Esboço # 61

Prazo de validade expirado.

Esboço # 60

Prazo de validade expirado.

Esboço # 59

Prazo de validade expirado.

Dão-se livros # 01

Acabou o passatempozinho. Obrigado a todos os que gastaram algum do seu tempo a pensar em títulos (muitos são verdadeiramente notáveis).
O sorteio decidiu que a vencedora fosse a Ângela (que por acaso até avançou com um dos títulos mais interessantes: “Sexológico”).
Em Setembro, dá-se mais um livro. Até lá.

Esboço # 58

Prazo de validade expirado.

Dão-se livros # 01

Inicia-se uma série de mini passatempos de que resultará a oferta de exemplares dos livros que aparecem aqui ao lado.
Primeiro desafio: enviar um email com uma proposta de título para o Esboço # 40. Entre as respostas enviadas (até 24 de Agosto) será sorteado alguém que receberá um exemplar de um dos livros (à sua escolha).

Galeria # 05


Alberto Sughi - La stanza


ELA (tom agastado): Já reparaste que demoramos mais tempo a vestirmo-nos do que a fazer sexo?
ELE (no mesmo tom): Já.
(Ele olha-se ao espelho, ajeitando a gravata; Ela ignora-o. Ambos ouvem os gemidos intercalados de um homem e de uma mulher, fodendo algures num dos quartos do hotel.)

Esboço # 57

Prazo de validade expirado.

Esboço # 56

(A Mãe corta tomate em pedaços, pensativa e distante; a Criança, debruçada na mesa, olha para a televisão, concentrada; de repente, ri: uma gargalhada genuína e explosiva, brutal, totalmente feliz.)
MÃE (tom bruto): Cala-te.
CRIANÇA (surpreendida e magoada, num tom ligeiramente desafiador): Não posso rir?
MÃE (enfática): Não.
CRIANÇA (subitamente receosa): Porquê?
MÃE (incapaz de se conter, de moderar o tom): Porque me incomoda.
(A Criança baixa os olhos e a Mãe continua a cortar tomate.)

Esboço # 55

Prazo de validade expirado.

Esboço # 54

Prazo de validade expirado.

Galeria # 04

Prazo de validade expirou.

Galeria # 03


Alberto Sughi - Caffe' di notte, Notturno


(O bar está quase deserto; apenas alguns pares de namorados tagarelam, com as cabeças muito próximas, sorrindo quase sempre. Três pessoas solitárias estão sentadas em mesas mais resguardadas, olhando e esperando; o barman inventa tarefas, alheado e indiferente aos clientes. Então, um dos homens solitários levanta-se e caminha sem pressa, talvez um pouco tenso, um pouco ansioso, um pouco desesperado; senta-se junto de uma mulher que se encontra ao balcão, sozinha.)
HOMEM (num tom que pretende informal e bem-disposto, assertivo): Esta música faz-me lembrar noites de Verão; calor, festa, risos; coisas assim. (Olha rapidamente pela janela, verificando que recomeçou a chover.) Gosta?
(A Mulher olha-o durante um instante e volta a concentrar-se no copo que tem à sua frente.)
MULHER (tom indiferente): Nem por isso.
(O Homem acena com a cabeça; espreita a mulher, que continua absorta e distante, melancólica; talvez deprimida?)
HOMEM (tom apelativo, tentando parecer despreocupado): Quer sair daqui e ir dar uma volta por aí? (Olha em frente, rígido.) Foder um bocado.
(A Mulher não reage, como se não tivesse ouvido. O Homem espreita-a, um pouco ansioso. A música que lembra Verão termina abruptamente, substituída por outra muito semelhante.)
MULHER (no mesmo tom de indiferença): Talvez, quando parar de chover.
(Mantém-se em silêncio, de olhares rígidos e desamparados; ele força-se a acenar a cabeça ao ritmo da música, tentando não olhar para a janela demasiadas vezes; ela continua indiferente a quem a rodeia, apesar de por vezes olhar o barman enquanto passa mão pelo cabelo.)

Esboço # 53

(Os dois adolescentes estão no quarto, apenas iluminados pela luz do monitor de um computador; um escreve freneticamente no teclado, o outro no telemóvel; como se competissem numa prova de velocidade ou de agilidade. Ouve-se o ruído longínquo de uma televisão, vindo de outra sala.)
ADOLESCENTE 1 (sem interromper a escrita; num tom indiferente, como se estivesse a verbalizar um pensamento fugaz e pouco relevante): Porque fica a mãe a ver televisão até tão tarde, todos os dias?
ADOLESCENTE 2 (sorrindo, sem maldade ou ironia): Está à espera que o pai adormeça. Para não ter que fazer sexo.
(O teclar prossegue, monótono e entediante, envolvido pelo rugido da publicidade televisiva.)

Esboço # 52

(A porta da entrada do prédio fecha-se com estrondo e a Mulher caminha sem pressa, carregando a pequena mala; o Menino segue-a, indiferente. Entram no carro, em silêncio.)
MULHER (num tom jovial): O pai costuma falar de mim?
MENINO (olhando pela janela): Às vezes.
MULHER (tentando dissimular a surpresa): A sério? E que lhe contas tu sobre mim?
MENINO (admirado): Eu? Ele nunca me pergunta nada. Fala muito da ti mas é com a namorada dele.
(Silêncio. A Mulher agarra o volante com força. Tenta sorrir. Depois, lembra-se de ligar o rádio; sons de vozes bem-dispostas invadem o carro.)
MENINO (sem olhar a mãe): E riem bastante, quando falam de ti.

Esboço # 51

(Ela fuma, soprando o fumo com preguiça; Ele dormita, ou finge que dormita. Estão deitados sobre a cama desfeita, nus; em silêncio; os corpos não se tocam. Cheira a sexo. Ouvem-se os risos das empregadas de limpeza, no corredor.)
ELA (num tom sedutor, bem-disposto): Porque não perguntaste ainda como me chamo?
ELE (sem abrir os olhos, sem se mover; num tom distante e apático, frio): Porque não me interessa saber.
(Ela ri, nervosa; depois puxa a ponta de um lençol, tentando cobrir um pouco do seu corpo nu.)

Esboço # 50

(Os dois rapazes estão sentados na sala, a jogar playstation.)
RAPAZ 1 (num tom casual, quase desinteressado): Se os pais se divorciarem, com quem preferias ficar?
RAPAZ 2 (concentrado no jogo): Porque haveriam de se divorciar? Nunca os vi discutir.
RAPAZ 1 (tom agastado): És tão parvo. Como poderiam discutir se nem sequer conversam?
(Os sons explosivos do jogo disfarçam o silêncio que preenche a sala semi-escura. Deverá ser quase hora de jantar mas continuam sozinhos em casa, à espera.)

Esboço # 49

(Estão os dois a ver televisão na sala escura; sentados no mesmo sofá mas ligeiramente afastados.)
ELA (sem o olhar): Tens saudades minhas durante o dia?
ELE (concentrado na televisão): Tenho.
ELA (alguns segundos mais tarde, num tom forçadamente indiferente): Então porque nunca telefonas?
ELE (um pouco irritado): Para quê?
ELA (magoada com a resposta dele): Para conversarmos.
ELE (olhando-a, sem hostilidade): Sobre o quê?
(Ela sente o olhar dele mas concentra-se na televisão, incomodada. Ele percebe que não haverá resposta e parece aliviado.)

Esboço # 48

(A Idosa está deitada na cama do hospital, respirando com alguma dificuldade; olha a Filha que está sentada junto da janela, lendo uma revista. Ouvem-se gritos de dor e queixumes ocasionais, vindos do corredor. De repente a Filha atira a revista ao chão e levanta-se.)
FILHA (caminhando em direcção à porta, sem olhar a Idosa): Vou apanhar ar.
IDOSA (num tom choroso e assustado): Tens que ir? Não quero ficar sozinha. (Hesita, baixa a voz.) Não quero morrer sozinha.
FILHA (sem parar, num tom indiferente): E de que serve morrer acompanhada?
(A Idosa fica a olhar para a porta vazia enquanto ouve os ruídos dos outros idosos, despedindo-se ruidosamente do mundo.)

Esboço # 47

(Ele conduz, Ela olha pela janela.)
ELA (continuando a olhar para a paisagem entediante; num tom desapaixonado, quase indiferente): Alguma vez pensas em divórcio?
ELE (vagamente surpreendido): Não. (Espreita-a durante um instante, volta a olhar em frente. Tom apreensivo.) E tu?
ELA (depois de uma hesitação que não se esforça em disfarçar): Não.
(Ela continua a olhar pela janela; ele aumenta um pouquinho o volume do rádio. Depois, toca um telemóvel; mas ninguém o atente.)

Esboço # 46

(Sorriem à cliente, que não corresponde; ainda assim, mantém os sorrisos até que ela saia. Quando ficam sós, os sorrisos desaparecem de imediato. Permanecem por trás do balcão, imóveis e apáticas, olhando em frente, talvez a escutar a música dançável que sussurra por toda a loja, minimal e repetitiva.)
EMPREGADA MAIS NOVA (num tom quase bem-disposto): Nunca te cansas de sorrir?
EMPREGADA MAIS VELHA (num tom agastado, encolhendo os ombros; sem olhar a colega): O meu marido queixa-se que em casa nunca sorrio.
EMPREGADA MAIS NOVA (tom compreensivo): Gastas os sorrisos todos no trabalho, não é? (E sorri; logo depois, suprime o sorriso.)
(Mantém-se em silêncio, olhando para a porta; talvez não entre mais ninguém, talvez apenas volte a haver necessidade de sorrisos amanhã.)

Esboço # 45

(Os dois homens caminham pelo corredor do hotel, em silêncio. Um deles abre a porta e entra, o outro segue-o; permanecem durante alguns segundos no pequeno átrio, olhando o quarto. O que abriu a porta arrisca uns passos exploratórios, o outro despe o casaco.)
HOMEM 1 (num tom ligeiramente ansioso): Costuma-se pagar antes ou no fim?
HOMEM 2 (tom sério mas algo distante, quase desinteressado; procurando um local para pousar o casaco): Antes.
HOMEM 1 (após uma ligeira hesitação): Ok. (Mas não se move.)
(O silêncio do quarto é um pouco opressivo, desconfortável. Talvez fosse um alívio para ambos se, por exemplo, um telemóvel tocasse.)

Esboço # 44

(A Mulher está no sofá, apoiada sobre os joelhos, enquanto o Homem a penetra por trás, com gestos firmes e vigorosos, mecânicos. Os rostos de ambos revelam cansaço e aborrecimento, desinteresse pelo que fazem; pressa. Estão mais cinco pessoas na sala, duas delas apontando-lhes câmaras de filmar.)
HOMEM (aproximando-se do rosto dela, enquanto prossegue a actividade sexual; tom ligeiramente ofegante, muito baixo): Depois de despacharmos isto queres ir almoçar?
MULHER (num tom monocórdico, quase segredado): Não posso. Tenho que me despachar. (Ajeita ligeiramente o corpo, procurando uma posição menos desconfortável.) Tenho que ir falar com a professora da minha filha.
HOMEM (adaptando-se à nova posição da Mulher; ligeiramente surpreendido): Não sabia que tinhas uma filha.
MULHER (olhando fixamente a câmara que está mais próxima): Tenho duas.
HOMEM (parando por um momento e recomeçando logo depois; num tom melancólico, quase triste): Não sabia.
(Prosseguem sem grande entusiasmo, à espera que alguém ordene uma mudança de posição; ou um intervalo. Os homens das câmaras continuam a mover-se em redor do sofá, aborrecidos. De repente, ouve-se uma voz irritada a exigir mais realismo, mais empenho, mais banda sonora. O Homem suspira e aumenta o ritmo; a Mulher geme, de modo obsceno e teatral.)

Esboço # 43

(A Empregada aproxima-se erguendo a bandeja apenas com uma mão; coloca o sumo e a torrada em cima da mesa, com gestos hábeis e despachados.)
EMPREGADA (olhando a Cliente e sorrindo): Deseja mais alguma coisa?
(A Cliente parece despertar de um devaneio; olha a Empregada, com atenção e curiosidade: o rosto, as mãos, o peito, de novo o rosto.)
CLIENTE (num tom algo abstraído, quase sonhador): Sim. (A Empregada ainda sorri, sem esforço.) Podia sentar-se aí e conversar um bocado comigo. (Olham-se e o sorriso da Empregada desaparece, devagarinho.) Sei lá. Dizer-me quantas torradas já transportou para estas mesas, por exemplo. Coisas assim, só para passar o tempo.
(Por um breve instante, parece que a Empregada vai aceitar o convite e sentar-se junto da Cliente; mas, logo depois, afasta-se sem pressa. A Cliente pega num pedaço de torrada e mastiga, sem prazer.)

Esboço # 42

(O sol pousa lentamente sobre o mar; o calor ainda é intenso, apenas suavizado por uma ténue brisa que sopra a intervalos regulares, quase previsíveis. Há pouca gente na praia; Ele está deitado sobre a areia, indolente e imóvel, pensativo; Ela, um pouco afastada, parece dormir.)
ELE (voz arrastada, amorfa): Há quanto tempo passamos férias juntos?
ELA (sem se mover mas abrindo os olhos; num tom quase indiferente): Uns cinco, acho. (Volta a fechar os olhos; compõe o corpo na toalha.) Porque perguntas?
ELE (olhando-a com súbita intensidade, espiando-lhe o corpo com timidez): Porque desde essa altura que me apetece dormir contigo.
(Ela sorri, depois olha-o com curiosidade, talvez com carinho; Ele desvia o olhar, embaraçado e receoso.)
ELA (num tom plácido, ligeiramente condescendente): Eu sei.
(Ele mantém-se tenso, sentindo o olhar dela; ouve-se uma gargalhada distante, logo engolida pelo monótono rugido das ondas. Ela passa a mão pela coxa e, depois, acondiciona o fato de banho ao corpo num gesto que poderia ser considerado provocador. O sol move-se muito lentamente: mas ninguém o olha.)
ELA (muito tempo depois): Eles já devem estar à nossa espera. (Não se move, Ele não reage.) É melhor irmos andando.
(Mantém-se imóveis, indiferentes à passagem do tempo; confortáveis. Alguém que os olhe talvez pense que formam um casal feliz.)