Ebook # 03


Um destes dias haverá novo ebook, composto por ilustrações originais criadas por Licínio Florêncio a partir de estórias publicadas no livro Silêncios Entre Nós. Este é um dos exemplos, inspirado nesta estória.

Dão-se livros # 05

Desafio encerrado e livro atribuído à Conceição.
Obrigado a todos pela participação.

Esboço # 78

Prazo de validade expirado.

Esboço # 77

(Estão há algum tempo a conversar entre si, quase esquecidos da minha presença. Vou comendo sem grande apetite, tentando disfarçar o enfado; por vezes, olho para as mesas em redor, em busca de algo que me distraia.)
EU (falando inesperadamente, surpreendendo-me mais a mim próprio do que a eles): Lembram-se quando eu era garoto e me levavam ao parque? (Olham-me, um pouco contrariados.) Andava por ali, nos balancés e escorregas, a imitar os outros garotos, perguntando-me quando é que começaria a sentir-me excitado e feliz. (Hesito e eles entreolham-se, curiosos.) E vocês sempre à minha volta, lembram-se? A fotografar, sempre a fotografar-me; mas cada um com a sua máquina, e isso espantava-me um pouco; no princípio até me sentia especial por causa disso. Mas depois comecei a estranhar, a perguntar para que serviriam tantas fotografias. Fotografias atrás de fotografias, centenas delas. (Escutam-me com apreensão, desagradados.) Nunca conversavam comigo, em vez disso tiravam-me fotografias e depois comparavam-nas e discutiam-nas, conversavam longamente sobre elas, enquanto eu continuava nos balancés, à espera que me chamassem. Como se as malditas fotografias falassem por mim, representando-me. Lembram-se? (O meu pai é o primeiro a desviar o olhar, o que me surpreende; e agrada.) Nunca me mostravam as fotos, nunca me pediam opinião; as minhas fotos eram um assunto exclusivamente vosso. (Sorrio, tentando que esse sorriso os magoe.) Lembram-se? Falavam sobre as minhas fotos e sobre mim, fartavam-se de falar sobre mim. Mas nunca falavam comigo. Nunca.
(Pego o garfo e levo um pedaço de batata à boca; mastigo devagarinho, reparando como o restaurante está silencioso.)

Esboço # 76

Prazo de validade expirado.

Dão-se livros # 05

E como estamos em época de oferecer presentes e tal, desta vez nem há desafio. A quem interessar receber um livro, basta enviar um email a dizer olá ou quero um livro ou o que calhar; entre todos os emails recebidos até 21 de Dezembro será sorteado o vencedor do livro.

Uma espécie de western: fascículo # 21

Estou, então, a metamorfosear-me em espírito; e tudo o que me apetece pensar é: não dói nada. Resta-me partir por aí, em busca de outras fantasmas; e distrair a solidão.
The end.

Uma espécie de western: fascículo # 20

Sinto o inesperado e estranho calor de uma expiração acariciar-me o rosto, adivinho a presença de alguém junto de mim, muito próxima, tão próxima quanto possível. Ainda me pergunto se deverei abrir os olhos uma última vez mas opto por não o fazer porque sei que não fará qualquer diferença, prefiro limitar-me a sentir a respiração que me acompanha, a saborear o conforto ilusório e inconsequente de não morrer só.
Talvez seja apenas um qualquer animal selvagem que se prepara para me devorar, aproximando-se porque talvez já me julgue morto; ou será que estou efectivamente morto há algum tempo e ainda não o percebi, aceitei? Afinal, quantos anos demora um homem a morrer? Poderá, por outro lado, ser o Xerife, que finalmente me alcançou, que se prepara para me pontapear suavemente (no ombro, numa perna?), até ter a certeza de que estou morto. (Ou, penso vagamente – sorrindo –, poderá ser o difuso e omnipresente encenador?)
Prefiro, contudo, acreditar que quem está junto de mim é o cavalo; sim, é possível que tenha regressado, para se despedir, para me acompanhar durante o último momento, num gesto fútil de solidariedade animal, de cumplicidade entre seres que pisaram o mesmo chão e respiraram o mesmo oxigénio, seres que compreendem e aceitam a irrelevância das suas existências. (Gostava de lhe ter dado um nome. Mas não faria diferença, afinal.)
Depois, deixo de sentir a respiração tocar-me o rosto; mas sei que está lá, ainda: eu é que não consigo, nem quero, continuar a senti-la. A sentir.

Uma espécie de western: fascículo # 19

Mas mudo de ideias, por nenhum motivo; e abro-os, devagarinho. Vejo uma estrela a piscar, envolvida pelo cinzento-escuro do céu; uma única estrela, ocupando toda a imensidão do horizonte, suficiente para iluminar a vastidão do universo. E decido que será ela a guiar-me, que será o seu ténue brilho a conduzir-me e orientar-me entre o negrume que se abate lentamente sobre mim, que reclama o meu regresso.
Fecho os olhos porque sei que a estrela continuará lá, sei que a escuridão do universo se confundirá imperceptivelmente com a escuridão do meu olhar, da minha vida; sei que tudo é (foi) escuridão, e que estou apenas a regressar.
Penso em tudo o que fica para trás, em tudo o que me motivou e distraiu, em tudo o que me entreteve; revivo memórias e prazeres e sensações. Evoco os ingénuos mantras que pretendi que orientassem a minha existência, que me esforcei por cumprir: viver plenamente, com paixão e entrega, com fervor e voracidade, aproveitar e saborear e dissecar cada momento, cada segundo, cada oportunidade. E sorrio, incrédulo com a minha simplicidade, com a minha arrogância. Pergunto-me: para quê, afinal?
Desisto de procurar uma resposta pouco depois; sei, agora, que não existe; que se existir, não altera nada. Mas persisto em sorrir, não sei porquê, para quê; sorrio, simplesmente. E suponho que ficarei aqui para sempre, talvez à espera que o deserto se transforme novamente em floresta; assistindo à lenta imutabilidade da natureza. Tornando-me parte do cenário.
(Reparo que tenho sorrido algumas vezes nestas últimas horas; vários sorrisos, genuínos e pacificadores, serenos; felizes. Sim, suponho que – apesar de tudo – esteja a ser um dia bom.)

Uma espécie de western: fascículo # 18

Talvez a vida seja apenas o percurso que cada um tem de fazer em busca do lugar onde deve morrer. Fico a pensar nisto durante uns instantes (as dores desapareceram, restando apenas a incapacidade de as sentir; e, por isso, posso distrair-me assim, ingenuamente, pensando nisto e naquilo, em nada, em tudo); depois, digo a mim próprio (voz baixinha, envergonhada): mas que pensamento mais disparatado.
Soube-me bem, falar; e penso em mais qualquer coisa que possa dizer a mim próprio, ouvir de mim próprio. Penso porque é tudo o que me resta, agora: pensar. E olho o céu, assistindo à lenta transformação do azul em cinzento; não há nuvens, não há vento; nada que distraia ou adie, nada que denuncie vida, nada que ofereça esperança. Apenas o silêncio do mundo mesclando-se imperceptivelmente com o silêncio do meu próprio corpo, engolindo-o e dissolvendo-o.
Depois, surge uma pequena nuvem, minúscula – talvez imaginada; e enquanto a olho, enquanto a imagino, regressa o pensamento de há pouco, teimoso e persistente, insidioso: procurar o local adequado para morrer. E por um momento, gostava – o último desejo do condenado – que estivesse aqui alguém que me pudesse explicar (pacientemente, de preferência; sem pressa nem sobranceria) que não importa nada o local onde se morre, do mesmo modo que não importa nada o local onde se vive; aqui ou ali ou acolá: apenas um cenário. Alguém que me explicasse (que me recordasse): talvez a natureza seja apenas um cenário e os homens meros actores e figurantes, que correm e riem e sofrem e sonham e fodem e acreditam e adiam e morrem. Alguém que me sorrisse, quando eu perguntasse: mas, se assim for, quem é o dramaturgo, o encenador? Quem nos escreve, quem nos ensaia?
Tento erguer-me mas não consigo, o corpo deixou de obedecer; então, desisto e deixo-me simplesmente deslizar pela rocha, deito-me na terra rija, fecho os olhos; pergunto-me se os voltarei a abrir, se quero voltar a abri-los.
Acho que não.

Uma espécie de western: fascículo # 17

O cavalo já se refrescou, agora passeia nervosamente, mantendo-se afastado de mim, ignorando-me; em silêncio absoluto, como se desejasse que não desse por ele, que o esquecesse. E sei o que isto significa: mas não me revolto. Permito que fuja, que me abandone.
Quando, um pouco mais tarde, o procuro com o olhar e não encontro, sou incapaz de me sentir mais só que antes. E tento não ter pena de mim, não pensar – demasiado – em arrependimento. A noite cai, transmitindo-me tranquilidade; e talvez seja melhor assim: morrer devagarinho, sem medo nem ansiedade, sentindo o silêncio e escutando a solidão. Sem testemunhas.
Sim, encontrei um bom lugar para morrer; e pergunto-me se alguém terá escolhido este refúgio para morrer, antes; se alguém o escolherá no futuro. Ou se terei encontrado, finalmente, o meu lugar no mundo.

Uma espécie de western: fascículo # 16

Sim, talvez não seja um abutre; e anjo não será: que faria ele por aqui? Penso, então, em fantasmas, nos fantasmas das velhas lendas. Vou sentindo o sangue fugir de mim, irredutível, enquanto penso como a pradaria estará certamente repleta de fantasmas índios, vagueando sem objectivo nem destino, sem pressa, enclausurados na sua imortalidade; e quase me apetece ceder à tentação, ao desvario, de abrir bem os olhos e procurá-los por entre a cintilação da luz, por entre as palpitações do silêncio. Nem que fossem aqueles temidos espíritos que pertenceram, um dia, a homens cruéis e, agora, ocupam a sua eternidade percorrendo campos e planícies, ou montanhas e pradarias, em busca de pessoas que possam perseguir e amaldiçoar, tornando-as consequentemente homens cruéis e, após a morte, espíritos temidos, numa espécie de imparável contágio malévolo.
Pergunto-me quantas vezes já me terei cruzado com um destes espíritos; pergunto-me, também, quanto tempo faltará para me tornar um deles.

Uma espécie de western: fascículo # 15

Quando chegamos junto ao riacho, paramos; permaneço durante alguns instantes a olhar o pedaço de água cristalina que desliza preguiçosamente entre tufos de ervas selvagens e rochas de colorações misteriosas, como se esperasse autorização de alguém, como se já nem o privilégio de pisar terra firme me fosse concedido; por fim, quando admito que afinal estou apenas a ponderar se valerá a pena ou não, forço-me a descer do cavalo com lentidão; sento-me numa rocha, aperto a ferida com a mão. Olho o charco que as gotas de sangue vão formando lentamente, segundo após segundo, reparo como o vermelho é menos vívido do que algumas horas atrás.
Um abutre passa, lá por cima; o suave ruído provocado pelo seu voo parece-me sinistro, malévolo; felizmente, já não há nada a temer, esgotei o medo; e por isso não o olho, não me protejo. De qualquer modo, talvez nem seja um abutre. Não importa; até poderia ser um anjo: que se foda.

Banda sonora


Foi finalmente editado Concret Exploratoire, composto pelo meu amigo Nelson para outros fins mas que, digo eu, serve bem como banda sonora aqui da Gaveta.
Ouvir aqui, por favor. (Saudades das aventuras radiofónicas. Obrigado, Nelson.)

Uma espécie de western: fascículo # 14

Irei certamente morrer por aqui, caído ao chão e rodeado de nada – ou melhor: rodeado de vazio, o que sempre é preferível a nada; e permanecerei de boca aberta e olhos esbugalhados para sempre, assistindo à lenta dissolução do meu corpo, do meu espírito, da memória da minha existência; virá o vento e agitará indolentemente os meus cabelos, hora após hora após hora: até ao dia em que eles se comecem a desprender da minha cabeça e voem pela pradaria, acompanhados pelos ecos da noite, pelas sombras das nuvens. Será tudo o que restará de mim: os meus cabelos esvoaçando por aí.
Olho em redor, curioso e atento: quantos fragmentos de corpos mortos e esquecidos divagarão por aqui, à minha volta?

Uma espécie de western: fascículo # 13

O eco dos tiros acabou de se dissipar no deserto quando o cavalo, finalmente, ergue a cabeça e começa a caminhar na minha direcção; fico a aguardar, sem impaciência nem pressa, apreciando a sua elegância. Depois, ergo-me e subo para o seu dorso, cobrindo o seu pêlo com o meu sangue; aguarda com paciência o meu sinal, perfeitamente imóvel, silencioso; solidário. Por fim, avança. Avançamos: pelo deserto, entre árvores imaginadas.
Há uma palavra que, recorrentemente, volta a preencher-me os pensamentos, parasitando-os; e vou pensando nela, obsessivamente, enquanto perco sangue, gota após gota: arrependimento. Por vezes, espreito por cima do ombro e vejo como o meu sangue se tem espalhado pelo deserto; reparo, com surpresa – e também com orgulho, talvez –, como é vermelho e brilhante, vívido. Depois, volto a olhar em frente: avançando, passo após passo. E pensando, por vezes, em arrependimento.

Uma espécie de western: fascículo # 12

O sangue continua a cair, molhando a areia acastanhada, cobrindo a poeira; toco-o e sinto-me desconfortável. Movo-me, ligeiramente. E então, no mesmo instante, ouço o segundo tiro; como antes, não sinto nenhum impacto no corpo; mas, agora, já não consigo ter a certeza de não ter sido atingido: talvez uma nova bala tenha efectivamente violado o meu corpo; talvez a minha carne tenha perdido a capacidade de perceber quando é trespassada – ou simplesmente tocada; ou pior: talvez já esteja morto. E a morte seja, apenas, isto: a incapacidade de sentir.
Mas suspeito que não. Porque quando dou por mim, tenho a pistola na mão e estou a disparar, tentando simplesmente acertar no horizonte, no vazio, no desconhecido; ou em nada. Faço-o involuntariamente, sem que tenha havido uma decisão consciente, uma vontade, um objectivo. E sabe bem, esta acção espontânea e involuntária, independente da reflexão, da decisão; como um animal.

Uma espécie de western: fascículo # 11

Sei que deveria erguer-me e proteger-me, lutar, adiar a morte; ou, pelo menos, gritar, de dor e fúria, de medo. Mas não me movo, continuo a olhar o cavalo, que agora se imobilizou e espreita na minha direcção, perscrutador; suponho que se sente mal, por me ter abandonado. E apetece-me chamar por ele; mas lembro-me, uma vez mais, que nunca lhe dei um nome.
Volto a distrair-me, divagar. Penso, ingenuamente, que poderei não ter sido atingido por um tiro mas por um raio; e olho o céu, confiante de que talvez aí encontre uma explicação, um qualquer esclarecimento pacificador. Depois, sinto-me ridículo.
Muito tempo depois (uma hora, cinco minutos, meio segundo?), pergunto-me – sem verdadeiro interesse, quase com displicência – se estarei a morrer. Se a morte será isto; assim.

Uma espécie de western: fascículo # 10

Não sinto a bala perfurar-me a pele, a carne, o sangue. E isso surpreende-me um pouco; não é a primeira vez que uma bala me atinge, que entra por mim adentro, furando a carne, atravessando-a; e de todas as outras vezes, houve sempre uma dor instantânea e fulgurante, que logo se transformou em fúria e revolta, em reacção; um choque violento e intenso, incontrolável, como se o próprio corpo – e não apenas a consciência, a sensibilidade; a alma – se indignasse com a agressão.
Mas não desta vez. Não posso ter a certeza; mas penso que o cavalo se assustou com o inesperado som da detonação e me surpreendeu com os seus movimentos bruscos e defensivos, que me atiram ao chão; e apenas no momento seguinte, quando já estou a contorcer-me na terra poeirenta é que percebo que algo anormal se passa, algo além da queda; então, vejo o sangue: e compreendo. Simultaneamente, sinto a dor já conhecida de outros tiros, já antes suportada. Mas com atraso: apenas quando consciencializo que deveria estar a senti-la.
Fico, então, a ver o cavalo afastar-se, ouvindo ainda a sua respiração ofegante e descontrolada, tentando discernir o que está a acontecer, ultrapassar a perplexidade, compreender. Concentrando-me em não sentir a dor. Ignorá-la. Fazê-la desaparecer.

Uma espécie de western: fascículo # 09

O sol queima. E a imensidão do deserto, o permanente zumbido feito de silêncio que as suas entranhas libertam, começa a oprimir-me um pouco. Por um momento, desejo companhia; alguém que ouça e reaja; ou que ouça, apenas. (Mas que diria eu, afinal? Que tenho para dizer?)
Penso, de novo (inesperadamente), em árvores; uma floresta, aqui: terá mesmo existido, voltará a existir? Talvez seja esse o fascínio dos desertos: surpreender no âmago da sua desolação e imutabilidade, uma fugaz memória de um passado diferente, um momentâneo indício de um futuro alternativo; possibilidades de mudança.
Avançamos, passo após passo, juntos, partilhando o silêncio, o cansaço. Tento esquecer as árvores e recordo histórias, que por vezes se ouvem, sobre um ou outro cavaleiro solitário que deambula pelo deserto, afastado do mundo, tentando perder-se ou tentando encontrar-se, e é atingido por um raio, caindo fulminado ao chão, envolto numa nuvem de fumo; diz-se que os cavalos sobrevivem sempre; e regressam aos locais de partida, sozinhos.
Vou pensando nisto, não sei porquê. E é quando, por fim, algo acontece.

Dão-se livros # 04

O passatempo está encerrado e o livro atribuído (ao Paulo). Obrigado a todos pelos adjectivos.

Uma espécie de western: fascículo # 08

Começa a amanhecer, por fim. O cavalo já revela algum cansaço, ou talvez apenas fome; e aborrece-me esta acusação silenciosa, esta responsabilidade implícita. Sinto que devo fazer algo, agir; que devo tomar uma decisão, definir um objectivo.
Penso nisso, tentando distrair-me, esforçando-me para me manter vigilante e atento; ou, pelo menos, acordado. Objectivos. Poderia ser algo simples e pragmático; por exemplo: sobreviver até ao fim do dia. Ou algo mais ambicioso e indefinido, mais empírico: ter um dia bom. E mal me ocorre essa ideia, esse conceito – dia bom –, desvio de imediato o rumo dos pensamentos: o que poderia ser um dia bom?
Prosseguimos a caminhada, cansados e tristes. Há uma neblina algo fantasmagórica que se desprende do chão, agora que a noite se dissipa; daqui pouco, nascerá o sol; e as minúsculas gotículas de água que agora pairam indolentemente no ar brilharão durante um instante, quando forem trespassadas pelos raios de luz, e implodirão; será bonito, suponho.
Sim, preciso de definir um objectivo; definir uma distracção. Adiar.

Uma espécie de western: fascículo # 07

Não tenho para onde ir: não sei se por o mundo ser demasiado grande, se demasiado pequeno. Deixo-me conduzir pelo cavalo, o que não será muito diferente de me deixar conduzir pelo destino; ou por um qualquer desejo, objectivo, medo. Em qualquer dos casos, estarei a ser conduzido. Empurrado.
Mas talvez nada exista para além das fronteiras deste deserto; que diferença faz se o mundo for, afinal, tão vasto como dizem? Nunca percorrerei essa vastidão; do mesmo modo que nunca percorrerei o tempo, enclausurado neste momento sem passado nem futuro. Prefiro, então, acreditar que o mundo é isto: esta solidão e este momento, este silêncio, este céu e estes arbustos, este cheiro; e, também, estes fantasmas de árvores há muito esquecidas. Nada mais que isto.
E, assim, não tenho para onde fugir.

Uma espécie de western: fascículo # 06

No instante seguinte, a questão inevitável: livre para quê? Tento afastar o assunto da mente; tento, também, ignorar a recorrente suspeita de que liberdade total significa, afinal, nenhuma liberdade.
Recordo o rosto obstinado do Xerife. Certamente que me persegue, certamente que me alcançará; sempre foi mais forte que eu; mais persistente; mais desesperado. Também ria mais alto, quando éramos amigos. Sorrio, não consigo evitar fazê-lo, quando recordo esses dias longínquos, improváveis. Eu e o meu amigo; salvou-me a vida, uma vez; tirar-ma-á, daqui um pouco, um destes dias; a qualquer momento.
Estará aí, algures; olhando a mesma lua que eu agora olho, respirando o mesmo ar. E alcançar-me-á; quando erguer a arma, não hesitará.
Liberdade total: nenhuma liberdade.