Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XCII)

Numa madrugada de domingo de 1876 um rapaz fugiu de casa para não ter que ir à missa. Escondeu-se na floresta que rodeava a aldeia e entreteve-se a subir a uma árvore; gostava de sentir a textura rugosa dos troncos nas mãos, cheirar aquele verde que o fazia sentir-se livre; por vezes olhava o céu e sorria. Depois, mudou de árvore; fechou os olhos e deixou-se estar a ouvir os pássaros. Pensou: talvez Deus exista. A missa ainda não tinha terminado quando escorregou de um tronco e partiu o pescoço no chão fofo. O funeral ocorreu no dia seguinte, havendo missa. Passados cento e cinquenta anos, ninguém recorda este rapaz; ninguém sabe que ele existiu. A floresta também já não existe, mas o céu ainda é o mesmo.