No dia em que o filho nasceu, o pai plantou uma árvore no jardim. A sua ideia era que crescessem juntos, criança e árvore; em harmonia e cumplicidade. E assim foi. Desde muito cedo que o menino manteve uma relação especial com a sua árvore; uma relação que foi evoluindo para uma irmandade não declarada, mas concreta. O menino cresceu, e de repente era adulto; aprendeu que era necessário ser discreto quanto aos seus sentimentos, quando ao que revelava de si. As pessoas que o rodeavam tinham uma necessidade infinita de compreender e explicar tudo o que ouviam; e aquilo que não conseguiam compreender nem explicar era descartado como irracional; estúpido; loucura. Foi por isso que nunca contou a ninguém que considerava a árvore como uma irmã gémea. Nunca contou a ninguém que, tal como sempre acontece com os irmão gémeos, havia entre si e a árvore um elo subtil e inexplicável, espiritual, que lhes permitia ter um conhecimento íntimo do outro. Foi por isso que - muitos anos passados - soube que a árvore se aproximava da sua morte; sem revolta nem ressentimento, pois tivera uma vida feliz. Também sabia (tinham tido essa conversa muito cedo, ainda na infância) que a árvore desejava morrer à beira do mar. Tratou de tudo com serenidade, mas resolução; foi um processo caro e complexo, especialmente por causa das autorizações e licenças necessárias; mas nunca hesitou - apesar de ouvir constantes "irracional", "estúpido", "loucura". Até que se cumpriu o desígnio de ambos e a transplantação foi feita. Todos os dias vinha ao fim da tarde até à praia e juntava-se à árvore na sua nova casa; viam o pôr do sol juntos, aguardavam o anoitecer e o aparecimento das primeiras estrelas; nunca se cansavam da melodia do oceano. Mesmo depois de sentir que a árvore já não estava viva, continuou a vir durante muitos dias.