Desde cedo que se entusiasmara com a namorada do amigo. Na sua perspectiva, era um interesse relativamente inofensivo, alimentado exclusivamente na sua própria imaginação. Parecia-lhe que fantasiar com outras pessoas não era problemático; apenas seria complicado se aquilo que imaginava começasse de alguma forma a condicionar o seu comportamento; se a imaginação contaminasse a própria vida quotidiana. O que não era o caso. Portanto, imaginava coisas; e nada mais. Até que num dia de bebedeira o amigo revelou detalhes de uma das suas sessões sexuais com a namorada. Muitos detalhes. Um filme inteiro. Ele escutou com atenção e reteve cada pormenor; construiu uma memória fiel e minuciosa do que fora vivido pelo amigo. Passou a ver muitas vezes aquele filme. E nunca teve consciência do que acabou por acontecer: em determinado momento passou a ser ele o protagonista do filme, substituindo o amigo. Apropriando-se da memória alheia. No fundo, talvez fosse como o oxigénio: anda por aí na atmosfera, disponível; não tem dono. Respira-se e pronto. Tal como as memórias: usurpam-se e pronto.
a gaveta do paulo
[2005 - 2026]
Ideias registadas em cadernos (XX)
Um homem caminha pelo parque ao fim do dia, entretido a olhar as pessoas com quem se cruza e a pensar na vida. De repente, desmaia. Quando acorda no hospital, não sabe quem é; não tem qualquer memória, qualquer referência. Nada. Com o tempo, os médicos percebem que o seu cérebro não irá recuperar: todas as memórias perdidas para sempre; e com elas, a base da sua identidade. As pessoas que o amam, e que lhe asseguram que ele ama de volta, iniciam um lento e paciente processo de reconstrução da sua memória, contando-lhe recordação após recordação. Ele vai guardando o que lhe transmitem e reconstruindo a sua identidade a partir do que que ouve e aprende sobre si próprio. Decepcionado, porque não gosta da pessoa que está a descobrir; da pessoa que supostamente era; da versão de si que os outros conheciam. Surpreendido com as pessoas que o amam, e que lhe asseguram que ele ama de volta: será que acreditarão mesmo que basta inserir um conjunto de memórias num corpo e, por magia, obter a exacta pessoa que pretendem?
Ideias registadas em cadernos (XIX)
Desde que perdera a mobilidade, passava muito tempo à janela. Olhava o pedaço de mundo que tinha pela frente e parecia nunca se aborrecer. Os netos foram desistindo de o tentar convencer a pedir ajuda para sair do quarto, a abandonar a janela durante algumas horas; a entrar no mundo. Tentavam perceber qual o fascínio de olhar sempre para o mesmo. Perguntavam: gostas de observar as pessoas que passam todos os dias e aprender a conhecê-las à distância? Ele sorria e respondia que sim. Ou perguntavam: gostas de ver os aviões que passam alto e imaginar quem lá irá e para onde e fazer o quê? Ele sorria e respondia que sim. Os netos tranquilizavam-se, impressionados por o avô já não esperar nada; por se limitar a estar, e isso ser suficiente. Parecia-lhes uma forma de sabedoria e falavam com orgulho do avô àqueles amigos que nunca tinham tempo para nada, que nunca paravam, que viviam sôfregos e ansiosos. No seu quarto, o velho olhava pela janela. Com esperança de que alguma daquelas pessoas que todos os dias ali passavam caísse e partisse a cabeça, morrendo ali mesmo; ou que um daqueles aviões pequeninos que passavam entre as nuvens caísse do outro lado da rua.
Ideias registadas em cadernos (XVIII)
Toda a gente conhece a mulher naquela rua; quem ali vive, quem ali trabalha: habituaram-se a olhá-la como se fosse um cartaz publicitário afixado na paragem do autocarro; vê-se uma vez, talvez se leia quase tudo, esquece-se logo de seguida; apesar de continuar ali durante semanas. A mulher caminha sempre devagar, talvez por limitações físicas causadas por uma qualquer dor crónica, talvez porque não tem horário de chegada a nenhum lugar. Sempre com sacos na mão, de aspecto pesado. O que transportará? Algumas pessoas já se questionaram, mas nunca ninguém lhe perguntou. Há algo na expressão da mulher que impõe limites, como se a envolvesse uma cortina que ninguém se atreve a transpor. Até que um dia a mulher atravessa a rua a cantar. Muitas pessoas confirmam para si próprias o que tinham pensado: talvez seja um pouco louca. Incomodam-se porque o inesperado e o inexplicável quase sempre causa desconforto. Mas o canto é belo. Como se aquela mulher fosse uma cantora profissional numa sala de concertos. Passa devagar, arrastando os sacos; levando consigo o canto, que vai deixando um rasto atrás de si como um eco que pousa suavemente sobre a rua. No dia seguinte, a mulher volta a passar em silêncio, fazendo a sua travessia ritual que apenas para si faz sentido. Quem a ouviu cantar no dia anterior sente uma inesperada angústia, causada pelo silêncio; como se a normalidade fosse, afinal, o canto. Para essas pessoas, o resto do dia tornou-se inexplicavelmente melancólico. Mas talvez no dia seguinte a mulher volte a descerrar a cortina.
Ideias registadas em cadernos (XVII)
Tinha um espírito curioso e leve. Isso significava que gostava de conhecer novas pessoas e descobri-las, envolver-se com elas. Também gostava muito de sexo. E durante umas semanas tudo corria bem. Mas com o tempo começava a sentir algum incómodo em relação à pessoa com quem estava; e esse desconforto ocorria sempre após o sexo. Era como se de repente começasse a ver aquela pessoa noutra perspectiva, a perceber-lhe limitações e defeitos. Como se o pós-sexo revelasse a essência da pessoa, na sua crueza e rugosidade. Afastava-se e algum tempo depois começava um novo relacionamento com outra pessoa. E voltava a acontecer o mesmo: a descoberta, o encanto, o prazer, o estranhamento, o desagrado. Começou a ser demasiado perturbador, pelo que de forma inconsciente foi espaçando os relacionamentos. Uma protecção. O seu espírito tornou-se menos curioso e leve. Percebia que o problema só surgia após o sexo, mas na verdade não lhe interessavam relacionamentos que excluíssem actividade sexual. Foi tornando-se mais solitária porque doía-lhe investir em relacionamentos que sabia que durariam apenas algumas semanas (até contabilizou: o desconforto surgia em média a partir da décima quinta relação sexual com determinado parceiro). Foi então que se dedicou à masturbação; percebeu que poderia ser um substituto razoável. Até que um dia, após uma sessão particularmente intensa, sentiu pela primeira vez o sentimento de estranhamento surgir; mas como era ela o seu próprio parceiro, o desagrado direcionou-se em relação a si.
Ideias registadas em cadernos (XVI)
A função dela é acompanhar pessoas que estão a morrer. Estar presente. Pegar a mão. Partilhar silêncio. Dar tempo. Ouvir. Guardar. Sabe com precisão quantas pessoas acompanhou; os seus nomes, os seus rostos, os seus cheiros, os seus olhares; e as suas palavras. Porque guarda frases ditas por cada uma dessas pessoas: as suas emoções convertidas em palavras. Uma herança que guarda e partilha. Todas as semanas visita uma escola e passa uma hora com os meninos do terceiro ano. Leva-lhes bolos, sorrisos, abraços. E as palavras que herdou. Em cada semana, as crianças são desafiadas a escrever estórias. O ponto de partida de cada uma dessas estórias é uma frase que ela escutou de alguém que morreria em breve e que transmite àqueles jovens escritores. As crianças não conhecem a origem das frases, mas apreciam o desafio de escrever; apreciam ler em voz alta os textos que inventaram; apreciam os elogios. Não sabem que ao integrar aquelas frases em estórias estão a preservar a memória de pessoas que nunca conheceram; estão a mantê-las vivas. Estão a participar na fluidez incessante do universo.
Ideias registadas em cadernos (XV)
Um escritor decide escrever a sua autobiografia. Para isso, inicia um processo de recolha de memórias; todos os dias, durante algumas horas, regista momentos da sua vida. Passadas algumas semanas, começa a sentir dificuldade em recordar novas memórias, o que implica fazer um maior esforço de concentração e busca. Disciplina-se a procurar memórias desaparecidas, apesar da crescente frustração que sente por a consciencialização ser difícil e até dolorosa. Mas com o passar do tempo, percebe que após um período de maior dificuldade acaba por surgir um detalhe novo, interessante, até surpreendente, que depois precisa explorar. Como encontrar um dedo na terra e escavar em redor até tornar visível a estátua a que o dedo pertence. Esse processo de escavar memórias a partir da frustração vai-se tornando produtivo. Surgem memórias inesperadas, que vai registando. Em nenhum momento ocorre ao escritor que o seu cérebro pode estar a inventar recordações, como mecanismo de defesa contra a dor de não ser capaz de apresentar memórias. Em nenhum momento lhe ocorre que pode não haver estátuas; apenas terra.
Ideias registadas em cadernos (XIV)
Uma mulher escreve um diário durante décadas. Quando perde a capacidade de escrever, por não conseguir controlar os tremores das mãos, decide interromper a escrita. Mas não abandonada os diários. Pelo contrário: passa os seus dias a reler pedaços do que escreveu, escolhendo ao acaso entre os muitos cadernos que preencheu ao longo dos anos. A recordar. A reviver. Tal como os seus colegas do lar passam os dias a ver televisão para se distraírem, ela entretém-se com o que foi a sua própria vida; como se visse uma telenovela de que foi protagonista.
Ideias registadas em cadernos (XIII)
Um cientista cria um teste de felicidade simples e barato, que pode ser utilizado por qualquer pessoa em qualquer momento. Apenas existem dois resultados possíveis: positivo (a pessoa está feliz) ou negativo (a pessoa não está feliz). O uso do teste começa por ser uma brincadeira, até que com o tempo se torna uma ferramenta social de uso comum. Depois chega o dia em que as autoridades começam a interpelar pessoas ao acaso, obrigando-as a fazer o teste; e sempre que alguém apresenta resultado negativo, a pessoa pode ser detida. A acusação é a de propagar uma doença altamente contagiosa, a infelicidade, sendo portanto uma ameaça para a sociedade.
Ideias registadas em cadernos (XII)
O plano da aranha é construir uma teia gigante. Não apenas para ser gigante, pois não se preocupa em bater recordes. A aranha tem um objectivo específico; um plano secreto. Dia após dia, continua a trabalhar na sua obra, focada e determinada como apenas as aranhas conseguem ser. Não partilha com ninguém o seu desígnio, talvez caiba aos vindouros (os seus biógrafos; sim, considera que a sua missão é de tal envergadura que não faltarão biógrafos a querer contar a sua história) procurar pistas, recolher os subtis indícios que vai deixando. O plano secreto da aranha é ser a primeira na história a conseguir capturar um elefante com uma teia. Dia após dia, tece o seu sonho.
Ideias registadas em cadernos (XI)
Um homem percebe que foi a única pessoa no seu grupo de amigos que teve uma mãe que não lhe cantou na infância. Começa por desvalorizar esta descoberta; mas como sempre teve a percepção de ter sido uma criança feliz, essa ausência começa a incomodá-lo. Como pode um adulto ser feliz se a mãe não lhe cantou canções de embalar? Decide que precisa de esclarecer o assunto com a mãe, sem acusação mas apenas para entender. Durante semanas, tenta questioná-la em todas as visitas que faz ao lar onde ela vive. Mas nunca tem coragem. Até que chega finalmente o dia em que lhe consegue perguntar: porque nunca me cantaste, quando era criança? A mãe surpreende-se. Depois de um longo silêncio, pergunta-lhe: não te lembras? E na sua voz idosa e cansada, ténue, frágil, canta um pedaço de uma música. Ele não consegue lembrar-se, tem a certeza de que é a primeira vez que ouve aquela canção. Ou poderá estar enganado? Responde que sim, que se lembra. A mãe recomeça e continua a cantar durante muito tempo, enquanto ele escuta e pensa que ainda bem que perguntou; ainda bem que foi a tempo de ouvir a sua mãe cantar-lhe.
Ideias registadas em cadernos (X)
Uma pergunta que a atormentava era: o que vêem as pessoas que amo quando fecham os olhos? Outra pergunta: que coisas tão especiais procuram que precisam de fechar os olhos para as ver? Não o poderia confessar a ninguém, mas era por isso que as suas relações nunca duravam muito tempo: não suportava ser incapaz de ver aquilo que as pessoas que amava viam quando fechavam os olhos; não suportava que elas não partilhassem consigo as suas visões interiores.
Ideias registadas em cadernos (IX)
Um recluso passa vários anos na prisão, sendo sempre tratado pelo seu número. Quando é libertado, fica chocado quando é chamado pelo nome, que não está habituado a ouvir e do qual se distanciou. Percebe que a sua identidade passou a estar associada ao número pelo qual era conhecido e nomeado na prisão. Pede para continuar a ser chamado desse modo: pelo número que se tornou um espelho da sua identidade. Este pedido não é compreendido por ninguém, sendo ridicularizado. Mas isso não o impede de iniciar uma luta pelo reconhecimento da sua especificidade enquanto pessoa, que passa por ser chamado pelo nome com que realmente se identifica: Quinhentos e Trinta e Sete.
Ideias registadas em cadernos (VIII)
Houve um homem que sentia frequentemente vontade de chorar. Mas recusava-se a fazê-lo, porque tinha vergonha de ser visto; e mesmo que o fizesse em privado, haveria sempre o risco de ser surpreendido por alguém. Não o preocupava tanto que se soubesse que chorava, mas que fosse visto a fazê-lo; para si, seria como ser visto a masturbar-se; ou a fazer sexo com alguém. Uma insuportável quebra da sua intimidade. Vivia portanto dividido entre a necessidade de chorar e a recusa em fazê-lo, para não ser surpreendido. Só em raras ocasiões cedia a essa necessidade; e quando isso ocorria, o lugar era sempre o mesmo: trancado numa casa de banho pública, num qualquer lugar anónimo e sem relação com a sua vida. E foi precisamente numa dessas ocasiões que teve uma ideia inesperada: porque não inventar locais de choro, tal como existiam casas de banho públicas? Choradouros públicos. Porque não?
Liberdade?
Apenas sou verdadeiramente livre na imaginação.
Mas, por vezes, a imaginação domina-me. Sou seu escravo.
Ideias registadas em cadernos (VII)
Uma pessoa descobre por acaso que em criança foi hipnotizada a pedido dos pais, tendo-lhe sido implantadas memórias falsas. Não sabe quais, nem quantas. Percebe que a sua personalidade se desenvolveu a partir de experiências e memórias de infância não fiáveis; baseada em mentiras. Porque fariam os seus pais tal coisa? Odeia-os pelo que fizeram e por apenas o ter descoberto após a sua morte, e não os poder confrontar. Questiona toda a sua vivência, assente numa personalidade condicionada por falsidades, sendo forçada a reconhecer que a sua vida tem sido equilibrada e feliz. Uma vida bastante feliz, na verdade. Terão os pais, com a sua monstruosidade, contribuído de forma definitiva para a sua felicidade? Teria sido tão feliz sem as memórias falsas?
Ideias registadas em cadernos (VI)
Um homem e uma mulher são amantes durante algumas semanas, unidos numa relação exclusivamente baseada em sexo. Quando o interesse se esgota, separam-se e não voltam a encontrar-se durante vários anos. Até que por acaso se cruzam num evento e, inesperadamente, o interesse sexual renasce, selvagem e imparável. Seguem para o mesmo local onde anteriormente se encontravam, a casa dele. Quando terminam, ela dá por si no mesmo sofá, na mesma sala, no mesmo ambiente de antes: tudo exactamente igual, como se tivesse passado apenas um dia desde a última vez em que ali estivera, e não quase dez anos. Essa consciencialização de imobilidade e tempo congelado surpreende-a e assusta-a; como se quase dez anos não fizessem diferença. Imagina como teria sido a sua vida se tivesse permanecido, se tivesse continuado ligada àquela pessoa durante todo aquele tempo: um acessório na sua vida, como aquelas fotografias penduradas na parede para onde olha enquanto se veste. As mesmas fotografias que olhava enquanto se vestia há quase dez anos.
Ideias registadas em cadernos (V)
Um funcionário de uma agência funerária encontra uma forma dissimulada de esconder uma folha de papel e um lápis na roupa dos mortos que prepara, antes da ida para o cemitério. No topo da folha escrevera: "Se conseguires comunicar, manda-me uma carta a explicar como são as coisas desse lado". Ao longo da sua vida profissional, deixa o recado em centenas de mortos. Todos os dias vai à caixa de correio verificar se chega alguma mensagem.
Aquilo que sempre fui
"Estava tão habituada a ser aquilo que sempre fui que nem me passava pela cabeça que poderia ser algo diferente, que poderia tentar ser algo novo. Mas poderia; posso."
Serviços mínimos de felicidade
2016
Ideias registadas em cadernos (IV)
Há uma mulher que sonha frequentemente com pessoas que não conhece. Por vezes, questiona-se quem serão essas pessoas; se será gente real com quem se cruzou e não se lembra; se será gente que não existe, inventada pela sua mente; se será gente que ainda não conhece, mas poderá vir a conhecer. É esta última possibilidade, mais exotérica, que a perturba e impele a fazer algo. Decide-se a concentrar-se mais nos sonhos, para recordar melhor os detalhes dos rostos com que sonha e, depois de acordar, desenhá-los. E com esses desenhos na mão, partir em busca das pessoas reais a quem pertencerão esses rostos sonhados e desenhados.
Por vezes, quase nunca
A respiração é um mecanismo. O batimento regular do coração é um mecanismo. O orgasmo é um mecanismo. O arrepio da pele é um mecanismo. A digestão da comida é um mecanismo. Dormir é um mecanismo. Acordar é um mecanismo. Sonhar é um mecanismo. O corpo é feito de mecanismos; e ainda assim, por vezes a máquina consegue ser humana.
Ideias registadas em cadernos (III)
Alguém anda pela rua a fazer um questionário às pessoas que encontra. Apenas tem uma pergunta: és feliz? Quando a pessoa responde que sim, cola-lhe um pequeno autocolante com a frase "Felizes Anónimos" na roupa, em local bem visível. Assim, os felizes estão identificados e podem reconhecer-se uns aos outros.
Mas quase
Sinto o sol no corpo. Por vezes é quanto basta: sentir o sol no corpo. Não chega a ser felicidade, mas quase.
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