enfermaria 6, a partir de uma foto de sonja valentina.
Iupiiiiii
(A partir de uma foto de Salander Salander.)
Não se lembra da primeira vez em
que reparou nos baloiços. Percorria diariamente aquele trajecto há muitas
semanas mas sempre lhe fora um pouco indiferente o cenário que a acompanhava;
no fundo, não lhe interessavam as pessoas com quem se cruzava – e era essa a
parte do cenário que mais a intimidava, que pretendia evitar: as pessoas. Por
isso, seguia sempre em frente, focalizada em si e nos seus pensamentos (ou no
seu vazio), tentando que o mundo não desse pela sua passagem, que não reparasse
em si. Como se se sentisse uma janela através da qual o mundo olhasse para o
interior de si própria e, desse modo, a conhecesse; não olhar para os outros
era a sua forma de manter as cortinas cerradas.
Mas certamente por distracção ou
descuido, terá havido um momento em que o seu olhar descaiu sobre o parque dos
baloiços e, quando deu por si, todos os dias olhava para aquele canto
abandonado. O que a entristece (e talvez apenas por isso olhe, porque as
tristezas atraem-se) é que o parque esteja sempre vazio. Baloiços abandonados;
estáticos, como se estivessem congelados no tempo, como se tivessem utilidade
apenas quando usados por alguma criança irrequieta ou aborrecida ou sonhadora e
não possuíssem qualquer valor intrínseco. Que sentiriam os baloiços, se
pudessem sentir? Talvez algo semelhante ao que ela própria sente, por vezes:
uma desadequação em relação à vida e aos outros; como se estivesse a mais no
mundo e na vida; ou como se, pelo contrário, a sua presença fosse irrelevante?
Por vezes, enquanto caminhava passo após passo perguntava-se distraidamente: e
se eu fosse um baloiço? Depois, concluía (quase sempre) que a existência de um
baloiço não será assim tão diferente da vida de uma qualquer pessoa: ambos
sobem e descem ao sabor de desejos alheios, num perpétuo movimento oscilatório,
ascendente e descendente, para cima e para baixo, frequentemente interrompido
por momentos de imobilidade e irrelevância, de espera, de adiamento.
Caminha ao lado do parque e olha
disfarçadamente, como se temesse ser surpreendida a fazê-lo (sim, sabe que é
triste recear ver). Olha sem saber bem porque o faz, na verdade precisou de
alguns dias para compreender que tudo o que desejava era encontrar crianças nos
baloiços (portanto, o que receia verdadeiramente é olhar e não ver o que
procura). Nada mais: crianças encavalitadas nos baloiços, rindo bem alto;
gritando iupiiiiii. Será que as crianças ainda gritam iupiiiiii? Ou
baloiçando-se silenciosa e sonhadoramente, como se não pensassem em mais nada,
como se não desejassem mais nada; como se fossem simplesmente vento. Sem pensar
nem desejar, apenas sendo; livres de passado e futuro, vigorosamente agarradas
ao presente; sincronizadas com o presente. Precisou de alguns dias para
compreender o que procurava; e a compreensão, quando chegou, trouxe-lhe uma
nova ansiedade: onde estavam as crianças do mundo?
Não se lembra da primeira vez em
que reparou nos baloiços nem do momento em que começou a sentir-se angustiada
por sempre os ver vazios. Afasta-se do parque no seu passo arrastado de quem
não quer sair de onde está nem chegar ao sítio para onde caminha mas o
desconforto que sente ao assistir à imobilidade dos baloiços acompanha-a
durante alguns minutos; um sentimento melancólico e indefinido de perda que a
perturba e se vai consolidando numa memória cada vez mais sólida mas que não a
impede de – dia após dia – continuar a olhar (disfarçadamente), de continuar à
procura de uma criança, de um riso, de um iupiiiiii. Não pensa no que poderá
efectivamente acontecer se um dia encontrar a sua criança e o seu riso e o seu
iupiiiiii, não perspectiva nenhuma mudança ou melhoria, não é capaz de sustentar
ilusões irrealistas (aquilo a que as crianças chamam sonhos); sente a angústia
dos baloiços abandonados e pensa como seria fácil simplesmente mudar de
percurso.
Mas não o faz, não muda de
percurso. Continua à espera do dia em que encontre os baloiços ocupados por
crianças; quando isso acontecer, interromperá a sua caminhada e ficará durante
alguns instantes a apreciar o movimento dos baloiços, a escutar os iupiiiiiis;
a sorrir. Mas os dias sucedem-se e nada realmente muda, apesar de ser evidente que
a vida está em permanente mutação. Na verdade, basta um pequeno pensamento para
que algo mude irremediavelmente; e tudo o que é preciso é pensá-lo.
O pequeno pensamento, inesperado
e surpreendente, que a faz suspender a marcha e imobilizar-se durante alguns
segundos surge numa manhã de primavera, quando se distraía a sentir o sol no
rosto e a cheirar a atmosfera saturada com o odor a flores. Pensa: e se for
experimentar o baloiço? Pensa: e se for eu a gritar iupiiiiii? Pensa: e se for
eu a criança?
Não se lembra da primeira vez em
que reparou nos baloiços. Mas certamente que irá lembrar sempre a primeira vez
em que andou nos baloiços.
Calou-se. Saiu. Saltei.
Estreia no dia 7 de Maio a curta de Bruno Carnide "Calou-se. Saiu. Saltei.", para a qual escrevi o argumento. Teaser disponível aqui.
O desfasamento
A partir de uma foto de Sónia Silva.
- O grande problema
do mundo… Sabes qual é? Falta de sincronismo nos olhares. As pessoas nunca
olham juntas, para o mesmo sítio ao mesmo tempo. Já reparaste? Há sempre um
desfasamento, ainda que pareça que se
olha em simultâneo. E quando não se olha em conjunto, não se vê o mesmo; e se
não se vê o mesmo, não se sente parecido ou igual; e se não se sente parecido
ou igual, no fundo estamos condenados a uma desoladora incompreensão, não é? Talvez
seja aí que resida a angústia da solidão: sentimo-nos sós porque percebemos que
nunca ninguém olhará verdadeiramente connosco. Preocupamo-nos em olhar o outro
e ser olhado pelo outro mas sabemos que o que importa é olhar com o outro. Sei
lá, imagina dois apaixonados sentados na areia da praia, de mãos dadas, e a
olhar o mar em silêncio; acreditarão estar em união completa mas é impossível
que olhem precisamente o mesmo pedacinho de mar no mesmo instante. Impossível,
existirá sempre uma divergência milimétrica e momentânea mas insuperável. E
quando se percebe isso, é um pouco desolador; afinal, de que serve ver e não
partilhar totalmente? Claro que muita gente não percebe, ou finge que não
percebe, porque a ilusão é sempre aconchegante. Mas a verdade é que as pessoas
andam tristes, basta olhar em redor e percebê-lo. E quanto mais pessoas há em
redor de nós, pior. Como no metro ou numa feira de diversões ou num shopping: se
há uma multidão, menores parecem ser as possibilidades de ocorrer um olhar em
comum; maior é o isolamento. O que é uma incongruência desconcertante. Perceber
que a quantidade não potencia a qualidade é como descobrir que o sol não gira à
volta da Terra; ou que não existe pai natal; ou que os nossos pais fazem sexo.
E depois há também o movimento, que talvez seja inimigo do olhar. Talvez. Porque
parece que a única forma de duas pessoas conseguirem olhar em conjunto, em
verdadeira sintonia, será estando transformadas numa espécie de estátuas,
congeladas num tempo e espaço comuns; e mesmo assim, a percepção do que se olha
será sempre diferente. Enfim. No fundo, a visão é um sentido irrelevante, não
te parece? Porque, na realidade, somos uma multidão de cegos; os homens não
vêem, porque olhar sozinho não é realmente ver, e esse é o grande problema do
mundo.
- Não sei nada dos problemas
do mundo. Mas tu, pelo que ouço, tens um grande problema. E repara que te olho
nos olhos quando digo isto: tens um grande problema, tu.
Chega de fado
Loic Le Gall é um encenador francês que pegou no livro Chega de Fado e o transformou numa peça de teatro. Adicionou-lhe uma componente multimédia e ainda a poesia de Fernando Pessoa. Haverá versões em português e francês. Trailer disponível aqui.
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