Estória em cinco partes a partir de fotos de Sílaba Súbita.
E agora?
[Um conto com vinte anos.]
I
Espreito
pela janela: o imenso azul do céu convida-me à liberdade, desafia-me a partir.
A manhã está fria, o sol acaba de nascer e parece espreguiçar-se pelo céu como
se também a ele lhe custasse enfrentar mais uma segunda-feira. Decido
apressar-me, antes que a coragem me abandone. E concentrado na imagem que
guardo do céu, imaginando o que poderei fazer debaixo daquele azul libertador,
regresso ao interior do quarto, regresso à realidade. Ela move, ameaça acordar;
e o pavor de ter de lhe falar invade-me, avassalador: seria incapaz de
pronunciar uma única palavra, não saberia o que dizer.
Quase
corro até à casa de banho, tranco a porta com estrondo. E apenas quando a água
quente do chuveiro me metralha, com violência e indiferença, sinto alguma
serenidade. Espreito um pedaço de céu pela pequena janela: mantém-se azul,
convidativo. Espera-me. Os pensamentos vêm e partem, atropelam-se. Excitam-me e
angustiam-me, passam por mim como se não me pertencessem. Como se fossem
segredos murmurados por um anjo da guarda. E deixo-me ir, indefeso, seduzido.
Visto-me,
apressado. Tento não olhar nada, porque sei: o último olhar dói. Não quero
despedidas, é mais fácil esquecer. E esta casa, esta vida, deve ser esquecida.
Ainda
dorme. Queria sair e desaparecer para sempre mas não tenho coragem; ainda. Seria mais fácil, menos
hipócrita: deixá-la a dormir e sair. Mas sou incapaz, por uma última vez tenho
de representar a comédia familiar, fingir que esta não é a última manhã que
passamos juntos. Talvez dar uma explicação.
Estou
sentado na cozinha e o tempo passa. Olho o copo de leite que está à minha
frente e pergunto-me quem o terá derramado no copo, não me lembro de o ter
feito. O silêncio quase tétrico do apartamento incomoda-me, não sei o que fazer
com as mãos. Não sei o que fazer com os pensamentos. Olho o copo de leite. E o
tempo vai passando, vazio e fútil.
Ouço-a
levantar-se. Pequeno arroto. Tosse. Ruído do isqueiro. Mais tosse. Sinto a
tensão percorrer-me o corpo, o medo espreitar. Apetece-me fugir, desejo
irracionalmente que venha um tremor de terra e me salve. Ouço passos e ei-la:
está nua e a beleza do seu corpo perturba-me. Segura o cigarro com uma mão,
ordena o cabelo selvagem com a outra. Passa por mim e, sem me olhar,
deposita-me um beijo seco e indiferente na testa. O seu gesto choca-me: não
indicia ternura nem sentimento nem amor. É apenas uma acção mecânica e
irreflectida, condicionada por dez anos de rotina. Indiferente, como alguém a
sacudir a cinza do cigarro num cinzeiro.
Sacode
a cinza do cigarro num cinzeiro e desaparece na casa de banho. Pego no copo de
leite e bebo um trago; amarga, apetece-me cuspi-lo.
Vagas
recordações do passado invadem-me a mente, perturbam-me as ténues e incipientes
fantasias de liberdade. Tento esquecer. Uma nuvem de nevoeiro chega da casa de
banho e confronta-me com a realidade: um corpo que toma banho e do qual preciso
despedir-me. Aguardo.
Quando
passa por mim, sem me olhar, tento dizer alguma coisa. Depois, sons
desordenados chegam do quarto; atrapalho-me com os pensamentos, não consigo
dominar a ansiedade. Levanto-me e procuro-a. Está a vestir as cuecas. Noutros tempos (noutra vida), teria simplesmente despido
as calças e faríamos sexo. Prazer. Passado.
Fico
a vê-la vestir-se, tentando encontrar palavras. Ignora-me. Passa por mim, sem
me tocar, e volta a fechar-se na casa de banho. E é quando ouço o baque da
porta que percebo (admito): não terei coragem. Não direi uma palavra. Serei,
uma vez mais, o cobarde que sempre fui. Direi até logo e fugirei para longe, na
direcção do céu. Admito-o.
E uma
sensação de alívio invade-me, lenta e libertadora.
Quando
ela sai da casa de banho, atravesso-me no seu caminho e dou-lhe um beijo na
testa. Digo até logo. Saio e fecho a porta. Tudo muito rápido, como se temesse
arrepender-me e voltar atrás. Mas não volto. Caminho pelo corredor, firme e
resoluto.
Pergunto-me:
e agora?
II
Pergunto-me: e agora?
Quando ouvia porta fechar, senti uma onda de alívio
invadir-me, lenta e libertadora. Mas, e agora?
Sento-me num canto da cama e fecho os olhos. Apetece-me
chorar: dez anos depois, aqui estou. Parece que foi ontem, parece que passou
uma eternidade. Mas acabou, a eternidade. E quero sentir-me feliz mas não
consigo, teria vergonha se me sentisse feliz.
Pensamentos desordenados atropelam-se, procurando captar a
minha atenção. Mas a minha atenção não se deixa captar e voa, anárquica, em busca
de tudo, encontrando nada. Deixou ali no chão as meias azuis que comprei no
Verão passado, naquela loja do shopping perto dos cinemas, fazia um calor dos
diabos nesse dia; e havia um rapaz que não tirava os olhos das minhas pernas. Era
bem bonito, o rapaz. E as minhas pernas também. Bastaria ter estalado os dedos e
seria meu, como no tempo da escola, tanta vez que estalei os dedos, e havia
rapazes e beijos e prazer. Há tanto tempo que não tenho prazer. Devia ter
estalado os dedos; olho as meias azuis abandonadas no chão e penso: devia ter
estalado os dedos.
Levanto-me,
decidida a apanhar as meias mas mudo de planos e não o faço. Fico parada no
meio do quarto, com a mão estendida. Congelada. Sentindo-me patética.
E
agora?
Tive
uma última oportunidade para tentar explicar, para o fazer perceber, para me
despedir. Não a usei, fui cobarde, tive medo de mim; de ir longe demais, de não
ir tão longe quanto devia. Ou terá sido, simplesmente, preguiça?
Talvez.
Afinal, explicar o quê? Como se explica que o amor acabou? Não se explica,
sente-se; sobrevive-se; continua-se.
É
melhor assim. Sem explicações.
Levanto-me
e caminho pelo apartamento, tocando ao acaso nos objectos, despedindo-me deles.
E tento convencer-me: se ele tivesse feito qualquer coisa, se tivesse dito uma
palavra, poderia ter sido diferente. Se tivesse entrado na casa de banho e
ficasse a olhar-me, a devorar-me o corpo com aquele seu olhar de infantil
deslumbramento que tanto amei, talvez o tivesse puxado para a banheira; ou
talvez ele tivesse percebido o quanto queria que me fodesse contra qualquer
coisa; talvez conseguíssemos encontrar um vestígio de amor. Mas não entrou na
casa de banho. Ficou a olhar para o copo de leite.
Afasto
o ímpeto de nostalgia que me foi dominando, tento controlar as emoções.
Caminho, quase firme, na direcção da porta, abro-a, lanço um último olhar para
tudo o que vou abandonar. Não consigo evitar a antecipação: ele a abrir a porta
e a observar o apartamento exactamente do mesmo ângulo que olho agora; e
descobrir que parti. O que pensará? O que sentirá?
Puxo
a porta e enfrento o corredor, decidida.
Sugus
Ouço distraidamente uma música da
Capicua; espero que o trânsito avance e acompanho a letra quando, de repente,
surge uma palavra inesperada: sugus. É uma palavra mágica, que de imediato me
desperta um sorriso e me faz fugir do trânsito parado, dos devaneios da Capicua,
de um fim de dia sem história. Porque nesse momento, devido a uma simples
palavra e ao que essa palavra evoca, regresso às tardes de domingo dos anos
oitenta, quando os meus pais iam algures tomar café e regressavam com dois pacotes
de sugus, para mim e para o meu irmão; tardes pachorrentas preenchidas com
coboiadas antigas na RTP, em que se tentava não pensar em escola, em que se
esperava pelas sete da tarde para ver mais um episódio do Justiceiro. Mas o que
permaneceu como catalisador de algumas das melhores memórias de infância (além
dos legos, mas isso é outra conversa) foram os sugus, talvez por serem uma
memória com gosto, com cheiro, com tacto; uma memória com sentidos. É curioso o
modo como personificamos em objectos as sensações que nos fazem sentir vivos; é
curioso, e algo infantil, o modo como povoamos o mundo que nos rodeia com as
nossas emoções. Talvez seja uma estratégia inconsciente de selecção, já que em
cada dia existem inúmeras sensações, pensamentos, desejos, fantasias e emoções
que se apoderam de nós, sendo impossível (e indesejável) guardar tudo na
memória. Mas como se fará essa selecção? Que mecanismos determinam que algo
permaneça connosco para sempre e tudo o resto se perca irremediavelmente? Se
fosse uma questão de intensidade, apenas guardaríamos momentos avassaladores; mas
não é o que acontece, pois temos a memória repleta de pormenores, de detalhes,
de coisas simples que afinal são fundamentais. Como sugus. Talvez
seja por isso que associamos objectos físicos às sensações que desejamos preservar:
para as distinguir e destacar; para as arrancar à monótona e implacável
passagem dos dias. Um processo de associação incontrolável, instantâneo,
inexplicável, inconsciente; inesperado, e por isso particularmente intenso. Sensações
que personificamos numa fotografia ou numa música, num filme, num cheiro, num
prato ou numa bebida, numa terra ou num local; numa palavra, que quando lemos
num livro ou numa parede ou num rodapé de noticiário nos transporta de imediato
a determinado momento do passado. Como se as regras de espaço e tempo
estivessem suspensas e fossemos projectados para o tempo e espaço da memória
que o objecto personifica; uma espécie de sonhar acordado, no qual entramos (e
do qual saímos) abruptamente, num processo desencadeado por percepções físicas
que dão uma dimensão sensitiva a memórias intangíveis. Ou tão só uma tentativa ingénua
de não esquecer, de não perder, de não largar; de atenuar a monótona e
implacável passagem dos dias e dar-lhe um pouco de sentido; de regressar às
tardes de domingo.
(41ª crónica para o Jornal de Leiria)
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(Coordenação editorial: Paulo Kellerman e João Paulo Silva)
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