Teia

Por vezes, sinto-me como se fosse uma aranha. Sim, ouviste bem: uma aranha. Porque o trabalho das aranhas é construir teias. E é assim que me sinto, uma construtora de teias. Na verdade, penso que apenas preciso de trabalhar numa única teia; penso que vou passar o resto dos meus dias a tecê-la, a trabalhar diariamente no que é a construção mais importante da minha vida. Uma construção lenta e paciente, cuidadosa; ternurenta. Nem sei de que são feitas as teias de aranhas; talvez de um líquido proteico que solidifica em contacto com a atmosfera? É possível. Será certamente algo muito diferente do que compõe a minha criação, isso é certo. A teia que construo dia após dia é formada por memórias. Sim, memórias. Todas as memórias bonitas que vou conseguindo reunir do meu filho, agora que ele já não me pode abraçar. Todas. Uma a uma. Entrelaçadas entre si, compondo uma estrutura delicada, mas resistente. E para que serve esta construção? Perguntas tu. Para me proteger. Não é uma construção predatória, como as teias das aranhas que vivem lá nos cantos do teu sótão. Mas é, de certa forma, uma estrutura que me permite sobreviver. Deixa que te explique. Sempre que vem o insecto da dor ou da desolação ou da tristeza (e sabes bem como eles não param de vir, sempre a esvoaçar por perto), a teia protege-me. Funciona como um escudo protector que impede a passagem daquilo que me pode magoar; desses insectos insidiosos que chegam subrepticiamente, sempre prontos a fixar em mim as suas garras e não mais largar. Por isso é que esta construção tem de ser permanentemente cuidada e reforçada, pois os insectos da tristeza ou da desolação ou da dor continuarão sempre a vir. Para mim, o luto é isso: construir esta teia que me envolve e protege, que me acolhe. Talvez não seja a imagem mais poética, as pessoas tendem a desprezar as aranhas. Mas sabes o que aprendi? A olhar para a natureza de outra forma; não apenas com respeito ou admiração, isso deveria ser o ponto de partida básico. Comecei a olhar também com um certo sentido de pertença; como se me olhasse ao espelho, na verdade. Porque sou parte da natureza, sou parte deste fluxo contínuo e complexo que inclui as florestas e os oceanos e o vento e a areia dos desertos e as nuvens de trovoada e os pandas e os periquitos e as pessoas, todas as pessoas vivas ou mortas ou por nascer, e as flores e o cheiro a laranja e o luar. E as aranhas. Aprendi que a natureza - no seu conjunto e na individualidade de cada um dos seus elementos - contém em si própria os meios que garantem a sua subsistência e a sua sobrevivência. Como as aranhas têm em si o líquido com que produzem as teias, eu própria tenho em mim - no meu corpo, em cada uma das células - aquilo que me ajudará a permanecer viva, e eventualmente sorrir nalguns dias (quase todos): sangue e memória. Entendes?

Diário de Leiria, 29 de Abril de 2026
(Convite: Associação Leiria Compassiva)