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Libelinhas


«Neste sábado amanhecido não me perco em "lirismos e divagações", nem sequer caindo nas memórias dos glutões do Tide, ou na leitura rida da "Maria"... ecoam-me no pensamento algumas frases lidas e riscadas no livro há uns tempos e ouvidas esta semana na correspondente peça de teatro. Escrita e representada de forma espectacular, devo dizer...
Sendo a sua décima apresentação, "Libelinhas" levou-me na passada quinta-feira àquele que é o ninho que a aconchega, o fantástico espaço "O Nariz", em Leiria. Como foram as sessões anteriores? Não sei muito bem e sabê-lo não fará mudar o que senti, aquele era o momento em que eu estava presente...
A foto que partilho, ainda as cadeiras vazias, mostra pouco do lugar em si... cadeiras que depois foram sendo ocupadas por luz, pensamentos, risadas, silêncios... cada qual preenchia o seu espaço de acordo consigo e com o que absorvia da envolvência. Eu estava em lugar privilegiado, abarcava tudo e sentia as vibrações das emoções, minhas e dos outros.
Estas libelinhas são qualquer coisa fora de série, fartei-me de rir, logo a seguir a ter o pensamento embargado, flutuei entre os palavrões que ali ficam tão bem, as personagens que vão entrando e saindo, envolvi-me nos seus diálogos, nos seus mundos de medos, ambições, egocentrismo velado, sentido de humor... São irritações, são afectos, são verdades e evidências. Presentes... 
Se no livro podia parar e reler e porque o encanto da leitura está em cada um descobrir os caminhos por si, aqui os sentidos eram necessários para que as sonoridades, os cheiros, as vibrações, os olhares, prendessem o pensamento. Os actores são incríveis, vivem, sentem e expressam... Vale a pena estar por cada frase, cada palavra, cada carácter representado...
Independentemente do que cada um é (eu e os outros), esta peça consegue espicaçar, faz rir logo a seguir a ter as lágrimas quase a cair, não há vidas cor-de-rosinha e mais, somos todos solidários até ao momento em que a tal de solidariedade não colide com o nosso umbigo... pois é.

Já vai longa a minha escrita e poucos haverá com vontade de ler, no entanto destaco as frases que assinalei quando li a peça e que mantenho:
"Pedir... uma forma de submissão. Perder liberdade?"
"Som da respiração... banda sonora da vida..."
"o poder da comunicação através da respiração..."
"silêncio partilhado..."
"em que pensará uma pessoa que tem a vida adiada..."
"o que seria de nós se não fossem as coisas tontas...."
"... óculos da beleza"
"Sorrir é uma das três melhores coisas..."
"...laços invisíveis..."

Por último, agradeço a quem tornou este momento possível: Paulo Kellerman (escritor), Pedro Oliveira (encenador), Ana Moderno, Bruno Jerónimo, Liliana Gonçalves, Sónia Pedrosa, Tânia Chavinha, Vânia Jordão (actores). E um obrigado especial à Anabela Gonçalves.»

Foto e texto: Cristina Vicente

Pensamentos de avião



Instalação com Sílvia Bernardino.
Festival A Porta 2019

A casa

Chegava todos os sábados de manhã pouco depois da livraria abrir. Deambulava entre os móveis num caminhar lento, pegava num livro ao acaso e abria-o, lia algumas frases, pousava, pegava noutro. Fazia coisas peculiares como passear o dedo pelas capas ou cheirar as páginas; como se namorasse os livros e para os conhecer verdadeiramente precisasses de os tocar com todos os sentidos. Por fim, optava por um e levava-o consigo. Sentava-se na cafetaria, pedia um café e começava a ler. E era como se o livro se apoderasse dela, controlando-a. O seu corpo transformava-se num reflexo do que lia, as suas expressões revelavam o que as palavras lhe transmitiam. Vivia o que lia, convertendo as palavras em expressão, em gesto, em respiração. Havia pessoas por ali que a espreitavam, talvez curiosas, talvez fascinadas; tentavam ler no seu rosto o que poderia estar escondido no livro, como se esse rosto fosse uma janela para um mundo misterioso. (Ou um espelho?) Quem a olhava percebia que, para aquela mulher, ler era uma forma de viver. Como se cada livro fosse um catálogo de possibilidades, um arquivo de emoções e pensamentos onde mergulhava para, momentaneamente, ser e sentir e pensar e sonhar diferente; não para fugir ao mundo mas para se reencontrar a si própria de modos alternativos, para descobrir em si novos caminhos, novos sonhos, novas liberdades. Como se cada livro fosse uma casa: simultaneamente um refúgio e um espaço potenciador de novas possibilidades, de novos encontros, de novos voos. Uma casa-aeroporto. Vivia os livros, e o seu rosto espelhava essa vivência; era por isso que a observavam. Porque ela não excluía ninguém da sua casa. Prosseguia a leitura até meio da manhã, altura em pousava o livro e pedia um pastel de nata. Trocava sorrisos com quem calhasse, conversava com algum conhecido que por ali estivesse, ria alto. Depois, pagava o livro que estivera a ler e levava-o consigo; como se já fosse parte de si. Saía. E o lugar que ocupara permanecia vago durante algum tempo, ninguém saberia explicar porquê. Talvez porque quem ficava sentia que, com a sua presença, ela deixara um pouco de si na livraria. Como se ainda ali estivesse. 

(Texto oferecido aos leitores da Livraria Arquivo no dia 23 de Abril de 2019, assinalando o Dia Mundial do Livro. Crónica para o Jornal de Leiria.)

Almas Desligadas












Com Ana Gilbert.
Moinho do Papel, em Leiria. Até 31 de Maio de 2019.
Curadoria e improvisação: Sílvia Bernardino
(Fotos: Ana Gilbert)

Almas expostas


Moinho do Papel, em Leiria.
Com Ana Gilbert.
Curadoria e improvisação: Sílvia Bernardino
Cartaz: Bruno Jerónimo

Serviços máximos de felicidade









Exposição Almas Desligadas e Outras Histórias.
Com Ana Gilbert.
Galeria Indoor, Rio de Janeiro.

Alegria no trabalho


Libelinhas. Nona apresentação. 07.04.2019.
Foto: Vitória Condeço.
Uma produção O Nariz.