Caixões separados
O conto Caixões Separados foi lido por Filipa Leal e ilustrado por André Caetano para o programa Literatura Aqui (episódio 38), da RTP 2. Pode ser visto e ouvido aqui.
Contágio
«Mas por que motivo vens sozinho?»
«Não há ninguém que possa vir comigo. Porque ninguém sabe.»
«A sério? Não contaste a ninguém?»
«Não, não contei.»
«Não quiseste? Ou não foste capaz?»
«Penso que ambas as coisas. Mas, principalmente, porque não quis.
Sim, julgo que isso foi o mais importante: não quis contar a ninguém. Parece-te
estranho?»
«Um pouco. Não sei. Cada pessoa tem uma forma diferente de reagir
à doença, de lidar com essa nova realidade. Suponho que o secretismo seja uma
opção tão válida como outra qualquer.»
«Qual é a reacção mais frequente?»
«As pessoas costumam ficar revoltadas. Ou com muita pena de si
próprias. São os dois grandes grupos; as duas maiores tendências, digamos assim.»
«Penso que não fiquei propriamente revoltado. Ou talvez ainda seja
demasiado cedo para isso. A primeira reacção foi de incredulidade, penso.»
«E com pena de ti, ficaste?»
«Pena? Que queres dizer?»
«Sei lá. Aquele discurso tipo: ai, o que vai ser de mim, só tenho
azares na vida. Blá blá blá.»
«Não, nem por isso. Nunca fui pessoa de me queixar muito.»
«Então é mesmo uma reacção atípica. Nem queixas, nem ódios.»
«E isso terá algum significado? Essa incapacidade de reagir
normalmente?»
«Talvez seja como digas. Ainda estás na fase da incredulidade. O
resto virá depois.»
«Mas eu já aceitei que estou realmente doente. E que isto poderá
correr mesmo mal.»
«Aceitaste?»
«Aceitei.»
«Como?»
«Que queres dizer?»
«Como se faz? Um dia acordas e decides: bom, pode ser que morra
nos próximos meses mas que se foda, não há-de ser nada. É assim?»
«Claro que não. Estás a hiper-simplificar, não achas? Aliás, deves
saber melhor do que eu. Passas a vida a lidar com pessoas como eu.»
«Como tu?»
«Doentes.»
«Sim, é verdade. E sabes o que acontece com quase todos?
Recusam-se a aceitar que poderão estar perante o fim. A maioria das pessoas
convence-se que irá escapar, que algo de bom irá ocorrer, que alguém as
salvará.»
«A sério? A maioria?»
«Sim. Incluindo muitos que fingem que não. Mas, no fundo,
secretamente, estão convencidos que vai correr tudo bem, por mais que as
indicações e os prognósticos indiquem o oposto. Têm esperança, mesmo que seja
uma esperança secreta e inconfessável. E em parte é também por isso que contam
às famílias, aos amigos. Porque depois toda a gente faz questão de contribuir
para essa esperança. Toda a gente acredita, ou finge que acredita, que não
haverá morte. E a esperança vai-se consolidando.»
«Comparando com essa tal maioria, parece que desisti. Não tenho
esperança nem quero que ninguém me dê esperança.»
«O que não deixa de ser uma forma de estares com pena de ti
próprio.»
«Afinal, sou como todos os outros.»
Conversavam numa pequena sala sem janelas onde os pacientes do
hospital podiam aguardar os resultados dos exames médicos que tinham efectuado;
não seria tanto uma sala de espera mas antes uma sala de ansiedade, uma sala de
tensão, uma sala de medo, uma sala onde o pior poderia acontecer. Havia uma
máquina de vending com chocolates e sumos, algumas mesas aparafusadas ao chão,
cadeiras de plástico. Posters com conselhos médicos genéricos acompanhados por
rostos sorridentes tornavam o ambiente da sala algo surrealista pois, de um
modo geral, quem tivesse o azar de aguardar naquela sala teria muito poucas
razões para sorrir. Uma sala desconfortável que ninguém iria recordar com simpatia
ou saudade, já que a própria arquitectura e decoração inequivocamente
hospitalar intensificava e perpetuava o desconforto e a angústia inerentes à
doença. Não era a primeira vez que aguardava ali veredictos e sentenças mas
nunca acontecera estar acompanhado. Já tinham conversado antes, conversas
rápidas e algo fragmentárias mas interessantes, recompensadoras,
inesperadamente cúmplices e íntimas considerando que ele era o paciente e ela
uma enfermeira de serviço; conversas que o surpreenderam e perturbaram. Mas
nunca tinham estado assim: frente a frente, como dois velhos amigos; ou dois
novos amigos que se descobrem, fascinados.
«Gostas de ser diferente? De te sentir diferente?»
«Talvez goste. Um pouco.»
«E és?
«Duvido.»
«Todos gostamos de nos sentir especiais. Não é? Mas raramente o
somos. O que acontece é que por vezes nos cruzamos com pessoas que nos acham
especiais, que nos fazem sentir especiais. Não há nada de assinalável em nós,
os outros é que por um qualquer erro de avaliação ou de interpretação ou de
análise ou sei lá, sentem que somos especiais. E nós acreditamos nisso, porque
queremos muito acreditar, precisamos de acreditar.»
«Mas se alguém nos considera especiais, na prática somos mesmo
especiais.»
«Isso é um bocado simplista, não?»
«Tu sentes-te especial?»
«Sinto. Por vezes, sinto. Mas sei que não sou.»
«Não és?»
«Não, não sou.»
«Eu acho-te especial.»
«Mal me conheces.»
«Não acreditas no amor à primeira vista?»
«Amor? Por que estás a falar de amor?»
«Estou a falar por falar. Amizade à primeira vista, então.»
«Já somos amigos, é?»
«Gostava que fossemos. E afinal, estou a contar-te coisas que não
conto nem ao meu melhor amigo. Sobre a doença, por exemplo.»
«Eu sei da tua doença porque sou enfermeira. Lembras-te? Trabalho
aqui.»
«Verdade. Tu e mais umas dezenas de enfermeiras. Mas não conversei
com mais ninguém nem ninguém manifestou qualquer interesse em conversar
comigo.»
«Que significa isso, na tua opinião? Porque, aposto, para ti
certamente terá um significado qualquer.»
«Não sei. Mas posso querer acreditar que aconteceu porque és uma
pessoa especial. E, de qualquer forma, a tua atenção faz-me sentir especial.»
«Somos os dois especiais, então.»
Interrogava-se, algo distraidamente, algo envergonhadamente, algo
excitadamente: estaria a ser seduzido? Na verdade, já não se lembrava como era
ser seduzido, não se lembrava da última vez em que alguém o tentara seduzir. Ou
estaria inconscientemente a seduzir aquela mulher? Seria ele o sedutor? Não o
confessaria em voz alta mas sentia-se quase bem, apesar de estar num hospital a
tentar lidar com um cancro; ela fazia-o sentir-se quase bem. Da mesma forma que
o cancro limitava de forma cruelmente irrevogável e definitiva as
possibilidades do seu futuro, a presença dela – a forma natural como se entendiam
e apreciavam, como se atraíam – tornava esse mesmo futuro estranha mas
irresistivelmente incerto. Ao conversar com ela, sentia-se não apenas menos
assustado mas também um pouco excitado.
«Por que estás aqui, neste momento?»
«Porque quero conhecer-te.»
«Boa resposta, essa. Mas por que me queres conhecer?»
«Não sei. Quero, simplesmente. Eu não sou de pensar muito,
darling. Não racionalizo demasiado. Porque quando penso, fico mais presa; refém
de mim própria, percebes? Por isso, evito pensar. Sigo o instinto.»
«Mas o instinto é uma forma de racionalização.»
«É?»
«Penso que sim. O instinto é uma espécie de decisão inconsciente;
ou de pré-decisão. O cérebro apresenta-te uma solução racional mas como não
percebes os mecanismos intelectuais que a produziram, como não tens consciência
da forma como essa decisão se originou, não a entendes como uma decisão. E
chamas-lhe instinto, como lhe poderias chamar outra coisa qualquer. Não sei se
isto faz algum sentido para ti. É como aquilo do dejá-vu, que resulta de uma
espécie de delay, de atraso infinitesimal, na consciencialização de algo que já
sabíamos. Como quando nos vimos inesperadamente num espelho e demoramos um instante
e perceber que estamos a olhar para nós próprios.»
«Pronto. Então pré-decidi conhecer-te.»
«Quando? Em que momento?»
«Houve um dia em que se fez um exame e te deixaram sozinho no
quarto. Lembras-te? Eu entrei, já não me lembro porquê, e reparei na forma como
me olhaste. Um olhar de confusão e desamparo, como o olhar de uma criança. Já
te tinha visto antes mas foi essa expressão que me fez olhar-te com outra
atenção. Ou com intensão, se quiseres. E depois, a forma como desviaste o
olhar, como fugiste.»
«Há uma empatia qualquer entre nós, algo que nos aproxima. Não
achas? Uma vontade de conhecer o outro e ser conhecido pelo outro; e, em
simultâneo, uma certa sensação de que sempre nos conhecemos.»
«Um dejá-vu.»
«Pois.»
«Ou como se nos tivéssemos conhecido numa vida anterior.»
«É uma ideia curiosa, essa. Mas não acredito na vida para além da
morte.»
«Neste caso, não seria vida além da morte. Mas vida anterior ao
nascimento.»
«Que engraçadinha.»
«Quando vais contar à tua mulher, à tua família?»
«O quê?»
«Da doença.»
«Não sei. Nunca.»
«Nunca? Imagina que morres, desculpa falar assim. Morres e a
pessoa com quem vives há não sei quantos anos descobre que estavas doente
apenas no dia do funeral? Isso é de um egoísmo atroz.»
«Egoísmo talvez fosse contar-lhe. Estaria apenas a transferir o
sofrimento, de mim para ela. Não era?»
«Isso é um argumento de miúdo.»
«Talvez. Mas não deixa de ser válido.»
«Tens medo de quê, afinal? Da reacção dela? Como achas que
reagiria?»
«Em silêncio. Intimamente.»
«Que significa isso?»
«Uma reacção interior, cerebral. Pensaria indefinidamente,
tentando analisar tudo. Como se pensar detalhadamente sobre um problema fosse o
suficiente para o resolver.»
«Mas não seria solidária? Não te apoiaria?»
«Claro que sim. De forma obsessiva.»
«Como se fosse um problema dela?»
«Sim. Existiria uma espécie de apropriação da doença.»
«E isso incomodar-te-ia? Essa apropriação?»
«Sim. Incomodaria.»
«Mas não é essa a essência de uma relação? Que os problemas de um
se tornem os problemas do outro? Que exista solidariedade e complementaridade?»
«Tens razão.»
«E quando não acontece desse modo, o que existe não é bem um
casamento. É mais um ajuntamento de duas pessoas.»
«Que farias, se fosse contigo? Se fosses minha mulher e descobrisses
a existência da doença?»
«Que faria? Não sei. Numa relação, há sempre certos segredos que
não se deveriam partilhar; mas a partir do momento em que são conhecidos, não é
possível que tudo permaneça como antes.»
«Raio de resposta. Estás a fugir»
«Pois estou. Por vezes, é necessário.»
«É?»
«É.»
A lata de sumo de laranja que ele retirara da máquina de vending
quando se refugiara na pequena sala de espera estava esquecida à sua frente,
quase cheia. Apenas se lembrou dela quando viu o modo descontraído como ela a
pegou distraidamente e bebeu lentamente; fê-lo com à-vontade, como se fosse
natural que os seus lábios se tocassem assim, através da lata. Talvez fosse um
gesto banal e inconsequente mas achou-o sedutor, excitante, provocador. E ficou
a olhar para a lata, tentando forçar-se a não lhe pegar. Porque a verdade –
inconfessável, nem sequer assumida a si próprio – é que gostaria de sentir os lábios dela. E essa
consciência não assumida desconcertava-o e perturbava-o, provocava-lhe
ansiedade e nervosismo, culpa, ressentimento; a verdade é que durante um breve
momento essa consciência (essa possibilidade?) o perturbou mais do que o
cancro, do que a incerteza e a angústia provocada pela doença.
«Diz-me uma coisa que adores na tua mulher.»
«Porquê?»
«Porque sim. Porque estou a pedir. Porque quero saber.»
«Está bem. Digo-te uma coisa.»
«Sem pensar. A primeira que te vier à cabeça.»
«Havia uns bilhetes que ela escrevia. Coisas simples como “estás
no meu pensamento” ou “neste momento estou a sorrir para ti”. Escrevia
pensamentos bonitos e fazia uns desenhos, tipo sorrisos ou corações.»
«Como os adolescentes apaixonados.»
«Sim. Depois, escondia os bilhetes em locais improváveis. E quando
eu os encontrava, sentia uma surpresa deliciosa. Adorava essa surpresa.»
«Qual foi o sítio mais estranho onde ela escondeu um bilhete?»
«Sabes aquele triângulo de sinalização que é obrigatório ter no
carro, que se coloca na estrada em caso de acidente? Para avisar? Foi aí,
guardadinho lá dentro da caixa do triângulo. Dizia: “aviso-te que o meu amor
por ti está a aumentar perigosamente”.»
«O amor é sempre uma coisa um pouco patética.»
«O amor em si, não. A expressão do amor, a sua verbalização, é que
pode ser algo patética. Ou muito.»
«Pois. Isso.»
«Certo dia, tive um acidentezito e foi preciso usar o triângulo.
Lá estava eu, todo enervado, com o carro lixado e a apanhar chuva, no meio da
estrada. E vejo o papelito.»
«Que fizeste?»
«Sorri. E quase deixei de estar enervado.»
«E os papelinhos continuaram a aparecer indefinidamente?»
«Houve um dia em que encontrei um bilhete escondido numas cuecas
lavadas. Dizia: “tenho saudades de te chupar”.»
«Uau.»
«Não sei por que raio te estou a contar estas coisas. Mal nos
conhecemos. É irracional, tudo isto.»
«Contas porque queres, porque podes. Porque confias em mim. Porque
estamos a iniciar qualquer coisa. Porque nos estamos a descobrir. Porque
queremos que o outro faça parte da nossa vida e, para isso, precisa de saber de
nós, precisa de ser integrado nessa vida. E porque temos pressa.»
«Temos?»
«Temos. Recuperar o tempo perdido.»
«É uma ideia curiosa, essa. E algo perturbadora.»
«Que aconteceu com os bilhetes?»
«Começaram a tornar-se exclusivamente sexuais. Recados, pedidos,
marcações. Esse género de coisa.»
«E concretizavam, depois?»
«Sim, sempre. Ou quase sempre.»
«Parece divertido.»
«Era divertido.»
«E tu, não escrevias bilhetes?»
«Não.»
«Porquê?»
«Não sei. Por nenhum motivo particular. Apenas porque não.»
«Diz-me uma coisa. És uma pessoa reactiva?»
«Reactiva?»
«Sim. Limitas-te a reagir, sem tomar iniciativas. Como nessa
história dos bilhetes. Ou, se preferires, dou outro exemplo: o teu interesse
por mim é uma reacção ao meu interesse por ti? Limitaste-te a reagir ao meu
interesse?»
«Não. Não sei. Quem sabe. Talvez.»
«Não te parece um pouco triste, isso?»
«Triste? Não diria triste.»
«Dirias o quê, então?»
«Não sei. Não sei o que diria.»
«Encolhes os ombros. Pelo que dizes, a tua vida é um permanente
encolher de ombros.»
«Por que estás a ser cruel?»
«Tens razão, estou a ser cruel. Desculpa.»
«Tudo bem.»
«Mas deixa-me voltar à história dos bilhetes. Seria simplesmente
um jogo? Ou um estratagema para superar uma qualquer dificuldade de
comunicação?»
«Dificuldade de comunicação? Não creio.»
«Adoravas os bilhetes porque gostavas de ser surpreendido. Não foi
o que disseste? E nunca te ocorreu que a tua mulher… como se chama a tua
mulher?»
«Não interessa, isso.»
«Nunca te ocorreu que ela também quisesse ser surpreendida? Quando
foi a última vez que a surpreendeste?»
«Estou a surpreendê-la agora mesmo. Não lhe contando que estou a
morrer com um cancro.»
«Agora és tu que está a ser cruel.»
«É verdade.»
«Que aconteceu com os bilhetes, depois?»
«Um dia, a nossa filha encontrou um.»
«Ui»
«E de repente tudo aquilo pareceu uma coisa um bocado parva,
percebes? Não falámos sobre o assunto, não fomos capazes de o fazer, seria
constrangedor. Abandonámos a brincadeira e não voltámos a pensar nisso.»
«Podias escrever um bilhete a dizer “tenho cancro”; e escondê-lo
tão bem que ela apenas o encontraria depois de teres morrido.»
«Estás a brincar, certo?»
«Claro que estou. É evidente.»
«Uma brincadeira um bocado estúpida, não?»
«Tens razão. E cruel, outra vez. Desculpa. Parece que a crueldade
é uma espécie de tentação.»
«Deve ser isso. Uma tentação.»
«Sabes? Por vezes, sou um bocado parva.»
«Gosto de parvoíces.»
«Gostas? Ainda bem. E tu, nunca fazes coisas parvas? Ou só gostas
das parvoíces dos outros?»
«Faço cada vez menos. Mas claro que o excesso de seriedade é
sempre mal visto. Se és demasiado sério e não fazes coisas tolas, consideram-te
alguém que não se sabe divertir, que não sabe aproveitar a vida.»
«Suponho que não concordes.»
«Não, não concordo. Parece-me uma simplificação um pouco idiota.»
«Então por que dizes que gostas de coisas parvas?»
«Não sei. Mas gosto. Por vezes, gostamos daquilo que não somos,
que não conseguimos ser. Não é? Gostaríamos de ser diferentes, de ser outra
pessoa qualquer.»
«Gostavas de ser menos sério? Mais descontraído e relaxado? Mais
parvo?»
«Talvez. Quem sabe?»
«E por que não tentas?»
«Bom, somos o que somos. Podemos sonhar ter cabelo azul que não
será por isso que ele deixará de ser castanho. Até o poderemos pintar de azul
mas na essência nunca deixará de ser castanho.»
«Raio de exemplo, darling. Até parece que estás a falar com uma
criança. Falas assim com a tua filha?»
«A minha filha já não é criança.»
«E a tua mulher? Aprecia essa seriedade toda?»
«É esquisito falares assim. Como se a conhecesses.»
«Incomoda-te?»
«Um pouco.»
«És mesmo sério, tu. Olha lá. Já que dizes que gostavas de ser
mais parvo. Achas que se pode ficar parvo por contágio?»
«Por contágio? Que queres dizer?»
«Se conviveres com pessoas parvas será possível que fiques também
um pouquinho mais parvo, que percas um pouco dessa seriedade toda? Que ocorra uma
espécie de transferência de parvoíce.»
«Tu és demais, fazes-me rir. Tens cada ideia.»
«A sério. Imagina que faço agora mesmo uma enorme parvoíce que me
está a apetecer fazer. Que aconteceria depois? Considerando que és uma pessoa
reactiva. Corresponderias à minha parvoíce? Serias parvo?»
«Mas de que estás a falar? Que parvoíce te apetece fazer?»
Olhou-o em silêncio durante alguns segundos e sorriu. Depois
aproximou-se lentamente dele e beijou-o.
Marionetas
«Se pudesse escrever num jornal, gostaria de falar de algo em que reparo mais desde que entrei no secundário: parece que as pessoas acompanham os actos dos outros apenas à espera de encontrar um erro, para depois emitirem uma opinião ou fazerem um julgamento. Confunde-se emitir opiniões com caçar defeitos e há muita gente que apenas fala para dizer mal, para criticar. Não me importo com o que as pessoas fazem, desde que não magoem ou afectem os outros; e acredito que todos devem ser livres de se exprimir, de revelar o seu verdadeiro eu. Mas parece que a maioria se ofende com pouco e vai ligando cada vez menos àquilo que verdadeiramente importa. Forma-se um ciclo vicioso: uma pessoa habitua-se a dizer que está bem quando não é o caso (talvez porque não se queira fragilizar ou se tente convencer que está mesmo bem) e as coisas desse modo nunca se resolvem, apenas pioram; as relações baseiam-se num certo fingimento e indiferença, nunca se conhece o que o outro realmente sente porque se valoriza mais o parecer do que o ser. Um exemplo dessa incapacidade em ver e aceitar a diferença nota-se nalgumas pessoas que se consideram feministas e acham que isso é algo que envolve apenas o sexo feminino, quando o feminismo não defende a superioridade de ninguém mas a igualdade dos géneros. Não há regras escritas mas na prática a sociedade dá-as como definitivas; e essas regras, os papéis rígidos que a sociedade impõe, aprisionam-nos. Acredito que cada um é como é e gosta do que gosta, o resto é palha. Mas muitas pessoas vão seguindo as regras impostas e nunca são verdadeiramente felizes, transformam-se numa espécie de marionetas da sociedade. Fecham-se nas suas certezas e se olham para o lado é apenas para criticar. Acredito que a mudança começa no indivíduo, ao ter confiança em se afirmar, assumir a sua diferença, não ser escravo do que a sociedade determina quando aquilo que a sociedade determina é injusto. E não entendo por que motivo as pessoas continuam com mentes tão fechadas, bastava que houvesse respeito e compreensão pela diferença, que houvesse tolerância. Mas se as pessoas não têm coragem de ser como querem e mostrar o que são, nunca se sentirão livres, nunca serão verdadeiramente felizes. E assusta-me viver num mundo assim. Creio que é importante pensarmos em nós e nas consequências das nossas acções, mas é ainda mais importante não pensar apenas nisso, pensar também nos outros. Percebermos que somos singulares e devemos pensar por nós, termos o nosso mundo; mas nunca esquecer que o mundo não é nosso. Era disto que gostaria de falar, se tivesse oportunidade de escrever num jornal. Porque apesar de ter a completa noção de que não iria mudar nada, gostaria de acreditar que talvez encontrasse um leitor com paciência e curiosidade para ler o texto com atenção, alguém que partilhasse algumas das minhas ideias. Alguém que acreditasse, como eu acredito, que se queremos que as coisas fiquem melhores temos de ser nós a fazer por isso.»
(A Maria tem quinze anos e falou durante meia hora quando lhe coloquei o desafio: “Se pudesses escrever num jornal, o que gostarias de dizer?” Esta crónica é um pequeno resumo do que disse.)
[Crónica para o Jornal de Leiria]
E agora?
[Um conto com vinte anos.]
I
Espreito
pela janela: o imenso azul do céu convida-me à liberdade, desafia-me a partir.
A manhã está fria, o sol acaba de nascer e parece espreguiçar-se pelo céu como
se também a ele lhe custasse enfrentar mais uma segunda-feira. Decido
apressar-me, antes que a coragem me abandone. E concentrado na imagem que
guardo do céu, imaginando o que poderei fazer debaixo daquele azul libertador,
regresso ao interior do quarto, regresso à realidade. Ela move, ameaça acordar;
e o pavor de ter de lhe falar invade-me, avassalador: seria incapaz de
pronunciar uma única palavra, não saberia o que dizer.
Quase
corro até à casa de banho, tranco a porta com estrondo. E apenas quando a água
quente do chuveiro me metralha, com violência e indiferença, sinto alguma
serenidade. Espreito um pedaço de céu pela pequena janela: mantém-se azul,
convidativo. Espera-me. Os pensamentos vêm e partem, atropelam-se. Excitam-me e
angustiam-me, passam por mim como se não me pertencessem. Como se fossem
segredos murmurados por um anjo da guarda. E deixo-me ir, indefeso, seduzido.
Visto-me,
apressado. Tento não olhar nada, porque sei: o último olhar dói. Não quero
despedidas, é mais fácil esquecer. E esta casa, esta vida, deve ser esquecida.
Ainda
dorme. Queria sair e desaparecer para sempre mas não tenho coragem; ainda. Seria mais fácil, menos
hipócrita: deixá-la a dormir e sair. Mas sou incapaz, por uma última vez tenho
de representar a comédia familiar, fingir que esta não é a última manhã que
passamos juntos. Talvez dar uma explicação.
Estou
sentado na cozinha e o tempo passa. Olho o copo de leite que está à minha
frente e pergunto-me quem o terá derramado no copo, não me lembro de o ter
feito. O silêncio quase tétrico do apartamento incomoda-me, não sei o que fazer
com as mãos. Não sei o que fazer com os pensamentos. Olho o copo de leite. E o
tempo vai passando, vazio e fútil.
Ouço-a
levantar-se. Pequeno arroto. Tosse. Ruído do isqueiro. Mais tosse. Sinto a
tensão percorrer-me o corpo, o medo espreitar. Apetece-me fugir, desejo
irracionalmente que venha um tremor de terra e me salve. Ouço passos e ei-la:
está nua e a beleza do seu corpo perturba-me. Segura o cigarro com uma mão,
ordena o cabelo selvagem com a outra. Passa por mim e, sem me olhar,
deposita-me um beijo seco e indiferente na testa. O seu gesto choca-me: não
indicia ternura nem sentimento nem amor. É apenas uma acção mecânica e
irreflectida, condicionada por dez anos de rotina. Indiferente, como alguém a
sacudir a cinza do cigarro num cinzeiro.
Sacode
a cinza do cigarro num cinzeiro e desaparece na casa de banho. Pego no copo de
leite e bebo um trago; amarga, apetece-me cuspi-lo.
Vagas
recordações do passado invadem-me a mente, perturbam-me as ténues e incipientes
fantasias de liberdade. Tento esquecer. Uma nuvem de nevoeiro chega da casa de
banho e confronta-me com a realidade: um corpo que toma banho e do qual preciso
despedir-me. Aguardo.
Quando
passa por mim, sem me olhar, tento dizer alguma coisa. Depois, sons
desordenados chegam do quarto; atrapalho-me com os pensamentos, não consigo
dominar a ansiedade. Levanto-me e procuro-a. Está a vestir as cuecas. Noutros tempos (noutra vida), teria simplesmente despido
as calças e faríamos sexo. Prazer. Passado.
Fico
a vê-la vestir-se, tentando encontrar palavras. Ignora-me. Passa por mim, sem
me tocar, e volta a fechar-se na casa de banho. E é quando ouço o baque da
porta que percebo (admito): não terei coragem. Não direi uma palavra. Serei,
uma vez mais, o cobarde que sempre fui. Direi até logo e fugirei para longe, na
direcção do céu. Admito-o.
E uma
sensação de alívio invade-me, lenta e libertadora.
Quando
ela sai da casa de banho, atravesso-me no seu caminho e dou-lhe um beijo na
testa. Digo até logo. Saio e fecho a porta. Tudo muito rápido, como se temesse
arrepender-me e voltar atrás. Mas não volto. Caminho pelo corredor, firme e
resoluto.
Pergunto-me:
e agora?
II
Pergunto-me: e agora?
Quando ouvia porta fechar, senti uma onda de alívio
invadir-me, lenta e libertadora. Mas, e agora?
Sento-me num canto da cama e fecho os olhos. Apetece-me
chorar: dez anos depois, aqui estou. Parece que foi ontem, parece que passou
uma eternidade. Mas acabou, a eternidade. E quero sentir-me feliz mas não
consigo, teria vergonha se me sentisse feliz.
Pensamentos desordenados atropelam-se, procurando captar a
minha atenção. Mas a minha atenção não se deixa captar e voa, anárquica, em busca
de tudo, encontrando nada. Deixou ali no chão as meias azuis que comprei no
Verão passado, naquela loja do shopping perto dos cinemas, fazia um calor dos
diabos nesse dia; e havia um rapaz que não tirava os olhos das minhas pernas. Era
bem bonito, o rapaz. E as minhas pernas também. Bastaria ter estalado os dedos e
seria meu, como no tempo da escola, tanta vez que estalei os dedos, e havia
rapazes e beijos e prazer. Há tanto tempo que não tenho prazer. Devia ter
estalado os dedos; olho as meias azuis abandonadas no chão e penso: devia ter
estalado os dedos.
Levanto-me,
decidida a apanhar as meias mas mudo de planos e não o faço. Fico parada no
meio do quarto, com a mão estendida. Congelada. Sentindo-me patética.
E
agora?
Tive
uma última oportunidade para tentar explicar, para o fazer perceber, para me
despedir. Não a usei, fui cobarde, tive medo de mim; de ir longe demais, de não
ir tão longe quanto devia. Ou terá sido, simplesmente, preguiça?
Talvez.
Afinal, explicar o quê? Como se explica que o amor acabou? Não se explica,
sente-se; sobrevive-se; continua-se.
É
melhor assim. Sem explicações.
Levanto-me
e caminho pelo apartamento, tocando ao acaso nos objectos, despedindo-me deles.
E tento convencer-me: se ele tivesse feito qualquer coisa, se tivesse dito uma
palavra, poderia ter sido diferente. Se tivesse entrado na casa de banho e
ficasse a olhar-me, a devorar-me o corpo com aquele seu olhar de infantil
deslumbramento que tanto amei, talvez o tivesse puxado para a banheira; ou
talvez ele tivesse percebido o quanto queria que me fodesse contra qualquer
coisa; talvez conseguíssemos encontrar um vestígio de amor. Mas não entrou na
casa de banho. Ficou a olhar para o copo de leite.
Afasto
o ímpeto de nostalgia que me foi dominando, tento controlar as emoções.
Caminho, quase firme, na direcção da porta, abro-a, lanço um último olhar para
tudo o que vou abandonar. Não consigo evitar a antecipação: ele a abrir a porta
e a observar o apartamento exactamente do mesmo ângulo que olho agora; e
descobrir que parti. O que pensará? O que sentirá?
Puxo
a porta e enfrento o corredor, decidida.
Subscrever:
Mensagens (Atom)







