Pediu um caderno à mãe; duas semanas depois, pediu outro. Só quando ia no quinto mostrou à mãe o que andava a fazer: escrevia números em extenso. Começara em um e chegara a dezanove mil e oitocentos. Quando já passara o cinquenta mil, descobriram o seu passatempo na escola. E quando chegou aos cem mil, houve uma pequena notícia no jornal da terra. Dizia-se que estava a tentar bater o recorde mundial de escrita de números em extenso. Não se importava que pensassem isso; não iria confessar que estava a escrever para o pai; a ajudá-lo. Sabia que ele estava num país distante e que o seu trabalho era apanhar fruta; sabia - porque ele lhe explicara - que teria dinheiro suficiente para regressar a casa depois de ter apanhado oito milhões de alperces. Antes de dormir, olhava sempre a sua pilha de cadernos onde ia registando um a um os alperces colhidos pelo pai.