Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXVI)

O combatente tem uns dias de férias e regressa a casa. Uma das coisas em que mais pensa quando está no campo de batalha é no seu filho pequeno e em tudo o que gosta de fazer com ele; contar-lhe estórias antes de adormecer; andar de bicicleta; fazer bolos que nunca saem bem; desenhar; inventar coisas com legos; brincar com os cães; rir. Faz tudo isso nesse primeiro dia de férias; nem por um momento se lembra do campo de batalha, do regresso inevitável. Foi um dia longo que passou demasiado depressa. Acabou de lhe contar a estória para adormecer, estão ambos deitados no escuro; ouvem a respiração um do outro. Então o menino pergunta numa voz quase imperceptível: papá, mataste muitos inimigos? E depois: sabes o nome deles? E depois: sabes se tinham filhos? E depois: terei de lutar com esses filhos, tal como tu lutaste com os pais? E depois: achas que os vou conseguir matar, como tu mataste os pais deles? A cada nova questão, a voz do filho fica mais imperceptível, quase inaudível; como se não estivesse realmente a dizer palavras, mas apenas a ecoar pensamentos. O combatente não sabe como responder. Poderia estar apenas a imaginar? Poderiam aquelas perguntas - que atribui ao filho - serem, afinal, projecções dos seus próprios pensamentos? Concentra-se no murmúrio das respirações; ambos fingem que adormeceram.