As duas amigas estão na praia. Uma delas fala muito, mudando constantemente de assunto: blá-blá; a outra vai respondendo: hum-hum. O tempo passa. O sol começa a tornar-se menos quente. Pouca gente em redor. A luz está magnífica. Cada blá-blá vai encaixando harmoniosamente num hum-hum. O murmúrio do oceano embala-as e aproxima-as. Se fosse para acontecer algo de natureza romântica, chegara o momento perfeito. Em vez disse, a do hum-hum pergunta: «Fazes ideia de quantos grãos de areia existirão nesta praia?» A do blá-blá manda de imediato um número para o ar. E a amiga responde: «Exacto. Mais ou menos igual ao número de opiniões que uma pessoa normal consegue emitir em seis meses.» A luz continua magnífica, mas algo se alterou.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXXIII)
O avô dá um abraço à neta. Quando o faz, não pensa no futuro, nem em mais nada. Os abraços são isso mesmo: uma suspensão do pensamento. Se tivesse sido um abraço defeituoso, daqueles que não chegam a suspender nada, talvez pudesse ter sentido que aquele poderia ser o penúltimo abraço da sua vida. Não o último; o penúltimo, ou talvez o antepenúltimo. Mas foi um bom abraço. Igual ao primeiro. Infinito: como o tempo.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXXII)
As pessoas chegam e acomodam-se confortavelmente no parque escuro e tranquilo. Olham as estrelas e permanecem em silêncio. Por vezes, alguém fala: conta uma memória pessoal. Todos os outros escutam. Depois, outra pessoa fala: também conta uma memória pessoal. Costuma haver uma brisa a balancear entre as árvores, há diversos cheiros da natureza que a maioria das pessoas que ali estão não consegue identificar. Mas ninguém fala disso, nem da brisa nem dos cheiros, limitam-se a partilhar memórias. Verbalizam-nas, e elas permanecem ali sob as estrelas durante algum tempo; suspensas, vulneráveis, livres. Trouxeram-nas à rua, tal como outras pessoas passeiam cães noutros parques.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXXI)
Foi declarado um génio. Património vivo da humanidade. Nunca ocorrera na história do planeta que tanta gente se comovesse de forma tão genuína com os poemas escritos para alguém. Independentemente da geografia ou da língua, quem o lia sentia-se afectado. Tornou-se, por isso, uma das personalidades mais reconhecidas e admiradas no planeta. Ainda assim, matou-se jovem. Nunca conseguira que o vento parasse para escutar a sua poesia, nunca conseguira afectar o vento com as suas palavras; e isso fazia-o sentir irrelevante e inconsequente; uma fraude.
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